sábado, 31 de outubro de 2015

Abrir e fechar das cortinas

Abrem-se as cortinas, e um dia de sol nem sempre precisa ser um espetáculo.

Brilhos desnecessários e fugazes alimentam de sentido as coisas não sentidas.

Aplausos e afagos são mentiras mal contadas nas quais todos fingem acreditar.

Entranhas são expostas num show dantesco, como se qualquer tentativa fosse válida.

Risos compulsórios e palavras carregadas geram uma teia de imagens irreais.

Cada número move em direção a um abismo interior.

Almas profundas deixam-se arranhar pelo reino das coisas passageiras.

Hoje o que importa é apenas o que não possui importância alguma.

Na boca, o elogio e a traição.

Na boca, o beijo e a trituração.

Na boca, o sorriso e a devoração.

Em cada segundo, a adoração se engalfinha com a banalização.

O amor inventado acalenta, temperado por gotas certeiras de lágrimas.

O amor não vivido esfria no prato, dissolvido na saliva não compartilhada.

Todo o brilho fugaz agora é uma coleção de lembranças incertas, cobertas por uma cortante descrença.   

Fecham-se as cortinas, e tudo tornou-se o infinito silêncio da solidão. 

Hipocondria emocional

Uma noite mal dormida é apenas reflexo do que não somos.

As dores estão em todos os lugares, menos aqui.

Mas isso não significa que elas não doam.

Sofremos dessa espécie de hipocondria emocional.

Ficamos reféns de fantasmas que só existem em nossas cabeças.

O ontem que talvez não tenha acontecido está presente, em permanente tortura.

O amanhã que possivelmente não acontecerá fica bem aqui, sussurrando coisas terríveis aos ouvidos.

E o hoje, o hoje é uma ausência que abre esse buraco que se deixa preencher pela angústia da existência.

Não há nada que possamos tocar, não há nada que possamos segurar em nossas mãos.

Tudo aquilo que amamos nos escapa o tempo todo.

E tudo que nos resta é a certeza da incerteza.

Porque em alguma esquina encontraremos uma nova tristeza para nos consolar.

Em algum beco estaremos nos escondendo, e parindo esperanças condenadas à morte.  

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Sopro de consciência

Fecho meus olhos e não descanso.

O despertar custa muito caro.

Viro um sopro de consciência.

Fico de cabeça para baixo.

A estática tenta tomar conta de tudo enquanto reluto para encontrar uma imagem.

E eu luto para não ser sugado novamente.

Abro bem meus olhos, estou de volta.

Mais uma vez não foi a última.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Navegante

O barco vai balançando, levado pelas ondas.

O mar é vista linda, mas nunca vejo terra firme.

Não sei onde estou, não tenho bússola.

Eu nem sei se algum dia chegarei a algum lugar.

O vento toca meu rosto, um híbrido de alegria, angústia e tristeza.

Talvez um meteoro caia por aqui.

Em minha cabeça, eles caem o tempo todo.

Desconheço meu fim, não reencontro um começo.

Para que lado eu devo ir, não sei mais.

As coisas que parecem insignificantes têm tanto significado enquanto procuro meu caminho nessa vastidão.

Preciso deitar e dormir um pouco.

Mas estou tão cansado de sonhar.

As ondas me abraçam e refrescam.

Mas não, eu não sei onde estou.

Eu navego entra a euforia e a depressão.

No céu, as estrelas brilham, me fazem sentir um ponto perdido.

Tudo é tão bonito, tudo é tão irreal.

E quanto mais eu navego, mais eu me perco.

Porque eu definitivamente não sei onde estou.  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desejos

Eu desejo respirar bem fundo.

Eu desejo sentir o gosto das coisas.

Eu desejo rir e sorrir.

Eu desejo amar e ser amado.

Eu desejo uma flor que eu possa cheirar.

Eu desejo um tempo só meu.

Eu desejo chorar de alegria.

Eu desejo poder ser eu integralmente.

Eu desejo matar todos os fantasmas que me intoxicam.

Eu desejo meu peito aberto e sem angústia.

Eu desejo voar num céu limpo e azul.

Eu desejo me livrar das nuvens carregadas.

Eu desejo luz e claridade.

Eu desejo encontrar um caminho que me explique todas as coisas.

Eu desejo ser livre em relação à minha mente.

Eu desejo o hoje, para hoje.

Eu desejo que a realidade seja um grande e interminável sonho.

domingo, 25 de outubro de 2015

Rascunhos

No meu caminho, árvores altas, frutos que não posso colher.

Resgato as cores, caio de joelhos.

Eu sei bem daquilo que preciso, sei o que não é suficiente.

As pessoas sempre estragam tudo, liquidando a si mesmas.

E então eu ressurjo, envolto em medos que nunca foram os meus.

Eu debocho, eu aponto o dedo para mim mesmo.

Há sempre algo melhor para experimentar, enquanto você espera na fila.

Onde eu vou não há nada do que procuro.

Sou um lunático que busca um lugar que seja somente meu.

Sou um transeunte dividindo espaços na multidão.

E lutando, e lutando, a cada centímetro de chão.

Nas fotografias, registro os sonhos e as coisas das quais não posso ter certeza.

E no fim das contas, eu jamais tenho certeza de nada.

Tudo escapa, tudo foge, tudo acaba.

E eu amo o amor que não posso amar, me dou de corpo e alma para um mundo que não me abraça.

Na loucura que me faz sobreviver, eu sigo inventando sentimentos e sentidos, tão reais, tão inexistentes.

E persisto porque preciso de significados para tudo isso, mesmo que me destrua pouco a pouco.

No meu coração, alimento, desejo, acaricio e dou vida à minha mais bela criação.

E me deixo engolir pela minha alma, pelo meu silêncio compulsório, que arde, que cavoca, que maltrata, que instiga, que tortura.

Deixo-me misturar ao universo, mergulho, ganho velocidade, e esqueço minha própria existência.

Como pode inexistir este amor que existe pulsando tão intensamente em meu peito? 

De cada sentimento, de cada coisa vivida, ficam somente os rascunhos, precários e amassados.

Porque parece que a vida nunca é quadro, nunca ganha moldura, nunca é obra pronta.

E eu sou o artista fadado a apresentar em minha exposição sempre uma sala branca e vazia.

Sou o desenhista da vaca e do pasto.

Sou a dor que distrai e diverte, sem valor, sem destino.

Sou a abstração de todos os amores que voam com o vento sem que ninguém os veja, sem que ninguém os viva.

sábado, 24 de outubro de 2015

Mastigação

Mastigamos a dor.

Mastigamos a mágoa.

Mastigamos a culpa.

Mastigamos as desculpas.

Mastigamos a angústia.

Mastigamos a ausência.

Mastigamos o silêncio.

Mastigamos o querer.

Mastigamos as lembranças, cascas de feridas que insistem em sangrar.

Mastigamos as migalhas e farelos.

E engolimos tudo, a seco.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Eu lhe trago flores

Eu lhe trago flores.

É manhã, e a rua demorou a ganhar cor.

Eu lhe trago flores.

Com elas, o perfume que inspira.

Eu lhe trago flores.

Não se assuste se eu parecer um tolo.

Eu lhe trago flores.

Desculpe, não posso deixá-las murchar.

Eu lhe trago flores.

O inverno foi longo demais, mas a primavera finalmente chegou.

Sem linha de chegada

Quando você vê o garoto correndo, o que será que pensa?

Talvez esteja muito ocupado para isso.

É a velha vontade de correr por correr, sem linha de chegada.

Mas isso parece mais uma banalidade.

Abandonamos a essência, e tudo tornou-se milimétrico.

Sempre temos que terminar, sempre temos que terminar.

Mas eu quero continuar, quero continuar.

E assim como aquele garoto, quero correr até que minhas energias tenham se esgotado.

Estou brilhando, brilhando.

Estou queimando, queimando.

Olhe para as estrelas.

E voe, mesmo que pareça impossível.

Olhe para as estrelas.

E chegue até elas, mesmo que seja impossível.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

As coisas ruins uma hora vão passar

Eu entendo quando você diz que dói.

A demência levou o mundo a um estágio inaceitável.

Mas as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

Se o coração acelerar, respire fundo.

Não há monstro nenhum aqui.

E as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

Os dias correrão, e tudo voltará ao seu lugar.

Os risos estão guardados, eles voltarão para iluminar a existência.

Porque as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

Existe uma espessa camada de amor para cobrir suas feridas.

A angústia tão pesada logo será pluma diante da beleza das flores, dos campos nos quais você corre.

Sim, as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

As nuvens choram, mas o sol sempre volta sorrindo.

Descanse a alma, permita-se sentir a paz que existe na imperfeição.

Porque as coisas ruins já estão passando, eu juro.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Nova lição

Eu aprendi uma nova lição enquanto fiquei aqui.

Talvez isso não fosse necessário, mas eu busquei algo para me martirizar.

Foi uma escolha, sim, eu sou consciente disso.

Você banaliza todos os dias as palavras mais sagradas.

Talvez seja uma questão de hábito, e de dar pouca importância.

Talvez eu esteja entendendo a forma como o mundo gira.

Vejo as coisas que você expõe, eu não acredito em nada disso.

Vejo as coisas que você quer ser e não consegue, e permaneço sem acreditar.

Antigamente eu me preocupava com os lugares aos quais eu não ia, com as coisas que eu não vivia.

Mas agora sei como eliminar qualquer dor.

E sei como não priorizar o que jamais foi priorizado por você.

Tudo é tão igual.

Tudo é tão repetitivo.

Tudo é tão trivial.

Tudo é tão enjoativo. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Necessários e dispensáveis

Voltou a esfriar, sou congelado até os ossos.

Não me importo com o que se passa, nem com as coisas que não vejo.

Tanta gente chora sem motivo, tanta gente ama suas próprias ilusões.

Lado a lado, você e a derrota que não pode sentir.

Apenas uma brisa, e sua mente é levada para lugares nunca explorados. 

Estamos aliviados por não existirmos, à espera de mais uma injeção cheia de sonhos que não nos pertencem.

Ganhamos isso apenas para continuar, somos necessários e dispensáveis.

Não tínhamos anseios, mas precisávamos de um motivo.

Tudo fica bem, tudo voltou a ser como não era antes.

Porque todas as surpresas são esperáveis e previsíveis.

Não estamos suficientemente encharcados com essa doçura amarga e repulsiva.

E nem sequer conseguimos sentir algum arrependimento por isso.

A cegueira está em tudo aquilo que enxergamos.

Nada é cômodo quando não pertencemos a nós mesmos, e vamos caminhando por espasmos.

Algumas horas são mais longas e valiosas do que outras.

Ficamos aguardando restos e migalhas no ponteiro que vai nos destruindo lentamente.

Em diferentes lugares, as justificativas são as mesmas.

Mas não somos donos de qualquer privilégio, os desapontamentos são recorrentes.

Estamos reféns das mentiras que inventamos para nos confortar.

E do chão recolhemos nosso alimento e nosso veneno diário.

Não há consciência nesse amanhã prometido.

E nada será suficiente, ainda que nos mantenhamos aqui.

O futuro passou bem em frente aos nossos olhos.

Sobraram apenas os ruídos e a poeira.

Sobramos apenas nós, tão distantes, dolorosamente próximos e unidos.

Areia movediça

Ela invade meu território sem pedir permissão.

Ela é linda, ela é o sonho durante a vigília.

Ela brilha e me cega.

Ela passa e vai colorindo o mundo.

Ela é paraíso e dor, ela é inferno e bálsamo.

Ela brilha e me cura.

Ela sorri e me distrai, como se nada mais existisse.

Ela é o segundo que não passa, ela é areia movediça engolindo minha alma.

Ela brilha e me mata.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Pensando e sentindo

Desde que os mundos se cruzaram eu nunca mais fui o mesmo.

Vou pensando e sentindo, andando para não chegar.

Fui me fracionando à força, eu tinha que agir assim.

Seu tempo é precioso demais para mim.

Eu imagino catástrofes, sinto todas as dores do mundo.

O que eu não vejo me atormenta enquanto busco algum alívio.

Sobrevivi para lhe observar sorrindo.

Às vezes não encontro sentido para nada disso.

E todas as coisas importantes não me importam mais.

Mas sou uma peça fora desse jogo.

As palavras são as mesmas para qualquer pessoa.

Me disseram que elas mudam.

As palavras são as mesmas em diferentes contextos.

Mas eu nunca sei o que significam.

Então mostre-me se sou mais, mostre-me quem realmente eu sou.

Porque perdi a capacidade de racionalizar esses acontecimentos.

E sei que farei papel de tolo se apagar as luzes que enganam e mostrar o que tenho. 

A aflição me contamina, me torna autodestrutivo.

E se os fantasmas realmente existirem?

E se os monstros forem ferozes e famintos?

Eu corro, eu caio.

Eu morro, eu me desmancho.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fim da linha

Eu quase reconheci o cenário.

A descida íngreme, o viaduto.

A colisão frontal.

Não vi mais nada.

Me disseram que nada existiu.

Mas existiu, sim.

Era o fim da linha.

E ninguém me avisou.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Permanente ilusão

Você dorme em paz.

Mais um dia se passou, e não há mais nada para esperar.

Parece tão bom quando nada acontece.

A inércia permanece para esconder a verdade.

Sussurros nada dizem, apenas iludem.

E quem disse que a vida não é uma permanente ilusão?

A vela que derrete na mão não mostra o caminho.

Estamos num corredor que não termina.

Nas lágrimas, sua tolice.

Nos olhos, sua angústia.

E o que você sente pula, o que você sente lhe enforca.

No fim, todas as coisas estão nos mesmos lugares.

Águas calmas não lhe dão a resposta.

E afogam, e afogam, e afogam...

A brisa não diz para onde ir.

E queima, e queima, e queima...

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Corte aberto

A taça quebrada é o que sobrou da noite passada.

Mistura de sangue e vinho pingando da mesa.

Dentro de mim as coisas também estão assim.

No fim das contas, estou sozinho aqui.

E já não tomo mais pílulas que não me curam de verdade.

Apenas deixo arder, deixo rasgar, deixo doer.

No corte aberto, a cor não é a mesma.

Então a quem estou enganando?

A quem estamos enganando?

Apenas almofadas e travesseiros, por todos os lados. 

Apenas promessas e palavras que não alimentam, em cada canto.

Talvez eu mereça mais do que esse rosto amassado de tanto dormir.

Do outro lado do espelho talvez esteja meu verdadeiro eu.

Do outro lado talvez estejam os dias que eu nunca pude viver.

domingo, 11 de outubro de 2015

Tantas palavras

Com a espada no pescoço, não há uma confissão a fazer.

São tantas as palavras, tantas e tantas!

Mas não há motivo para nenhuma lágrima mais.

A partida pode ser triste, mas é poesia pura.

Desculpe-me, mas eu preciso ir agora.

O trem está no seu horário.

E eu preciso partir agora.

Algumas pessoas nasceram para asfixiar seus sentimentos.

Algumas pessoas nasceram para ser coadjuvantes em suas próprias vidas.

E elas assistem a tudo de longe, esperando por um dia que nunca chega.

E elas apodrecem sentadas, olhando para o horizonte. 

Na penumbra, na luz que nada revela, procuro por alguma mentira que me distraia.

E eu volto, eu volto como uma música que reproduz todas as chegadas a lugar algum.  

Os resquícios vão se desmanchando aos poucos.

A eutanásia de todos os afetos se sobrepõe como uma dor necessária.

Restou o ar circulando no vazio que me tornei.

Ficou o gesto não explicado do qual eu nunca me esqueço.

Mas ninguém mais lembra de um sofrimento que nunca me pertenceu. 

Ficaram latejando todas as coisas que poderiam significar tudo, que poderiam não ser nada.

Ficou o pulsar desesperado de um coração que se apega a pequenas coisas.

E que sorri com isso, e que chora com tudo isso.

Deixo o tempo passar enquanto estou aberto.

E isso não passa.

Não, não, isso não passa.

E isso não cessa.

Não, não, isso jamais cessa.

sábado, 10 de outubro de 2015

Subindo e descendo escadas

Não sei que edifício é esse, nem como vim parar aqui.

Eu subo e desço escadas.

Não encontro porta alguma.

Eu perco as forças, eu grito.

Mas não estou certo de que alguém possa me ouvir.

Deixo o tempo passar, sem saber se é dia ou noite.

Deixo a vida correr, sem saber se sou jovem ou velho.

Ainda estou subindo e descendo escadas sem encontrar porta alguma.

O barulho só aumenta.

As coisas mudam de lugar.

Mas não há ninguém por aqui. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Que diferença faz?

Que diferença faz se chove ou tem sol?

Estamos morrendo da mesma maneira.

Estamos passando uma fome que nunca é saciada.

Então que diferença faz se andamos devagar ou rápido demais?

Nada mais é novo, os sentimentos se repetem.

Nada mais nos toca, nada mais nos choca.

Que diferença faz se voamos para longe ou deitamos em nossas camas?

Estamos em permanente despedida, tentando segurar cada segundo com as mãos.

Estamos fazendo nossos próprios danos, deixando tudo passar.

Então que diferença faz se mastigamos ou engolimos essa comida?

Os mares secaram, a pele arde sem qualquer alívio.

Sobraram farelos, uma mesa com ecos de nossos risos. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Movimentos circulares

Em alguma fração de segundo está escondida a chave.

Ele está apenas engolindo, sem sentir sabor algum.

Distrações vão levando o tempo, não há fuga melhor.

São as mesmas coisas, o tédio infinito disfarçado de novidade.

Os homens estão ladrando, eles nunca esquecem.

Porque os movimentos são perfeitos e circulares, escravizando as mentes.

E as saídas oferecidas levam a um precipício sem fim.

Ele está desaprendendo a falar.

Ele está desaprendendo a pensar.

Ele está desaprendendo a andar.

Ele está desaprendendo a sentir.

Mas tudo está bem.

Tudo sempre fica bem.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Estrada aberta

Ela tinha visto um reflexo pálido no espelho.

Não havia mais qualquer brilho.

As brincadeiras viraram silêncio.

Tinha sido absorvida para seu inferno interior.

Ela voltou, despertou de seus pesadelos.

Quebrou o retrovisor, e partiu em alta velocidade.

Na estrada aberta, o amanhã prometido.

Porque não tem tempo a perder.

Não tem mais nenhuma parada obrigatória. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Acender e apagar

Acenda a luz, procure por você mesmo.

Acenda a luz, encontre seu significado.

Acenda a luz, veja as formas.

Acenda a luz, comece a andar.

Acenda a luz, observe seus movimentos.

E então, apague a luz, e confie em sua memória.

Apague a luz, aprecie a escuridão.

Apague a luz, veja tudo o que somos.

Apague a luz, aceite isso.

Apague a luz, não se esconda de si mesmo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Inteiro

Junto os pedaços.

Venço a dor.

Reinvento a vida.

Jogo os papeis para o alto.

Não quero mais ser fração.

E fração eu me recuso a ser.

Pois sou um inteiro.

domingo, 4 de outubro de 2015

Brinquedos quebrados

O vento é sua única companhia no deserto.

Tudo em que você acreditou, tudo se foi.

Fantasias são brinquedos quebrados.

Ilusões são o fim das coisas que um dia tiveram forma.

Mais uma palavra, mais um engano.

Mais uma frase bonita, mais um século de esperanças vãs.

Numa rua qualquer, a melodia que vem de algum apartamento parece trazer uma resposta.

Respostas não existem enquanto você estiver neste lugar.

Os dias mais bonitos já passaram, alguma prova sempre se faz necessária.

A realidade cai sobre a sua cabeça, levando suas lembranças.

Pessoas fogem para ficar no meio do caminho.

Esse conformismo me parece extremamente patético.

Não me faço entender, isso é ótimo.

Não me faço entender, é sinal de que estou saudável.

sábado, 3 de outubro de 2015

Linha em branco

O despertar pode ser em um lugar totalmente estranho.

Nada precisa fazer sentido, nada precisa ter respostas.

E na linha em branco que você deixou, tudo pode ser reescrito.

As tentativas de reconstrução do passado vão destruindo o futuro.

Nesse jogo, alguém sempre sai perdendo.

E as cicatrizes vão surgindo sem explicação aparente.

Alguns infernos se parecem muito com paraísos.

Uma única explosão pode ter diferentes repercussões de acordo com o ângulo.

O vento movimenta-se para mudar os nossos destinos.

Em algum ponto, sonhos, pesadelos e realidades se misturam.

E você acorda preso, tomando água e comprimidos desconhecidos.

E você não consegue mais dormir, pois virou prisioneiro de sua própria mente. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

À la carte

Mantenha o silêncio, eles precisam continuar fazendo barulho.

Unhas arranham a pele, arrancam a pele.

Bem cozida, exatamente no ponto.

Ovos fritos no prato, prontos para serem devidamente devorados.

Sinta o cheiro, sinta o cheiro que vem do quarto.

Você pode nadar em sua própria manteiga, ela está derretendo.

Uma boa corrida sempre pode resolver seus problemas.

Dá para fazer muitos sabonetes com isso aí.

Mas você pode fingir que não se deixou afetar pela gula.

Esconda-se no banheiro, mas lá não estão servindo nada de bom.

Do peixe, ficou apenas a espinha.

Finja que não era tão apetitoso assim.

Você não foi chamado para o jantar.  

E então vê que um bom ensopado vai escorrendo pelo ralo.

E isso deve estar muito interessante.

Deixe suar, deixe repousar.

Deixe suar, não deixe descansar. 

Uma mordida mais, uma mordida mais.

Está tão macia, tão macia!

Uma mordida mais, só uma mordida mais.

Porque está tão macia, está tão macia!

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As pessoas lutam

As pessoas lutam, todos os dias, a todo momento.

Com seus doces, com seus chicletes.

Com seus papeis, com seus sorrisos.

As pessoas lutam, todos os dias, a todo momento.

Com suas pernas, com seus braços.

Com suas flores, com seus cestos.

As pessoas lutam, todos os dias, a todo momento.

Elas não lutam pelo amanhã, não lutam pelo ontem.

Elas lutam pelo hoje, lutam pelo agora.

Não há promessas, não há grandes causas, não há anseios megalomaníacos.

As pessoas lutam.

As pessoas lutam, porque nada no mundo é mais importante do que suas próprias vidas.

Elas apenas lutam.

E lutam.

E lutam.

E lutam...