segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dias cruciais

Dias cruciais, você acorda sem saber como vai dormir.

Há uma ponte para atravessar, uma fronteira para cruzar.

Dias cruciais, em breve você estará do lado de lá.

E não é fácil lidar com todo o peso do peito.

Dias cruciais, o que será a vida logo à frente?

Precisamos enfrentar cada barreira que se apresenta.

Dias cruciais, em que o choro e o riso se engalfinham dentro de sua cabeça.

E não se pode saber o que prevalecerá.

Dias cruciais, os segundos se cristalizam e interrompem a circulação em suas veias.

Pise em segurança, e sobreviva a tudo isso.  

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Ausência de luz

Não há nada, não há ninguém.

Mas a escuridão é incerteza.

Espero até que tudo se estabilize, suando frio.

As pupilas se dilatam, não há nada para me preocupar.

Estou em segurança para andar e não cair.

Sempre há uma forma de se adaptar à ausência de luz.

Sempre podemos enxergar o caminho até a cama e o descanso.
  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Garotinho disfuncional

Garotinho disfuncional, tentou cantar uma música no microfone e levou um choque.

No hospital, ele foi bem atendido.

Garotinho disfuncional, tentou dar uma flor para a rainha da sala e dos seus sonhos.

Tropeçou e caiu na lama acumulada no pátio.

Garotinho disfuncional, escreveu uma carta que nunca chegou ao destino.

Agora ela está em todas as paredes do colégio.

Garotinho disfuncional, levou bombons para sua namoradinha imaginária.

Eles foram devorados pelas outras crianças no recreio.

Garotinho disfuncional, procura por algo no banheiro.

Só tinha a privada para conversar.

Garotinho disfuncional, comendo suflê de cenoura e espinafre no jantar.

Não tem nenhuma novidade para contar à mesa.

Garotinho disfuncional, super-heróis não saem voando da parede do seu quarto.

Durante o dia só há monstros e vilões por toda parte.

Garotinho disfuncional, não foi feito para nada disso.

Ele ainda não sabe como se vive direito.  

Velhos e novos tempos

Nos velhos tempos, olhávamos para o mar pensando na volta.

Sim, havia esperança de que tudo mudaria por algum milagre.

As dores do mundo se diluíam em nossas risadas irresponsáveis.

Os ponteiros no relógio não faziam a menor diferença.

E nenhuma tempestade era capaz de nos assustar.

Nesses novos tempos, olhamos para o nada sem perspectivas.

Não, não há mágica que mude o que temos e o que somos.

As nossas dores mesquinhas não passam pela garganta.

Os ponteiros do relógio são observadores frios e impiedosos.

E nenhum sol brilhante é capaz de tornar nossos dias menos cinzentos.  

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A imbecilidade vai fundo

O Globo.com apresenta matéria sobre briga de fãs.

Fãs de uma tal de Thyane Dantas e uma tal de Mileide Mirraily (leia aqui, se tiver coragem).

O que elas têm em comum? O glorioso Wesley Safadão.

Uma é a atual. A outra, a ex.

A constatação é que a imbecilidade é uma praga que talvez destrua a humanidade.

O mergulho na idiotice é assustador e de uma profundidade espantosa.

Porque o fim da várzea poderia Wesley Safadão ter fãs- e o fato destes serem retardados é apenas um pleonasmo.

Mas dá pra cavar mais fundo.

E aí encontramos fãs das mulheres de Wesley Safadão.

Cave mais fundo ainda, e encontre fãs debilóides das mulheres de Wesley Safadão que brigam na internet em uma competição que faz admiradores de Tati Quebra-Barraco parecerem leitores de Dostoiévski. 

Sim, Régis Tadeu tem sobras de razão quando diz: todo fã é um idiota.

Agora pare de cavar, pelo amor de Deus.

Tenho medo do que possa estar debaixo da próxima porção de terra.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Aceleração

Alta velocidade, numa estrada que parece não ter fim.

As cidades no meio do caminho são uma paisagem morta.

Ninguém tem nada a dizer, essas pessoas somente se alimentam e defecam.

Isso na verdade nunca teve importância.

Há muitos sentidos para dar à satisfação que sentimos agora.

No escuro não existem precipícios ou paredões.

Então eu acelero mais e mais enquanto meus olhos brilham.

Exploro essa natureza que não posso enxergar.

Exploro a mim mesmo, eu nunca pude me enxergar.

Rio, rio, rio e rio.

É tão profundo, eu me afogo.

Rio, rio, rio e rio.

Agora tudo está explicado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Nuvens laranjas

Nuvens laranjas no céu azul, levem o dia que repousa moribundo.

Levem o riso, a bobagem dessas grandes e tolas brincadeiras.

Levem as promessas e os finais, levem o amargor desse café.

Levem tudo aquilo que não é meu.

Não existem palpites, não existem ordens.

Apenas a libertação daquilo que é, e de como é.

O vento bate no rosto e alivia a dor em minha cabeça.

Não preciso de nada para o dia de amanhã.

Porque o que tiver de permanecer, permanecerá.

E o que tiver de restar, restará.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Bife meio frio

Eu era um bom hóspede naquele lugar.

Vivi alguns bons dias por lá.

O esquecimento era um exercício fácil para minha mente.

Mas era necessário arrumar minhas coisas e voltar.

Tudo estava jogado, eu tinha de procurar direito.

Em canto algum encontrei meus brinquedos.

Não é fácil não ter o controle de tudo.

Me disseram para ficar tranquilo, e fiquei assim.

Nada está perdido, mas sei que se perdeu.

Me disseram para me encontrar, eu mandei calarem a boca.

Voltei para o meu apartamento, e tudo estava bagunçado.

Enquanto eu esquentava um bife no microondas, você chegou. 

A vida é um caos profundo e sem fim lógico.

Você me perguntou se estava tudo bem, e eu menti para não ter de me explicar.  

Apenas sujava as paredes com os meus sapatos velhos.

E os cadarços desamarrados não faziam a menor diferença.

Porque são sempre as mesmas coisas ditas e não ouvidas.

E eu comi o bife, meio frio.

Deitei na cama para tentar acordar.

Sempre preciso fazer isso antes que o próximo dia amanheça.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Quase dez anos

Já se foram quase dez anos, mudei meu lugar no mundo.

Mas ainda sinto o vazio, e não são poucas as noites.

A cada reencontro, a feliz certeza se evapora assim que acordo.

Eu estava sorrindo, eu não sabia como retribuir minha sorte.

Às vezes, o sol traz consigo uma certa escuridão.

Você me ensinou muitas coisas, eu nem sempre aprendi a tempo.

Talvez fosse necessário errar, e eu errei, e esperei por um dia que não chegou.

Naquela manhã, eu fui um arrependimento que jamais passou.

Eu precisava que tudo ficasse bem.

E eu poderia ter sido mais, poderia ter sido melhor.

Não, eu não pude me despedir.

E eu nunca consigo me despedir.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Moscas volantes

Moscas volantes passeiam em minha visão.

Moscas volantes me distraem enquanto olho para o teto.

Moscas volantes, bolhas e balões minúsculos e transaparentes.

Moscas volantes estão voando e caindo.

Moscas volantes, elas sempre estão de volta.

Moscas volantes, prisioneiras dos meus olhos.

Moscas volantes, eu sou prisioneiro delas também.

Moscas volantes não existem lá fora.

Talvez lá fora também seja como as moscas volantes.

Talvez lá fora também esteja apenas dentro dos meus globos oculares.

Moscas volantes me ensinam, moscas volantes me enlouquecem.

Moscas volantes me trazem tantas incertezas.

Moscas volantes, infinito e desolador movimento.

Moscas volantes, minha própria imperfeição diante da luz do sol.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Debaixo da terra

Debaixo da terra, descansa um corpo.

Debaixo da terra, descansa uma vida.

Debaixo da terra, descansa uma história.

Debaixo da terra, descansam os beijos e abraços.

Debaixo da terra, descansam as brincadeiras de fim de tarde.

Debaixo da terra, descansa o olhar que dizia tudo sem precisar de uma palavra sequer.

Debaixo da terra, descansa a ironia peculiar.

Debaixo da terra, descansa a integridade.

Debaixo da terra, descansa a gargalhada gostosa.

Debaixo da terra, descansa um modo único de ver o mundo.

Debaixo da terra, descansam os sonhos.

Debaixo da terra, descansam as dores tão intensas.

Debaixo da terra, finalmente descansa o grito que jamais havia se calado. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Transformações

Tudo se transforma.

Tudo se dissolve.

Tudo se dissipa.

Tudo se esvai.

Inclusive eu.

Inclusive tudo o que tenho dentro de mim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Realidade paralela

E se tudo que pensamos e imaginamos aqui estiver acontecendo nesse exato momento em alguma realidade paralela?

E se tudo o que acontece aqui estiver sendo pensado e imaginado por alguém em alguma realidade paralela, nesse exato momento?

E se lá também pensarem que é só imaginação?

E se lá alguém também estiver se questionando se o que imagina lá acontece em alguma realidade paralela?

E se lá alguém também estiver se questionando se o que acontece lá pode estar sendo imaginado em alguma realidade paralela?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Um sentido para tudo

Achei um sentido para tudo.

Saí dali contente.

Era um entusiasmo só.

Levei para lhe mostrar.

Mas não adiantou, não resolveu.

Quando fiquei de frente para você, estava de mãos vazias.

Eu o perdi no meio do caminho. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A esperança se cansou de esperar

A esperança se cansou de esperar.

Porque a vida é agora.

A esperança se cansou de esperar.

Porque há um longo caminho pela frente.

A esperança se cansou de esperar.

Porque nosso paladar pode sentir todos os sabores.

A esperança se cansou de esperar.

Porque somos o amor que se paga à vista.

A esperança se cansou de esperar.

Porque precisamos dançar essa música.

A esperança se cansou de esperar.

Porque o sol está prestes a nascer novamente. 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O ponteiro que marca a hora

Desde criança, o ponteiro do relógio que mais me chama a atenção é aquele que marca a hora. Ele é uma metáfora, talvez, de como devamos encarar a vida em inúmeras situações. Ele é exemplar em sua discrição. É intrigante em sua calmaria.

Nossos sonhos e anseios são como o ponteiro dos segundos. É nessa velocidade que os queremos realizados. Mais do que isso: assim como o ponteiro dos segundos, queremos vê-los em movimento, queremos vê-los acontecendo mesmo antes que a hora chegue. Porque aquele movimento nos dá a certeza de que chegará. 

Entretanto, a vida real, pelo menos na grande maioria das vezes, e para nós, reles mortais com todas as nossas limitações, é muito mais como o ponteiro da hora. E o ponteiro da hora é algo quase mágico, como a vida real também pode ser quando encarada como ela é, sem a pressa da passagem dos segundos. 

O ponteiro que marca a hora, assim como a vida, está em permanente movimento. Ele é constante. Lento, mas inabalável. Não o percebemos se movimentando. É sutil demais. Mas ele está ali, devagar e sempre.  

O que mais me encanta no ponteiro que marca a hora é que, por mais que não o vejamos inquieto, se mexendo, ele faz, no seu ritmo e sem que possamos perceber, todo o trajeto circular da hora. E na hora certa, ele estará marcando a hora certa. Sem qualquer tic-tac. Ele anda. Ele chega. No seu próprio ritmo. Com sua precisão inatacável, irrepreensível. O ponteiro que marca a hora pode parecer indolente, preguiçoso. Mas cumpre exatamente o que tem de fazer. Ele é incrivelmente leal a seu propósito.

Assim é a vida. Muitas vezes não vemos o sentido do que está acontecendo. Olhamos para nossos sonhos, ficamos ansiosos pela transformação num tic-tac, ou em sessenta tic-tacs, e não nos damos conta de que ela, a vida, está acontecendo e se transformando, de um jeito ou de outro. Às vezes, tudo parece parado, estagnado. Mas definitivamente não está. E de um modo ou outro, mesmo que não percebamos, mesmo que não sintamos, estamos caminhando, estamos andando. O ponteiro está girando.

É claro, temos que fazer a nossa parte. Temos que saber que horas são, temos que saber onde estamos para que possamos chegar. E também precisamos das pilhas. Sem pilhas, o ponteiro do relógio para de vez. Temos, porém, um grande estoque de pilhas, das coisas que fazem nossos corações vibrarem e nos levarem em direção às coisas que queremos. E se alguém não os tem... Bem, talvez essa hora nem seja tão importante assim. Se em algum momento o coração parar de vibrar por aquilo que deseja, o próprio desejo terá evaporado.Você terá tantas pilhas quantas forem necessárias enquanto seus verdadeiros sonhos persistirem.

Então deixe o relógio andar, deixe a sua existência fluir. Na hora certa, a hora certa chega. Na hora certa, o ponteiro estará na hora certa. Na hora certa, a vida se acerta. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O silêncio que não é de paz

Essa rua não é sua, essa rua não é minha.

Prepare sua cabeça e reze para todos os seus santos.

Cada esquina é uma armadilha mortal.

Mantenha a atenção e não olhe para trás.

A vida não vale mais do que alguns trocados.

Caminhe rápido, torça para que não lhe vejam.

Cada beco pode ser o fim da linha.

Aqui não há lei, e você está à mercê desse cenário.

Então pare de fingir que está tudo bem, pare de fingir que somos livres.

Poças de sangue quente misturam-se à urina nesse chão fétido.

Salve sua alma, salve-se se puder.

Esse silêncio não é de paz.

Essa quietude é apenas a tensão que antecede os estouros.

Esse silêncio não é de paz.

A calmaria nervosa é o prólogo de mais um grito, em mais uma noite.

Porque nós somos banais, tudo aqui é banal.

E alguém está vivendo seus últimos segundos exatamente agora...   

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Velha noite árida

Havia uma promessa esquecida sob a terra.

Agora você não tem nada para me dizer.

Nós fugimos direto para lugar nenhum.

Porque sempre haverá alguém para dizer o que é bom.

Sempre haverá alguém para dizer o que devemos querer.

Velhas profecias viram ficção coberta de pó.

Tento entender por que ainda tentei permanecer em vão.

Todo anseio se esvazia entre meus dedos.

É impossível chegar ao fim sem começar.

E com o vento no rosto minha velha noite árida se repete.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Livre pela sala

Ela dança, livre pela sala.

Alguns dizem que ela é louca.

Outros dizem que ela desaprendeu a viver.

Ela gira, e gira, e gira, até ficar tonta.

Não tem companhia em sua insanidade.

Não se importa com o que vai acontecer.

Ela é tão bela com seus movimentos caóticos.

Nunca precisou de passos marcados.

Deixa a fumaça sair pela janela escancarada.

Ela vai se libertando em seu suor.

Deixa seus pés conduzirem a lugar algum.

E não se importa se algum voyeur rir de sua cara.

Ela é retrato em preto e branco.

Alguns dizem que ela nunca disse nada.

Outros dizem que ela um dia foi princesa.

Ela se diverte sem dar explicações

Deixa doer até o fundo da alma.

Ainda é muito cedo para deitar. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Milagre fugaz

Faça o que bem entender, porque eu estarei dormindo.

Não tenho motivos para ficar lhe ouvindo agora.

Eu gosto tanto de quando a noite chega e eu posso fechar meus olhos.

O sono é reconfortante quando não tenho nada para explicar.

E quando você fingia se divertir, aquilo era desespero ou medo da solidão?

Nossos papeis em cada ato sofrem mutações convenientes.

Sempre foi mais fácil não ver, sempre foi mais fácil não escolher.

Eu gritava em meu silêncio, e você fingia não me escutar.

Já não existem ameaças do lado de fora quando sabemos que o fim chega, cedo ou tarde.

Então você pode me deixar sozinho assim mesmo, porque não me importo.

Olhe para as veias, não somos mais do que esse bombeamento permanente.

Nada se perde quando nada se ganha, você tentou me ensinar.

Mas nunca aprendi nada a respeito disso.

Acredite em mim, sou um milagre fugaz, exposto o tempo todo.

Eu fico aqui dentro esperando o que você resolver.

Mas me deixe cochilar enquanto nada de novo acontece.

Me deixe descansar, já que de novo nada aconteceu. 

Sonhos numa folha de papel

Tenta direcionar suas atenções para todas as coisas ao mesmo tempo.

Ela tem medo de perder seus sonhos em qualquer esquina.

É doce o gosto que ela tem, e talvez por isso não consiga senti-lo em nada.

Ela desenha seus sonhos numa folha de papel.

O mundo gira muito mais rápido do que consegue acompanhar.

Ela tem todas as cores, e tornou-se escuridão.

Como não desperdiçar a vida, se tudo o que é já foi?

Ela é toda amor e frustração, andando sem um destino.

Ainda respira, ainda insiste.

Ela não quer nada para amanhã, o amanhã é a cenoura à frente do burro.

O hoje é tudo que tem, abre o peito e fecha os olhos.

Ela se joga pela janela, ela é o silêncio e o vazio que o vento sopra sem que você enxergue.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Nada pode parar

Não há dor, mesmo que sangre.

Não há nuvem, mesmo que chova.

Não há escuridão, mesmo que não enxergue.

Não há poeira, mesmo que tussa.

Não há luto, mesmo que morra.

Não há angústia, mesmo que chore.

Não há fim, mesmo que esvazie por um momento.

Nada pode parar.

Nada parará.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Não sofra, não chore

Nem sempre é possível encontrar a paz, disso eu sei bem.

Mas eu não quero que você sofra, eu juro que não quero.

Não sei como chegamos até aqui, estou pensando em você.

É difícil abrir mão, é difícil fingir que não sinto dor.

Então o que eu poderia realmente fazer para que você parasse de chorar?

Não há nada melhor do que isso para ser dito.

Eu não deixei de me importar, eu não deixei de me preocupar.

Mas não há nada melhor do que isso para ser dito.

Sentimentos não se evaporam, sua importância jamais se evaporará.

E sempre teremos boas lembranças, vivas para sempre.

Se eu enlouquecesse e lhe abraçasse em silêncio, nada mudaria.

Mas eu me sentiria aliviado.

Então não sofra, não chore.

Eu parti porque era necessário.

Eu nunca lhe esqueci, nunca lhe esquecerei.

Então não sofra, não chore.

Meu silêncio é cheio de amor.

E tudo está bem, do jeito que pode estar.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Bial num encontro amoroso

Bial e a namorada, jantando à luz de velas:

- Tá bom esse salmão, né?
- Sim, querida... 
- Eu gosto desse tempero, como se chama mesmo...?
- Ah, querida, desculpe interrompê-la assim. Mas preciso lhe dizer... Preciso lhe dizer agora, só agora, inescapavelmente agora. Preciso lhe falar desse anseio, dessa força. Desse turbilhão que toma conta do meu âmago, dessa necessidade incontrolável, desse algo que não posso deixar de sentir. É aquilo que me mexe e remexe por dentro. Turva minha visão. Invade minha mente, minha alma, meu coração. É esse querer que parece transbordar, que me faz suar frio, que ao mesmo tempo me paralisa e me inquieta. Ah, querida, e quais palavras posso usar para expressar isso com a devida precisão, e...
- Você tá querendo cagar, né?
- Sim, sim... Isso.
- Vai lá. Depois continuamos com o salmão.
- Obrigado, meu bem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Verdade em nossa embriaguez

Velas acesas, uma música antiga tocando ao fundo.

Não sei o que esperar, não sei quanto tempo esperar.

Você diz que pode me ver, e ri.

Fico catando algum significado perdido no meio de tantas palavras jogadas ao vento.

As janelas estão fechadas, e talvez essa seja minha sorte.

Não peça desculpas por me dizer o que vê.

Há muita verdade em nossa embriaguez.

E você sabe melhor do que ninguém que a lucidez é mentirosa.

Então dançamos e fazemos de conta que nos conhecemos.

Ao fim, os lençois me protegem do frio enquanto lhe sinto.

A noite se foi, o sono não veio.

A manhã passou num segundo, e daqui a pouco vai entardecer.

Preciso ir embora antes que me esqueça de quem eu sou,

Pés sobre a linha

Estamos andando, correndo, vagando.

Esperamos pelo fim quando estamos no meio.

E na verdade seguimos com medo de chegar.

Bem no final, o vazio.

Nossos pés sobre a linha, a chama que se apaga numa fração de segundo.

Não há coincidências, mas tudo parece caótico.

Mas agradecemos sem a menor ideia do ponto em que estamos.

No céu, a dádiva.

Na cama, o tormento.

Em mim, o lamento.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Algo sobre meu rosto

Um mundo feito de mentiras, estou sempre em fuga.

Bem acima do coração, no bolso, há uma chave.

E ela termina valendo bem mais ao fim da noite.

Eu sempre gostei de assistir a essas coisas.

Eu sempre achei graça de tudo isso.

Há algo sobre meu rosto.

Não enxergo bem, trato de guardar em minha carteira.

Vou ressecando junto, até sentir o olho pesar.

A história sempre termina da mesma forma.

E não há como impedir as pessoas de serem elas mesmas.

A história sempre termina da mesma forma.

E não há como me impedir de ser eu mesmo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Apreciando o silêncio

Eu aprecio o silêncio.

Aprecio cada palavra não dita, mastigada e triturada entre os dentes inquietos.

Eu aprecio o silêncio.

Aprecio cada frase maldita, asfixiada no peito, enforcada na garganta.

Eu aprecio o silêncio.

Aprecio as bobagens que se vão direto para o estômago, afogadas no maremoto de um gole de cerveja.

Eu aprecio o silêncio.

Aprecio cada possibilidade que adormece e morre quietinha na fração de segundo que deixa passar a fotografia perfeita.

Eu aprecio o silêncio.

Aprecio a abundante riqueza de uma história em forma de filme ultraveloz que se expande e se deixa sugar, minúsculo, de volta para a mente.

Eu aprecio o silêncio.

Porque nele cabem todos os estrondos, gritos, ruídos e pequenos sussurros que possamos imaginar.

Eu aprecio o silêncio.

Porque nele cabem todas as melodias, calmas e revoltosas, bonitas e feias, simples e complexas, melancólicas e felizes.

Eu aprecio o silêncio.

Porque ele abraça qualquer um, aceita qualquer devaneio, é democrático com nossas doenças e amores.

Eu aprecio o silêncio.

Porque ele não se deixa silenciar, ele penetra em qualquer pequeno espaço entre o ronco dos motores na avenida e se faz presença permanente ao fundo, mesmo quando não percebido.

Eu aprecio o silêncio.

Porque ele é uma expressão mal-compreendida da liberdade mais plena do espírito.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Algo pelo que lutar

O mundo girando me deixa tonto.

Estou me entregando às promessas que só eu ouço.

O passado possui uma porta impossível de abrir.

Mas o futuro, tão em aberto, me dá calafrios.

Está tudo bem, ainda que não pareça.

Sinto-me refém da sorte, de algum milagre aleatório.

Tantas pessoas correm, tantas pessoas fogem.

Eu não consigo entendê-las.

Tantas crianças correm, tantas crianças brincam.

Eu paro para admirá-las.

Sonhe, até que a dor lhe interrompa.

Haverá algo pelo que lutar quando estiver acordado.

Acredite em mim, haverá algo pelo que lutar.