segunda-feira, 30 de maio de 2016

A euforia do que meus olhos não vêem

Deixei os pratos quebrados na pia.

Na minha porta, a tristeza das partidas e a esperança das chegadas.

Talvez por isso eu nunca a tenha deixado chaveada, apesar dos riscos.

É tão bonita a vida simplesmente continuando.

Uma confissão bem dita abre infinitas possibilidades.

E não há motivos para negar esse bem-estar que me invade.

O imaginado por um instante torna-se uma pintura sagrada decorando a mente.

Eu me deixo levar pela euforia do que meus olhos não vêem.

Basta sentir e repetir as palavras mágicas, até que tudo se preencha de significado.

O que é meu de verdade não precisa ser pedido.

O que é meu de verdade jamais será perdido.

Vejo claramente que não cheguei ao meu fim.

Eu posso recomeçar do meio e fazer tudo ainda muito melhor.

Olho para você, encontro o tanto que havia perdido nesse tempo.

Fiquei tão leve ao me ver tão vivo num gosto doce que não foi extraviado.

Nunca foi tarde demais, e agora eu posso deitar e lhe agradecer.

O caos e a fúria agora são a calmaria do seu colo.

E a escuridão permite-se tingir pela luz da vela.

Não é preciso mais enterrar no peito a faca do remorso.

Estou em paz com o que tenho, com o que estou ganhando, e com o novo dia que está por nascer.

domingo, 29 de maio de 2016

Ausência ruidosa

É muito cômodo e reconfortante deixar que as palavras se percam ao vento.

Tudo que um dia foi sentido morre lentamente de frio e fome.

A paz da respiração profunda é suficiente.

Sou livre o bastante para ser uma afirmação certeira ou uma negação cortante.

Escolhi ser quem sou, sem qualquer arrependimento.

Me perdi para terminar ganhando.

Sei bem como ser uma ausência ruidosa.

Fingimos não ter tempo para não mais confrontarmos nossos demônios.

Saio sem nenhum arranhão por não me importar com aquilo que machuca aqueles que se amam em excesso.

Escolhi estar onde estou, sem qualquer promessa falsa.

Oh, não é tão difícil entender que nunca abri mão de mim mesmo.

E se não fosse eu que estivesse aqui, as lâminas já teriam perdido seu fio.

Oh, é tão fácil entender que o que está em jogo é bem diferente.

E eu até concordo que precisaria me levantar, se algum dia tivesse caído.   

Sobras em desordem

O silêncio à mesa misturava-se às migalhas espalhadas.

Somos assim mesmo, sobras em desordem, dançando com o ar de lábios que nada dizem.

Segundos tornaram-se intermináveis horas.

Mais e mais devagar, posso flertar com meus próprios limites.

Estou exatamente sobre a fronteira, mantendo a sensação de controle.

Eu me resgato do fundo da minha própria alma, transformada em geleia.

Você não me entende, e eu prefiro não lhe entender.

Posso rir sem motivo e me divertir com o que sou.

Em meu sentido mais preciso deixo a eletricidade passar por minhas veias e artérias.

Se eu não pudesse voltar, seria sugado pelo remorso da eternidade.

É mais fácil ter apenas um pouco do que arriscar tudo que se tem.

Qual é exatamente o momento que poderia demorar um tanto mais?

Sempre iremos guardar dias que jamais terminaram.

No vazio do horizonte, que fingimos admirar, estão nossas respostas mais complexas.

Entre meus dedos, esmagado, jaz o meu coração.

E todas as coisas agora se tornaram extremamente simples. 

sábado, 28 de maio de 2016

Sobre cultura do estupro e responsabilidades do indivíduo

Com o advento horroroso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, é evidente que as pessoas param para refletir e pensar em como a espécie humana chegou a tal fundo de poço.

Mas deve-se tomar muito cuidado para não cair em generalizações absolutamente tacanhas e contraproducentes.

Nessa onda de indignação justificada, Pitty perdeu uma grande chance de não falar bobagem.

Quando diz: "Parem de relativizar estupradores como 'doentes'e 'monstros'. Acima de tudo, eles são homens e fizeram porque aprenderam que podiam fazer", na verdade é ela, Pitty, quem está relativizando estuprador.

Afinal, não é culpa deles. É culpa da cultura do estupro. Eles são apenas seres orgânicos que aprenderam que pode.

Seguindo essa lógica, é até um perigo para ela, Pitty, ficar viajando e fazendo shows por aí com sua banda, composta por homens. Afinal, "acima de tudo eles são homens e aprenderam que podem fazer".  

A roqueira mergulha num raciocínio binário paupérrimo entre cultura e indivíduo que tira toda e qualquer possibilidade de ação individual. 

É uma construção de pensamento tão tosca quanto seria a de afirmar que o indivíduo é soberano e plenamente racional em todos os seus atos diante da sociedade.  

A Pitty é uma pessoa que reputo como inteligente. Pode mais do que isso.

A importância da cultura não anula um certo grau de autonomia do indivíduo. E este certo grau de autonomia do indivíduo não anula a importância da cultura. 

Existe uma cultura do estupro, especialmente no Brasil? Sim, isso me parece bastante evidente. 

Isso significa que todos os homens são potenciais estupradores? Não!  

A cultura do estupro facilita que doentes e monstros façam as barbaridades que fazem. Ela oferece combustível e "justificativas" para certos horrores promovidos pelos sujeitos. Mas nem por isso eles deixam de ser "doentes" (assim, entre aspas mesmo) e monstros da pior espécie.

Se tirarmos do indivíduo as responsabilidades sobre seus atos quando imerso numa "cultura", a Pitty deveria agora mesmo parar o que estiver fazendo para relativizar Eduardo Cunha, por exemplo.

Afinal, ele só é corrupto porque é político. E como sabemos, existe uma "cultura da corrupção" no Brasil. E ele só faz o que aprendeu que pode fazer.

Dá para perceber o nível de perversidade das consequências que esse tipo de argumento empobrecido pode trazer?  

Questões culturais são fundamentais como norteadoras de certas lógicas. Elas ajudam a compreender uma série de fenômenos sociais, políticos, econômicos e comportamentais. Quando são perversas, viciadas e desumanas, devem ser combatidas de peito aberto. 

Mas, por favor, não transformemos os indivíduos em laranjas mecânicas que agem por puro condicionamento. 

Não insultem ou subestimem quem numa cultura do estupro não é estuprador, quem numa cultura de corrupção não é corrupto, ou quem numa cultura de violência não é violento. 

É possível, sim, chamar de monstro quem é monstro, sem deixar de considerar a existência de "facilitadores culturais". Basta abrir mão do binarismo obtuso dos raciocínios enlatados.  

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Calmo e aprazível

A tempestade já passou.

Agora começa um novo tempo.

Durma em paz e espere o dia que logo vem.

O mar é calmo e aprazível.

Um riso leve embala meu coração.

A pintura muda sua tonalidade.

Sei quem sou, e ainda me descubro.

E tudo acabou valendo a pena.  

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Fome insaciável

Um desaparecimento num beco escuro não chama a atenção.

As luzes que enfeitam não mostram os rostos.

Lentamente, as almas se desmancham na multidão.

Amanhã não restarão recordações.

Um significado até então oculto agora está aflorando.

Os olhos tornaram-se mudos, e conseguem seu esconderijo perfeito.

Tudo é rotina e normalidade, já não se pode sentir o cheiro do esgoto a céu aberto.

O sorriso de canto de boca é quase imperceptível.

A fome é insaciável, e jamais dará descanso.

Na inadequação reside o prazer maior.

E o anseio mais pesado torna-se mais leve que uma pena.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Uma maneira inovadora de me proteger

Acenda-se o fósforo, agora posso enxergar melhor.

Tenho guardadas muitas respostas que não vou compartilhar.

As mudanças dentro de nós, elas são inevitáveis.

Não sinto mais dor quando me machuco.

Todos temos a cura dentro da nossa alma.

Eu mergulho novamente e me escondo sob a água.

Procuro uma maneira inovadora de me proteger.

Mais dúvidas e angústias podem acabar com meus dias.

Então me deixo morrer mais uma vez para nascer de novo.  

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Não desejo mais voar

O toque áspero desperta novos sentimentos.

Um canto ao longe vem trazer uma boa nova.

Eu mexo minhas peças sem quebrar as regras.

Cada pedacinho da minha morada apresenta uma pista diferente.

Posso compreender cada grito, já não ouço os ruídos.

A distância aproximou para a proximidade afastar.

Tenho todas as respostas das quais eu precisava.

Bastou eu aprender a lamber o sangue que brotava dos cortes na minha pele.

Não há necessidade de suspiros ou respiração pesada.

Minhas tolices foram todas enterradas e se decompõem sob a terra.

Não desejo mais voar, tampouco tenho motivos para afundar.

Fico aqui assistindo a tudo e rindo das coisas que um dia eu já fui. 

sábado, 21 de maio de 2016

Que tudo seja melhor

Lave bem seu rosto e se olhe no espelho.

No fim de tudo, a questão é sobreviver.

E você sobreviveu.

Os erros não podem pesar sobre suas costas.

Liberte-se agora mesmo para continuar andando.

Equívocos e exageros vão nos tornando mais lúcidos.

Amanhã, tudo estará mais calmo, há algo maior pela frente.

Então você pode simplesmente beber a água que cai com essa tormenta.

A dor se ausenta por um segundo que pode durar uma eternidade.

Perceba o milagre que a existência proporciona a todo momento sem que valorizemos.

Sorria e recrie seu próprio mundo, recolha do chão o que há de melhor em você.

Porque a solidão sempre será ilusória, uma peça pregada para que possamos sentir além do que vemos.

Que tudo seja melhor, que prevaleça a vontade de viver.

Um pitaco sobre os tratamentos que o SUS não tem condições de oferecer

Trecho de entrevista concedida advogada Lenir Santos, que participou da criação do SUS (leia a íntegra aqui), para a Época, em outubro do ano passado:

ÉPOCA – A quantidade de cidadãos que entram na Justiça para conseguir drogas e procedimentos não oferecidos pelo SUS aumenta ano após ano. Isso desorganiza qualquer planejamento. Como lidar com esse conflito?
Lenir – Alguns vácuos legislativos impedem que a chamada judicialização da saúde se resolva. Não é possível oferecer todo e qualquer recurso que um cidadão exija na Justiça. A saúde é um direito que custa. O céu não pode ser o limite. Nenhum país oferece tudo a todos. Toda nação com bom sistema público de saúde oferece apenas os tratamentos e procedimentos previstos numa lista. É assim no Reino Unido, na França, na Espanha, no Canadá. A lista permite que o Estado faça escolhas. O Brasil tem duas listas: uma de medicamentos essenciais (Rename) e outra de ações e serviços de saúde (Renases). O problema é que o Judiciário não reconhece essas listas. Os juízes continuam favorecendo pacientes que pedem produtos não oferecidos pelo SUS. Eles se baseiam no Artigo 196 da Constituição: “Saúde é um direito de todos e um dever do Estado”. 


ÉPOCA – Por que os juízes não entendem que o dever do Estado é oferecer o que está definido nessas listas?
Lenir – O juiz lida com o sofrimento humano. Essas ações têm um apelo sentimental enorme. A pessoa está doente. O juiz pensa: “Não vou deixar morrer”. Os juízes deveriam considerar que todo direito que custa tem de ter uma delimitação. É preciso ter uma previsão orçamentária. É preciso ter noção do que é razoável exigir do Estado.  

Pois bem, o raciocínio da advogada é extremamente lógico e válido. Ao mesmo tempo, não se pode simplesmente sonegar esperanças e o direito à vida e à saúde a pessoas que simplesmente não podem pagar por isso. Determinados tratamentos de fato são caros e geram desequilíbrio orçamentário. Mas é cruel que condições sócio-econômicas delimitem as fronteiras da vida e da morte, da esperança e do desalento. 

Aos que choram por isenção fiscal para financiamento de filmes ruins e peças de teatro grotescas com uns sujeitos enfiando os dedos nos rabos dos outros, faço uma proposta de pauta: em vez disso, que tal propor e lutar por uma lei que equilibre um pouco essa deficiência orçamentária e permita isenções fiscais para empresas que financiem os tratamentos não previstos pelo Estado para as pessoas que não tenham as condições financeiras para realizá-los? O que achariam de uma "Rouanet da saúde"?

Essa causa eu abraçaria com gosto, e na hora.  

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Dentro da gaveta

Já não temos mais o que discutir.

Sempre falamos sobre a mesma liberdade.

Precisamos de um tremendo esforço para disfarçar o tédio.

As chances que se esgotaram em nossas mãos, não as temos mais.

Todas as belas palavras tornaram-se pálidas dentro da gaveta.

Elas estão bem ao lado do meu frasco de comprimidos.

Inventarei algum motivo para me distrair de mim mesmo.

Lentamente, fui perdendo todos os sentidos.

Não encontro mais ar para os meus pulmões.

Abra a janela para que eu possa respirar.

Não há mais nada para ser sacrificado.

Agora acenda a lareira e queime todas as fotos.

A fumaça terminará por nos consumir sem que sintamos dor. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Cinzas e cacos de vidro

Ela surge para tirar tudo do lugar.

E não consegue encontrar nada logo depois.

Suas vontades não existem mais.

E as esquinas mudam de lugar a todo momento.

A bagunça da casa é a bagunça da cabeça.

Cinzas e cacos de vidro poderiam perfeitamente ser uma ilustração do seu espírito.

Sonhos e pesadelos são uma pintura vaga, com tintas que saem voando pela janela.

Ela sabe bem de cada coisa que esquece.

E precisa errar um pouco mais, apenas para não perder o costume.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Projéteis

Eu recebi uma mensagem em minhas mãos.

Sobrevivo à minha maneira, e vou inventando um novo caminho.

Marcas nas ruas e nos corpos são um alerta de onde estou.

Verdades tornaram-se mentiras sem que ninguém pudesse fazer nada.

Suas palavras são projéteis e eu aprendi a me proteger.

Não preciso mais saber o que vem pela frente.

Não preciso mais saber quem você é.

Hoje me basta quem eu sou.

E tudo ficou muito mais claro para mim.

O brilho que cega não possui qualquer beleza.

E agora eu posso saber como é bom poder enxergar.

sábado, 14 de maio de 2016

Humanidade vassala

Estive me distraindo enquanto os dias viravam fumaça.

Tinha tanto a fazer, tanto a esquecer, que acabei me deixando de lado.

Preciso ficar aqui esperando, até que o desespero me invada.

É um jogo em que resisto o máximo que posso, mas sempre perco.

Minha salvação é uma utopia, e toda energia que reservei se vai numa única explosão.

Era tão fácil quando falavam da minha loucura e eu podia me libertar na prisão de um quarto.

Mas a noite sempre sopra bobagens ao pé do ouvido.

Reina minha humanidade vassala para que eu possa continuar conduzindo meu desastre.

Posso contar mil vezes a mesma história para você e em todas lhe espantar e afastar.

Eu me protejo me expondo, fingindo que já não tenho consciência ou convicção.

Apenas venha e salve-me, apenas venha e suma mais uma vez.

Porque parece que não me canso dos maus tratos e do seu descaso, tatuado em minha pele.

Parece que não me canso de apanhar e pedir desculpas para que você volte.

Picadão

- Boa noite, senhor, qual vai ser o pedido?
- Boa noite, vou querer esse picadão aqui. Parece bem bom, né? Ando de dieta mas hoje resolvi botar o pé na jaca.
- Ótima pedida. É uma delícia, é bem servido e tem muita coisa boa.
- Ainda bem. São 60 reais, né?
- Isso mesmo.
- Ok, é um preço justo. 
- Completinho, com tudo?
- Não, não. Vou querer o picadão sem os coraçõezinhos, sem as iscas de filé, sem a calabresa, sem os queijos, sem a polenta frita, sem os ovos de codorna, sem as cebolinhas, e sem as azeitonas.
- Hum... Ok... Mas daí só tem aquelas folhas de alface que vêm por baixo...  
- Isso, isso mesmo! É exatamente assim que eu gosto! Quero as folhas de alface. Demora muito?
- Uns dez minutinhos, senhor.
- Ah, melhor assim. Estou morrendo de fome. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Não sobrou nada

Não quero lhe dizer nada, e não vou mesmo dizer.

Não fique esperando por mais um canto monótono para amenizar suas próprias palavras.

Sou apenas uma recusa, não preciso ser entendido.

O que você pensa ou quer já não me interessa.

Aprendi o suficiente para saber quais são minhas necessidades.

O tempo me tornou mais forte e imune às tempestades da vida.

Não abro mão do meu caminho, não há rancor que me pare.

Posso me divertir o suficiente enquanto você expõe seu amargo desdém.

Sei bem o que me pertence e o que sou, nem tenho mais sangue para você beber.

Talvez lhe doa o atrito, e talvez lhe machuquem as coisas que você não sabe aceitar.

Mas não tenho culpa por manter minha mente alerta e sem medo do que possam dizer.

Estou rindo, porque não sobrou nada.

E assim me vou, com o coração leve por sempre ter sido quem eu quis ser.  

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Um pouco mais amargo

Você passa a corda pelo meu pescoço.

Não tenho nenhum pedido a fazer.

Você não aceita que eu diga ou pense.

Estou aqui e me recuso a me render.

Você espuma e mergulha na insanidade.

Mas minha alma não está à venda.

Você não consegue deixar de mentir ou agredir.

O remédio sempre pode ser um pouco mais amargo.

Ficamos e passamos, inertes com o vento esbofeteando o rosto.

E permanecemos contemplando o destino que dança, canta e nos provoca.

Olhando sem ver, escutando sem ouvir, falando sem dizer...  

terça-feira, 10 de maio de 2016

10 coisas que o Waldir Maranhão poderia anular

1. A criação da fitinha de "abre fácil". Anula, Maranhão!

2. Frutas cristalizadas no panetone. Anula, Maranhão!

3. O cd da Suzana Vieira. Anula, Maranhão!

4. O final de "How I Met Your Mother". Anula, Maranhão!

5. O uso do coentro como tempero. Anula, Maranhão!

6. O comercial do Fiat Mobi. Anula, Maranhão!

7. A execução do Hino Nacional- e dos estados- antes de partidas entre clubes. Anula, Maranhão!

8. O último filme dos Cavaleiros do Zodíaco. Anula, Maranhão!

9. A ascensão do Partido Nacional Socialista na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Anula, Maranhão!

10. A participação da Glória Pires na transmissão do Oscar. Anula, Maranhão... Ah, não, espera. Não anula, não. Foi divertido pra caramba!

domingo, 8 de maio de 2016

Relato de um humano em fuga após a invasão do planeta

Não sei quem está lendo isso nesse momento. Não sei nem se alguém algum dia poderá ler isso, afinal. Consegui escapar do meu dono e encontrar esse antigo computador. A invasão foi devastadora, e lá se vão uns dez anos desde que eles chegaram por aqui. Estou escondido. Não sei até quando conseguirei sobreviver ou mesmo ficar nessa liberdade desalentadora. O cenário é desesperador.

Chegaram esses alienígenas e instituíram, à força, sua nova ordem. Eles são enormes, do tamanho de grandes edifícios. Parecem não entender nosso idioma. Se compreendem, a crueldade é ainda maior. Porque não adianta gritar, implorar, pedir por nossos filhos, suplicar em nome de Deus ou de todo amor existente. Eles não nos ouvem e têm feito barbaridades. Eles nos usam.

Eu ainda fui sortudo. Em mim, colocaram uma espécie de coleira. Mantinham-me acorrentado e preso. Alimentavam-me com frutas e pedaços de carne de frango. Vez por outra, eles davam-me sobras frias de suas refeições. Mas aquilo não era vida. Não para mim. Ainda assim, parece ser a melhor vida que um humano pode levar nos dias de hoje. Outros tiveram sorte pior.

Alguns são mantidos em cubículos, e neles são obrigados a reproduzir-se com mulheres aleatórias. Ninguém escolhe ninguém. Uns são jogados com os outros e devem dançar conforme a música. As mulheres ainda têm de fornecer seu leite, numa espécie de ordenhadeira. É grotesco.

Existem ainda matadouros de gente. Os gritos são horríveis e causam uma profunda dor na alma. Nós somos servidos em banquetes. Dependendo do tamanho da festa, ficamos expostos, assados com uma maçã na boca e olhos arregalados, naquela imensa mesa. 

Nos vendem em caixas, também. Somos carne congelada. Às vezes em pedaços, às vezes moídos, às vezes em forma de uma massa achatada e circular. As carnes mais nobres e caras são as dos nossos bebês. São mais macias, pelo que consta. É triste e doloroso. É surreal. O mais irônico é que, nessas caixas, desenham humanos com rostos felizes. Que raio é esse? Por que estaríamos felizes e sorridentes para quem nos mata e vai nos devorar logo em seguida? Não faz nenhum sentido!

Também fazem vestimentas, tapetes e sapatos com nossas peles. No que sobrou de floresta, somos caçados e mortos. Alguns de nós são empalhados e pendurados na parede como troféus. Simplesmente inacreditável.  

Eles não têm limites. Promovem, ainda, espetáculos lamentáveis às nossas custas. Alguns homens são colocados numa arena para enfrentar esses enormes aliens. Não há saída ou chance de vitória. Na maioria esmagadora das vezes, terminamos esfaqueados e mortos, enquanto a plateia vibra enlouquecidamente. Não dá para acreditar em tamanha barbárie. 

Não vejo perspectiva alguma além dessa sobrevivência imediatista, dessa liberdade medrosa que tenho que viver pelos cantos. Se algum deles me encontrar vagando pelas ruas, serei levado a uma prisão na qual humanos sem dono são empilhados. Obviamente, não quero isso. É degradante.

Eu não imaginava que algum dia chegaríamos a esse ponto. Eu jamais poderia imaginar que em algum lugar distante desse tremendo universo existiriam seres tão esmagadores e frios que nos subjugariam de maneira tão inapelável e feroz. 

São certamente inferiores a nós, embora tenham postura de dominação e superioridade. Parecem pensar que são vida evoluída, mas não alcançaram o nível de civilização que nós, humanos, alcançamos. Jamais faríamos coisas daquele tipo. Eles têm muito a aprender, ainda. Eles são absurdamente desumanos...  

sábado, 7 de maio de 2016

Pesadelo noturno

Os corredores estão escuros e vazios.

Sou um fantasma procurando por respostas.

Em cada porta de cada quarto, eu viro um pesadelo.

Deixo meus rastros, mas ninguém desconfia de que estive aqui.

Fico vagando e queimando meu combustível de angústias.

Estou me alimentando das agonias e matando minha sede com o suor da mais profunda aflição.

Com a luz do dia eu me desfaço, eu me escondo.

Eu me disfarço de alívio e normalidade no meio da multidão.

Aguardo mais uma noite para andar por aí e fingir que o que faço tem algum sentido. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sedento e alucinado

Os objetos quebrados no chão não atestam dignidade alguma.

Essa afetação exagerada não me convence, você bem sabe.

Qual é o preço da sua alma, qual o valor da sua consciência?

Das ruínas surge um grito de desespero, mas não existe salvação.

Com tanto nas costas, você está parando de caminhar.

Mas viver é saber deixar as coisas certas pelo caminho.

A calmaria precede sua explosão interna, liberando toda a sua energia, garota.

Então eu, sedento e alucinado, abro minha boca para ganhar alguma gota.

Você é a mesma coisa que me acostumei a conhecer.

Nem tudo que está guardado traz boas recordações.

O silêncio entre as palavras é um arrependimento que você tenta esconder.

Mas isso lhe pertence, você sabe disso.

E a vergonha não passa de um riso.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Riscos nos rostos

Não temos mais autonomia alguma sobre o mundo que criamos.

Nem dor nós conseguimos sentir, estamos anestesiados.

As crianças jogam pedras umas nas outras apenas por diversão.

Acabaram-se os motivos que antes nos moviam.

Matamos e morremos em nome de uma guerra que desconhecemos.

Nos livros, não encontramos mais significados para aquilo que vemos.

Estamos de mãos dadas levando flores e visitando nossos escombros.

Tantas orações voaram com o vento, queimadas pelo sol e desmanchadas pela chuva.

As belezas quebram os espelhos que mentem todas as manhãs, elas se afogam em seu próprio sangue.

E agora se fazem notar os riscos nos rostos, e os ricos desgostos.

Cantamos um mantra singelo, seguimos a voz que nos chama.

É o fim de tudo, é a chance de florescer novamente.  

terça-feira, 3 de maio de 2016

O mimimi do "anti-futebol"

Após a classificação do Atlético de Madrid para a final da Liga dos Campeões, instaurou-se o mimimi dos críticos da estratégia de Simeone. "É anti-futebol!", alguns bradam, fazendo peitinho de pombo. "Ain, mas e o futebol bonito?", choramingam outros, sentados em posição fetal, encostados na parede gelada do quarto.

O indivíduo tem todo o direito de não gostar do futebol praticado pelo time de Simeone. Assim como eu posso não gostar da cara do indivíduo que diz essa bobagem do "anti-futebol". Mas isso não torna o futebol do Atlético de Madrid "anti-futebol". E não torna o sujeito de cuja cara eu não gosto uma "anti-pessoa". Posso gostar de churrasco e não gostar de salada de vagem. Isso não torna a salada de vagem uma "anti-comida". Posso gostar de rock e achar a bossa nova uma chatice monstruosa com potente capacidade sonífera. Isso não transforma a bossa nova em "anti-música".

Não tenho nenhum problema em assumir que prefiro um futebol propositivo, pra frente, criando dúzias de chances de gol. Mas não posso ser arrogante ao ponto de achar um estilo que não me agrada como a antítese do futebol. Pelo contrário, pode ser muito bacana para quem aprecia o esporte bretão com todo o seu amplo leque de possibilidades táticas e estratégicas. Quando um sistema defensivo funciona tão bem, tão harmonicamente quanto o do Atlético, particularmente acho maravilhoso. Há diferentes belezas no futebol.

Para os iniciantes, devo informar: o futebol é feito de ações ofensivas e defensivas. São diferentes as estratégias, são diferentes os estilos. Alguns são mais agradáveis. Outros são mais enfadonhos. Uns são vencedores jogando feio; outros são perdedores jogando bonito. Uns são perdedores jogando feio; outros são vencedores jogando bonito. 

Sabe o que acho muito mais feio no futebol? Estratégia mal executada. Isso é feio demais. Time retrancado que oferece milhares de chances de gol para o adversário. Time entupido de atacantes que não consegue chutar uma mísera bola à meta rival. Isso, sim, é feio pacas. 

Se a turma do mimimi do "anti-futebol" não consegue compreender tudo que está implicado no próprio futebol, suas regras, dinâmicas e maneiras de funcionar, talvez não seja futebol o que esses "gênios" querem. Desejam outra coisa que não é o futebol. E aí é problema deles. 

De todo modo, como sou uma pessoa extremamente solidária e altruísta, deixo uma sugestão a estas mentes brilhantes, iluminadas e parnasianas, para que satisfaçam seus desejos estéticos ardentes: criem um novo esporte, o "jogabonitobol". Nele, não importa quantidade de gols marcados ou sofridos. Na verdade, nem se faz necessário que se faça a contagem de gols. Atribuam pontos a dribles, elásticos, janelinhas, embaixadinhas. 

Claro, não vai mais ser exatamente o que nos acostumamos a chamar de futebol, porque perderá o elemento principal: quantidade de gols marcados versus quantidade de gols sofridos, esse criteriozinho bobo usado para definir os vencedores das partidas, que fez o Leicester ser Campeão Inglês, que faz o Atlético competir em pé de igualdade com Barcelonas e Bayerns e que, pelo menos até hoje, se constituiu como base e essência fundamental desse esporte. Mas tudo bem, afinal, que importância tem quantidade de gols marcados e sofridos, né? É coisa de gente antiquada! 

Simeone merece o título da Champions League

A semana começou com o futebol nos presenteando com fatos extraordinários. Ontem, o pequeno Leicester City confirmou-se como improvável Campeão Inglês, por antecipação, ganhando nos pontos corridos de adversários muito mais ricos. É impossível ver as imagens da festa dos Foxes e não se emocionar abrindo um largo sorriso. Simplesmente sensacional.

Hoje, o Atlético de Madrid do Simeone escreveu mais uma dessas páginas mostrando que o esporte bretão vive, vibra, pulsa. A mim, particularmente, proporciona um prazer ainda maior, por ser meu segundo clube do coração, aquele que adotei no período em que vivi na Espanha. Durante a tarde, sofri quase como se fosse o Inter. Mas o Atlético tem como proposta de jogo sofrer, atua consciente do sofrimento inerente à sua estratégia e, assim, ensina quem por ele torce, a também sofrer. 

Esta incrível equipe, que sabe sofrer, eliminou, sofrendo, o poderosíssimo Bayern de Munique e chegou à final da Champions League. Antes, havia eliminado o Barcelona. Agora, o Real Madrid que se vire para reeditar a final de 2014. O Atléti está lá.

O trabalho de Simeone no Colchonero é não menos do que gigantesco. Com muito menos recursos do que Real e Barça, consegue competir na Liga Espanhola. Foi campeão dois anos atrás. Agora, só perde para o time catalão nos critérios. Dois anos atrás ainda esteve a minutinhos de ser Campeão da Europa. Perdeu no apagar das luzes.

O Atlético perdeu muitos jogadores. Daquele time já não há mais Courtois, Miranda, Diego Costa, Arda Turan... E Diego Simeone conseguiu reconstruí-lo de maneira quase inacreditável. E, se a final da Liga dos Campeões para o Atléti parecia um feito irreplicável, lá foi Simeone levá-lo, mais uma vez, à grande decisão europeia. Não é pouca coisa. 

O time do Vicente Calderón possui um sistema defensivo simplesmente espetacular. O melhor do mundo. Ver o Atléti em campo é quase como ver um organismo em perfeito funcionamento, cada um no seu lugar, cumprindo função para o funcionamento do todo, e compensação de posicionamento sempre que qualquer pecinha sai do lugar. É uma aula tática. A eficiência colchonera é comovente. A história que está sendo escrita, é magnífica.

Esse trabalho do cholo Simeone à frente da equipe madrilenha o credencia como melhor treinador do planeta na atualidade. Simeone merece, com seu Atlético de Madrid, ser Campeão Europeu. Merece demais. De preferência, diante do Real Madrid, num mega clássico, numa revanche maravilhosa pela amarga derrota de 2014. Seria incrível.       

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Estranhos

Já não consigo reconhecer o lugar onde estou.

Agora somos estranhos um ao outro.

O tempo renova e degenera quem fomos e quem somos.

Minhas ambições estão escondidas sob sapatos sujos e fétidos.

Idas e retornos não mudam nada a respeito das nossas vidas.

Tudo está em jogo e pode ser perdido a qualquer momento.

Tudo está em jogo e mesmo quando ganhamos, nunca temos nada.

Em dias tão distantes, tínhamos tanto para dizer e sentir.

Agora sobraram apenas lembranças vagas se decompondo lentamente.

Adiamos o que queremos ser em nome do que nunca seremos.

O amanhã é uma promessa sedutora que nos livra de um hoje vazio e frustrante.

E eu sinto o gosto mesmo sem jamais ter provado.

Ninguém poderá me dizer que não é real, porque ninguém nunca poderá saber.

Então eu me deixo diluir e morrer mais um pouco, para poder nascer novamente.

domingo, 1 de maio de 2016

Dormir em paz

Tudo se acalmou.

A claridade entra pela janela.

Minha cabeça dói.

Mas isso não tem importância.

Estou mais leve.

Posso dormir em paz.

Pelo menos por hoje.