sábado, 26 de dezembro de 2015

À deriva

O sono me consome, não tenho como dormir.

Há alguma coisa queimando minha mente sem trégua ou alívio.

E para onde quer que eu vá, não posso fugir.

Existe um desespero latejando no peito, um anseio não satisfeito em permanente desassossego.

Pelos meus caminhos, vou deixando lacunas.

Sou uma estrada pessimamente pavimentada.

Busco estragar a mim mesmo em cada canto, deixo-me espancar a cada rua.

Não peço socorro, a dignidade se perde em camadas, camadas que nunca terminam.

Minha dor se reflete na falta de expressão em meus olhos.

No âmago do espírito, um buraco que suga as energias, e que jamais será preenchido.

Não há revolta maior e mais sublime do que a desistência.

A existência é o mero e insignificante detalhe que faz toda a diferença.

O universo fala comigo em um idioma que não consigo decifrar.

Eis a ironia de tudo, a ignorância que me tortura, os papeis que não consigo ler, desmanchando-se nas minhas mãos.

Eu fico para depois, e depois, e depois.

A chuva fina me toca sem que eu sequer perceba, enquanto a tempestade me inunda e deixa o coração à deriva.

E quando é que, afinal, não foi assim?

Não existe terra firme para qualquer sentimento que eu crie, recrie ou distorça.

E quando é que, afinal, não fui assim?

Esperando por esperanças

Um olhar doce e triste, uma voz que expressa toda a inocência.

A vida é árdua cedo demais.

Todo pedido é um pedido, não existem escolhas para ela.

A garota espera que lhe dêem esperanças que são sonegadas todos os dias.

Estamos ocupados demais com nossos próprios narizes.

Nada é limpo, nada é justo quando não se tem um amanhã, e nem sequer um hoje.

Para ela é tanto, para nós é tão pouco, e ainda assim não nos importamos.

Mas todos estão de cabeça erguida e orgulhosos por jamais terem feito nada.

Mas todos estão com a desculpa pronta na ponta da língua para manterem suas consciências limpas.

O esquecimento é rápido, fácil e indolor.

E assim seguimos.

E assim ela segue.

Nas costas de uma criança, toda a carga de um mundo frio e distante que parece não ter sido feito para ela.

Nas costas de uma criança, todo o fardo pesado que ela jamais pediu para carregar.

E precisa resistir.

Precisa sobreviver.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Semelhanças e diferenças

Nos erros vão surgindo os caminhos.

Do avesso emergimos para a superfície.

Respirar pode ser bem mais simples.

Abrimos mão de certas coisas para poder agarrar outras.

Tantos estragos já foram feitos por aqueles que não sabem amar.

Uma simples canção me torna mais resistente.

Semelhanças e diferenças esboçam as possibilidades logo à frente.

Não existe nada para ser entendido enquanto se está vagando no escuro.

Ainda assim é dia lá fora, e ninguém me avisou.

O mais fácil dói menos, pulsa menos.

Somos prisioneiros atrás de grades que nós mesmos criamos.

Não há nada perdido, porque nada jamais nos pertenceu.

E nada jamais irá nos pertencer.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Liberte-se

Liberte-se.

Liberte-se de tudo o que lhe amputa o espírito.

Liberte-se do que querem que você pense, se você não pensa.

Liberte-se do que querem que você goste, se você não gosta. 

Liberte-se daquilo que querem que você engula, se você não engole.

Liberte-se de tudo que querem que você seja, se você não é.

Liberte-se.

Liberte-se das histórias que não lhe convencem.

Liberte-se das cartilhas, dos manuais.

Liberte-se daquilo em que querem que você acredite, se você não acredita.

Liberte-se do que lhe dizem que é bonito, se você acha feio.

Liberte-se do que lhe dizem que é certo, se você acha errado.

Liberte-se das necessidades que não são suas.

Liberte-se das lágrimas que não lhe pertencem.

Liberte-se das ilusões e dos sofrimentos.

Liberte-se de tudo que joga seus preciosos segundos pela janela.

Liberte-se de tudo que lhe violenta a alma.

Liberte-se! Liberte-se! Liberte-se!

Liberte-se do bom dia, se ele não for bom.

Liberte-se do açúcar, se estiver se sentindo amargo.

Liberte-se da calma, se ela for artificial.

Liberte-se da multidão, liberte-se de tudo aquilo que promete e não cumpre.

Liberte-se do que lhe frustra, liberte-se do que lhe rasga. 

Liberte-se, agora!

Liberte-se da roupa de que você não gosta.

Liberte-se daquilo que esperam de você, e deixe que esperem, e esperem, e esperem, se não for aquilo que move o seu coração.

Liberte-se do caminho que não lhe convence.

Liberte-se de tudo que é entregue pela metade.

Liberte-se de todos os quases que não lhe satisfazem.

Liberte-se! Liberte-se!

Liberte-se do carinho que corta e sangra, liberte-se do afeto que lhe engole e mata dia após dia. 

Liberte-se do seu ouro, se ele lhe escraviza.

Liberte-se da sua carne e do seu couro, se eles lhe limitam.

Liberte-se de tudo que lhe incomoda, liberte-se de tudo que lhe dá náuseas.

Liberte-se de tudo que lhe asfixia.

Liberte-se da fúria, liberte-se do amor, liberte-se da apatia, liberte-se da cura.

Liberte-se, permita-se voar como os pássaros.

Liberte-se e seja passageiro dos seus próprios sonhos.

Liberte-se do sorriso forçado, liberte-se até da gratidão por aquilo que não lhe faz sentir grato.

Liberte-se, liberte-se, liberte-se.

Liberte-se do silêncio, liberte-se das palavras. 

Liberte-se do desperdício, liberte-se dos gritos, liberte-se das dores.

Liberte-se, liberte-se, liberte-se.

Liberte-se de tudo, liberte-se das fronteiras que lhe impõem, liberte-se da prisão em que trancafiaram sua mente.

Liberte-se! Liberte-se! Liberte-se!

Liberte-se e viva consigo mesmo sua paixão, seu delírio, sua loucura.  

Liberte-se de tudo.

Apenas liberte-se.

E liberte-se até da liberdade proposta por quem lhe diz para se libertar, se assim você o quiser.

Normalidade estranha

Você está tentando digerir aquilo que lhe obrigam a engolir.

A vida oferecida é pastosa e sem gosto algum.

E então você dá adeus à forma e à ordem.

Porque não existe nada de verdadeiro nisso.

A normalidade é tão estranha!

Em tudo que lhe programam a fazer não há nada de você.

A beleza de tudo está escondida em cada milagre.

E ter o privilégio de ser vida é um milagre.

Não há porque sentar-se sobre um baú de humilhações.

Há mais do que isso, muito mais do que uma cegueira passageira.

Porque com as mãos não há como segurar a fumaça que sobe pela chaminé.

E o martírio é pura bobagem quando se está apenas no meio de um caminho cheio de escolhas.

Então seja a forma que lhe satisfaz, e não pare.

Faça do fogo que arde a luz para seus passos, e ria.

Nos fins estão os recomeços no interminável fluxo do rio da vida.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A cor diferente no meio do cinza

Num sopro, apago as velas.

Sobrou a noite toda para sonhar.

Em cada gesto, um pedaço da alma.

A delicada perfeição está em cada poro, em cada respiração e sussurro.

Porque cada segundo pode ser sublime.

E esse perfume pode permanecer até que amanheça, até que acordemos.

Então seremos a cor diferente no meio do cinza, andando na multidão, tragando a poluição.

Seremos a gota doce na caneca de café amargo.

Seremos o riso isolado quebrando o silêncio carrancudo que faz pesadas nossas ruas.

E nos livraremos da atmosfera tensa, da seriedade asfixiante, das formas que nos limitam.

Afinal, nada disso importará mais.  

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Minha distração

Você está bonita hoje.

E eu gostaria que soubesse disso.

Seus olhos tristes são intrigante poesia.

Fique um tempo aqui.

Aqueles passos ainda estão na minha memória.

E você nem deve lembrar mais.

Reserve uma noite para que eu exista.

Não quero que você se vá.

Aceite minha correção do passado.

O perfume não queimará minhas entranhas.

Seja agora minha distração.

E talvez eu transforme seus minutos em uma eternidade. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Caos e ordem

Levando o mundo nas costas.

Carregando todas as amarguras, todos os anseios.

No peito, o coração, cansado.

Na pele, a marca do fogo do sol.

A liberdade parece uma promessa não cumprida.

Mas ela está presente no ar que respira.

Toda espera é mentirosa, é tempo perdido.

O caos é harmonia, a ordem é violência. 

O que dói tem vida.

Então ele deixa-se doer, deixa-se viver.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Brado engasgado

As folhas voam, e com elas voam as dignidades dessa gente.

O mundo que prometem é feito de mentiras descaradas.

Não adianta implorar salvação, se o que move essa máquina é a sujeira.

Boas intenções são pulverizadas no ar, numa estrada feita de péssimas encenações.

Esses significados foram feitos para que ninguém os compreenda.

Na honraria, está incluída a queda e a putrefação.

Então não há porque entregar a alma para essa entidade.

O brado está engasgado, o sangue pulsará ainda mais forte.

A liberdade cobra seu preço, deixamos o ouro para os tolos.

Rasgamos nossa carne, gargalharemos depois disso.

Dê-me o poder para que eu o amasse.

Dê-me o poder para que eu o liquide.

Dê-me o poder para que eu o enterre.   


domingo, 13 de dezembro de 2015

Nenhuma reação possível

Não encontrava nada do que era necessário.

E só no meio do caminho eu lembrei que não podia estar na rua.

Voltei a tempo de evitar a perda de tempo.

Mas quando tudo parecia se acalmar, estava de volta à rua.

Tanto caos sem motivo, nenhuma reação possível.

Ainda havia vida cambaleante, e eu fiquei incrédulo.

A dor física se dissolve no desespero emocional.

Terminei sem um lugar definido, mas bem onde eu queria.

Terminei bem onde queria, cercado por gente que eu não conhecia.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Beijo cristalizado

Uma desculpa qualquer foi a melhor desculpa.

Logo depois, estávamos conversando sobre escolhas e precipícios.

Entregues à nossa própria sorte, deixamos que tudo acontecesse.

Nos devorávamos, e o tempo parou, solenemente.

Deixei-me invadir pelo cheiro que me levava ao paraíso.

Minha pele na sua pele, minha boca acariciando a sua boca, meus dedos tateando meus sonhos.

Mas em seguida sempre aparece um bloqueio, um aborto de todos os anseios.

E tudo se torna um inferno que queima a alma.

Ressuscitamos algumas vezes, e não posso dizer que tenha havido arrependimento.

Então me pego imerso em minhas recordações.

O mundo mudou.

Mas aquele beijo ficou cristalizado.

E não importa onde você está, onde eu estou.

Um pouco de nós continua pelo ar, para nunca se desfazer.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

No fim das contas

Desculpe-me a pressa, tenho de ir.

Estive mergulhado em águas que não me levavam a lugar nenhum.

Agora eu respiro, eu busco coisas que não conheço.

Acredite, isso é melhor do que essa previsibilidade.

Existe uma plateia apática, apenas observando seu esforço.

Tudo o que eu disse naquelas noites já foi pelo ralo.

Nos dias rasgados do calendário, fui apenas mais um.

As palavras foram promessas predestinadas ao vazio.

No fim das contas, é melhor nos apegarmos àquilo que realmente temos.

No fim de tudo, é melhor deixar-se levar pelo oceano, sem saber onde chegar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sopro de beleza mórbida

As folhas secas caem sobre seu casaco bege.

Ela está em busca de cor no céu acinzentado.

O vento é poesia movendo seus cabelos, gelando sua face.

Ela espera não esperar por mais nada.

O vermelho de seu coração exposto a torna mais vulnerável.

Ela tem o olhar que expressa a desesperança angustiada de um dia vazio.

A lã não protege do frio que vem do âmago do ser.

Ela tem em suas mãos todos os motivos para fugir dali.

Foi uma marionete censurada, arrebentou os fios que lhe escravizavam.

Ela é um sopro de beleza mórbida, de morte em vida, escrevendo linhas para que ninguém leia.

Um olhar penetra, um olhar desvia, berra e se perde.

Ela é a perfeita representação do incompreendido que se esconde no ar que circula.

Bem do alto, a gratidão profunda pela graça não alcançada.

Ela é a perversão de todo imaginado, de todo sonhado.

É tempo de solidão e vagos prolongamentos.

Ela é a maçã suculenta e mordida, o sabor que se esconde e foge pelo canto da boca.  

Tudo padece e termina a todo momento.

Ela é a conformidade que arranha o vidro que lhe faz cativa em si mesma. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Significados frouxos

O controle de tudo e todos, a queda.

Eles se alimentam de migalhas.

Reconhecem para esquecer novamente.

É uma luta de significados frouxos.

A nobreza se ajoelha, com os pingos da chuva em suas costas.

É chegada a hora da verdade.

Então eles correm, eles fogem, eles gritam.

O desespero é a voz que se impõe.

Já não há céu, não há estrelas.

Restaram somente sensações.

A vida não acabou, ela apenas se inicia.

Eles são nada, eles são tudo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Cinco

Estávamos sentados lá, numa tarde quente.

Tanta gente com quem eu não queria estar.

Você fingia não me ver, e eu fingia não ver você.

Sentia meu peito cortar, mas, e daí?

Talvez houvesse algo a ser dito.

Mas optamos por manter o silêncio e a impessoalidade.

No fim das contas, tudo parece acabar, mesmo.

E eu não sou um privilegiado.

As pessoas mantêm seu cinco, não arriscam-se ao dez por medo do zero.

Então eu olho para frente, fazendo questão de manter-me tolo.

Ainda sinto o gosto, ainda tenho capacidade de amar.

Busco por aí aquilo que mereço, e ainda não recebi.  

sábado, 5 de dezembro de 2015

O balão vermelho

Oitenta e poucos anos.

Ela está sentada.

Em sua mão, a cordinha com o balão vermelho.

É o que ainda a prende às suas melhores lembranças.

Porque a cabeça não ajuda mais.

E a solidão tornou os dias pastosos.

Porque tantos se foram, sem que ninguém mais venha.

Eis a senhora e o balão.

Um último resquício de vida. 

A única coisa que ainda possui cor neste quadro em preto e branco. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Velha dívida

Daqueles tempos, restaram apenas as memórias.

E tudo era tão novo e bonito, ele se sentia amado.

Até o silêncio fazia bem, e a respiração era tão leve.

O anoitecer não chegava com jeito de castigo.

Mesmo no frio, sentia-se acolhido.

A solidão era uma companhia tão mais agradável.

Ninguém pode entender o que se passou.

Agora, a solidão chega cobrando uma velha dívida.

Agora, as noites quentes tornaram-se frias.

Agora, o silêncio pesa uma tonelada.

Agora, não há mais novidades para distrair.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Fuga em desespero

Bem ao longe está o garoto correndo.

Ele está fugindo de si mesmo, em desespero.

Se vai ao alto, está alto demais.

Se vai para baixo, está baixo demais.

As insatisfações e desapontamentos mais parecem deboche.

E sabe bem do que lhe incomoda.

Não precisa que ninguém lhe diga seus problemas.

A cada dia, comete um suicídio diferente.

Porque nada jamais será suficiente.

E nada estará bom, nunca terá paz.

Então ele grita para se libertar.

Ele grita porque está tudo acumulado.

Em êxtase, abandona toda e qualquer ambição.

É o fim, é o começo.

Não há mais fim, só os meios.   

Porque nada é aquilo de que sempre precisou.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Você pode até não acreditar

Você pode até não acreditar, mas há algo bom reservado à frente.

Você pode até não acreditar, mas a próxima música fará você dançar feliz.

Você pode até não acreditar, mas seu choro virará um riso frouxo.

Você pode até não acreditar, mas as flores vão colorir esse cinza apático dos prédios.

Você pode até não acreditar, mas a vida amarga logo terá sabor de doce de leite.

Você pode até não acreditar, mas o sol vai brilhar após a tempestade, trazendo consigo o arco-íris.

Você pode até não acreditar, mas a tristeza de hoje é o adubo para a alegria cintilante de amanhã.

Você pode até não acreditar, mas as crianças tornarão a brincar nas ruas, comendo balas de morango sem medo das de pólvora.

Você pode até não acreditar, mas sua vitória chegará cheia de luz intensa.

Você pode até não acreditar, mas tudo isso fará sentido e as angústias serão apenas memórias de um passado que lhe fortalece.

Você pode até não acreditar, mas as melhores coisas vão acontecer, independentemente de você acreditar nisso.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O desespero que brilha na penumbra

A cada novo dia, uma morte diferente.

O ar pesado asfixia todos nós.

Buscamos esperanças nas esquinas, mas só encontramos sujeira.

Os mais diversos estrondos nos abalam, nos distraem de quem somos.

As angústias escravizam, os temores imperam.

Carnes apodrecem, ossos são roídos.

É o desespero que brilha na penumbra.

Certezas, não as temos mais.

Trocamos a vida pela sobrevivência.