sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Sob o véu do sorriso

Mudam as texturas, mas a verdade não muda jamais.

O roteiro é o esperado quando tratamos de uma manada previsível.

De uma mesma fonte, a mesma água contaminada tenta nos adoecer e matar.

Sob o véu do sorriso revelam-se o ódio, a saliva espumosa, e o desespero.

Nas ruas, levanta-se um cheiro fétido do desprezo daqueles que não conseguem mais se esconder nas entrelinhas de uma fórmula barata.

Da realidade, urticárias afloram e incomodam todas as crendices derrotadas pelo tempo.

Desviar o olhar não vai amenizar o mal-estar.  

Palavras belas e sagradas são cuspidas e vendidas em pocilgas por poucas moedas.

Nas gavetas estão escondidas as vergonhas e os interesses que não se pode mostrar.

Observo ao meu redor, e firmo ainda mais minhas convicções.

Vejo apenas a confirmação de tudo o que eu já sabia.

Mas estar com o peito leve não significa que eu esteja satisfeito.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Destino risonho

Olhares para um lado e para outro, até que num centésimo os cruzamos.

Já é suficiente para saber aquilo que queremos. 

Na estrada, a ansiedade pelo encontro.

Uma nova vida começa para terminar no mesmo lugar.

Use seu possessivo, faça-me balançar na sua dança.

Eu me deixo ser refém de mais uma ilusão, do acerto prometido que vai dar sentido a tudo.

Mas nada é tão certo assim, nunca é.

O destino risonho estava apenas debochando outra vez.

Um passatempo fugaz deixou marcas profundas, apenas tolices escritas na areia.

Vida há de sobra, até que se acabe.

Então me ame e me esqueça, ficarei olhando pela janela.

Porque é pequeno demais permanecer cristalizado em tempos que já viraram fumaça... 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

O fim da esperança, o começo da paz

Folhas verdes queimam rapidamente, acabou-se o alimento que sobrava.

Sonhos e anseios não ficam parados esperando enquanto você se perde por aí.

Ter uma saída, ou a perspectiva de uma perspectiva, parece algo tão distante.

Alguma frase mágica pode mudar a sorte e fazer uma nova estrela brilhar no meio das nuvens.

As angústias misturam-se no vazio, as promessas ficam cada vez mais risíveis.

Mas sem as promessas não sobra mais nada para dar sentido a essa vida.

Portas e janelas se fecham, a noite chegou e não tenho para onde ir.

O fim da esperança pode ser o começo da paz, mesmo que no silêncio e na escuridão.

Não há mais nada aqui, o hoje está morto e sepultado junto com tantos ontens.

Mas o amanhã já nasce como um paciente terminal...

Opinião

- Tá ouvindo essa música?
- Sim, tô... Bossa nova é um porre.
- Ai, mas isso é na tua opinião!
- Nããããããão! Nããão! É na opinião do Francisco Cuoco... Óbvio que é na minha opinião!
- Ai, mas... Mas...
- Dã.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Espelhos da consciência

A manada vira as costas para uma realidade que grita desesperadamente.

Nós cegos, uma conexão ilógica prende os pés a uma ilusão enferrujada.

Fica bem para todos manter a uniformidade forçada dessa massa sem sabor.

Vaidades dançam e queimam em frente aos espelhos da consciência.

Estômagos vazios e revoltados trazem recordações distorcidas do bom gosto de outrora.

O desespero aprisionado numa calma fingida tenta sua fuga por cada poro da pele arrepiada.

Já não importa o que é, apenas o que aparenta ser, por entre as frestas das janelas de uma edificação torta e prestes a desabar.

As palavras tornaram-se barulhos sem qualquer significado.

Almas desnudas e constrangidas marcham para o suicídio no abismo mais alto.

Sonhos e pesadelos podem se confundir de acordo com os olhos que os observam.

Quebro as correntes, abro meu peito e me deixo renovar por meio da sangria que ali brota.

O riso lá fora já não é feito de graças, apenas de conveniências.

Por isso, não sinto a menor vontade de rir.

Todos os significados e vidas ficam minúsculos quando observados à distância, eu sei.

Mas isso não quer dizer que eles não tenham importância diante desse egoísmo megalômano. 

domingo, 25 de setembro de 2016

Sem referências

A areia levanta e encobre a visão.

Busquei um pouco de água, mas tudo saiu do lugar.

Já não consigo encontrá-la, por onde quer que eu ande.  

Estou perdido e sem referências nesse deserto.

Apago minhas memórias e confio nos meus instintos.

Mas meus instintos geralmente estão errados.

O sonho virou tédio e desconforto, expectativa rasgada pela lâmina da realidade.

Você nunca fez qualquer esforço para que nossas solidões dessem certo.

E eu lutei sozinho para ser alguém melhor, sem qualquer efeito prático.

Podemos dormir mais cedo para fingir que tudo está bem.

Eu nunca soube onde você estava de verdade...

sábado, 24 de setembro de 2016

Carros de som

Porto Alegre é a capital mundial da poluição sonora. É impressionante.

Tem carro de som pra tudo. O dia inteiro. 

É carro de som pra vender travesseiro, água, gás, sorvete, ovo, amaciante, pão, bolo, supositório, chiclete, band-aid, camiseta, celular, cd do Luiz Caldas, palito de fósforo, toalha, grampeador, relógio, suco, pneu, microfone, escultura do Tonho da Lua, churrasco, tomate, cebola, repolho, charuto, dicionário, nebulizador, tapa-olho, tapa-sexo, quadro do Picasso, meias, negrinho, sutiã, bijuteria, urna funerária, dominó, livro do Carpinejar, camisinha, vassoura, político ruim, aipim, Tamagochi, taco de baseball, ingresso pro Beto Carreiro, batom, pomada para hemorroidas, bolinho de bacalhau, áudio-book da bíblia narrada pelo Cid Moreira, algodão doce, conserto de gaita, lápis de cor, foto autografada do Theo Becker, dentadura de vampiro, abadá do trio elétrico da Banda Cheiro de Amor, esponja, pochete, mamadeira, crack, esperma congelado do Walmor Chagas, granola, harpa, guardanapo, computador, bala de goma, lubrificante para motor e grelha do George Foreman.

Tem carro de som até pra vender carro de som.

E sempre, sempre, independentemente do produto a ser comercializado, tocando algumas das maiores abominações já produzidas pela música brasileira.

Porque carro de som tem que ter música ruim. 

E como esses carros passam durante o dia inteiro, se algum dia sair um filme sobre a minha vida, ele certamente terá na sua trilha sonora verdadeiros hinos como "Whisky, Red Bull, Passa Tudo no Cartão", "A Mala Já Está Lá Fora", "Na Manteiga", "Popozuda da Vila" e o "Lacre Azul do Cachorrinho".

Assim é a vida.

Permanecerei no aguardo de um, apenas um, carro de som: aquele de um advogado que passe prometendo processar todos os carros de som de Porto Alegre.

Esse realmente me comoverá. Não importa nem se estiver tocando "Martela o Martelão" ou "Tchê Tchererê Tchê Tchê"...          

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Desejo sagrado e profano

As pálpebras não podem descansar.

Em minha cabeça, nenhuma das mil distrações guardadas me atrai.

Busco em você a textura que me leve a algum paraíso escondido.

E então eu passeio com meus dedos em sua pele macia.

E deixo minha boca encontrar o gosto doce do mais puro deleite.

Mesmo as desculpas mais estapafúrdias tornam-se aceitáveis quando estamos sob esses lençóis.

Basta romper tudo que aparta nossos corpos.

Dou todo meu ouro pelo direito de sentir, colocando os pés numa realidade cuidadosamente inventada.

Estamos ofegantes nessa psicodelia tantas vezes desconexa, que agora finalmente pode fazer sentido.

Não seríamos obrigados a perder nada, porque a vida não deveria ser tão cruel.

Estou cercado pelos muros da minha mente, e ninguém jamais experimentou a liberdade mais plena.

No tempo que não passa, sou apenas uma dúvida a respeito do que sou capaz de significar.

Porque não sei qual é o alcance das minhas ideias e desse desejo sagrado e profano.

Poucos segundos, tão remotos, são sempre tão presentes.

Construí o que de mais sólido tenho na alma a partir de prazeres frágeis e despretensiosos.

Trancados no porão do passado, ficaram os fantasmas que não podem mais me assustar.

Porque renegar o tolo que já fui seria renegar o tolo que ainda sou.

Meu coração está mais leve para que eu possa caminhar melhor e me cansar menos.

Levo comigo pequenos pretextos para continuar existindo à minha maneira.

Sonhar em multiplicar o que já se foi é apenas uma bobeira para quem sempre quis ter amado mais.

Pequenos desequilíbrios servem de aprendizado, e se transformam em inocentes recordações.

A real importância de tudo está naquilo que permanece e faz algum bem.

Por isso, me despeço respirando fundo, consciente de que toda despedida é apenas uma ilusão.   

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O mundo está longe de acabar

Suas manhãs são novas chances de fazer as mesmas coisas.

Nunca foi tão difícil sair do lugar, aprisionado por mágoas que não terminam.

Sua doçura não se perdeu, está escondida onde não possa lhe fazer mal.

Tantos sofrem por aí por culpas que nunca tiveram.

Mas tudo está bem, mesmo que não ninguém o diga.

Então eu digo a você que o mundo está longe de acabar. 

Basta encontrar o amor perdido no meio de um mau humor insuportável.

Fiz o melhor que podia, posso ainda estar perdido, mas isso já não me importa mais.

Eu tive um sonho, dentro de um sonho, dentro de outro sonho.

E não sei se ainda estou sonhando.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cena perfeita

Entre os lençóis, permanecíamos ansiosos.

Nossa cena perfeita estava pensada e devidamente planejada.

Uma despedida em grande estilo era a promessa que desconhecíamos.

Entre fotografias e risos, mergulhávamos em nossa vaidade.

Tudo que se revela oculta alguma intenção.

Mas entre o que se quer e o que acontece geralmente há uma distância cruel.

Ainda assim, eu queria permanecer no mesmo lugar.

A esperança é mais doce do que a realidade.

Finalmente havia descoberto quem eu era. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sonhos ressecados

Para trás ficaram os motivos e as mais tolas ilusões.

Quando eu revivo aqueles dias, desvio meu olhar do espelho.

Mas já consegui me distrair e trocar minhas angústias por algumas distrações fugazes.

Posso fechar os olhos e ver toda minha verdade, contrariada pelas cenas que já vi.

Nunca sabemos o preço que os outros terão de pagar por nossas escolhas.

E bem no fundo da alma, encontramos nossos sonhos ressecados.

No tic-tac do relógio, nos transformamos em algo que ainda não entendemos.

Nas cicatrizes, carrego lembranças que não me causam mais dor alguma.

Me liberto todos os dias, sem me deixar acorrentar novamente pelos fantasmas que vagam por aí.

Já posso enxergar com relativa clareza o lugar ao qual quero chegar e os caminhos que não devo seguir.

Estou desapegado das coisas que deixei na estrada.

Depois de um amor ilusório, só sobra a vergonha da dignidade outrora perdida.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Calamidade

O assassinato a sangue frio de um jovem de 18 anos em pleno aeroporto é apenas o sintoma mais absurdo do estado de calamidade da segurança pública no Rio Grande do Sul e especialmente em Porto Alegre.

Enquanto perdurar tal calamidade, segurança tem de ser a prioridade absoluta de nossos governantes, de todos eles, inclusive da prefeitura.

O momento exige isso, exige ação firme e determinada. 

Não é o caso, mas mesmo que tivéssemos ótimas escolas e extraordinários e bem equipados hospitais, de nada adiantará se formos assassinados enquanto nos deslocamos até eles.

Chega de brincar de boneca.

A situação é insuportável, e pede pragmatismo.

sábado, 17 de setembro de 2016

Deixar doer

É difícil sentir um incômodo tão profundo quando antigas verdades se esfarelam.

Abraçar a razão que contraria a emoção pode arranhar a alma, mas isso jamais foi vergonha. 

Nem sempre a melhor defesa é o ataque, olhar firmemente para o espelho pode ser uma boa forma de recomeçar.

Mentiras não se tornam verdade simplesmente porque se quer.

Furar os tímpanos não impedirá a canção de continuar tocando.

Sob a máscara do amor, uma careta de ódio e rancor move uma força destruidora.

Todo desapego que dói abre um novo caminho, um novo horizonte.

Não há mais motivos para engano e negação, após o inverno vem mais uma primavera.

Com essa certeza no coração, continuo andando, mesmo que a solidão seja minha companheira de todas as noites.

O que não é real não merece tomar o tempo, precioso demais.

A sorte não precisa abandonar ninguém que se deixa viver, errar e querer.

A exaustão pode adquirir sentido quando se ganha um sorriso sincero na chegada.

Deixar doer sem desejar que o que não é seja é uma boa forma de se estar em paz.

É no agora que piso, e me deixo sangrar, e me deixo embriagar por tudo que faz a existência valer a pena.  

8 anos de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: Rubra água

E o melhor texto deste oitavo ano do DC é "Rubra água", publicado originalmente em 13 de junho.

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O oceano imenso pode levar muitas coisas em suas correntes.

Mas não tem a capacidade de levar a dor por aquilo que se perdeu.

Às vezes, o fim e a sensação de paz são apenas o início da tormenta.

Na banheira inundada de rubra água ficaram as marcas da incompreensão.

Tantas vezes pareceu tão simples resolver o incômodo que angustiava.

O acerto está contido no erro, mas agora é tarde demais.

Não há mais como reagir contra o que já está acabado.

Porque o oceano imenso pode levar muitas coisas em suas correntes.

Mas nem todo o seu sal é capaz de cicatrizar a ferida que recém se abriu.

Ela foi o alvo mais fácil de uma monstruosidade aniquiladora.

Uma trindade profana faz evaporarem todas as esperanças contidas nessa oração.

Doce e sofrida vida, por que se foi quando tudo parecia tão próximo da normalidade?

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: O homem que amava burocracia

A medalha de prata entre os melhores textos do último ano no DC foi publicado no dia 25 de agosto de 2016.

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Um dia, conheci um sujeito que amava burocracia.

Horácio era seu nome.

Ah, Horácio realmente amava burocracia com todas as forças do seu coração.

Quando alguém lhe telefonava, já ia logo passando o número do protocolo.

Sua foto no perfil do Facebook era uma 3x4 com fundo branco.

Cartão de natal? Ele sempre mandava em três vias.

Horácio realmente deleitava-se com a burocracia.

Os aposentos de sua casa, ele chamava de setores. Setor de banho, setor de cozinha, setor de sono, setor de estar...

No colégio, só aceitava bilhetinhos de amor com autenticação em cartório.

Quando bebê, chorava incessantemente e  recusava a papinha enquanto a mãe não lhe apresentasse o atestado de procedência.  

Era também religioso, e demonstrava isso em meditação, todas as manhãs, antes de sair para o trabalho, observando fixamente o grande quadro na parede da sala, que em letras garrafais apresentava seu mandamento bíblico favorito: "PREENCHERÁS CORRETAMENTE O FORMULÁRIO".     

É, Horácio amava burocracia...

Na puberdade, juntou uma coleção de alvarás debaixo do colchão. E na calada da noite, passava horas a fio com aquela papelada no banheiro.
  
Na vida adulta, à noite, quando a criançada cheia de saudades corria para abraçá-lo, entregava-lhes senhas. Um abraço de cada vez, para não virar bagunça!

Sua alegria maior, porém, geralmente vinha mais tarde. 

Era quando, ao entrar no quarto, encontrava a e esposa de lingerie pronta para satisfazer todos os seus desejos mais loucos e sujos, conscientes e inconscientes, com aqueles brinquedinhos que o deixavam no mais absurdo delírio fetichista. No caso, o carimbo e a almofadinha com tinta...  

Infelizmente, Horácio faleceu. 

Mas ele se foi fazendo o que mais amava: estava autenticando uma ata da reunião do Sindicato dos Produtores de Rabanetes de Santa Rita do Sul. Seu rosto emanava a mais profunda paz.

Anos depois, ainda voltou a fazer contato com a família, via psicografia.

Não foi difícil comprovar a veracidade. A carta já veio com reconhecimento de firma...

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: Justine

Chegamos ao pódio do especial de 8 anos do DC. A medalha de bronze fica com o texto "Justine", publicado originalmente em 28 de setembro do ano passado.

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Justine e seu vestido branco.

Pés presos, a caminho do erro.

Justine, um sorriso e um slogan.

Essa gente pretende satisfazer suas necessidades.

Justine, a tia invencível e entregue.

Cavalgada que liberta e mata a sensação de controle.

Justine, o sono lhe esconde de dias sem sonhos.

Sim, isso tem gosto de cinzas.

Justine, a mulher que se banha na luz que atemoriza.

A gigante bola azul trará a redenção com o fim.

Justine, a melancolia está prestes a terminar.

Melancolia está chegando para lhe trazer paz. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Rotina

O quarto melhor texto desse último ano no DC foi publicado no dia 8 de novembro de 2015. 

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Acordou no horário em que não queria acordar.

Bebeu o café de uma marca que não gostava de beber.

Barbeou-se, ele não gostava de se barbear.

Tomou o banho numa temperatura em que não gostava de tomar.

Foi ao trabalho que não gostava de trabalhar.

Falou com pessoas com as quais não gostava de falar.

Almoçou um prato que não gostava de comer.

Passou o resto da tarde de um jeito que não gostava de passar.

Voltou para casa no ônibus que não gostava de pegar.

Jantou alguns restos frios que não gostava de jantar.

Viu na televisão um programa que não gostava de ver.

Dormiu ao lado de quem já não gostava mais de dormir.

Vive todos os dias uma vida que não gosta de viver.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Dilemas Cotidianos Gourmet: como apreciar um bom vinho

Chegamos ao top five do especial de 8 anos do DC com dicas para apreciar elegantemente um bom vinho.

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Atendendo a pedidos, hoje apresento aqui algumas dicas para a apreciação adequada de um bom vinho. São maneiras requintadas, gostosas e surpreendentes para degustar elegante e saborosamente uma boa taça deste precioso líquido. Vamos a elas:

1. Com bolachas d'água com maionese: bolachas d'água fartamente cobertas com maionese são uma ótima pedida para acompanhar um maravilhoso vinho francês.

2. Com pipocas doces dos saquinhos rosas: uma combinação simplesmente sublime, especialmente com um sofisticado vinho chileno. Sugiro a marca Bilu.

3. Com feijão mexido: um clássico, ideal para acompanhar um Cabernet Sauvignon.

4. Com Pastelina: que tal um Chardonay dançando alegremente pelas papilas gustativas com o sabor incomparável de Pastelina?

5. Com Miliopã: perfeito para acompanhar um Vinho do Porto, numa noite romântica com "aquela pessoa", acalentada pelo fogo de uma bela lareira.    

6. No sagu: um sagu feito com Henry Jayer Richebourg fica divino. A sobremesa que vai lhe fazer flutuar. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 6ª posição: Posto Ipiranga

A sexta posição do especial de 8 anos do DC fica com o texto "Posto Ipiranga", publicado originalmente em 6 de março deste ano.

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- Onde encontro ingressos pra shows?
- Lá no Posto Ipiranga.
- Hum... E um lanchinho? Tô com uma fome do cão.
- No Posto Ipiranga.
- Tá. E Quilômetros de vantagens?
- Ah... Lá no Posto Ipiranga
- E massagem tântrica?
- Isso tem no Posto Ipiranga.
- Quero também um cd do Roberto Leal. Onde posso achar?
- No Posto Ipiranga.
- Também quero um I Phone. Onde será que tem?
- Lá no Posto Ipiranga.
- E boneca inflável?
- Posto Ipiranga.
- E plano de cremação, para o caso de eu morrer?
- Isso aí... Lá no Posto Ipiranga.
- Também quero fazer quimioterapia.
- Tem no Posto Ipiranga.
- Ah, tô qurendo fazer o teste do HIV.
- Posto Ipiranga.
- Preciso fazer exame de próstata. Onde será que posso fazer isso?
- Lá no Posto Ipiranga.
- Também tô querendo um autógrafo do Walmor Chagas.
- Tem no Posto Ipiranga.
- Onde posso encontrar uma banda cover do P.O. Box?
- No Posto Ipiranga.
- E um pergaminho documentando as Cruzadas?
- Isso você encontra no Posto Ipiranga.
- Ok. E combustível pro meu carro, onde posso encontrar?
- Hum... Isso aí... Deixa eu ver... Bom, tenta o Posto Texaco. Lá deve ter isso aí.

domingo, 11 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: A sopa

O sétimo melhor texto do oitavo ano do DC é do dia 31 de julho.

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O velho homem havia tido uma perna amputada no hospital, devido a complicações de um acidente. Mas já estava consciente, em fase de recuperação, pronto para almoçar. A enfermeira adentrou o quarto com o prato de sopa, e passou a entregar as colheradas na sua boca.

- E então, senhor? Está boa a sopa?
- Está ótima, minha filha.
- E a carne? O que achou da carne?
- É boa... Tá com uma textura meio diferente... Mas é saborosa.
- Gostou mesmo da carne?
- Sim, sim.
- Ela está bem fresca. 
- É carne de quê, mesmo? Não consigo reconhecer.    
- Tá gostosa, não? Isso é o mais importante.
- É, sim. Mas fiquei curioso.
- Chega de conversa, senhor. Está na hora de recolher o prato. É bom o senhor descansar um pouco, ok?
- Mas...
- A médica vem logo para examiná-lo. Até mais. 

sábado, 10 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Salamanca: uma cidade, uma saudade

A oitava colocação do especial de 8 anos do DC fica com um texto que escrevi recordando Salamanca, quando fazia 1 ano da minha volta de lá. Foi publicado em 12 de abril desse ano.

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Era 13 de abril de 2015. Meu último dia em Salamanca. Chegar e partir de Salamanca é marcante. O ônibus, chegando ou partindo, faz o trecho mais próximo ao casco histórico margeando o Rio Tormes. É uma imagem deslumbrante. 

Para quem chega, é como se a cidade lhe recebesse com um grande sorriso. Para quem parte, é como se ela se despedisse com os olhos marejados. E como eu não marejaria os meus quando, aos poucos, aquele ônibus se afastava daquele cartão postal que é a visão oferecida pelo Tormes?

Já faz um ano que voltei. Mas é como se isso não tivesse acontecido. Meu corpo voltou de Salamanca. Mas minha alma ficou lá. 

Nada daquilo torna-se remoto. Meu coração aperta. É amor em estado puro por uma cidade que eu abracei e que me abraçou forte. 

Salamanca me traz lembranças muito vivas. Das mais deslumbrantes às mais banais. Da Plaza Mayor a uma noite de sábado lavando e estendendo roupas na residência em que eu vivia. Da extraordinária catedral às comprinhas de queijos, chocolates e cervejas no Carrefour. 

Eu aprendi muito enquanto estive por lá. Foi o período mais feliz da minha vida. Eu me sentia abençoado. Era com prazer que eu dava minhas caminhadas de sábado. Explorava as ruas, todas plenas de beleza. Tomava milk shakes, cervejas, sorvetes de doce de leite argentino, comia tapas de batatas como molho aioli, kebabs e sanduíches de frango com queijo. 

Conheci muito mais de mim mesmo. Cresci, amadureci. E esperava da realidade vindoura uma realidade diferente. Na verdade, era eu, e só eu, quem tinha mudado. Mesmo essa consciência posterior me fez melhorar. 

Não foram poucas as vezes em que, sentado de frente para a catedral, agradeci pelo destino que ali eu podia sentir e viver. 

Foi muito difícil me despedir. Ainda é. A saudade que sinto de Salamanca, a saudade que sinto de mim mesmo, a saudade que sinto de como eu me sentia lá, é absolutamente aterradora. Para mim, sempre será a cidade mais linda, mais aconchegante, mais amorosa do mundo. Vivo de flashbacks. Recordo cada rua, cada pequeno contentamento, as lojinhas, as aventuras e desventuras, o sol de quase dez da noite no início da primavera, o frio do inverno, a paisagem da janela do meu quarto. Até a solidão era bonita. 

Por mais que eu escreva textos e poesias recordando Salamanca, jamais me aproximarei de representar a beleza que Salamanca exala. Porque nenhuma poesia estará à altura de Salamanca. Porque Salamanca é a própria poesia

Salamanca foi um lindo caso de amor. Foi meu paraíso em vida. Não há como explicar o significado que essa cidade teve e ainda tem para mim, para quem hoje eu sou. Só posso sentir. Eu saí de Salamanca. Mas Salamanca não saiu de mim. Jamais sairá.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: O poeta ébrio

O nono melhor texto do especial de oitavo aniversário do DC foi publicado em 7 de março deste ano.

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O poeta ébrio põe-se a escrever.

Na mesa, a cerveja gelada, à espera de mais um gole desesperado.

O poeta ébrio deixa derramar-se, deixa desamarrar-se.

Interroga o que vem da alma, exclama o que vem do álcool.

O poeta ébrio corta seu peito e o abre sem pudor.

Faz uma autópsia de si mesmo.

O poeta ébrio congela e derrete emoções.

Estão todas servidas à mesa, em perfeito desequilíbrio.

O poeta ébrio faz amor com as palavras, acaricia cada letra, pare sua obra.

E já não lhe importa se as rimas são ricas ou pobres.

Sua poesia não tem classe social.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

8 anos de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Moscas volantes

Começamos a reapresentação dos 10 melhores textos do DC neste oitavo ano com "Moscas volantes", originalmente publicado em 20 de fevereiro de 2016.

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Moscas volantes passeiam em minha visão.

Moscas volantes me distraem enquanto olho para o teto.

Moscas volantes, bolhas e balões minúsculos e transparentes.

Moscas volantes estão voando e caindo.

Moscas volantes, elas sempre estão de volta.

Moscas volantes, prisioneiras dos meus olhos.

Moscas volantes, eu sou prisioneiro delas também.

Moscas volantes não existem lá fora.

Talvez lá fora também seja como as moscas volantes.

Talvez lá fora também esteja apenas dentro dos meus globos oculares.

Moscas volantes me ensinam, moscas volantes me enlouquecem.

Moscas volantes me trazem tantas incertezas.

Moscas volantes, infinito e desolador movimento.

Moscas volantes, minha própria imperfeição diante da luz do sol.

8 anos de Dilemas Cotidianos

Mais um aniversário do DC.

8 anos de muitas sensações, várias fases, de humor, de amor, de doçura, de acidez, de amargura.

Nunca me preocupei em fazer desse blog um espaço "disso" ou "daquilo", ou da poesia, ou da piada, ou da crônica, ou do conto.

Porque de algum modo tenho um pouco de cada uma dessas coisas correndo nas veias, e nós, seres humanos, somos complexos demais para nos prendermos a rótulos, etiquetas e identidades forçadas.

Não somos "isso" ou "aquilo". Somos isso, somos aquilo, e somos muito mais.

Isso é o Dilemas Cotidianos. Aqui tem de tudo, porque sou um pouco de tudo. Gosto de ser assim.  

E assim continuarei sendo.

Muito obrigado aos leitores, que sempre acompanham, prestigiam, e entendem que a proposta deste blog é não ter uma proposta, é simplesmente expressar aquilo que sou e o que tenho vontade de expressar em minhas várias facetas, sem nada que me limite.

Nos próximos dias, como já é de praxe, reapresentarei aqui os 10 melhores textos deste oitavo ano do DC.

Espero que gostem.  

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Estranho

Acordei.

Não reconheci meu rosto.

Permaneci me olhando.

Era um estranho, alguém que jamais havia visto.

Passou-se uma hora, e mais uma, e mais uma.

Eu já não sabia mais quem eu era.

domingo, 4 de setembro de 2016

Transeunte despercebido

Na penumbra da noite ou sob o sol do meio-dia, ele não pode ser visto.

Pensamentos certeiros e movimentos precisos fazem o jogo intenso e divertido.

A justiça que ninguém enxerga está presente naquilo que se oculta e esquece.

As marcas na pele são insuficientes porque há sempre mais por querer.

No chão manchado está o sinal de uma fome que jamais se sacia.

Ele é um transeunte despercebido, figurante em seu protagonismo.

Nas ruas e esquinas que viram seus rostos, o agradecimento é silencioso e constrangido.

Ele enxerga a beleza implícita na repulsa de uma nobreza nada prática.

O melhor que pode ser esconde-se nas entrelinhas translúcidas das desculpas cheias de orgulho.

Seu recomeço nunca implicou algum tipo de fim, e ele sabe muito bem disso.  

sábado, 3 de setembro de 2016

Rabiscos na areia

A intensidade dos mais belos momentos desbota na memória.

Ficou o silêncio de uma solidão incurável que me engole e me vomita todas as noites.

Apenas um caminho reina nos becos do pensamento.

As ruas todas estão desertas e abandonadas.

Eu desejo fazer carnaval, me deixando levar pela alegria irracional que anestesia a existência. 

Mas não tenho mais bases que me permitam comprar uma nova ilusão por agora.

Os rabiscos na areia do passado se apagam com as águas de uma onda que traz entre suas algas pequeninos pedaços de um presente incerto.  

Vou juntando tudo, como se fossem conchinhas, para um dia encontrar uma resposta para os sonhos que não consigo esquecer.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Risos prometidos

Quando tudo se esvaziou, você trouxe seu lamento para meu mundo.

O que nunca se quebraria acabou se quebrando em suas mãos.

Sem ter o que consertar, minimizei danos e acolhi o que era possível.

Enfeitei os dias com todos os adornos que eu encontrei.

A beleza da paisagem ficou cristalizada em minha retina.

Mas a realidade precisava estar coordenada com os fatos.

Necessidades sempre passam, e nunca sabemos se o que resta depois dela é suficiente.

Entre tantas combinações oferecidas, temos que apostar em apenas uma, diferente daquilo que um dia foi sonhado.

Amores são folhas que ressecam e se desbotam no chão.

Mas cada estação tem sua beleza peculiar, basta saber onde encontrar.

Eu estou navegando atrás de um lugar que me faça sentir vivo.

Nesse círculo, ainda poderei voltar ao ponto anterior e escrever um novo final.

Basta que os deuses soprem meu barco na direção certa.

Os risos prometidos estão guardados em um lugar seguro dentro da minha alma.