domingo, 10 de abril de 2016

Andarilhos famintos

No meio da sala estamos celebrando a sobrevivência.

Chegamos até aqui e nos tornamos isso.

Lá fora é muito perigoso em meio à destruição.

Que rostos são esses que não reconheço agora?

Podemos dançar enquanto a fome não chega.

Mas não adianta fazer a oferta, nossos corpos estão sobre a mesa.

Somos o prato principal na noite que se aproxima.

Não chore, ainda há esperança.

Não corra, aprecie a desolação das ruas desertas.

A doença está espalhada na tosse do velho e no choro da criança.

Prevalece a lei do mais forte para que possamos prorrogar nossa tragédia só mais um pouco.

Nos objetos já não importa o que fomos em outro momento.

Pois não existem mais laços com o passado ou com o futuro.

O silêncio tornou-se ordem quando mais precisávamos gritar.

Andarilhos famintos buscam alimento em uma batalha visceral, sem pensar ou sentir.

Nas faces, a tinta vermelha pinta os tempos difíceis.

Andarilhos famintos, animais satisfazendo necessidades imediatas. 

Algum dia nós fomos tão melhores do que isso?

Nenhum comentário: