domingo, 5 de junho de 2016

Feras interiores

A noite chega para confundir seus caminhos.

Eis mais uma ocasião para mergulhar no abismo da alma.

Tão profundo, tão obscuro, tão encantadoramente assustador.

Os limites ficaram cada vez mais flexíveis, até que a liberdade lhe asfixiasse.

Ela não pode nem deve ser ensinada, apenas é ou não é sentida.

E então você emergiu para não mais voltar.

Os opostos se tocaram e foram fundidos quando a realidade plana foi dobrada por suas mãos.

Parece fácil brincar como se o tempo não trouxesse dívidas.

Você descobriu que um corte é dor, mas uma cicatriz é orgulho.

E agora parece óbvio como transformar vinho tinto em água.

Suas feras interiores se engalfinham e se devoram permanentemente.

Você apenas as mantém alimentadas e assiste ao seu espetáculo, sentado numa poltrona.

O estômago dói e queima intensa e ininterruptamente, até que não se sinta mais nada.

Todo costume é, em alguma medida, insípido, mas jamais será inodoro.

Não há mais euforia ou depressão.

Só restaram a superfície e as coisas que você escolhe sentir numa prateleira de supermercado.  

2 comentários:

Vanessa Dias disse...

Sorte de quem consegue dominar as feras...

http://l-desconhecido.blogspot.com.br/2016/06/aos-juizes-das-redes-sociais.html

Bruno Mello Souza disse...

Muito obrigado pela visita, Vanessa! Volte sempre!