segunda-feira, 13 de junho de 2016

Novilíngua

Primeiro o politicamente correto tenta limitar as palavras que você pode dizer, com uma censura moral progressiva e asfixiante.

Com cada vez menos vocabulário, você formulará progressivamente menos frases.

Não me refiro a discursos de ódio estúpidos, raivosos e emburrecedores.

Refiro-me às coisas mais corriqueiras, à liberdade do dia a dia, da brincadeira, da risada, da livre expressão de opinião também, sem mimimis de maizena molhados em leitinho com pêra.

Refiro-me ao desarmamento do espírito, das patrulhas que com suas sirenes saem colocando o dedo na cara de qualquer um que vá contra a cartilha do estreitamento intelectual. 

Você é livre falar tudo que o politicamente correto tolera.

Com cada vez menos possibilidades de formulação de frases, você progressivamente diminui o leque do que pode pensar.

Você é livre, então, para pensar tudo que o politicamente correto tolera.

Claro, o politicamente correto vai tolerando cada vez menos ideias. Mas sempre em nome da tolerância!

Não vá cometer nenhuma crimideia! A polícia do pensamento está vigilante no Twitter, no Facebook e em notícias de grandes portais. 

Massificados, vamos pensando cada vez mais parecido.

Mais e mais restrições, e estamos pensando de modo absolutamente igual.

Até que um dia, você já não pensa por si mesmo, e nem mesmo é capaz de perceber isso.

O politicamente correto quer nos transformar em vegetais iludidos por uma falsa sensação de racionalidade.

Todos bunda-moles bem felizes e contentes com a tão sonhada diversidade de pensamentos iguais e unívocos. Uma bela distopia pra romancista nenhum botar defeito!

"Uma tênue ansiedade perpassou pelo rosto de Winston à menção do Grande Irmão. Isso, não obstante, Syme imediatamente percebeu nele uma certa falta de entusiasmo.

- Não aprecias realmente a Novilíngua, Winston - disse, quase com tristeza. - Mesmo quando escreves em Novilíngua, pensas na antiga. Tenho lido artigos teus no Times. São bons, mas são traduções. No teu coração, havias de preferir a Anticlíngua, com toda a sua imprecisão e suas inúteis gradações de sentido. Não percebes a beleza que é destruir palavras. Sabes que Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano? Winston naturalmente não sabia. Sorriu, com ar de simpatia (ao que esperava), não confíando em suas próprias palavras. Syme mordiscou outro fragmento do pão escuro, mastigou-o um pouco e continuou: - Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já, na Décima Primeira Edição; não estamos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente, mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita."
(Orwell, George. 1984. Disponível em https://kataklysma.noblogs.org/files/2016/02/1984-George-Orwell.pdf).

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