domingo, 31 de julho de 2016

A sopa

O velho homem havia tido uma perna amputada no hospital, devido a complicações de um acidente. Mas já estava consciente, em fase de recuperação, pronto para almoçar. A enfermeira adentrou o quarto com o prato de sopa, e passou a entregar as colheradas na sua boca.

- E então, senhor? Está boa a sopa?
- Está ótima, minha filha.
- E a carne? O que achou da carne?
- É boa... Tá com uma textura meio diferente... Mas é saborosa.
- Gostou mesmo da carne?
- Sim, sim.
- Ela está bem fresca. 
- É carne de quê, mesmo? Não consigo reconhecer.    
- Tá gostosa, não? Isso é o mais importante.
- É, sim. Mas fiquei curioso.
- Chega de conversa, senhor. Está na hora de recolher o prato. É bom o senhor descansar um pouco, ok?
- Mas...
- A médica vem logo para examiná-lo. Até mais.  

sábado, 30 de julho de 2016

Infinidade de sentimentos desperdiçados

Quantas noites você já esperou?

Em quantas delas já pensou em quem jamais pensa em você?

E quando se perguntou se alguém pensa em você quando se deita para dormir?

O mundo possui uma infinidade de sentimentos desperdiçados.

Ele foi construído com base nas coisas que se quer esconder.

Tantas belezas estão ocultas, esperando apenas pelo seu momento de brilho.

Sei bem que você espera um sinal que lhe indique o caminho.

Porque é difícil decifrar aquilo que nunca é dito.

A paz é rara, e tem um sabor delicadamente doce.

Tudo que você precisa por hoje é cantar.

Tudo que você precisa é cantar bem alto e esperar que alguém a ouça.

Afinal, quem não ouve a sua voz, não a ouve porque não merece ouvi-la.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Tropeços

Tropeços são aprendizados.

Pés machucados têm muito a ensinar.

Muitas coisas já tiveram valor.

E hoje elas não valem mais nada.

A vaidade impede de ver a verdade.

O pouco apreço por si mesmo também.

Nada mais aprisiona.

O passado passou, é tolice revivê-lo e sofrer dentro da mente.

E se o presente é apático, o futuro não se sabe.

Apenas dance a música que está tocando.

E seja tudo o que pode ser agora mesmo. 

Mesmo que tropece mais uma vez.

Mesmo que machuque seus pés novamente.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

No céu

Nos braços da mãe, banhada em lágrimas, o menininho, à beira da partida, já quase sussurrando, perguntou:

- Mamãe, no céu tem abre fácil que abre fácil?

E morreu.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

E se hoje fosse o último dia de sua vida?

E se hoje fosse o último dia de sua vida, o que você faria?

O que você agradeceria?

Quem você abraçaria?

Que doce você comeria?

Qual brincadeira de infância você reviveria?

A que filme você assistiria?

Que mágoa você perdoaria?

De qual gol do seu time você recordaria?

Que amor você declararia?

E se hoje fosse o último dia de sua vida, o que você faria? 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Voltando a Salamanca

... E enquanto eu andava, eufórico, pelas ruas de Salamanca, em direção à Plaza Mayor, eu repetia para mim mesmo, em voz alta: "Finalmente é real! Até parece um sonho, mas dessa vez é real! Eu amo essa cidade! Finalmente voltei!".

Era um sonho, de novo...
  

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Balança imaginária

O fogo cruza o céu.

Todos saem de suas casas para observar.

A nova paisagem inebria, hipnotiza.

No peito, todos os anseios do mundo.

Mas tudo agora ficou pequeno demais.

Eu lhe dou minha mão com lágrimas nos olhos e admiração, sem saber se isso é o fim ou o início.

Todos os pensamentos equivocados e todo o tempo perdido se misturam na areia da ampulheta.

O que sobrará de mim em apenas poucos instantes?

Peso prejuízos e benefícios em uma balança imaginária.

Talvez o nada seja melhor do que a condenação da eternidade.

Talvez uma esperança mergulhada em dor seja melhor do que o vazio profundo da inexistência.

Tanta gente está chorando por jamais ter sido o que queria ser.

A vida foi uma oportunidade miraculosa.

Ela foi desperdiçada na desesperada tentativa de se sobreviver.

E agora nada disso tem valor algum. 

sábado, 23 de julho de 2016

Cansado da vida real

Garota, eu vejo uma luz intensa em você.

E eu quero mergulhar nela agora mesmo.

Abre-se uma janela, ainda não amanheceu.

Estou quieto enquanto aguardo um sinal.

Garota, deixe-me tocar seu coração agora mesmo.

Porque dele eu já estou cuidando há muito mais tempo.

Você pode rir e me deixar admirado observando seus movimentos.

Não sei o que poderia ter sido, tampouco me atrevo a fugir.

Garota, apenas acolha e acalente meus sonhos.

Estou cansado da vida real e de suas inconsistências.

Preciso respirar fundo e ter certeza de que posso encontrá-la a qualquer momento.

Até agora, tudo sempre se evaporou antes mesmo que eu pudesse saber quem sou.

E eu posso ser a mesma luz que você.

E eu posso caminhar os mesmos passos, sem qualquer temor. 

E eu posso tocar sua mão e dizer que tudo vai ficar bem melhor.

Já são velhos os tempos...

Já são velhos os tempos em que tudo era mais simples.

Já são velhos os tempos em que não precisávamos nos preocupar a cada esquina.

Já são velhos os tempos em que nos sentíamos especiais.

Já são velhos os tempos em que não era necessário pedir desculpas o tempo todo.

Já são velhos os tempos em que nossa união nos fortalecia.

Já são velhos os tempos em que uma melodia nos emocionava.

Já são velhos os tempos em que o amor declarado pulsava alegremente.

Já são velhos os tempos em que tínhamos cuidado, carinho e atenção.

Já são velhos os tempos em que podíamos ser nossas próprias verdades, sem pudores.

Já são velhos os tempos em que as ilusões nos distraíam e aliviavam a dor.

Já são velhos os tempos em que não sentíamos vergonha de sentir.

Já são velhos os tempos em que a vida era um retrato de sorrisos, cores e adorações.

Já são velhos os tempos em que tudo era mais leve, sem a necessidade de armas e armaduras.   

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Mais nada a lhe dizer

Você disse para eu não me preocupar.

Mas eu não consegui, nem por um instante.

Agora vejo tudo acontecer.

A dor é permanente, e já não há explicação convincente.

Poderíamos contornar mais um pouco, ou inventar alguma nova desculpa.

Mas a realidade é mais dura do que um mundo de fantasias.

Estamos prontos para permanecer exatamente onde estamos.

E eu já não tenho mais nada a lhe dizer.

Deixo apenas a vida que restou mostrar a imagem patética que tudo ao nosso redor se tornou.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Remédios

O homem adentra a farmácia:

- Boa tarde!
- Boa tarde, em que posso ajudá-lo?
- Eu gostaria de um remédio.
- Hum... E qual seria?
- Não sei. O que você me sugere?
- O que o senhor está sentindo?
- Nada... Quer dizer... Estou sentindo vontade de tomar um remédio. 
- Hum...
- E então? Qual aí é sugestão da casa?
- Bom... Esse para dor de cabeça tem bastante saída por aqui,
- É um clássico!
- Tem também esse aqui, para dor de estômago.
- Será que harmoniza bem com vinho tinto seco?
- Hum... Recomendo água. 
- É... Vou querer um de cada um... Mas estava a fim de sair do lugar comum, tomar algo diferente, sabe?
- Olha... Tem esse aqui, para cólica menstrual.
- Opa! Desse aí nunca tomei. É bom?
- Faz bastante sucesso entre as mulheres...
- Ótimo! Quero romper paradigmas. Me vê logo três caixas desse aí. 
- Só tem uma coisa... O senhor tem a receita?
- Ora, lógico que não! Se eu tivesse a receita eu faria em casa, não precisaria comprar! Mas que pergunta!
- Er... Então não posso vender.
- Mas, mas... E se eu conseguir a bula? Não tem o modo de preparo, mas pelo menos aparecem os ingredientes...  

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Esperando

Eu fico aqui esperando.

Esperando um dia de sol e de paz.

Eu fico aqui esperando.

Esperando por uma verdade que nem sei se existe.

Eu fico aqui esperando.

Esperando que dos céus chegue uma resposta.

Eu fico aqui esperando.

Esperando que alguém me diga quem eu sou, pois ainda não sei.

Eu fico aqui esperando.

Esperando que uma boa notícia faça a minha noite de hoje diferente das outras noites.

Eu fico aqui esperando.

Esperando a alegria que não seja uma ilusão que se deixe levar pela primeira brisa.

Eu fico aqui esperando.

Esperando o momento em que não precise mais esperar.   

terça-feira, 19 de julho de 2016

Dilemas Cotidianos Gourmet: creme de batata Ruffles

Ingredientes:

- 1 pacote de batata Ruffles;
- 2 copos d'água;
- 2 copos de leite; 
- Sal a gosto.

Modo de preparo:
- Jogue o pacote de batatas Ruffles no liquidificador;
- Acrescente os dois copos d'água;
- Em seguida adicione os 2 copos de leite;
- Bata tudo, até que fique com a consistência de um creme.
- Coloque o creme numa vasilha;
- Aqueça no microondas durante 3 minutos;
- Acrescente sal a gosto.

Fica bom? Fica ruim? Com que gosto isso fica? Não faço a menor ideia. Pelo menos acabo de inventar essa ousada receita para ser apreciada em uma noite fria junto com a família.

domingo, 17 de julho de 2016

Solidão profunda

A solidão vai crescendo.

A solidão vai o engolindo.

Nas migalhas, apenas humilhação.

E você vai se diminuindo.

Você vaga, deixando-se crer que tudo vale, e que você não é nada.

A solidão vai sufocando.

A solidão vai levando a sua dignidade diante da vida, enorme, ameaçadora e sem promessas.

Você espera por ilusões reconfortantes que desaparecem num piscar de olhos.

E fica parado, aguardando ser lembrado sem jamais ter existido.

Nada jamais precisou fazer sentido, não há magia que pareça verdadeira.

A solidão está em cada canto que você possa olhar.

A solidão está na luz, nas trevas, no som e no silêncio.

A solidão está na calma e na fúria.

Porque no fim das contas, você nunca teve nada além da solidão.

E vai cansando e se apagando com mais uma noite que se aprofunda.

Até que você desaparece dentro de si mesmo. 

Sangue quente

No chão, o sangue quente borbulha para mostrar o resultado do que somos.

A destruição é a ordem, não existe mais saída possível.

Persistimos chicoteando nossas próprias costas, num auto-sacrifício que não redime ninguém.

O som da sirene e o desespero não comovem mais do que a tentativa desesperada de comprovar uma razão inventada.

As flores que você trouxe não são suficientemente perfumadas.

Mentiras vão nos asfixiando, estamos cada vez mais enclausurados.

Aplausos cegam, retomei minha visão e meus olhos estão doendo.

Não me importo com nada mais do que aquilo que ficou aqui.

Você se deixa ser sangrado lentamente e ainda está pedindo desculpas pela sujeira.

Sua liberdade é escravidão.

Seu amor é o alimento do ódio mais desumano.

E quando o sangue borbulhante secar no piso, você mais uma vez vai pensar que não passa de tinta vermelha indicando um novo e tolo caminho. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Perdas que ficaram pelo caminho

Você traz um peso para que eu carregue em minhas costas.

Mas não esqueça, sempre é possível recusar.

Eu quero a leveza de não precisar mostrar que sou alguém.

Você nunca soube absolutamente nada das coisas que vi ou senti.

Um dia eu dei importância demasiada, mas hoje tanto faz.

Restou apenas um silêncio latejando na minha cabeça.

Há sempre uma receita pronta para esfregar na minha cara.

Eu apenas gostaria de ser alguém melhor para as pessoas que merecem.

Caminho por entre as pedras da minha própria confusão.

Tropeço nas perdas que ficaram pelo caminho.

Sei que não fiquei sozinho, mesmo após todas as tormentas.

Mas sua companhia me faz sentir tão só, de todo modo.

Tudo ficou mais claro e limpo, já não possuo mais as velhas e tolas necessidades.

Ainda posso rir de cada uma das palavras que você proferiu,

É bem melhor que fique para depois.   

A recompensa da chegada

Levantou a cabeça, e partiu para a caminhada decisiva.

Enfrentou as pedras do caminho.

Feriu-se, e sangrou.

Mas não desistiu.

Quando a esperança parecia esvair-se, reunia mais forças.

E vencia seus medos e angústias a cada passo.

O espírito luta, a alma engrandece.

Apesar da dor, a recompensa da chegada.

Estava, finalmente, na padaria.

E disse, assertivamente, estufando o peito: "Eu quero 5 pães. E 200 gramas de queijo lanche". 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Sentidos

Seu beijo, o melhor dos gostos.

Seu sussurro, o melhor dos sons.

Seu cabelo, o melhor dos cheiros.

Sua pele, a melhor das texturas.

Você dormindo em meus braços, a melhor das visões.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Curta-metragem

Acordou no meio da noite quente.

Estava com muita sede.

Levantou-se da cama.

Caminhou pela penumbra.

Chegou à cozinha.

Acendeu a luz.

Abriu a geladeira.

Agarrou o jarro d'água.

Caminhou até a pia.

Pegou um copo.

E o encheu.

Bebeu a água, gole a gole.

Suspirou.

E voltou para a cama. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Peças de antiquário

Não é mais fácil sentir por nada do que eu faço.

Já me violentei o suficiente sem poder descansar sequer por um dia.

A paz sempre foi apenas um prólogo para minha guerra.

Pode parecer divertido quando eu finjo que acredito em mais uma promessa.

Meu lugar no mundo está me asfixiando lentamente.

E tudo está passando rápido demais.

Nenhuma distração é suficiente para adormecer meus anseios. 

Aprendi a não sentir nada, porque é mais fácil do que aprender a sentir.

E eu espero que você me convença a ser diferente disso.

Amores são peças de antiquário que eu nunca pude apreciar.

O brilho e o vexame

O jeito certo de ser não lhe parece o suficiente.

Precisa acelerar a respiração e deixar o tempo se esvair.

Nem todas as noites são feitas de sonhos.

Um simples descuido pode tornar o mundo um caos.

Tudo fica bem quando o rosto consegue descansar.

É tão interessante cavar buracos dentro da própria alma.

Abrem-se as cortinas, mas o palco é permanentemente escorregadio.

O brilho e o vexame flertam e se beijam descaradamente.

Flutua e caminha sem rumo.

Adoraria saber qual o destino que sobrou para si.   

sábado, 9 de julho de 2016

Folhas secas no chão

Quando compartilhávamos aquela mesa, sabíamos que duas solidões não formam uma união.

Mas eu podia me sentir tão completo, mergulhado em sua lágrima, embriagado pelo sabor salgado.

Nós buscávamos algo intangível, estávamos condenados à insatisfação eterna.

Fugíamos um do outro, sedentos de proximidade.

E era sublime quando nos deixávamos revelar, rindo e sentindo pelas frestas que a vida oferecia.

Poucos centímetros poderiam ter selado um destino diferente.

Estávamos extremamente confortáveis entregues ao desconforto do erro.

Precisávamos nos socorrer e deixar que o silêncio fizesse sua parte.

O incêndio nos consumiu e adormeceu.

Restou ainda algo vivo para nos aquecer enquanto sonhamos.

As perguntas já cicatrizaram, e a pele é apenas uma testemunha muda.

As respostas são folhas secas no chão, retratando a quietude que permanece.

Questione

Questione tudo que lhe inquieta.

Questione tudo que lhe instiga.

Questione tudo que lhe violenta.

Questione tudo que pareça não fazer sentido.

Questione tudo que vir à sua direita.

E questione também tudo que vir à sua esquerda.

Questione o que vem de baixo.

E questione também o que vem de cima.

Sem questionamentos o mundo não sairia do lugar.

Então questione.

E crie um sentido para o seu mundo. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Luz

Se um anjo lhe disser que existe uma luz bonita à sua espera, acredite.

Não desista no segundo ou terceiro passo.

Não se deixe enganar pela sombra faminta da mata cerrada.

Apenas prossiga, até o fim.

E encontre a sua luz.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Impressões digitais

Quem eu fui, quem eu sou.

Onde estive, o que toquei.

Minha razão, minha loucura.

Escolhas, acasos.

Hesitações, certezas.

Excitações, apatias.

Alegrias, tristezas.

Em meus amores, em minhas antipatias, em meus desprezos.

Uma história inteira nos traços, curvas e desenhos dos meus dedos.

Já deixei uma infinidade de impressões digitais por aí.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Meu mundo do meu jeito

Eu desconheço o caminho, perdi as migalhas de pão que tinha deixado.

Eu ainda tenho que responder pelas coisas que procuro e não consigo encontrar?

Sou capaz de tocar minhas esperanças com as mãos.

Mais do que ninguém, eu preciso e quero ver a luz do sol.

Não posso vê-la, mas sei que não sou cego.

Se estou me afogando sozinho, você não precisa empurrar minha cabeça mais para o fundo.

Sou exatamente assim, e todos os dias tento ser alguém melhor.

Mas não espere que eu mude minha essência.

Ajude-me a criar um reflexo que simule a luz da vida.

As pessoas nunca foram preparadas para amarem o que realmente são.

E o que gosto de ser é diferente de como você acha que eu deveria gostar de ser.

Sou incapaz de fingir para vencer, não pense que não me sinto ansioso.

Apenas continuo fazendo meu mundo do meu jeito, e quem o conhece jamais se arrependeu.

Julgamentos são fáceis, aguardo meu destino bem onde vim parar dessa maneira.

Não caibo na fôrma, mas isso não deveria ser uma preocupação prioritária.

Permaneço justo comigo mesmo, vou assim até o fim.

E talvez eu deixe pouco por aqui, mas deixarei algo realmente meu.

Cascas de laranja

A criança, com seu rosto sujo, brinca com as cascas de laranja.

Ela se diverte correndo para lá e para cá, pisando no chão que cheira a urina.

Nada foi tudo que ela sempre teve.

A inocência é a única riqueza que ela preserva.

Nós, pobres e tolos, nos acostumamos a fazer da dor que vemos apenas uma paisagem tolerável.

Mas eu não vejo ali uma derrota, eu não vejo ali uma escolha.

Eu não vejo ali a liberdade, eu não vejo ali qualquer esperança.

Apenas vejo, naquele rosto pequeno, a sobrevivência.

E, em cada um desses dias, os sonhos mais simplórios são sonegados, afogados em uma indiferença cruel.

As cascas de laranja e o odor de urina são o reflexo da nossa própria miséria, e não há perfume ou espelho que possa disfarçar.

Alguns já nascem sem futuro.

E eu espero apenas que logo não seja tarde demais.  

domingo, 3 de julho de 2016

Altamente impressionável

Em minhas mãos, o destino que não me pertence.

É tão bom o aroma que invade minhas narinas.

Nem tudo que acaba termina nas lembranças que persistem.

O motivo errado pode fazer seu coração pulsar.

Sorrio às escondidas para não me entregar, devaneio pelos cantos.

Eu ainda sonho porque ainda estou vivo.

Sou altamente impressionável, especialmente quando você me faz saber que existo.

É tão boa a sensação que desconheço.

Eu bem poderia ser por inteiro, e lhe observar durante toda a noite.

Minhas ilusões são cochichos doces e mentirosos em meus ouvidos. 

E eu mergulho, e eu desapareço. 

Mas acordo, a bordo de uma solidão incurável e dolorida.

Não existe distração suficiente nos labirintos da minha alma.

Percebo que a vigília apenas me corrói e me leva a um erro inconfessável.

Deixo o silêncio me anestesiar lentamente, postergando meu milagre para amanhã.

Menina em fuga

Ela está sempre correndo.

Ela está sempre em fuga.

Ela some na multidão.

Ela nunca encontrou o seu lugar.

Permanece sozinha, sendo engolida pelo oceano de pessoas.

Ficará assim até que encontre algum sentido.

Talvez ela nunca encontre...

sábado, 2 de julho de 2016

Doces

Bem-casado? Não mais.

Terminaram os beijinhos.

Acabaram-se os sonhos.

Então ele se prepara para um último suspiro.

Para logo depois, precisar tão somente de uma bala.