terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Todo fim é uma mentira

Estamos cercados, não há mais saída.

Palavras foram engolidas e defecadas.

Há sempre algo após a curva para distorcer.

Cativos e sem luz própria, eles fingem gozar a mais plena liberdade.

Nada mais tem importância para além do que parece.

O aplauso é fácil, a afetação é inevitável.

Mas eu posso enxergar, não tente furar meus olhos.

Todo fim é uma mentira, mesmo que você violente a verdade.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Nos vãos da calçada

Você está brilhando diante dos meus olhos.

Posso me banhar na sua luz?

Mergulhei num mar de palavras, quase me perdi.

Mas como se fosse uma criança, eu brinquei.

É tão real o abraço que não sinto.

Nos vãos da calçada, pequenos precipícios me engolem.

Estou sempre próximo do fim, mas nunca acabo.

Não existe nada entre o cedo e o tarde demais.

Você pode até rir ou achar tolice, lá fora todos acham o mesmo.

Talvez sejamos um amontoado de coisas completamente aleatórias.

E talvez não haja motivos para procurar algum sentido.

Apenas sei que estou no lugar certo,

Você esperou a hora de chorar, mas ela não chegou jamais.

Cada um tem seu papel, posso ter perdido meu roteiro.

Mas nada disso faz mais diferença.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Bolhas de sabão

Eu me construo por séculos e em segundos me desmonto.

Os ventos da vida derrubam sonhos tão frágeis.

Tantos tempos diferentes nunca podem se encaixar.

E em cada esquina há uma anacronia diferente.

Quanto você pode fazer durar sua felicidade?

É sempre cedo para decretar o fim.

Eu me exponho, deixo-me à mercê do inusitado.

À noite, todos os corações parecem iguais.

Quantos deles podem sobreviver à luz do novo dia?

É tão fácil deixar de existir na vida de alguém.

Mas é tão difícil fazer com que alguém deixe de existir na sua.

As pessoas são bolhas de sabão vagando pelo ar, prestes a estourar e desaparecer com qualquer contato.

Já não posso me diminuir para me nivelar.

Do banquete, sobrou apenas a sujeira que estou tentando limpar.

Porque isso não pode apodrecer dentro do meu peito.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Bombeando um coração de plástico

O suspiro é falso, ainda não chegou a cena final.

Seus olhos brilham, as pessoas amam tudo que não podem ter.

Veja bem, eu nem sequer sei de quem você tanto fala.

Tente me cortar com uma faca de plástico, isso parece divertido.

Facilidades se desvalorizam, pois todos estão à procura de um pouco de cretinice.

E o certo tornou-se tão sem graça!

Então eu prometo ser o pior de mim mesmo, só para agradá-la.

Seus fluidos estão protegidos, não podem se espalhar.

Você ainda pode fingir que tem alguma importância, você ainda pode fingir que se importa.

Eu já não me preocupo com esse tipo de questão.

Tanta beleza reunida não poderia ter me deixado mais comovido.

Sou capaz de terminar qualquer coisa que você tenha deixado pela metade.

Dores de cabeça e visitas ao Papa são frequentes, eu sei.

Então preencho todas as horas que sobraram, é um trabalho tão automático.

Não tenho medo de perder as migalhas, com seus fungos e bolores.

Você está feliz com tudo que não possui, ainda há um espírito infantil nisso.

E você aprendeu rapidamente como ser exatamente igual a todos os outros.

Desculpe, eu não tive tempo de perceber o contrário.

E o que passou já foi mais do que suficiente, acredite.

Continue enchendo o seu vazio com mais vazio.

Continue bombeando um coração de plástico.

E finja bem seu contentamento com o que sobrar no chão. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Paraíso de risos e gritos desesperados

Mais uma noite é roubada das minhas mãos.

Tolos de todas as espécies se digladiam por tesouros que jamais possuirão.

Seus sonhos podem facilmente se transformar em pesadelos.

Basta que o cansaço consuma seu espírito e que toda esperança termine bem diante de seus olhos.

Vamos deixando pequenos pedaços de nós mesmos por onde passamos.

Mas hoje não consigo me ver em lugar algum.

As menores desvantagens tornam-se monumentais, e as maiores vantagens sempre viram farelo.

São tantas sementes sem que nada floresça, essas terras não podem me alimentar.

No fim da festa, sou convidado a sair de onde nunca entrei.

Ruas vazias e silenciosas são o paraíso de risos e gritos desesperados.

Nossas identidades morreram afogadas e descansam sem paz.

É tão fácil perceber a calçada como inimiga quando tropeçamos.


Mas é ela que nos abraça cada vez que caímos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

As flores que alguém jogará no lixo

No meio das suas palavras, a todo momento surge algo que não consigo interpretar.

Há sempre um vácuo para o que é vital entre tudo o que precisamos entender.

Trago comigo a carga das muitas coisas que vi, ouvi, vivi e senti.

Seres humanos doam o seu máximo, tantas vezes não obtêm sequer o mínimo.

No meio do caminho, o erro e a dor inevitável.

Há sempre uma nova chance para frustrar suas expectativas.

Trago sempre comigo as flores que alguém jogará no lixo.

Seres humanos se beijam, se abraçam e se esfaqueiam, se amam, se desprezam e se odeiam.

Estou sempre tão cansado quando acordo de manhã, estou sempre tão insone quando me deito à noite.

O futuro me exaure, o passado me agride, o presente não me olha nos olhos.

Quem me entende não pode estar aqui, então me protejo do frio com uma colcha de retalhos.

Talvez seja para sempre assim, e eu finjo não me importar.

Talvez seja sempre o fim, e eu finjo nem ter começado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Excessivamente abençoado

Não há esforço que seja suficiente, o destino é implacável.

Quando alguns segundos fazem o mundo desmoronar sobre sua cabeça, para onde fugir?

Quando a porta se fecha, como não se deixar escravizar pelos pensamentos?

O céu não demarca fronteiras, tantos parecem bons demais para estarem acompanhados.

A bem da verdade, não são tantos assim.

E sou uma espécie de escolhido, excessivamente abençoado para sorrir como os tolos.

Mas ninguém jamais me perguntou se eu gostaria de ser um tolo.

Em minha mente está reinando uma tragédia que nunca aconteceu.

Ou será que está acontecendo neste exato momento?

Nenhum lugar é meu, mas não importa, doeria onde quer que eu estivesse.  

Solidão, eu sou tão seu essa noite.

Solidão, eu sou tão único quando estou sozinho.

E só quando estou sozinho.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Aproveitamento miserável do vazio

Uma mentira a mais não faz mais nenhuma diferença.

É seu vício correndo nas veias, transformando o que não é no que é.

Uma farsa a mais não faz mais nenhuma diferença.

É seu vício de virar o rosto para os horrores que não são convenientes.

A liberdade se afoga no sangue daqueles que você jura defender.

Todas as palavras que saem da sua boca brigam com a realidade.

A verdade é um detalhe insignificante a ser riscado para não atrapalhar o que você quer impor.

Tão simples e estúpido é o controle das mentes que você já conquistou.

Olhos fechados só enxergam o que você quer.

Por isso mesmo, eu me atrevi a abrir os meus, ainda que a luz os agrida.

As correntes sempre podem ser rompidas, a desfaçatez se derrete enquanto velhas ideias queimam.

Sua sujeira nada significa, é apenas aproveitamento miserável do vazio.

E o caminho óbvio das frases prontas é uma fuga desesperada em direção a lugar nenhum.

Lá, o aplauso é certo, não há alternativa.

Lá, o amor é de todos e não é de ninguém.   

Me diluindo na multidão

Milhares e milhares de anos se passaram, os pratos ainda estão na mesa.

Foi possível ir para bem longe e vasculhar a minha alma.

Errar sempre foi tão fácil, em meu mergulho eu me congelo e me queimo.

E tudo faz sentido na total falta de sentido.

Somos tão solidários quando você me deixa desperdiçar o seu tempo enquanto você desperdiça o meu.

Eu evaporo e voo sem direção, ao sabor do vento.

Steven Patrick já dizia que não há esperança ou dano.

Finalmente consigo entender e sentir aquilo que a mim foi destinado.

Nada é único, não existem mais regras ou certezas.

Não sei mais diferenciar as lembranças reais daquilo que nunca aconteceu.

Todos os lugares e corpos são banais, estou tão nauseado aqui. 
  
Será que deixei algum rastro por onde andei ou simplesmente fui apagado?

Eu preciso me certificar, porque sempre estou em dúvida.

Há um ímã me atraindo, há um ímã me destruindo dia após dia.

Mas no fim da vida ou do mundo, nada tem importância nesse mar de coisas tolas.

Estou me diluindo na multidão, até não ser mais eu mesmo.

Estou me diluindo na multidão, será que algum dia deixei de estar assim?

sábado, 21 de janeiro de 2017

Palavras ausentes

As palavras estão ausentes.

Tamanho é o silêncio, que me pergunto se ainda existo.

Todos os caminhos parecem induzir ao erro.

Então tudo que vivo parece completamente aleatório.

Passo dias e noites esperando, sem provas de que estou aqui.

Pegue minha mão, cure minha cegueira.

Tantas incertezas consomem qualquer espírito.

Meus gritos, tão cheios de toda vida, amor e angústia das minhas entranhas, se desmancham com o vento.

Os rostos mudam, eu permaneço igual diante da minha solidão, leal companheira.

Estou cansado das novidades que há tanto tempo já conheço.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Rio

Tanta energia destilada nas esquinas, ninguém se importa com mais nada.

Todos riem e se divertem, acomodados com seus incômodos.

É solidão que não tem fim, um presente que se resume a esperar.

As pessoas gostam de estar nos lugares errados, elas sempre têm as desculpas certas.

Posso me deixar conhecer com um sorriso no rosto, mas sou tomado pela poeira.

Na minha vez, eu sempre cedo minha vez.

Na minha vez, eu sempre perco minha vez.

Minha atenção é pulverizada, já não tenho nada pra me distrair.

O tanto que se quer é o tanto que se teme ter.

Não insisto mais comigo mesmo, sou incapaz de me ouvir.

Lá fora, todos continuarão rindo.

Porque todos sempre riem, e riem, e riem.

Para sempre riem, e riem, e riem.

E eu aqui dentro rio, tão profundo, levando esse sentimento com a correnteza dos meus olhos.

E eu aqui dentro rio, me afogando ao tentar navegar em mágoas tão turvas...  

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Para depois

Antigamente não havia limites para o que queríamos.

Mas hoje estamos tão cansados.

Cada dia é um novo aprendizado sobre coisas velhas demais.

Dentro de mim é tudo tão previsível.

A fila para a felicidade é interminável.

Já esperamos o suficiente para perder mais uma vez.

Mas o jogo já está perdido antes de começar.

Eu me conheço melhor, sei exatamente onde vou parar.

Conheço tão bem o espírito humano, e tudo que se finge que se quer.

Na fumaça da chaminé, todas as fotos que não tiramos em momentos que não vivemos nos lugares que não conhecemos.

Cedo ou tarde demais, a hora certa sempre foi a hora errada.

Meu silêncio é grito e aceitação, engalfinhados na miséria tão prometida.

E todos os dias me cobram que eu me dê uma chance de não viver.

O depois sempre foi tão fácil para quem tem medo de enfrentar o vazio da realidade.

Para depois fica o resquício dos sentimentos represados.

Para depois ficamos todos nós, até que depois não exista mais.  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Lembrança e esquecimento

A necessidade faz a lembrança.

E o conforto faz o esquecimento.

Quando tudo cai sobre a cabeça, o alerta é imediato.

Quando os pés estão em descanso, todo o tempo é pouco.

Pode parecer fácil sentar num banco de praça e jogar migalhas para os pombos.

Mas eles nem sempre estão famintos.

O lamento tardio é apenas sintoma, não é causa.

Doces sabores desaparecem do paladar num piscar de olhos.

Era difícil prever o futuro enquanto o presente era jogado no lixo.

Agora todo o tempo do mundo tornou-se estreito.

Porque o conforto faz o esquecimento.

Mas a necessidade faz a lembrança. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Passando pelas frestas

Nunca esperamos nada, estamos expostos a qualquer surpresa.

Guardei algo valioso na gaveta, até já tinha esquecido.

Um ímã me puxa, tornando meu mais hercúleo esforço vão.

Enquanto sou único e tenho tudo, mesmo que esse tudo seja pouco, fico contente.

Mas logo estou no meio de uma multidão, e mesmo que eu tenha muito, para mim esse muito é nada.

Sou um egoísta sem arrependimentos ou orgulhos.

Cada palavra ou suposição faz minha mente explodir.

São tantos os lugares em que eu não gostaria de estar. 

São tantos os lugares em que eu não gostaria que ninguém estivesse.

Fico me lembrando pela eternidade de coisas das quais todos ao redor se esquecem em segundos.

Muito do que somos e gritamos é entendido por alguns, mas sonegado por todos.

A alma cria um mundo para viver em paz, mas esse mundo só faz trazer dor e angústia.

E são sempre as mesmas tolices, tão ingênuas, risíveis e desconectadas da realidade.

O sentir intenso de tudo que nos faz humanos e amáveis por alguns minutos é a fronteira entre o céu e o inferno.

Eu flutuo, eu borbulho, sou tão frágil diante do meu anseio por uma verdade que não se desminta no fim do dia.

Vivo passando pelas frestas, não tenho chaves para abrir as portas.

Já não sei se a capacidade de sonhar é uma dádiva ou uma lástima.

Sou adepto involuntário e apreciador da arte de se perder o que não se tem.

Quando escurece, não sou mais nada, não sou mais eu.

E era impossível imaginar um desfecho diferente, embora tenha imaginado. 

Nada é são ou certo, só há razão na minha inconsciência.

A angústia da banalidade nunca se acaba, ela se recicla e ressurge como velha novidade.

E eu me vou como se não me importasse, segurando meu coração pulsante em minhas mãos.

Desperdício tremendo

Queime seu estômago enquanto o dia passa.

Minutos e horas são um desperdício tremendo, você caminha para lá e para cá.

Cada lacuna deixada pelo silêncio é uma ameaça.

E o que seus olhos não vêem ofusca sua visão, em túneis intermináveis de agonia.

Tudo mudou, e dando de ombros você nem tenta pensar.

Sobre a sua cabeça, o perigo se confirma.

Não é nada diferente do esperado, o seu mundo permanece exatamente igual.

A culpa é imperceptível, talvez ela não exista.

Você aí, sozinho e calado, é imperceptível.

Talvez você não exista.   

domingo, 15 de janeiro de 2017

Amabilidade teresinense

O povo de Teresina é impressionante. Acolhedor, boa praça, amável de forma quase inacreditável.

Desde o seu Joaquim, do hotel em que me hospedei nos primeiros dias antes de alugar apartamento, e que me tratava como se me conhecesse há anos, bebendo cajuínas e contando causos, passando pelo pessoal da UFPI, que me recebeu de forma absolutamente simpática, solícita, com quem já criei laços de amizade, e chegando ao instalador da internet que enquanto testava conexões me mostrou fotos da esposa e dos filhos, ou à vendedora queridíssima da loja de móveis e eletrônicos, praticamente todo mundo destila amabilidade . 

E ontem fui surpreendido mais uma vez com um gesto impressionante de gentileza.

Estava na parada esperando o ônibus para o Teresina Shopping, onde costumo ir aos sábados almoçar e comprar as coisas para o fim de semana, quando ao meu lado chegou um rapaz, provavelmente estudante da universidade (a referida parada é na universidade, e ele vinha lá de dentro). Passaram-se alguns minutos e ele então me perguntou, do nada, para onde eu estava indo, e respondi. Seguiu-se apenas o silêncio e, confesso, estranhei bastante.

Cerca de 30 segundos depois, chegava um carro, com seu pai, seu tio, enfim, algum parente. O rapaz entrou, e eles se foram. 

Minha conclusão: se o shopping fosse caminho, ele teria me oferecido carona. Sem nunca ter me visto na vida, sem saber meu nome, sem saber quem ou o que eu sou. Uma empatia de pureza comovente, quase ingênua e irresponsável, que seria absolutamente impensável para os padrões sulistas.

Conheci lugares e povos incríveis, sim. Mas nada nem remotamente parecido com os habitantes da capital do Piauí. 

Confesso que estou encantado pela cidade. Especialmente pelo seu povo. O maior patrimônio de Teresina é o teresinense.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Garota camuflada

O mar e o céu, imensidões que ninguém pode encaixotar.

Inunda o olhar, ela se sente melhor quando percebe o seu real tamanho.

Porque vive tendo que se esconder dos animais devoradores de almas.

Ela se disfarça e sobrevive, lá fora o mundo é irascível.

Mas não faltam falsos profetas prometendo paz e liberdade, enquanto possuem sede de sangue.

Abraços e amores sem nome e sem rosto sonegam a condição humana.

Ela finge que o quadro que finge lhe desvendar a verdade causa alguma comoção.

E brilha onde palavras batidas e frases feitas não podem alcançá-la.

Ela segue a receita e cospe a comida quando ninguém está olhando.

Insiste em ser única enquanto todos impõem que seja apenas mais uma.

Toda diferença é valorizada, desde que não exista.

Ela se camufla e segue rindo, não com eles, mas deles.

Assim é sua vida, perigosa, divertida e necessária.

Porque quando não for mais assim, não será mais vida.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Uma nova forma de aprisionamento

A realidade se distorceu de acordo com suas conveniências.

O que é isso que você vê mas eu não consigo enxergar?

O lado em que as coisas estão colocadas não parece ter importância alguma.

Talvez seja apenas um mecanismo de proteção que cada um tem que escolher.

O silêncio que lhe incomoda é uma ilusão.

Aqui tudo é barulho ensurdecedor.

Perspectivas tolas estão de todos os lados, e eu não consigo concordar com ninguém.

Se você insiste em afirmar que algo não lhe perturba, talvez isso lhe perturbe.

Todos temos nossas feridas, podemos deixá-las arder sem remorsos.

A libertação está em não tentarmos nos esconder do que é tão nosso.

Tanta benevolência derramada que tenta nos calar à força é apenas uma nova forma de aprisionamento.

E tudo no molde que você deseja não significa que seria melhor.

Talvez você não saiba, mas eu sei perfeitamente disso.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Observador de mim mesmo

Pela janela, o sol surge e vai embora.

A dor corre pelas veias, me impede de dormir.

Sou observador de mim mesmo, reafirmo verdades provadas e não consigo acreditar nelas.

Mais uma vez, preencho o meu vazio com angústia e perguntas tolas.

Eu me revelo, sinto-me frágil em todos os lugares em que não estou, em cada pequeno silêncio que leva meu dia.

A solidão é uma visitante excêntrica que surge quando menos é esperada.

A noite, de tão quieta, pode consumi-lo inteiramente.

Lá fora, as pessoas fingem admirar os medos e fraquezas, mas somente enquanto não são reais.

Tolas ignorâncias, filmes com o mais puro horror ou brincadeiras de mau gosto sempre terminam.

O despertar igual, no mesmo lugar errado, me faz uma nova promessa.

Eu acredito, aposto  mais uma vez no meu desconhecimento.

E assim eu sigo, mesmo que ele possa me enforcar no fim de tudo.

Tantas vezes já foi assim, afinal...   

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Há sempre uma nova camada

Estou mergulhando, tantas vezes já me afoguei. 

Descubro tanta beleza no fundo do oceano, temo seus perigos.

Nós ficamos expostos e à mercê de qualquer acaso.

O inferno está no que não existe, no que nunca será.

Dentro da mente, lateja uma derrota que não se pode admitir.

Mas estamos vencendo, e desperdiçando nosso tempo com uma dor virtual.

Eu me vigio, desviando das palavras e tentando não ser derrubado outra vez.

Guardo o caos numa gaveta, não a abro jamais, mesmo com os ruídos.

Para muitas pessoas a felicidade resumiu-se a breves instantes de ignorância.

Então não me julgue, apenas me entenda.

Porque há sempre uma nova camada.

Há sempre uma nova camada.

Há sempre uma nova camada, e isso parece não ter fim.  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Segure minha mão

Garota, a fumaça pode não deixá-la enxergar.

E as sombras podem confundi-la na escuridão de uma noite aparentemente sem fim.

Mas tudo vai passar e um novo dia vai surgir.

Garota, a angústia pode parecer um monstro pronto para devorar suas esperanças.

E passado e futuro podem parecer esmagá-la em um presente cada vez mais sufocante.

Mas sua expansão está dentro da sua mente.

Garota, cada resposta sempre suscita uma nova pergunta.

E tudo pode parecer incompleto e sem nexo algum.

Mas a paz pode estar em contemplar sua guerra interior.

Garota, entendo seu medo de que tudo se vá.

E tanto já mudou de lugar sem que você pudesse escolher.

Mas aqui é um lugar tão seguro quanto pode ser.

Então segure minha mão, e confie até o fim.

Segure minha mão, e veja tudo que não foi possível ver até hoje.

Segure minha mão, e deixe o mundo se revelar para todos os seus sentidos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Essa gente boa

Essa gente boa mantém sempre a esperança e o sorriso no rosto.

Você não os nota, talvez sejam como sombras em sua paisagem.

Essa gente boa, molhada pela chuva e pelo suor, continua sem pestanejar.

Você diz que eles não querem, e isso é uma heresia terrível,

Essa gente boa é a beleza maior da arte da sobrevivência.

Você não tem tempo, tantos números engolem tantas vidas lá fora.

Essa gente boa é real, você não vê.

Essa gente boa também ama, você não sabe.

Essa gente boa também chora, você se esquiva.

Essa gente boa tem tanto a nos ensinar, você nem quer ouvir. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

O melhor que posso ser

As luzes se apagam, volto para qualquer lugar do meu passado.

Tanto tempo da vida se preenche com reticências, sou esse tempo fadado à eternidade.

Em meio às necessidades mais humanas, corto meus pés pisando no fio da navalha.

Nunca pude evitar ser eu mesmo, mesmo em todas as vezes em que tentei fugir.

No cenário em que tudo muda de lugar a todo momento, busco minha sobrevida.

Posso cair, posso me reerguer, é só assim que permaneço quando fico exposto.

Não me peça para apagar, se quero aproveitar cada segundo que tenho aqui.

Se tenho direito a um sonho, deixe-me sonhá-lo com toda minha devoção.

Estou pronto para o sempre, estou pronto para o nunca mais.     

Aprendi em todos os meus outros dias que, quando amanhece, a única certeza é a da dúvida.

Já não luto com meus fantasmas, apenas converso com eles até que resolvam desaparecer.

Tomo todos os cuidados para que nada seja desperdiçado nessa doce alucinação.

Sou o melhor que posso ser, atento às irregularidades do terreno da minha existência.

Tão perfeita é a textura que me inebria, a mais bonita das distrações.

A tolice tem gosto de chocolate, e apenas posso prometer não ter uma indigestão.

Eis a perfeição que não se pode explicar, escondida em tudo que simplesmente é e está.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Renascimento

Quando tudo tornou-se vazio, aprendi a sorrir.

Não aprendi a cantar, mas cantei mesmo assim.

Deixei meus olhos se deslumbrarem com o horizonte.

De algum modo, eu renasci.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

No meio da noite

Você acordou no meio da noite, nunca tinha visto aquilo.

Os olhos brilharam com a lua e as estrelas.

Havia alguém que você amava e que amava você.

Você acordou no meio da noite, era para ser uma sessão monótona de insônia.

Mas teve a mais doce epifania.

A sensação era presente, sem recorrer a memórias, sem se apegar ao futuro. 

Você acordou no meio da noite, não haveria nada mais do que o ruído dos carros vindo da rua.

Dessa vez, era possível ouvir uma respiração que parecia suave e irresistível melodia.

Havia alguém que não iria embora sem sequer dizer o nome.

Você acordou no meio da noite, com sede insuportável.

Na geladeira não há amor, não há respostas entre mostardas, maioneses, tomates e iogurtes.

Era apenas mais um sonho, era apenas o travesseiro com a luz certa que vinha de fora.

No fim, tudo sempre é alucinação.

No fim, tudo sempre chega ao fim, mesmo o que nem chegou a começar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Palavras, labirintos

Não há espaço nesse lugar, não dá para respirar.

Pesos diferentes não se equilibram na balança.

As palavras são labirintos confusos, para onde elas nos levarão?

Por detrás da fumaça está o fim ou uma nova vida?

Só sobrou a vaidade, porque nada mais tem importância alguma.

No pedestal, cheiros e lembranças descartáveis.

Tudo que um dia foi real agora é indício de uma insanidade que nos recusamos a aceitar.

Não há mais motivos para renegar a dor, o que um dia fomos nessa estrada tortuosa.

Pequenos acontecimentos um dia esmagaram a alma, seu tamanho real só pode provocar risos.

O controle outrora almejado transformou-se na tolice dos verdadeiros prisioneiros.

Só então nos entendemos, e fazemos do nosso restrito espaço todo o espaço do mundo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Bolhas e sonhos

A noite é uma surpresa, as estrelas mudam de lugar.

Faço meu máximo com tão pouco que posso fazer.

Meus sentidos ficam mais aguçados, lentamente eu me rendo.

Sou todo contemplação de todas as dores escondidas por trás dos risos.

Os desperdícios são permanentes, inevitáveis.

Tanto amamos bibelôs que são tomados pela poeira, nem notamos a vida passar.

A lucidez pode enlouquecer qualquer um, pode rasgar suas entranhas.

Qualquer bolha que surja no ar é um novo motivo para sonhar.

Mas ao toque das mãos, as bolhas estouram.

Então eu volto a me olhar no espelho, e não me enxergo mais.

Os cacos já não formam imagem alguma.

Tanto já esperei, e ainda dizem que tenho pressa.

A necessidade se acabou e virou silêncio aterrador.

Amanhece mais uma vez, e nada mais é novidade.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Reféns das contingências

Bobagens são farelos sobre a mesa.

Tudo está feito, ninguém pode voltar no tempo.

Já foi tão fácil prever o movimento que estava por vir.

Agora estamos totalmente desarmados e desprevenidos.

O que seremos obrigados a querer amanhã?

Tudo que acelera assusta, tudo que se retarda cansa.

Se reina a ordem da impermanência, porque permanecemos errando?

Entre os labirintos das minhas palavras, você poderá encontrar sua resposta.

Ficamos reféns das contingências, e talvez essa fosse a melhor alternativa que tínhamos em mãos.

Eles podem mandar o sonhador não sonhar, mas não conseguirão fazê-lo deixar de sonhar.

Querer é a coisa mais fácil e mais complexa do mundo.

Nestes muros não há consequências, não há consciências.

O encanto é mero acaso, e a incerteza mutante corrói o estômago.

Não existe fuga, e nossas almas são ruas sem saída.

Quando as tentamos romper, invariavelmente nos tornamos sucata...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Dor agridoce

No fim da festa, quem fica, além das lembranças e das saudades?

A espera se arrasta, o presente escorre pelos dedos, o futuro já virou passado.

O tempo voa, e eu voo com o tempo.

Se para viver essa felicidade precisamos dessa dor agridoce, que venham mais dores iguais a essa.

Estávamos tão vivos e intensos, nada apaga o sorriso do quadro na parede.

De uma hora pra outra, tudo vira um nó na garganta e um silêncio por onde não faltavam palavras.

Se assim não fosse, nada teríamos sentido.

Se assim não fosse, nada teria valido a pena.

Pelos céus, o amor que não morre, o agradecimento que não termina.

Só pode sentir o vazio mais profundo quem já soube o que é estar completo.

É por isso que a dor pode ser um nobre privilégio.

Sou eu, afinal, um privilegiado.

E repetiria tudo de novo, sem arrependimentos. 

domingo, 1 de janeiro de 2017

Feliz 2017!

Começa mais um ano de nossas vidas.

O DC está de cara nova, destacando a Ponte Estaiada, de Teresina, a partir de foto minha.

Desejo a todos muita luz, muito amor, muita saúde e todas as melhores coisas da vida.

Que 2017 seja um ano de realização de sonhos.

Um grande abraço, e feliz ano novo!