quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O homem que amava burocracia

Um dia, conheci um sujeito que amava burocracia.

Horácio era seu nome.

Ah, Horácio realmente amava burocracia com todas as forças do seu coração.

Quando alguém lhe telefonava, já ia logo passando o número do protocolo.

Sua foto no perfil do Facebook era uma 3x4 com fundo branco.

Cartão de natal? Ele sempre mandava em três vias.

Horácio realmente deleitava-se com a burocracia.

Os aposentos de sua casa, ele chamava de setores. Setor de banho, setor de cozinha, setor de sono, setor de estar...

No colégio, só aceitava bilhetinhos de amor com autenticação em cartório.

Quando bebê, chorava incessantemente e  recusava a papinha enquanto a mãe não lhe apresentasse o atestado de procedência.  

Era também religioso, e demonstrava isso em meditação, todas as manhãs, antes de sair para o trabalho, observando fixamente o grande quadro na parede da sala, que em letras garrafais apresentava seu mandamento bíblico favorito: "PREENCHERÁS CORRETAMENTE O FORMULÁRIO".     

É, Horácio amava burocracia...

Na puberdade, juntou uma coleção de alvarás debaixo do colchão. E na calada da noite, passava horas a fio com aquela papelada no banheiro.
  
Na vida adulta, à noite, quando a criançada cheia de saudades corria para abraçá-lo, entregava-lhes senhas. Um abraço de cada vez, para não virar bagunça!

Sua alegria maior, porém, geralmente vinha mais tarde. 

Era quando, ao entrar no quarto, encontrava a e esposa de lingerie pronta para satisfazer todos os seus desejos mais loucos e sujos, conscientes e inconscientes, com aqueles brinquedinhos que o deixavam no mais absurdo delírio fetichista. No caso, o carimbo e a almofadinha com tinta...  

Infelizmente, Horácio faleceu. 

Mas ele se foi fazendo o que mais amava: estava autenticando uma ata da reunião do Sindicato dos Produtores de Rabanetes de Santa Rita do Sul. Seu rosto emanava a mais profunda paz.

Anos depois, ainda voltou a fazer contato com a família, via psicografia.

Não foi difícil comprovar a veracidade. A carta já veio com reconhecimento de firma... 

4 comentários:

CÉU disse...

Verdade ou ficção, Bruno?
Que história mais bem contada!
Até no amor o Horácio era burocrata. Enfim, cada um é como cada qual.

Beijos e bom fim de semana.

Bruno Mello Souza disse...

Ficção, Céu! Felizmente ficção!

Beijos e bom fim de semana pra ti também.

Vitor Costa disse...

Muito inventiva e irreverente sua história, Bruno! hahaha

Parabéns!

Abraços

Bruno Mello Souza disse...

Obrigado, Vitor!

Abraços.