sábado, 13 de fevereiro de 2016

O ponteiro que marca a hora

Desde criança, o ponteiro do relógio que mais me chama a atenção é aquele que marca a hora. Ele é uma metáfora, talvez, de como devamos encarar a vida em inúmeras situações. Ele é exemplar em sua discrição. É intrigante em sua calmaria.

Nossos sonhos e anseios são como o ponteiro dos segundos. É nessa velocidade que os queremos realizados. Mais do que isso: assim como o ponteiro dos segundos, queremos vê-los em movimento, queremos vê-los acontecendo mesmo antes que a hora chegue. Porque aquele movimento nos dá a certeza de que chegará. 

Entretanto, a vida real, pelo menos na grande maioria das vezes, e para nós, reles mortais com todas as nossas limitações, é muito mais como o ponteiro da hora. E o ponteiro da hora é algo quase mágico, como a vida real também pode ser quando encarada como ela é, sem a pressa da passagem dos segundos. 

O ponteiro que marca a hora, assim como a vida, está em permanente movimento. Ele é constante. Lento, mas inabalável. Não o percebemos se movimentando. É sutil demais. Mas ele está ali, devagar e sempre.  

O que mais me encanta no ponteiro que marca a hora é que, por mais que não o vejamos inquieto, se mexendo, ele faz, no seu ritmo e sem que possamos perceber, todo o trajeto circular da hora. E na hora certa, ele estará marcando a hora certa. Sem qualquer tic-tac. Ele anda. Ele chega. No seu próprio ritmo. Com sua precisão inatacável, irrepreensível. O ponteiro que marca a hora pode parecer indolente, preguiçoso. Mas cumpre exatamente o que tem de fazer. Ele é incrivelmente leal a seu propósito.

Assim é a vida. Muitas vezes não vemos o sentido do que está acontecendo. Olhamos para nossos sonhos, ficamos ansiosos pela transformação num tic-tac, ou em sessenta tic-tacs, e não nos damos conta de que ela, a vida, está acontecendo e se transformando, de um jeito ou de outro. Às vezes, tudo parece parado, estagnado. Mas definitivamente não está. E de um modo ou outro, mesmo que não percebamos, mesmo que não sintamos, estamos caminhando, estamos andando. O ponteiro está girando.

É claro, temos que fazer a nossa parte. Temos que saber que horas são, temos que saber onde estamos para que possamos chegar. E também precisamos das pilhas. Sem pilhas, o ponteiro do relógio para de vez. Temos, porém, um grande estoque de pilhas, das coisas que fazem nossos corações vibrarem e nos levarem em direção às coisas que queremos. E se alguém não os tem... Bem, talvez essa hora nem seja tão importante assim. Se em algum momento o coração parar de vibrar por aquilo que deseja, o próprio desejo terá evaporado.Você terá tantas pilhas quantas forem necessárias enquanto seus verdadeiros sonhos persistirem.

Então deixe o relógio andar, deixe a sua existência fluir. Na hora certa, a hora certa chega. Na hora certa, o ponteiro estará na hora certa. Na hora certa, a vida se acerta. 

2 comentários:

Marilda Perusato disse...

Maravilhoso, como sempre

Bruno Mello Souza disse...

Muito obrigado, dona Marilda!