domingo, 8 de maio de 2016

Relato de um humano em fuga após a invasão do planeta

Não sei quem está lendo isso nesse momento. Não sei nem se alguém algum dia poderá ler isso, afinal. Consegui escapar do meu dono e encontrar esse antigo computador. A invasão foi devastadora, e lá se vão uns dez anos desde que eles chegaram por aqui. Estou escondido. Não sei até quando conseguirei sobreviver ou mesmo ficar nessa liberdade desalentadora. O cenário é desesperador.

Chegaram esses alienígenas e instituíram, à força, sua nova ordem. Eles são enormes, do tamanho de grandes edifícios. Parecem não entender nosso idioma. Se compreendem, a crueldade é ainda maior. Porque não adianta gritar, implorar, pedir por nossos filhos, suplicar em nome de Deus ou de todo amor existente. Eles não nos ouvem e têm feito barbaridades. Eles nos usam.

Eu ainda fui sortudo. Em mim, colocaram uma espécie de coleira. Mantinham-me acorrentado e preso. Alimentavam-me com frutas e pedaços de carne de frango. Vez por outra, eles davam-me sobras frias de suas refeições. Mas aquilo não era vida. Não para mim. Ainda assim, parece ser a melhor vida que um humano pode levar nos dias de hoje. Outros tiveram sorte pior.

Alguns são mantidos em cubículos, e neles são obrigados a reproduzir-se com mulheres aleatórias. Ninguém escolhe ninguém. Uns são jogados com os outros e devem dançar conforme a música. As mulheres ainda têm de fornecer seu leite, numa espécie de ordenhadeira. É grotesco.

Existem ainda matadouros de gente. Os gritos são horríveis e causam uma profunda dor na alma. Nós somos servidos em banquetes. Dependendo do tamanho da festa, ficamos expostos, assados com uma maçã na boca e olhos arregalados, naquela imensa mesa. 

Nos vendem em caixas, também. Somos carne congelada. Às vezes em pedaços, às vezes moídos, às vezes em forma de uma massa achatada e circular. As carnes mais nobres e caras são as dos nossos bebês. São mais macias, pelo que consta. É triste e doloroso. É surreal. O mais irônico é que, nessas caixas, desenham humanos com rostos felizes. Que raio é esse? Por que estaríamos felizes e sorridentes para quem nos mata e vai nos devorar logo em seguida? Não faz nenhum sentido!

Também fazem vestimentas, tapetes e sapatos com nossas peles. No que sobrou de floresta, somos caçados e mortos. Alguns de nós são empalhados e pendurados na parede como troféus. Simplesmente inacreditável.  

Eles não têm limites. Promovem, ainda, espetáculos lamentáveis às nossas custas. Alguns homens são colocados numa arena para enfrentar esses enormes aliens. Não há saída ou chance de vitória. Na maioria esmagadora das vezes, terminamos esfaqueados e mortos, enquanto a plateia vibra enlouquecidamente. Não dá para acreditar em tamanha barbárie. 

Não vejo perspectiva alguma além dessa sobrevivência imediatista, dessa liberdade medrosa que tenho que viver pelos cantos. Se algum deles me encontrar vagando pelas ruas, serei levado a uma prisão na qual humanos sem dono são empilhados. Obviamente, não quero isso. É degradante.

Eu não imaginava que algum dia chegaríamos a esse ponto. Eu jamais poderia imaginar que em algum lugar distante desse tremendo universo existiriam seres tão esmagadores e frios que nos subjugariam de maneira tão inapelável e feroz. 

São certamente inferiores a nós, embora tenham postura de dominação e superioridade. Parecem pensar que são vida evoluída, mas não alcançaram o nível de civilização que nós, humanos, alcançamos. Jamais faríamos coisas daquele tipo. Eles têm muito a aprender, ainda. Eles são absurdamente desumanos...  

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