quinta-feira, 30 de junho de 2016

Catálogo de ilusões

Cacos afiados adentram a pele dos meus dedos.

Sempre foi difícil comprar uma verdade forçada.

Estou em comunhão comigo mesmo.

Mas tenho necessidades que já não podem esperar.

Tenho um catálogo grande de ilusões para passar o tempo e mentir para mim mesmo.

A dor em doses homeopáticas quase não é sentida.

Vou fazendo o revezamento, varrendo as angústias novas para baixo do tapete.
  
Vou fazendo o revezamento, maquiando angústias velhas como se fossem esperanças.

Por isso me sinto bem mais confortável.

As palavras mais fáceis se tornaram difíceis.

Elas jorravam pela boca, mas a fonte secou.

Sei bem como fazer da instabilidade a minha estabilidade.

Desse jeito posso me tornar caricatura e rir de tudo que sou.

Tantos foram os sentimentos sem sentido.

Tenho muita vergonha, mas não peço perdão.

Apenas precisava de um lugar para deitar e descansar.

Eu me engano, eu não olho, eu não escuto.

Eu quebro o espelho que mostra quem eu me tornei.    

E deixo os cacos afiados adentrarem e pele dos meus dedos, tornando-se parte de mim.

Finalmente foi criada a intimidade que eu tanto quis durante cada segundo da minha vida.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pequena Babilônia

A espera da resposta da entrevista de emprego.

A água, a espuma, a louça.

O sono profundo na cama.

A briga, os gritos, as acusações.

A música.

O telejornal.

A conversa sobre saudosas épocas.

O sexo, os gemidos, a pele na pele.

A euforia.

A depressão.

O tédio.

A gargalhada.

O paraíso.

O inferno.

A esperança.

A desolação.

A paixão.

A indiferença.

Tudo ao mesmo tempo.

Tudo no mesmo prédio.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Dilemas Cotidianos Gourmet: como apreciar um bom vinho

Atendendo a pedidos, hoje apresento aqui algumas dicas para a apreciação adequada de um bom vinho. São maneiras requintadas, gostosas e surpreendentes para degustar elegante e saborosamente uma boa taça deste precioso líquido. Vamos a elas:

1. Com bolachas d'água com maionese: bolachas d'água fartamente cobertas com maionese são uma ótima pedida para acompanhar um maravilhoso vinho francês.

2. Com pipocas doces dos saquinhos rosas: uma combinação simplesmente sublime, especialmente com um sofisticado vinho chileno. Sugiro a marca Bilu.

3. Com feijão mexido: um clássico, ideal para acompanhar um Cabernet Sauvignon.

4. Com Pastelina: que tal um Chardonay dançando alegremente pelas papilas gustativas com o sabor incomparável de Pastelina?

5. Com Miliopã: perfeito para acompanhar um Vinho do Porto, numa noite romântica com "aquela pessoa", acalentada pelo fogo de uma bela lareira.    

6. No sagu: um sagu feito com Henry Jayer Richebourg fica divino. A sobremesa que vai lhe fazer flutuar.

domingo, 26 de junho de 2016

Loucura lucidamente escolhida

As ruas chamam pelo meu nome.

Mentiras estão coladas no chão, e eu posso pisá-las quando bem entender.

No fim todos perdem o jogo, então eu aproveito o quanto posso.

Já não é possível me enxergar, posso ser um vulto e deixar qualquer marca.

Estou me divertindo, mas não pense que sou igual ao que passou por aqui antes.

Essa seria uma desonra que eu não seria capaz de suportar.

Todos estão nus de suas hipocrisias, ruborizados e escondendo suas vergonhas.

Não faço esforço algum para não cair na gargalhada.

Não preciso nem sequer pedir desculpas porque sei quem eu sou.

Apenas os tolos se levam a sério, e na minha mais perfeita lucidez escolhi esta loucura.

Agora eu posso sentir tudo em um grau muito mais elevado.

E não sinto qualquer culpa ou arrependimento por causa disso.

sábado, 25 de junho de 2016

Lamento no vazio

Eu abraço uma esperança que nunca tive.

Eu acaricio o apego que nunca me pegou.

Eu beijo o amor que nunca se completou.

Eu perco o que nunca tive.

Eu me despeço de uma época que nunca vivi.

Fora de mim, tudo que sou se ausenta.

Eu apenas esvaeço e sou levado pelo vento que sopra sem direção.

Me vou sem que qualquer coisa sentida tenha tido valor ou sentido.
  
Porque minhas memórias, afinal, não são reais.

Porque minha realidade sempre foi composta por nuncas.

Rodolfo Fontoura voltará?

Resgato texto de 13 de agosto de 2012 (o original está aqui). Passaram-se quase quatro anos. Será que Rodolfo Fontoura tentará a sorte novamente no pleito municipal?

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Rodolfo Fontoura é o melhor candidato a vereador.

É jovem, fala bem, e é boa pinta.

Rodolfo Fontoura tem uma noiva gatinha e famosa.

Se ela o escolheu, por que você não o escolheria?

Rodolfo Fontoura é sangue novo na política!

É o candidato do PCP, o Partido da Causa Própria.

Vamos a algumas de suas propostas para a nossa cidade:

Saúde: Rodolfo Fontoura propõe uma lei que obriga todos os presentes a falarem "saúde" quando alguém espirrar.

Educação: Rodolfo Fontoura propõe a realização de um curso de capacitação dos professores da rede municipal com Glória Kalil: ela é autoridade quando se fala em finesse e boa educação!

Habitação: Rodolfo Fontoura encaminhará um projeto revolucionário para a habitação da cidade, o "Minha Maloca, Minha Vida", distribuindo folhas de jornal e papelão estilizado para os mendigos.

Segurança: Rodolfo Fontoura se compromete a apreender e consumir toda a droga vendida nos domínios do município; além disso, propõe a distribuição de máscaras do Capitão Nascimento para cada membro da Guarda Municipal: a bandidagem vai tremer!

Emprego: Rodolfo Fontoura propõe mais um programa revolucionário, o "Gabinete Carinhoso", criando muitos cargos públicos sem função alguma para empregar até o papagaio do eleitor.

Cultura: Rodolfo Fontoura propõe a criação da "Hora da Preta Gil" no rádio, para que os ouvintes desliguem o rádio e leiam um livro.

Já está mais do que provado, Rodolfo Fontoura é o mais preparado e com as melhores propostas!

Agora ninguém segura, é Rodolfo Fontoura na cabeça!

Vote Rodolfo Fontoura! 

Vote Partido da Causa Própria!

É 69666!

PS: Compareça ao grande comício de Rodolfo Fontoura! É no Zuleika's Drink Club! Consumação mínima de 25 reais, com direito a strip-tease ao vivo! Compareça! Venha manifestar o seu  apoio!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Dilemas Cotidianos Gourmet: pão francês com margarina

Ingredientes:
- Pão francês;
- Margarina.

Modo de preparo:
- Utilizando uma faca, abra o pão francês;
- Abra o pote de margarina;
- Passe a mesma faca com a qual abriu o pão sobre a margarina;
- Em seguida, passe a margarina que ficou na faca na parte interna do pão;
- Repita o procedimento no mínimo três vezes.
- Feche o pão francês.

Está pronto um delicioso pão francês com margarina. Bom apetite! E até a próxima, com mais uma receita especial para tornar seus dias mais saborosos! 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A primeira lembrança

Não lembro qual foi o big bang que originou minha vida.

Qual foi o exato momento em que passei a existir, a ter uma consciência?

Qual a minha primeira lembrança, dentre todas?

Talvez seja o picolé de laranja na praça.

Talvez seja a motoca amarela de plástico.

Talvez seja a mini tv em preto e branco com rádio embutido.

Talvez seja o quadro na parede, ilustrando uma igreja e suas montanhas.

Talvez seja o palhacinho de pano.

Talvez seja o mordedor de borracha marrom.

Talvez seja um banho na banheira sobre a cama.

Talvez seja minha mãe ou meu pai numa tarde ensolarada andando pelo bairro.

Qual, afinal, é a minha primeira lembrança, dentre todas as que eu possuo?

E a sua? Qual é a sua primeira lembrança, dentre todas as que possui?

terça-feira, 21 de junho de 2016

Monstros e heróis

Paira no ar a incompreensão da qual você não quer se libertar.

O rancor não se dissipa, o apego às desculpas rasas não lhe deixa enxergar.

Falar em monstros e heróis não faz sentido no ponto em que estamos. 

E talvez grande parte dessas coisas ruins pertença a você, sem ter a quem culpar.

Terminar a guerra não significa estar em paz.

O mundo nunca foi dividido em preto e branco.

Tudo poderia ser mais simples sem persistir no egocentrismo.

Acorde e abra a percepção para cada pequena coisa ao seu redor.

Resolva-se por dentro antes de querer falar como devemos ser.

A vida já é suficientemente áspera.  

domingo, 19 de junho de 2016

Parado sob a chuva

Em minha porta, um envelope que jamais abri contém uma carta que já sei que não saberei ler.

Desconheço as razões de tamanho temor.

Já compliquei muitas coisas simples, e já simplifiquei muitas coisas complexas.

Então sem fazer nada, eu me contento em ficar aqui sonhando.

Apenas espero por um milagre sussurrado em meus ouvidos ou revelado aos meus olhos.

Se esse dia chegar, poderei deixar minha alma flutuar nas nuvens da minha plenitude.

Por enquanto, eu finjo que nada aconteceu, e que nada poderia acontecer.

Permaneço aqui, parado sob a chuva, sem saber quantas flores mais morrerão mergulhadas em latas de lixo.

No fim das contas, não se trata só de amor, mas sim de algo totalmente aleatório.

Esperar ou correr, tanto faz.

Eu sempre estarei exatamente nesse mesmo lugar.

Curto e grosso

- Com licença, o senhor poderia me dar um segundinho de sua atenção?
- Não.

sábado, 18 de junho de 2016

A pomba branca

A pomba branca sobrevoa o céu azul.

Traz em si a paz, a promessa de um futuro melhor.

Em suas asas, leva a esperança que cada um carrega no coração.

Eu observo, admirado, o seu voo.

E então deixo meus olhos marejarem.

Ela acaba de cagar na minha camisa nova. 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Espera

Chego à sala.

Pego uma senha.

Sento na cadeira.

Leio a revista.

Levanto e bebo um copo da água do bebedouro.

Sento novamente.

Folheio o jornal.

Observo a televisão no mudo.

Sirvo-me um copinho de café, que termino em dois minutos.

Olho para o relógio e presto atenção nas pessoas que estão ali.

Estou na sala de espera, mas não estou esperando por nada.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Vela

A vida é como uma vela.

Acende, ilumina a escuridão disfarçada de ausência.

E vai se consumindo com seu próprio fogo.

Viver, afinal, é ir morrendo ininterruptamente.

No fim, somos apenas o sebo sem forma que sobra sobre o pires. 

E tudo volta à escuridão anterior.

Voltamos a ser apenas ausência, sem partida e sem chegada.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Desastre!

No atraso não percebido, desastre! 

No endereço não encontrado, desastre!

No cumprimento desajeitado, desastre!

No silêncio indesejado, desastre!

No vinho derramado, desastre!

Nas palavras mal escolhidas, desastre!

Na caminhada fria, desastre!

Na despedida após o desastre, o beijo!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Rubra água

O oceano imenso pode levar muitas coisas em suas correntes.

Mas não tem a capacidade de levar a dor por aquilo que se perdeu.

Às vezes, o fim e a sensação de paz são apenas o início da tormenta.

Na banheira inundada de rubra água ficaram as marcas da incompreensão.

Tantas vezes pareceu tão simples resolver o incômodo que angustiava.

O acerto está contido no erro, mas agora é tarde demais.

Não há mais como reagir contra o que já está acabado.

Porque o oceano imenso pode levar muitas coisas em suas correntes.

Mas nem todo o seu sal é capaz de cicatrizar a ferida que recém se abriu.

Ela foi o alvo mais fácil de uma monstruosidade aniquiladora.

Uma trindade profana faz evaporarem todas as esperanças contidas nessa oração.

Doce e sofrida vida, por que se foi quando tudo parecia tão próximo da normalidade? 

Novilíngua

Primeiro o politicamente correto tenta limitar as palavras que você pode dizer, com uma censura moral progressiva e asfixiante.

Com cada vez menos vocabulário, você formulará progressivamente menos frases.

Não me refiro a discursos de ódio estúpidos, raivosos e emburrecedores.

Refiro-me às coisas mais corriqueiras, à liberdade do dia a dia, da brincadeira, da risada, da livre expressão de opinião também, sem mimimis de maizena molhados em leitinho com pêra.

Refiro-me ao desarmamento do espírito, das patrulhas que com suas sirenes saem colocando o dedo na cara de qualquer um que vá contra a cartilha do estreitamento intelectual. 

Você é livre falar tudo que o politicamente correto tolera.

Com cada vez menos possibilidades de formulação de frases, você progressivamente diminui o leque do que pode pensar.

Você é livre, então, para pensar tudo que o politicamente correto tolera.

Claro, o politicamente correto vai tolerando cada vez menos ideias. Mas sempre em nome da tolerância!

Não vá cometer nenhuma crimideia! A polícia do pensamento está vigilante no Twitter, no Facebook e em notícias de grandes portais. 

Massificados, vamos pensando cada vez mais parecido.

Mais e mais restrições, e estamos pensando de modo absolutamente igual.

Até que um dia, você já não pensa por si mesmo, e nem mesmo é capaz de perceber isso.

O politicamente correto quer nos transformar em vegetais iludidos por uma falsa sensação de racionalidade.

Todos bunda-moles bem felizes e contentes com a tão sonhada diversidade de pensamentos iguais e unívocos. Uma bela distopia pra romancista nenhum botar defeito!

"Uma tênue ansiedade perpassou pelo rosto de Winston à menção do Grande Irmão. Isso, não obstante, Syme imediatamente percebeu nele uma certa falta de entusiasmo.

- Não aprecias realmente a Novilíngua, Winston - disse, quase com tristeza. - Mesmo quando escreves em Novilíngua, pensas na antiga. Tenho lido artigos teus no Times. São bons, mas são traduções. No teu coração, havias de preferir a Anticlíngua, com toda a sua imprecisão e suas inúteis gradações de sentido. Não percebes a beleza que é destruir palavras. Sabes que Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano? Winston naturalmente não sabia. Sorriu, com ar de simpatia (ao que esperava), não confíando em suas próprias palavras. Syme mordiscou outro fragmento do pão escuro, mastigou-o um pouco e continuou: - Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já, na Décima Primeira Edição; não estamos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente, mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita."
(Orwell, George. 1984. Disponível em https://kataklysma.noblogs.org/files/2016/02/1984-George-Orwell.pdf).

sábado, 11 de junho de 2016

O remédio e a salvação

O dia passa rápido demais, mas eu ando devagar.

Estou fugindo para poder permanecer onde estou.

Quero lhe dar algo que seja realmente bonito.

Todas as noites antes de dormir eu rezo para ser uma pessoa melhor.

Apenas deixo estar, mesmo transbordando por dentro.

Não possuo o egoísmo daqueles que querem tudo.

Mas preciso de algo que não desapareça com o amanhecer.

Temos o remédio e a salvação, precisamos apenas de um pouco de coragem.

Uma alma pode aquecer a outra, mas ninguém sabe o que está autorizado a querer.

Talvez seja melhor esperar e não me arriscar assim, bem no meio da rua.

Sinais verdes e vermelhos podem me guiar para que eu chegue ao meu aconchego.

O que não é verdade em mim, é apenas um sonho bonito.

Então não me condene por ser assim, há tanta coisa pior que não assusta ninguém.

Esse medo nos protege mas também nos mata lentamente.

A solidão nos consome por inteiro e deixa uma conta alta para pagar no caixa.

E se eu não tiver nada a dizer, estarei falando eloquentemente com meu silêncio.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Pureza banalizada

A criança está suja no chão.

O barro é seu único brinquedo.

Qual será seu futuro?

A pureza é banalizada.

Sorri para a dor que a cerca.

Será que a inocência foi corroída?

A criança pode nos redimir.

Mas estivemos muito distraídos com nossas coisas de gente grande.

Então como podemos fazê-la crer que a vida é bonita?

Isso não pode ser um jogo de sorte ou acaso.

Dê-me a esperança de que ela não vai mudar.

Mas como ter esperança se nos recusarmos a mudar nós mesmos?  

Sentada no meio-fio gelado

Aquela garota está descalça no meio da rua.

Ela procura por algo, não sabe o quê, não sabe onde.

Apenas encontra o que não precisava encontrar.

Ela vê o que tinha medo de ver.

E deixa esmagar seu coração tão cheio.

Já poderia ter ido embora há muito tempo.

Mas não se cansa de se cansar.

Tudo fica bem na eterna permanência da impermanência.

Conformada, ela senta no meio-fio gelado.

Logo chegará mais uma manhã igual a tantas outras.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Para nunca mais

Naquela noite, tudo fluiu com perfeição.

Ela me fitou, ela me beijou.

A vida mostrava sua faceta mais bonita.

Eu dormi feliz, eu sonhei.

Pensei que era para muito tempo.

Talvez até para sempre.

Mas era para nunca mais.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Calmo em excesso

O papel já vem rasgado e sem uso.

Amanhã nunca chega, todos os fatos são mentirosos.

Dentro da caixa não há espaço para respirar.

Estamos prestes a pensar o que nunca poderíamos.

Encontro toda a riqueza oculta na miséria.

Posso escolher qualquer sonho, mas sempre escolho sonhar a mesma coisa.

Quanto tempo seria suficiente para que eu voltasse a mim mesmo?

Estou calmo em excesso, e preciso mover o mundo que tenho em minhas mãos.

O fim ainda está muito, muito longe.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Espelho mudo

O espelho emudeceu, ficou pálido.

Abriram-se novas rotas ligando um ponto a outro.

A eloquência de tantas histórias deixou-se tomar pelo silêncio dos traços.

No reflexo, o registro de tudo que se foi, dos beijos, das lágrimas, dos cheiros.

A beleza e a imperfeição dançam sobre as cinzas da existência. 

A obra se movimenta, se observa, se espanta. 

O tempo não espera, atropela.

E quando se percebe, uma vida toda já se passou. 

domingo, 5 de junho de 2016

Feras interiores

A noite chega para confundir seus caminhos.

Eis mais uma ocasião para mergulhar no abismo da alma.

Tão profundo, tão obscuro, tão encantadoramente assustador.

Os limites ficaram cada vez mais flexíveis, até que a liberdade lhe asfixiasse.

Ela não pode nem deve ser ensinada, apenas é ou não é sentida.

E então você emergiu para não mais voltar.

Os opostos se tocaram e foram fundidos quando a realidade plana foi dobrada por suas mãos.

Parece fácil brincar como se o tempo não trouxesse dívidas.

Você descobriu que um corte é dor, mas uma cicatriz é orgulho.

E agora parece óbvio como transformar vinho tinto em água.

Suas feras interiores se engalfinham e se devoram permanentemente.

Você apenas as mantém alimentadas e assiste ao seu espetáculo, sentado numa poltrona.

O estômago dói e queima intensa e ininterruptamente, até que não se sinta mais nada.

Todo costume é, em alguma medida, insípido, mas jamais será inodoro.

Não há mais euforia ou depressão.

Só restaram a superfície e as coisas que você escolhe sentir numa prateleira de supermercado.  

sábado, 4 de junho de 2016

Realidade mastigada

Na parede, a marca de quem um dia eu fui.

Minha expressão não muda, meu espírito está em perfeita ordem.

O tempo me moldou assim, capaz de permanecer pacífico em meio ao caos.

Inverteram-se as lógicas, e temos que partir do ponto de chegada.

As coisas mais fáceis exigem o maior sacrifício.

Basta esperar que tudo permaneça exatamente como está.

Um avião no céu leva consigo meus sonhos para um lugar melhor.

Fico com a realidade mastigada, acomodado em um canto sem prazer e sem martírio.

Com as luzes apagadas, sou mantido refém dos ruídos, toques, cheiros e gostos.

Posso ver mais coisas do que nunca, minha mente não quer parar.

Na gaveta do quarto, guardo todas as cartas que desisti de escrever.    

Meus sentimentos são papeis em branco, esperando por um conteúdo a ser inventado.  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A tragédia se transformou em comédia

Cheguei de mãos vazias, olhe nos meus olhos.

É melhor você aceitar, as coisas agora são assim.

Sou apagado na sua sobriedade, então preciso ser algo permanente.

Posso rir agora mesmo daquilo que não me faz falta alguma.

A tragédia se transformou em comédia, eis a grande sorte da vida.

Suas verdades envelheceram até se tornarem mentiras.

Mas você ainda não se deu conta de tudo que aconteceu.

Escolho para onde olhar, tenho a liberdade na palma da minha mão.

Embaralho todas as palavras, e isso ainda faz sentido.

São tantos os ladrões que querem roubar minha essência, mas eu conheço cada movimento.

Ainda sou o mesmo, mesmo que você se recuse a aceitar isso.

Tenho tantas coisas para me distrair enquanto espero que nada aconteça.

Nesse mundo que você criou, vencem aqueles que fingem que se importam.

Mas entenda, eu não tenho motivos para fingir, porque não vejo motivos para vencer. 

Voltei para o meu próprio paraíso antes de acordar.

E as pedras que estou quebrando são apenas pedaços de mim mesmo.

Não tenho mais dívida alguma para pagar. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Resquícios

Tudo virou esquecimento.

Não existem motivos para voltar.

Pela janela já voaram as promessas não cumpridas.

E se foram as expectativas de início de noite.

Pelo ralo, desceram as palavras e riscos calculados.

E ao longe partiram as vontades enferrujadas.

O tempo perdido não volta.

Mas há no espírito a vontade de se despir dos vícios e resquícios incômodos.

E pulsa o renascimento daquilo que sempre quis ser.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Andando devagar

Ando devagar.

Piso com calma.

Nesse chão que às vezes parece tão firme, há tantas armadilhas escondidas.

Não, eu não aceito cair.

Evito qualquer risco, não posso me ferir agora.

E continuo assim, mesmo sem saber se vou chegar a algum lugar.