domingo, 25 de outubro de 2015

Rascunhos

No meu caminho, árvores altas, frutos que não posso colher.

Resgato as cores, caio de joelhos.

Eu sei bem daquilo que preciso, sei o que não é suficiente.

As pessoas sempre estragam tudo, liquidando a si mesmas.

E então eu ressurjo, envolto em medos que nunca foram os meus.

Eu debocho, eu aponto o dedo para mim mesmo.

Há sempre algo melhor para experimentar, enquanto você espera na fila.

Onde eu vou não há nada do que procuro.

Sou um lunático que busca um lugar que seja somente meu.

Sou um transeunte dividindo espaços na multidão.

E lutando, e lutando, a cada centímetro de chão.

Nas fotografias, registro os sonhos e as coisas das quais não posso ter certeza.

E no fim das contas, eu jamais tenho certeza de nada.

Tudo escapa, tudo foge, tudo acaba.

E eu amo o amor que não posso amar, me dou de corpo e alma para um mundo que não me abraça.

Na loucura que me faz sobreviver, eu sigo inventando sentimentos e sentidos, tão reais, tão inexistentes.

E persisto porque preciso de significados para tudo isso, mesmo que me destrua pouco a pouco.

No meu coração, alimento, desejo, acaricio e dou vida à minha mais bela criação.

E me deixo engolir pela minha alma, pelo meu silêncio compulsório, que arde, que cavoca, que maltrata, que instiga, que tortura.

Deixo-me misturar ao universo, mergulho, ganho velocidade, e esqueço minha própria existência.

Como pode inexistir este amor que existe pulsando tão intensamente em meu peito? 

De cada sentimento, de cada coisa vivida, ficam somente os rascunhos, precários e amassados.

Porque parece que a vida nunca é quadro, nunca ganha moldura, nunca é obra pronta.

E eu sou o artista fadado a apresentar em minha exposição sempre uma sala branca e vazia.

Sou o desenhista da vaca e do pasto.

Sou a dor que distrai e diverte, sem valor, sem destino.

Sou a abstração de todos os amores que voam com o vento sem que ninguém os veja, sem que ninguém os viva.

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