sábado, 28 de maio de 2016

Sobre cultura do estupro e responsabilidades do indivíduo

Com o advento horroroso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, é evidente que as pessoas param para refletir e pensar em como a espécie humana chegou a tal fundo de poço.

Mas deve-se tomar muito cuidado para não cair em generalizações absolutamente tacanhas e contraproducentes.

Nessa onda de indignação justificada, Pitty perdeu uma grande chance de não falar bobagem.

Quando diz: "Parem de relativizar estupradores como 'doentes'e 'monstros'. Acima de tudo, eles são homens e fizeram porque aprenderam que podiam fazer", na verdade é ela, Pitty, quem está relativizando estuprador.

Afinal, não é culpa deles. É culpa da cultura do estupro. Eles são apenas seres orgânicos que aprenderam que pode.

Seguindo essa lógica, é até um perigo para ela, Pitty, ficar viajando e fazendo shows por aí com sua banda, composta por homens. Afinal, "acima de tudo eles são homens e aprenderam que podem fazer".  

A roqueira mergulha num raciocínio binário paupérrimo entre cultura e indivíduo que tira toda e qualquer possibilidade de ação individual. 

É uma construção de pensamento tão tosca quanto seria a de afirmar que o indivíduo é soberano e plenamente racional em todos os seus atos diante da sociedade.  

A Pitty é uma pessoa que reputo como inteligente. Pode mais do que isso.

A importância da cultura não anula um certo grau de autonomia do indivíduo. E este certo grau de autonomia do indivíduo não anula a importância da cultura. 

Existe uma cultura do estupro, especialmente no Brasil? Sim, isso me parece bastante evidente. 

Isso significa que todos os homens são potenciais estupradores? Não!  

A cultura do estupro facilita que doentes e monstros façam as barbaridades que fazem. Ela oferece combustível e "justificativas" para certos horrores promovidos pelos sujeitos. Mas nem por isso eles deixam de ser "doentes" (assim, entre aspas mesmo) e monstros da pior espécie.

Se tirarmos do indivíduo as responsabilidades sobre seus atos quando imerso numa "cultura", a Pitty deveria agora mesmo parar o que estiver fazendo para relativizar Eduardo Cunha, por exemplo.

Afinal, ele só é corrupto porque é político. E como sabemos, existe uma "cultura da corrupção" no Brasil. E ele só faz o que aprendeu que pode fazer.

Dá para perceber o nível de perversidade das consequências que esse tipo de argumento empobrecido pode trazer?  

Questões culturais são fundamentais como norteadoras de certas lógicas. Elas ajudam a compreender uma série de fenômenos sociais, políticos, econômicos e comportamentais. Quando são perversas, viciadas e desumanas, devem ser combatidas de peito aberto. 

Mas, por favor, não transformemos os indivíduos em laranjas mecânicas que agem por puro condicionamento. 

Não insultem ou subestimem quem numa cultura do estupro não é estuprador, quem numa cultura de corrupção não é corrupto, ou quem numa cultura de violência não é violento. 

É possível, sim, chamar de monstro quem é monstro, sem deixar de considerar a existência de "facilitadores culturais". Basta abrir mão do binarismo obtuso dos raciocínios enlatados.  

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