sábado, 30 de abril de 2016

Preenchido por completo

O dia estava acabando.

Eu precisava experimentar alguma coisa nova.

Entreguei minha alma, mergulhei até as profundezas.

Tamanho prazer apenas servia para esperar meu retorno ao ponto de sempre.

Tanta vida corria em minhas veias, fui extremamente grato.

Estava sonhando ou estava acordado?

As pequenas coisas, elas todas se encaixavam.

Eu estava preenchido por completo, eu sorria como um bobo.

As noites, elas não traziam dor. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Conversando com o tique-taque do relógio

O silêncio está agarrado a todos os corpos.

Parte das entranhas e conversa com o tique-taque do relógio.

O silêncio acaricia e arranha a pele.

É a conformidade com o que se foi e a angústia incerta do que está por vir.

O silêncio é a comida fria servida num prato raso.

É o garfo passando seus dentes na superfície da louça, e a mastigação vazia enganando o estômago.

O silêncio está na revolta que se cansou de tudo e foi dormir um sono irriquieto.

Ele acalma com uma arma apontada para a própria cabeça. 

O silêncio chegou sorrateiro, sem prometer nada e descumprindo todas as ilusões geradas no seu vácuo.

Ele pode ser paz, ele pode ser guerra, ele pode ser tudo, ele pode ser nada.

O silêncio vai cantando o passar de mais um dia cinza, gelado e sem sentido.

Soma palavras desconexas que a mente desistiu de tentar compreender.

O silêncio, ora glória do dever cumprido, ora fracasso de uma alma solitária.

Companheiro generoso e brutal, compartilhando pensamentos ébrios e constatações lúcidas apenas para me distrair.

O silêncio abraça o som e a fúria.

E mantém firme a tola batalha interior para prosseguir.    

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Gremista da Selfie

Já passava dos 40 minutos do segundo tempo de uma partida trágica do Grêmio, em sua casa.

O time levava uma verdadeira saranda do Rosário Central.

Roger, o aclamado, levava um nó tático de Coudet. Um nó cego.

Eis que, na tela da tv, em meio àquele ambiente de extrema tensão, desconsolo e desilusão, surge um personagem.

No frio, no relento, lá estava ele, sem camisa, fazendo selfies com poses, e caras, e bocas. Uma espécie de Nana Gouveia gremista e sem ser gostosa.

À primeira vista poderia parecer grotesco. Era como algo recortado e colado totalmente fora de seu contexto original. Um meme vivo. 

Mas aquele homem... Aquele homem, amigos, não é motivo para galhofas: é, isso sim, uma verdadeira lição de vida.

O Gremista da Selfie traz em si um significado que talvez poucos possam compreender. 

Possui um conteúdo existencial e histórico. 

Aquele homem é o símbolo do torcedor que se acostumou.

Ele sabe o trágico destino da eliminação, dos anos e anos sem títulos de expressão.

E ele aceita. Faz do limão uma limonada. E mesmo na derrota, já costumeira, ele vive! Ele aproveita!

Carpe diem!

Dane-se a profunda tristeza gremista daquele momento. Ele está acima da dor. Está acima das condições mundanas e efêmeras de vencedores e derrotados.

O Gremista da Selfie está em uma outra vibração energética. 

Em termos davidcoimbrianos, é possível tranquilamente afirmar que se trata de um ser humano superior. Como o Tcheco.

A tragédia, quando repetida, quando tornada padrão, deixa de ser tragédia para transformar-se em mera rotina. E aí, já nem causa mais sofrimento.

Aquele homem sem camisa fazendo poses para fotos como se nada acontecesse naquela Arena tomada de angústia e frustração, percebeu isso. É um ser humano à frente do seu tempo. Deu seu grito de libertação.

Eu não tenho a menor dúvida: o Gremista da Selfie é o novo torcedor-símbolo tricolor. 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Trem em alta velocidade

Em suas mãos, o jogo que sempre vai ganhar.

É divertido olhar para a minha cara quando estou confuso.

Me entrego e me sacrifico enquanto mantenho o conforto.

O tempo é uma decisão apenas sua, o mundo à sua volta tornou-se refém.

Eu também sentiria vontade de rir de tudo isso.

O confronto é conveniente, a preocupação é um interesse mesquinho e bem disfarçado.

No meio das explosões, seremos crianças correndo na chuva no último dia.

Seremos os culpados pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer.

Ao longe, você caminha de pés descalços, e eu adoro essa imagem.

Porque ainda estou aqui, para sempre ficarei aqui.

Não se iluda, nós não estávamos chorando.

As fantasias são reais, e a realidade é uma grande farsa.

É melhor acreditar nisso para não perecer neste frio que queima as entranhas todos os dias. 

Nossos muros não nos abraçam, apenas nos cercam.

A vida é um trem em alta velocidade, andando em círculos.

No fim de tudo, estamos sempre no mesmo lugar.

Então que este lugar seja o lugar que queremos agora, mesmo que ele jamais venha a existir fora de nós.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Prevalece o coração

Às vezes os caminhos das nossas verdades são tortos e espinhosos.

Mas não há motivos para desistir ou se entregar.

Existem fantasmas por todos os cantos para nos desmentir e contradizer.

Prevalece o coração e a imensa vontade de andar mais um pouco.

Podemos voar e fugir mesmo que não conheçamos o que vem pela frente.

Uma lágrima pode umedecer a aridez desse solo.

Um riso sincero pode ser a doce melodia do amanhã.

Não importa onde eu vá parar, isso nunca importou.

O que realmente importa é que quando o cansaço definitivo surgir, tudo tenha valido a pena. 

domingo, 24 de abril de 2016

Ilha de sanidade

A escuridão avança sobre você, e os caminhos desaparecem.

Tudo parece loucura, mas de fato não é.

Você é a ilha de sanidade que restou no mundo.

A noite é de solidão fria, mas os planos podem mudar.

E tudo fica mais ameno com o amanhecer.

Você diz que não há sentido em nada, e realmente não há.

Então aquiete-se e espere, o tempo responderá.

O que se repete vai nos tornando mais fortes e preparados.

E se tudo silenciar, não se espante.

Haverá uma bela canção guardada no bolso para você assobiar.

sábado, 23 de abril de 2016

Palavras distorcidas

Às suas costas, toda uma vida mal vivida.

Ela perdeu todos os dias, e sofreu por não ter nada em suas mãos.

Agora ela sobrevive e se fortalece na escassez.

Nunca tivemos nossas forças verdadeiramente medidas.

Agora isso é necessário o tempo todo.

Porque lá fora eles estão fingindo que tudo continua bem.

Ela aprendeu a distinguir os momentos para agir ou ficar em seu lugar.

Tem tudo muito mais claro em frente aos seus olhos.

A mesquinhez passou a ter a importância que sempre deveria ter tido.

Mas os interesses tacanhos, eles estão travestidos nas palavras distorcidas.

Não precisamos que nos digam o que é a liberdade.

É isso que precisamos desaprender, para que possamos respirar verdadeiramente livres.

Ela ainda está de joelhos esperando que a vejam ali.

Mas o que não se quer ver, não é visto jamais.

Alguns humanos são iguais, mas uns são mais iguais que outros...

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Sempre podemos voltar para de onde viemos

Não tenho tempo a perder por aqui.

Mas preciso gastá-lo um pouco mais.

Então venha comigo e vamos olhar para o teto.

O tédio consome, a mente cansa.

É necessário que isso tenha algum sabor.

Entregue-se e faça valer a pena.

O inferno pode se tornar paraíso por algumas horas.

Sempre podemos voltar para de onde viemos, e não há problema nenhum.

Não pense no amanhã, ele nem precisa existir para nós. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Diferenças entre deputados do PMDB e do PT marcando uma reunião-almoço

Deputados do PMDB marcando uma reunião-almoço:

Deputado 1: - Gente, precisamos marcar um almoço pra acertar algumas coisas. Que tal uma churrascaria, ali pelo meio-dia?
Deputado 2: - Não,churrascaria não. Vamos àquele restaurante chinês.
Deputado 3: - Que nada! Vamos comer um sushi, isso sim!
Deputado 4: - Por favor, senhores! Restaurante italiano e não se fala mais nisso!
Deputado 5: - Uma ova! Vou comer um Big Mac. 
Deputado 1: - Chega, chega, chega. É, não dá. Não vai dar. Pelo menos, vamos conversar online de noite. É melhor assim, pra evitar atritos e conflito de interesses. Me chamem no Whatsapp.
Deputado 2: - Não, não, não tenho Whatsapp. Vamos falar pelo Messenger do Facebook. 
Deputado 3: - Hein? Skype é muito melhor! Deixem de bobagem!
Deputado 4: - Senhores, senhores... É óbvio que temos que conversar pelo Google Talk.
Deputado 5: - Ah, não brinca! Vamos fomentar o que é nosso! Só participo se for no Zap Zap!

Deputados do PT marcando uma reunião-almoço:

Deputado 1: - Companheiros, precisamos almoçar juntos pra definir umas diretrizes aí. Vamos comer algo fora. Esse ambiente golpista aqui... Não dá, não dá. Podia ser hoje, não? Sugestões?
Deputado 2: - Que tal um churrasco num restaurante japonês?
Deputado 3: - Ótima ideia!
Deputado 4: - Gostei. Mas... Será que algum restaurante japonês serve churrasco?
Deputado 5: - Bom... Talvez não, mas podemos nos mobilizar, mobilizar nossa militância. Já tenho um slogan: "Não vai ter fome! Em defesa do churrasco!".
Deputado 1: - Isso mesmo. Restaurante sem comida não é restaurante! Não vai ter fome!
Deputado 2: - Não vai ter fome!
Deputado 3: - Não vai ter fome! Viva o churrasco!
Deputado 4: - Restaurante japonês tem que ser inclusivo e democrático! Não vai ter fome!
Deputado 5: - Não vai ter fome! Não vai ter fome! Não vai ter fome!    

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Silêncio recíproco

As palavras voaram pela janela.

Eu as tinha deixado guardadas, mas não valem mais nada.

A verdade de ontem não é a verdade de hoje.

Às vezes eu até me esqueço de como era.

Vaidades e interesses estão sob essa camada de altruísmo.

Mas alguns fingem que não sabem disso.

Ao longe, um sorriso puro e inocente me reconforta.

É a esperança de quem possui a dádiva de não saber nada sobre as pessoas.

Isso não pode ser preservado, isso não pode ser guardado.

Então mantemos nosso silêncio recíproco para evitar mais danos.

Nosso lamento quieto é a ilusão arruinada por uma mentira em que um dia acreditamos.

Esse desconforto está em nós, e de nós não sairá jamais.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Deixado para trás

Na penumbra, encontro um lugar para mim.

Tudo parece perfeitamente tranquilo.

Eis o conforto para dormir e sonhar com o amanhã.

Mas o dia clareia e passo a enxergar melhor.

Já não me assusto, apenas aceito, olhando para meu próprio vazio interior.

Foram-se meus sonhos numa mochila que não é minha.

Sou deixado para trás, sabendo que jamais serei buscado.

Restou-me continuar caminhando sozinho e tentar sobreviver.

Talvez logo à frente eu encontre uma nova ilusão para me entreter. 

domingo, 17 de abril de 2016

Fumaça do café

Café quente sobre a mesa.

Com a fumaça, meu pensamento se esvai.

Está na lágrima que secou, no olhar que se foi.

Nos dias de náusea, nos caminhos desconhecidos.

Está no arrepio da pele, nos erros recorrentes.

Na areia sob os pés, nos retornos esperançosos e vazios.

Está nas asas de anjo, no céu decorado pelas nuvens brancas.

Na alegria do afeto, na transformação libertadora.

Está nos desejos ressecados, nos anseios que se tornaram tolices.

Nas palavras sem sentido, no efeito anestésico findado.

Está nas promessas, nos sonhos e expectativas.

No espelho quebrado, na realidade que se revela.

Então eu volto a mim mesmo, sentado sozinho à mesa.

O café já esfriou.      

sábado, 16 de abril de 2016

Tantas coisas para levar

Não temos mais ar para respirar por aqui.

Respondo coisas que não fazem sentido enquanto você me julga.

Eu lhe abraço, eu lhe seguro as mãos.

Mas não sei como encontrar o caminho para voltar.

Você me diz que tudo está sob controle.

E eu ando pra lá e pra cá desenhando diferentes possibilidades na minha cabeça.

Tenho tantas coisas para levar, mas não sei como elas vieram parar aqui.

Você me diz que está tudo bem.

E eu procuro organizar as peças que sobraram.

Tenho tanta vontade de ficar, mas não encontro qualquer motivo para isso.   

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Labirinto móvel

Minhas mãos agora estão vazias.

As esquinas mudaram como se estivéssemos num labirinto móvel.

Não tenho como fugir, e nem sei de quem fugir.

Pessoas se desmancham, elas guardaram uma mandíbula na minha mochila.

Preciso limpar uma sujeira que eu não fiz.

Soldadinhos de chumbo, eles não pensam.

O estrago está feito e você não sabe como se explicar.

Se nós desejássemos as mesmas coisas, não teríamos mudado tantas vezes.

Não sou obrigado a seguir por aqui enquanto sinto náuseas.

Esse ato ensaiado pode parecer tão bonito quanto patético.

A maior verdade está escondida no silêncio entre as palavras proferidas. 

No final, eu durmo e acordo no mesmo lugar.   

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A carta que ele nunca escreveu

Na carta que ele nunca escreveu, há uma saudação amistosa.

E recordações das tardes aproveitando a sombra da árvore.

Na carta que ele nunca escreveu, há lugares para os quais não gostaria de voltar.

E brincadeiras que ficaram pelo caminho e deixaram suas marcas.

Na carta que ele nunca escreveu, há um zigue-zague ébrio pelo meio da avenida.

E dias que nunca terminaram de verdade.

Na carta que ele nunca escreveu, há uma primavera trazendo flores.

E o amor que não teve a chance de viver.

Na carta que ele nunca escreveu, há um pedido de casamento.

E os filhos correndo no pátio, toda a paz concentrada num sonho.

Na carta que ele nunca escreveu, há uma sombria caminhada em dia de chuva.

E os dias pesados de profunda solidão e desalento.

Na carta que ele nunca escreveu, há uma declaração de amor desenfreado.

E os passos em falso que lhe fizeram tropeçar e cair tantas vezes.

Na carta que ele nunca escreveu, há uma despedida de quem não quer partir.

E um fechamento não explicado pelas reticências...  

terça-feira, 12 de abril de 2016

Salamanca: uma cidade, uma saudade

Era 13 de abril de 2015. Meu último dia em Salamanca. Chegar e partir de Salamanca é marcante. O ônibus, chegando ou partindo, faz o trecho mais próximo ao casco histórico margeando o Rio Tormes. É uma imagem deslumbrante. 

Para quem chega, é como se a cidade lhe recebesse com um grande sorriso. Para quem parte, é como se ela se despedisse com os olhos marejados. E como eu não marejaria os meus quando, aos poucos, aquele ônibus se afastava daquele cartão postal que é a visão oferecida pelo Tormes?

Já faz um ano que voltei. Mas é como se isso não tivesse acontecido. Meu corpo voltou de Salamanca. Mas minha alma ficou lá. 

Nada daquilo torna-se remoto. Meu coração aperta. É amor em estado puro por uma cidade que eu abracei e que me abraçou forte. 

Salamanca me traz lembranças muito vivas. Das mais deslumbrantes às mais banais. Da Plaza Mayor a uma noite de sábado lavando e estendendo roupas na residência em que eu viva. Da extraordinária catedral às comprinhas de queijos, chocolates e cervejas no Carrefour. 

Eu aprendi muito enquanto estive por lá. Foi o período mais feliz da minha vida. Eu me sentia abençoado. Era com prazer que eu dava minhas caminhadas de sábado. Explorava as ruas, todas plenas de beleza. Tomava milk shakes, cervejas, sorvetes de doce de leite argentino, comia tapas de batatas como molho aioli, kebabs e sanduíches de frango com queijo. 

Conheci muito mais de mim mesmo. Cresci, amadureci. E esperava da realidade vindoura uma realidade diferente. Na verdade, era eu, e só eu, quem tinha mudado. Mesmo essa consciência posterior me fez melhorar. 

Não foram poucas as vezes em que, sentado de frente para a catedral, agradeci pelo destino que ali eu podia sentir e viver. 

Foi muito difícil me despedir. Ainda é. A saudade que sinto de Salamanca, a saudade que sinto de mim mesmo, a saudade que sinto de como eu me sentia lá, é absolutamente aterradora. Para mim, sempre será a cidade mais linda, mais aconchegante, mais amorosa do mundo. Vivo de flashbacks. Recordo cada rua, cada pequeno contentamento, as lojinhas, as aventuras e desventuras, o sol de quase dez da noite no início da primavera, o frio do inverno, a paisagem da janela do meu quarto. Até a solidão era bonita. 

Por mais que eu escreva textos e poesias recordando Salamanca, jamais me aproximarei de representar a beleza que Salamanca exala. Porque nenhuma poesia estará à altura de Salamanca. Porque Salamanca é a própria poesia

Salamanca foi um lindo caso de amor. Foi meu paraíso em vida. Não há como explicar o significado que essa cidade teve e ainda tem para mim, para quem hoje eu sou. Só posso sentir. Eu saí de Salamanca. Mas Salamanca não saiu de mim. Jamais sairá.    

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Meu mais verdadeiro paraíso

Eu te procuro em cada esquina.

Os anos passam, a paisagem muda.

Mas eu ainda estou buscando isso.

É apenas um cheiro, apenas uma pista.

Sim, eu sei que você andou por aqui.

Posso sentir sua presença, e não quero acreditar que seja uma alucinação.

Você não me deixou, eu jamais lhe esqueci.

Permaneço sendo aquele bobo que sonhava com suas tolices.

Ainda sou capaz de rir e sorrir.

Dias tão bonitos se evaporaram, mas eu sempre encontro um vestígio.

É doce o sabor que invade minha boca, mesmo com todas as amarguras.

No seu sorriso residia toda minha inspiração.

Eu te vejo, eu te espero, eu te beijo.

Então não fuja, eu sei que você andou por aqui.

Não me acorde enquanto eu flutuo, por favor.

Preciso fazer isso, preciso dizer isso.

Momentos banais podem ser meu mais verdadeiro paraíso.

E você ainda pode ser toda a beleza que eu procuro no mundo.  

domingo, 10 de abril de 2016

Andarilhos famintos

No meio da sala estamos celebrando a sobrevivência.

Chegamos até aqui e nos tornamos isso.

Lá fora é muito perigoso em meio à destruição.

Que rostos são esses que não reconheço agora?

Podemos dançar enquanto a fome não chega.

Mas não adianta fazer a oferta, nossos corpos estão sobre a mesa.

Somos o prato principal na noite que se aproxima.

Não chore, ainda há esperança.

Não corra, aprecie a desolação das ruas desertas.

A doença está espalhada na tosse do velho e no choro da criança.

Prevalece a lei do mais forte para que possamos prorrogar nossa tragédia só mais um pouco.

Nos objetos já não importa o que fomos em outro momento.

Pois não existem mais laços com o passado ou com o futuro.

O silêncio tornou-se ordem quando mais precisávamos gritar.

Andarilhos famintos buscam alimento em uma batalha visceral, sem pensar ou sentir.

Nas faces, a tinta vermelha pinta os tempos difíceis.

Andarilhos famintos, animais satisfazendo necessidades imediatas. 

Algum dia nós fomos tão melhores do que isso?

Canto da sereia

Eu ouvi um chamado, estava apenas dentro da minha cabeça.

Tudo parecia ser tão bom e promissor.

Apenas esperava a minha vez de rir de tudo isso.

Mas ela não chegou, ela se foi abanando de longe.

Deixei-me congelar por completo.

Hoje sou eu que observo os movimentos à distância.

Apostei errado em dias que nunca estiveram em minhas mãos.

Mas agora eu estou olhando para a frente, deixando para trás tudo que quis ficar.

Eu escutei o canto da sereia, eu cheguei às profundezas de mim mesmo, eu me afoguei, eu me inundei, eu me afundei.

Fico aqui apenas com minhas lembranças vagas, sobrevivente de minha própria tolice.

Navego com todo o cuidado, até encontrar terra firme.

Não sei quando, não sei em que direção.

Mas navego, e navego, e navego.

sábado, 9 de abril de 2016

Tortura contemporânea

- Zé Bagaça, pode tirar a venda e a mordaça desse safado. Isso, isso.
- Tô com sede, preciso de água, por favor.
- Depois a gente te dá água.
- Por favor... O que vocês querem de mim? Tô com muita dor.
- Tu não sabe, mané?
- Não... Por favor... Não sei.
- Vou ter que perguntar pela milionésima vez, é, vagabundo?
- Não sei de nada... Eu não sei!
- Eu sei que tu sabe onde tá o Mano Repolho. Eu sei que tu conhece ele bem!
- Não... Er... Não!
- Vai querer levar mais choque, safado? Que tal mais umas porradas na cara?
- Eu não posso. Não, não posso.
- Não pode, é?
- Não! Não posso e não vou dizer nada. Pode fazer o que quiser.
- Dá uma olhadinha nessas fotos. Tá vendo?
- Não... Perdão.
- Sim! Sim! E sim! Sei onde tua mulher trabalha! E olha aqui a casa de vocês! E o colégio das crianças! Não quer pensar melhor? De repente pensar onde posso encontrar o Mano Repolho?
- Não posso... Eu não posso...
- Vai tomar choque! Coitada da tua família!
- Covarde! Pode ameaçar! Canalha!
- Não vai contar?
- Não, não vou! Não vou!
- É mesmo, é?
- Não conto!
- Será que vou ter que amputar o outro bracinho?
- Não digo! Pode cortar! Vai lá! Eu não digo! Não digo! 
- Humm... Vou pensar sobre isso... Mais uma coisinha... Zé Bagaça, traz aquele computador aqui! Isso.
- O que você vai fazer?
- Tu tá assistindo How I Met Your Mother, né, vagabundo?
- O que tu quer fazer?
- Eu tenho umas cenas aqui... Sabe o que acontece com o Ted? Sabe com quem ele termina a série?
- Nããããão!! Por favor!!! Eu te imploro!!! Não faz isso!
- Ele fica com a... a...
- Nãããããããããããããão! Não! 
- Com a... Lily? Será?
- Por favor, chega! Chega!!!
- Ou... Com a Zoey? Será?
- Pelo amor de Deus, pare! Eu te implooooro!!!
- Fiquei sabendo que tu tá acompanhando Breaking Bad também... E não terminou ainda, né?
- Não, não, não, isso não. Isso não. Não, não, não, não.
- O Walter, ele... No fim, ele vai...
- Chega!!!! Chega! Chega! Nãããããão!!
- E tem o Hank, né? Tu não vai nem acreditar no que acontece com ele... E com o Jesse...
- Não, chega, não, por favor! Por favor!
- Walking Dead, tu curte também, né?
- Chega, chega!
- O Rick... Ah, o Rick... Vai acontecer um troço que... Nossa... E o Glenn? Uau...
- Pelo amor de Deus, nãããããããão!!! Chega! Chega! Por favor, por favor...
- Acontecem umas coisas que...
- Tá, ok, ok. O Mano Repolho tá na Avenida Júlio de Carvalho, 78, apartamento 243. Fica bem na frente da padaria Pão Gostoso.      
- Hummm... Bom garoto. Zé Bagaça, pode soltar esse aí. Só não vai contar nada pra polícia, safado!
- Pode deixar, eu não digo. Isso aqui nunca aconteceu. Tá certo, tá certo... 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Não tenha medo das ideias!

Você sai e ladra, para logo voltar para dentro dos muros que criou para si.

Não tenha medo das ideias!

Você fica inquieto e irritado com o que não compreende.

Mas não tenha medo das ideias!

A transformação da mente parece vir como um tsunami, mas você se mantém apegado a uma árvore apodrecida.

Não tenha medo das ideias!

Assumir o erro, refletir, andar para frente e sair do seu conforto, eu sei que parece difícil.

Mas não tenha medo das ideias! 

E se tudo que você construiu estiver errado, como derrubar todos estes muros e ficar exposto?

Não tenha medo das ideias!

Você se assusta, dá o primeiro grito vazio que lhe ensinaram para esvaziar sua cabeça de qualquer reflexão.

Mas não tenha medo das ideias!

Monte, remonte, construa, desconstrua, permita-se pensar um pouquinho só.

Esqueça a boca que diz, engula seus rótulos infantis e apenas preste atenção ao que é dito.

Seja honesto com aquilo que pensar, desligue-se da manada que lhe olha de cara feia.

Essa proteção cômoda dos pseudo-iguais só lhe sufoca e dá náuseas.

Seja a ovelha negra, ou verde, ou amarela, ou vermelha, ou azul, ou da cor que você bem entender.

Deixe tudo por conta da sua consciência, que agora está coçando quase alergicamente.

Seja livre, mais e mais livre, porque a liberdade é uma brisa deliciosa pronta para beijar seu rosto.

Não tenha medo das ideias!

Não tenha medo das ideias!

Não tenha medo das ideias! 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Entre seus poros

Tão rápida é a vida, e tudo pelo que passei até hoje.

Algo ficou, de você para mim, ainda que você não me conheça.

Não cumpro o que aprendi, continuo sendo exatamente assim.

Eu gostava quando você sorria para mim, eu gostaria de fazer isso todos os dias.

Existir pode ser uma grande honra quando somos nós mesmos.

Mas a areia do relógio se foi pelos meus dedos.

São tão distantes os beijos que não lhe dei, e os sonhos que já tive.

Seu olhar me sequestra e me leva com você.

Qual é o gosto que eu poderia sentir em sua pele?

E você é tão linda, rindo e me fazendo querer um toque, um cheiro.

Amanheça, então, e me faça encontrar entre seus poros uma resposta para as perguntas que formulo.

Deixe-me ser tão tolo a ponto de me sentir o maior ser humano que já existiu.

Deixe-me ser tão louco a ponto de não querer mais pensar no ontem ou no amanhã. 

Infinitas cores mágicas

Escureceu mais um dia em seu coração.

Não há sol que por aí se sustente no alto.

Um passado inexistente faz persistir o medo de deixar-se quebrar numa nova queda.

Mesmo que seja difícil, acredite, momentos doces podem ficar ainda melhores.

Você hesita, evita caminhar pelos cantos que não conhece.

Mas não há monstros debaixo da cama, eles são uma invenção dos seus pais.

Me dê a sua mão, deixe-me lhe apresentar esse mundo novo que lhe espera.

Apenas deixe a vida beijar seu rosto banhado pela luz.

Seus olhos brilharão com a beleza do sol que vai mudando de cor a cada segundo.

Infinitas cores mágicas estarão desfilando para proteger a pureza dos seus sentimentos.

Você jamais viu nada parecido com isso. 

Sim, tudo terá um significado especial.

E finalmente você terá a certeza que sempre procurou.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Verdade na mesa

Um sopro de vento queima minha pele e minhas entranhas.

Foi apenas um equívoco seu destruindo todas as coisas ao seu redor.

E quando você pensou que eu não me importava, eu não me importava mesmo.

Estou atento, lhe ofereço uma vergonha que não me pertence.

Mas não vou me desculpar pelo que eu nunca fiz.

O que você fez já foi o bastante, o que você fantasiou já foi o suficiente.

Eu não joguei esse jogo inventado pela sua mente.

Você deveria saber que minhas palavras jamais foram propriedade sua.

Porque eu tinha coisas mais importantes para me preocupar.

Acredite, eu mal me lembrava da sua existência.

Acredite, eu não precisei mudar nada para lhe dizer isso agora.

Essa é toda a verdade que eu sirvo em sua mesa.

Mastigue e engula se tiver condições.

sábado, 2 de abril de 2016

A chance de esperar o amanhecer

O tempo, o dinheiro, a dignidade, tudo se foi.

Ele olha para os lados, as luzes baixas não lhe permitem ver nada interessante.

Ela fez os gestos, ela ofereceu as palavras certas.

O cenário está pronto para uma nova cena.

Há um preço a se pagar pelas escolhas que fazemos.

Mas ela acaba desistindo do que lhe parece fácil demais, continuará se afogando em um copo d'água.

Ela continuará fingindo que busca um amor e que seu sofrimento é injustiça dos céus.

Então aquele homem dá de ombros, vira as costas e vai embora.

Mentiras e enganos não são mais necessários.

Era tudo tão patético que lhe faltou estômago.

Vomitou no meio da calçada e sentou-se no cordão.

Ainda tinha a chance de esperar o amanhecer.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

É mentira!

O lindo sorriso nessa foto, uma nota de 3 reais.

É mentira!

A felicidade fabricada, o amor infinito jogado na cara da plateia.

É mentira! É mentira!

Valores nobres, altruísmo sem fim enfiando o dedo na garganta.

É mentira!

A defesa dos oprimidos, o discurso desinteressado.

É mentira! É mentira!

A salvação da pátria, a moral de cueca cheia de dinheiro.

É mentira!

A paz pelo massacre, o consenso pelo constrangimento.

É mentira! É mentira!

Um quadro na parede, a sabedoria das palavras geladas.

É mentira!

O brado para me silenciar, a importância de tudo que dizemos aqui.

É mentira! É mentira!

O fim de noite interessante, em cada ato um evento a brindar.

É mentira!

Carinhos e carícias, um mundo cor de rosa.

É mentira! É mentira!

O passado reescrito, as promessas apagadas da cartilha.

É mentira!  

A preocupação com o futuro, o abraço dos afogados por um bem maior.

É mentira! É mentira!