terça-feira, 29 de setembro de 2015

Ouro por centavos

Atravesso meu corpo, o peso de uma vida.

Tanto encanto pelo caminho, não vejo nada.

Eu fui e nunca voltei.

Eu parti mas nunca cheguei.

Uma linda estrada de solidão, das coisas que jamais mudam.

Sinto uma dor só minha, que não posso transbordar.

Vejo o coração tão cheio de amor se desmanchando lentamente num copo.

Crescer é definhar diante daquilo que se sente.

Enquanto há sonhos, não há paz.

Sou prisioneiro de todas as coisas que não posso pensar.

A tortura não dá trégua a quem algum dia teve um anseio.

O melhor possível está longe de ser suficiente.

Meu espaço, só meu, em que eu possa ser completo, não há.

É terrível estar em outro território, é terrível ser uma fração com um sorriso no rosto.

É mesquinho, é egoísta, é grandioso, é universal.

Entrego meu ouro por alguns centavos, estou por fora disso tudo.

Parece que jamais poderei querer mais. 

Os ricos adoram falar da nobreza oculta da miséria.

E quando sobra algo para mim, saio correndo como se tivesse motivos para amar.

E quando sobra algo para mim, é sempre tão pouco!

Porque nada começa sem já ter passado.

E nada termina sem deixar um angustiante alerta vermelho.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Justine

Justine e seu vestido branco.

Pés presos, a caminho do erro.

Justine, um sorriso e um slogan.

Essa gente pretende satisfazer suas necessidades.

Justine, a tia invencível e entregue.

Cavalgada que liberta e mata a sensação de controle.

Justine, o sono lhe esconde de dias sem sonhos.

Sim, isso tem gosto de cinzas.

Justine, a mulher que se banha na luz que atemoriza.

A gigante bola azul trará a redenção com o fim.

Justine, a melancolia está prestes a terminar.

Melancolia está chegando para lhe trazer paz.

domingo, 27 de setembro de 2015

O vidro

Sonhos e medos são a pauta desse meu dia.

A companhia de sempre quando escurece não me basta mais.

Estrelas morrem no céu a todo instante.

O aconchego, tão próximo, é o passo que me recuso a dar.

E vai caminhando, vai se afastando.

Posso perceber perfeitamente entre as palavras que não ouço mais.

Não posso dizer que não escolhi.

Estou perdendo, estou vendo o amor e a vida esvaindo-se pela chaminé. 

Paro para manter o sorriso da foto, de um tempo que não voltará.

São lugares em que não estou, onde eu mais gostaria de estar.

Quando caminho e levo minhas algemas, não sinto o verdadeiro gosto.

Minha divisão é minha fuga, largo meus pedaços no percurso como maneira de não me perder.

Eis você dentro do vidro que eu criei.

Agora quero quebrá-lo com todas as minhas forças.

É minha intensidade nesse jeito de querer tanto, na forma com que lhe vejo partir antes mesmo de ter chegado.

Já não tenho mais truques, não tenho mais sorrisos no bolso.

Já não tenho mais desculpas para me dar, não tenho mais moedas para lhe jogar. 

Até o topo da montanha

Ele subiu até o topo da montanha.

Observou tudo e desceu logo em seguida.

Cortes, mais ou menos profundos, são sempre cortes.

Quem está preparado para definir o tamanho das dores do mundo?

Ainda assim, tudo parece ir para onde deveria ir.

Algumas pessoas esperam por nada, sobrevivendo de migalhas.

E então chega a realidade, com algumas verdades que todos tentaram disfarçar.

As escolhas, sempre na direção mais cômoda.

O caminho de retorno é doloroso, com pés cansados.   

Ele chegou ao topo da montanha.

Observou tudo e desceu logo em seguida.

Lá em cima estava frio demais...

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Último vestígio

As manchas tão marcadas sempre são difíceis de remover.

Segundos perdidos não podem ser recuperados.

O respeito saiu voando pela janela.

Sobraram nossos ossos, último vestígio.

O alvorecer será igual a todos os outros.

Movimentos em lentidão revelam os passos não dados.

O filtro estragado mostra quem somos.

O dia, uma lástima; a noite, um lamento.

Mas sempre há justificativas para anestesiar a consciência.

E então o mundo acabou.

E então a vida começou.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Não mais cores

Verdades impertinentes são ditas a toda hora.

Sonhe enquanto dorme, não sonhe demais.

No espaço entre as palavras, existe a margem para mais um ataque.

Aproveite, e faça do seu chão a sua glória.

Pegue os velhos papeis, reforce sua visão.

Não me importo, aprendi a pensar da forma errada.

Existe um orgulho oculto em cada confronto.

Sou culpado por não ter culpa.

Mas isso já não é mais necessário.

A diferença reside na indiferença.

E suas acusações não são nada mais do que seu reflexo no espelho.

Algum louco inventou a razão.

Você persiste nesse manual, estou rindo de forma contida.

Talvez eu me ajoelhe para saber um pouco mais.

Talvez eu me ajoelhe para desistir de tudo.

As suas necessidades se esgotaram, converse com seu eco.

Suas colocações se evaporaram, converse com seu ego.

Nada mais fez falta, apenas entenda.

Nada mais fará falta, apenas aceite.

Estou contente por me esvaziar.

Estou contente por não mais precisar.

Estou contente por ver seu rosto.

Estou contente por saber digerir.

Estou contente por sua satisfação.

Estou contente porque você voou.

Estou contente porque você sumiu entre meus mais loucos pensamentos.

Estou contente porque você finalmente se incorporou à paisagem cinzenta da janela.

Não mais cores, não mais mentiras.

Não mais cores, não mais ilusões. 

Da janela do ônibus

Da janela do ônibus, vejo uma senhora vendendo refrigerantes.

Ela aparenta uns setenta anos.

É negra, praticamente sem nenhum dente na boca.

Suada, visivelmente cansada.

Carrega um carrinho com um isopor pequeno, e um suporte com canudinhos.

A fila de pessoas vai adentrando a condução, ignorando-a enquanto ela oferece a lata de Pepsi, sem qualquer êxito.   

Algumas cenas mexem comigo, me deixam pensativo.

Cenas que acabam mudando meu dia e ficam gravadas em minha retina.

Cenas que parecem banais e desconsideráveis para todo mundo.

Alguém está muito errado nisso.

Alguém está encarando de forma totalmente fora de proporção as coisas inerentes a viver e a ser um humano.

Ou eu, ou todo mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Quem será o próximo?

Quem será o próximo a chegar?

Quem será o próximo a cair?

Quem será o próximo a chorar?

Quem será o próximo a sorrir?

Quem será o próximo a mergulhar?

Quem será o próximo a antever?

Quem será o próximo a se doar?

Quem será o próximo a se doer?

Quem será o próximo a queimar?

Quem será o próximo a desistir?

Quem será o próximo a se enganar?

Quem será o próximo a partir?

Quem será o próximo a não ser o próximo? 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Alguma pista no meio da poeira

Você cai de joelhos, pele ralada no chão.

E você está se acostumando com seus próprios tombos.

Um mundo novo espera com cores bem diferentes.

E a dor é apenas uma ilusão para que você perca seu tempo.

Eu já lhe disse que não tenho todas as respostas sobre a vida.

Mas posso tentar buscar alguma pista no meio da poeira.

Conheço as armadilhas, embora não tenha aprendido a evitá-las.

Apenas erga a sua cabeça e ria das coisas que lhe machucam.

Enlouquecer é a coisa mais sensata a se fazer.

Porque mesmo aqueles que lhe ensinaram como viver jamais aprenderam.

Você sabe que ainda vai chorar, você sabe que ainda vai morrer.

Então o que devemos fazer enquanto a hora não chega?

Desça o túnel, converse consigo, note toda desimportância dessa grande ilusão.

O que é todo o universo sem seus olhos para observá-lo?

E o que é toda riqueza quando o sono lhe consome?

Então volte para o dia de sol, flutue como se o milagre fosse possível.

E todos os erros estarão certos, e todo o desencontro fará sentido. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Querido desconhecido

Sentimentos tão voláteis partem no céu.

Para algumas pessoas é muito mais simples do que para outras.

Como essas palavras saem fáceis de sua boca.

De reis a mendigos, todos sentindo o mesmo gosto.

E quando todos são privilegiados, não há privilégio algum.

A culpa é um filho bastardo, um jogo que alivia consciências.

E quando todos são ricos, todos são miseráveis.

Deixe-me mergulhar na lama e fingir que não sofro.

E se todas as coisas são únicas, todas são a mesma porcaria.

Se não consegue ser o melhor, então tente apaixonadamente ser o pior.

Assim, tudo pode ser muito mais divertido.

Dormindo no quarto em que nunca esteve.

Andando pelas ruas que você nunca conheceu.

E vivendo momentos para os quais você nunca foi convidado.

Na sombra, tudo pode ser muito mais verdadeiro.

Atrasando-se para um compromisso que não está na sua agenda.

Sangrando por feridas que não são suas.

E sendo sempre um querido desconhecido.

domingo, 20 de setembro de 2015

Esfregue seus olhos

Você está chorando sem motivos.

Tantas certezas nesse mundo são falsas.

Observe bem, sinta o cheiro que irá lhe guiar.

Num pequeno descuido, nos tornamos reféns.

Sei disso melhor do que ninguém.

E você pensa que passou, mas continua presente.

Abra o embrulho, descubra-se mais uma vez.

Abra o embrulho, descubra-me pela primeira vez.

Por que você acha que eu esqueci?

Por que você tem tanta certeza de que eu esqueci?

Esfregue seus olhos, olhe melhor.

Talvez o esquecimento seja seu.

Esfregue seus olhos, olhe melhor.

Eu estou bem aqui.

sábado, 19 de setembro de 2015

A garotinha e sua corrida

A garotinha corre.

Não há nada além do sentido dessa corrida.

Não há lugar para chegar.

A garotinha corre.

Não há objetivo para além do riso.

Não há pote de ouro para perseguir.

A garotinha corre.

Não há a incompletude do eterno não chegar.

Não há promessas para esconder o verdadeiro significado de tudo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Pequenas solidões e enormes anseios

Os dias nublados e chuvosos parecem intermináveis.

Se estou desatento, logo me deixo levar novamente na correnteza.

As coisas da vida deveriam ser muito mais simples.

Então por que está acontecendo esse estrago todo?

A cada tic-tac do relógio, surge um novo pensamento, um medo desesperado.

Todas as bobagens não anunciadas compõem um amanhã inalcançável.

Meu refúgio está sempre em suas palavras.

E se você mudar, eu ficarei sozinho esperando por este trem, para sempre.

Mas talvez eu esteja na estação errada, totalmente perdido.

Eu busco flores para lhe dar, eu temo que elas murchem no caminho.

A todo momento, peço perdão em silêncio.

Porque quando o dia acaba, tudo se torna extremamente pesado.

Entre pequenas solidões e enormes anseios, sou um batimento cardíaco irregular e descontrolado.

Deixo em meu travesseiro todos os devaneios de uma linda realidade paralela.

E fico em sintonia com o vazio da realidade que estou vivendo, para mais uma amostra deste vazio interminável.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: Mar de minha vida

O melhor texto neste último ano no DC foi publicado em 18 de outubro do ano passado.

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Mar de minha vida, abrace-me com suas ondas.

Leve com você toda a sujeira.

Mar de minha vida, traga alívio para minha pele que queima.

Lave minha alma, purifique meu espírito.

Mar de minha vida, mostre-me o quanto tudo é pequeno diante da sua imponência.

Salve-me de todas as dores, deixe que eu mergulhe e ame.

Mar de minha vida, traga-me inspiração.

Livre-me do asco que sinto por todos que mentem, enganam e abusam.

Mar de minha vida, conforte-me, e componha, junto ao céu, meu paraíso.

Tudo pode ser melhor com seu calmo som, e a brisa que me acaricia após a ressaca violenta.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: Adiós, Salamanca

Uma cidade, uma saudade. A medalha de prata desse especial vai para o texto que escrevi me despedindo de Salamanca, cidade na qual vivi por meio ano e pela qual me apaixonei para sempre. Sua publicação é do dia 12 de abril desse ano.

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Salamanca querida, eu já imaginava que a despedida iria doer.

Mas não pensei que doeria tanto.

Nos teus braços, Salamanca, eu cresci.

Nas tuas ruas, Salamanca, eu me conheci.

E quando entristeci, Salamanca, ganhei teu colo na Plaza Mayor.

Quando me faltou oxigênio, tua Catedral Nova me deslumbrou e me fez respirar em paz.

Ah, Salamanca, que falta tu farás em minha vida!

Em ti, não há amargor que não se dissolva no sorvete de doce de leite argentino do Café Novelty.

Em ti, não há baixo astral que resista ao sanduíche de frango com queijo acompanhado de um milk shake de morango da Tahona de la Abuela.

Em ti, não há mágoa que não se afogue nos baldinhos de cinco Mahous do Puerto de Chus.

Ah, Salamanca, te levo comigo em meio às lágrimas da despedida que refletem todo o significado de alguns dos sorrisos mais lindos que tive o privilégio de ver, que terei a alegria de relembrar.

Levo comigo todo o afeto e carinho que passei a ter por ti.

Ah, bela cidade, tenho de ir, a vida me chama.

Mas ainda quero te encontrar por aí.

Nossa história não chegou ao fim.  

Adiós, Salamanca.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: Orfeu e Eurídice

A medalha de bronze do especial de 7 anos do DC fica com um texto publicado em 27 de fevereiro. O terceiro melhor deste último ano no blog.

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Éramos completos, um do outro.

Cada nota doce de minha lira pertencia a você.

Mas a vida é uma fatalidade.

Quando eu mais amava, te perdi.

Não desisti, atravessei águas e almas agonizantes.

Dobrei o inferno para levá-la de volta comigo.

Mas eu não podia lhe olhar enquanto o sol não beijasse seu rosto. 

Na subida, tanto amor e esperança.

E naquele querer poder te querer, eu errei, eu lhe olhei.

Você ainda estava nas sombras, e nelas teve de ficar, prisioneira.

Ah, meu amor, me perdoe.

Foi num lapso que lhe perdi.

E seu grito ecoa nas paredes de minha alma.

Meu martírio mais profundo e cheio de remorso.

Não me despedi, querida, seu brilho não morreu em mim.

Juro, sou apenas seu.

Seu apenas, serei para sempre.

E ficarei nas sombras por você.

Sou um triste Orfeu, com minha lira em lamento eterno.

Sou a dor que não cessa, desesperadoramente imortal em minha solidão.

Sou o amor no mundo dos mortos, a melodia da desesperança.

Linda Eurídice, ficarei aqui até que tudo se esgote.

E esperarei a liberdade, que talvez nunca chegue.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Meu carnaval

O quarto colocado do especial de 7 anos do DC foi publicado em 19 de março desse ano.

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Dizem que eu ando triste.
Que tudo que existe é o tempo a voar.
Mas hoje será um novo dia.
Eterna alegria, enquanto durar.

Ah, o meu carnaval será genial.
Será genial...
Ah, o meu carnaval não será igual.
Não será igual...

Dizem que eu troco as pernas.
Angústia eterna à beira do mar.
Hoje será diferente.
Olhando pra frente, eu quero cantar.

Hoje será diferente.
Mais um nessa gente também quer dançar.

Hoje esse carnaval não vai terminar.
Não vai terminar...
Hoje, nesse carnaval, a dor vai passar.
A dor vai passar... 

domingo, 13 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Pequeno devaneio numa esquina salmantina

O quinto melhor texto deste último ano do DC foi publicado em 11 de janeiro.

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Estou numa esquina de Salamanca, sentado, bebendo uma cerveja deliciosa por 2 euros. Estou muito próximo da felicidade. Ainda falta algo. Mas talvez sempre falte algo. Talvez a felicidade seja, afinal, uma utopia.

De todo modo, sinto-me muito contente. Estou a um oceano daqueles que amo, isto é certo. Porém, talvez essa seja a única queixa. Afinal, estou vivendo uma relação de amor e paixão puros pelo lugar em que estou. Me sinto praticamente um salmantino. Moraria aqui pelo resto da vida, se fosse possível, e se comigo eu pudesse ter quem eu amo.

Esta cidade me faz sentir vivo e encantado por existir. Aqui me sinto seguro. Aqui me sinto aconchegado. Acho que não há, no mundo todo, uma cidade com atmosfera tão simpática e acolhedora.

Salamanca destila beleza em cada esquina. E seus mesmos lugares conseguem me surpreender a cada nova vez em que os vejo. Na Plaza Mayor, nos arredores das catedrais, em cada pequena rua, não há chateação que resista muito tempo diante de tão magnífico encantamento.

Sinto-me no ápice da minha existência. Salamanca, a seu modo, me abraçou. Me sinto simultaneamente servo e senhor deste lugar. Sinto uma alegria intensa e imensa pelo simples fato de estar vivo. Sinto-me absolutamente grato ao universo, por ter me dado essa oportunidade.

Aqui, o tempo voa. Deve ser essa intensidade. Pressinto que os seis meses passarão como se fossem apenas um. Talvez isso não seja má notícia. Em primeiro lugar, porque há braços para os quais conto os dias para voltar. E em segundo lugar, porque as melhores coisas da vida são assim, passam rápido. Os infernos se demoram, ardem, queimam até o limite que a pele suporta. Mas os paraísos, de tão leves, flutuam, e passam.

Hoje, eu amo Salamanca. Não sei o que virá pela frente. Mas hoje afirmo sem medo de errar: eu amo esta cidade. E amo estar vivendo isso. Mesmo estando longe de quem eu amo.

sábado, 12 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 6ª posição: Dedicatória

O sexto melhor texto do último ano que se passou no DC foi publicado em 15 de janeiro.

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Não tenho nada grandioso para dedicar a você.

Não tenho ouro, não tenho honras.

Não tenho obras faraônicas.

Não tenho o céu, o sol ou as estrelas.

Então dedico a você minha respiração.

Dedico a você cada passo que eu dou.

Dedico a você cada sorriso meu.

Dedico a você cada pequeno acerto.

Não tenho nada grandioso para dedicar a você.

Então dedico apenas a minha existência.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: Um grão de areia

O sétimo melhor texto do DC neste último ano foi publicado no dia 18 de fevereiro deste ano.

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Quais são as coisas que deixamos pelo caminho?

Eu permanentemente me despeço de mim.

Quais são as coisas que ainda ficam, e nos fazem ser o que somos?

Sou água do rio, que se vai na correnteza, mas ainda carrega uma mesma força vital.

Cada pedaço da eternidade é efêmero.

Vamos morrendo aos poucos para continuar vivendo.

Tão pequenos, um minúsculo elo da corrente.

Tão grandes, eternos por existirmos.

Em algum ponto dessa vastidão, ainda seremos algo.

Tenha essa certeza, guarde essa certeza.

E quando eu for apenas um grão de areia, ainda levarei todo esse amor.

E quando formos apenas grãos de areia, quero que você seja o grão de areia que fica exatamente ao meu lado.

E serei um grão de areia feliz, contendo toda a luz do sol e todo o brilho da lua.

E serei um grão de areia radiante, contendo todos os significados de uma vida que jamais irá deixar de existir.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Menina do fim da noite

O oitavo lugar do especial de 7 anos do DC fica com o texto "Menina do fim da noite", publicado em 11 de abril deste ano.

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Com o batom, ela risca o espelho e pinta toda sua cara.

Menina do fim da noite, chora e soluça.

Ele diz que a ama, ele diz isso para qualquer uma.

E quando no ápice da festa, a boca que ele beija não é a sua, ela corre e se esconde.

Com a mão desnuda de qualquer aliança, ela quebra o espelho e com os cacos risca toda sua cara.

Menina do fim da noite, arde em sua anestesia.

Não tem sua vez, embriagada de seus tolos sentimentos.

E o mundo não sabe que os sentimentos mais tolos são também os mais bonitos.

Dê-me sua mão cortada, vamos dançar.

Deixe-me beber este coquetel de sangue e lágrimas que escorre por seu rosto.

Eu prometo que você não será mais uma numa fila. 

Seu coração merece mais, muito mais, e sei que nada que não seja tudo será miseravelmente insuficiente.

Eu prometo que você será meu único, eterno e insubstituível amor.

Porque seu coração não merece menos do que isso.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: Clube dos corações congelados

O nono melhor texto deste último ano do DC foi "Clube dos corações congelados", do dia 24 de abril deste 2015.

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Por favor, retire o coração do meu peito e coloque-o num congelador.

Desperte-o somente quando ele tiver o direito de amar.

E deixe-o pulsar novamente só quando houver sol e luz.

Por enquanto, vou marchar com o clube dos corações congelados.

Caminharei lado a lado com essa gente que busca apenas a sua vez.

E deixarei o tempo passar e ir embora com a fumaça.

Talvez algum dia a soma desses nadas forme alguma coisa.

E talvez esses motivos certos em lugares errados ultrapassem as meras palavras e vontades.

Nesta marcha, não há destino, não há dor.

Não há o peso insuportável destes órgãos pulsantes.

Na marcha dos corações congelados, não há direção equivocada.

Há somente espera em movimento sem esperanças, essas armadilhas que nos aguardam a cada esquina.

No clube dos corações congelados eu vou me encontrar.

Vou adormecer acordado, sem sonhar.

E ocupar o lugar que me é de direito.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Sol da meia-noite

Começamos o especial de 7 anos do DC com o décimo melhor texto do último ano. "Sol da meia-noite" foi publicado no dia 18 de dezembro do ano passado.

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É uma luz que não se explica.

É meu alfa e meu ômega.

É minha essência em si mesma.

É o sol da meia-noite.

É a cor viva que penetra meu cinza.

Dou minha vida para ganhar um sorriso.

É a dor agridoce que me faz ter certeza de que existo.

Dou meu jardim para ganhar uma pétala.

É o valor que não se calcula, maior do que todo o tesouro do universo.

Dou minha alma para ganhar um abraço.

É o amor imenso que me atravessa e transcende.

Dou a eternidade para ganhar um segundo.

domingo, 6 de setembro de 2015

7 anos de Dilemas Cotidianos

Hoje, o DC completa sete anos de existência.

É aqui meu espaço de amor, humor, futebol, divagações, percepções de todo tipo.

Agradeço a todos que prestigiam e acompanham. 

Como já é tradição, os próximos dias serão marcados pela comemoração da data com a reapresentação do top 10 de textos do último ano.

Um abraço aos leitores.

E mais uma vez, muito obrigado.

sábado, 5 de setembro de 2015

1.000.001

O cheiro de uma flor me faz respirar melhor.

Sou tomado pelo anseio de viver.

Um milhão de vezes já estive errado.

Então, o que é um milhão e uma?

Pergunto a mim mesmo sobre essas bobagens que me impedem de dormir.

Mas não tenho respostas, isso é apenas o que guardo dentro de mim.

Estou mergulhado em mim mesmo, refém dos sonhos mais tolos.

Fico ofegante, e com o coração prestes a saltar do peito.

E então eu peço desculpas pelo que não fui capaz de evitar.

O tesouro mais valioso é tudo que não posso perder.

O tesouro mais valioso é tudo que não posso ganhar.

Meu destino é tão certo, mas não posso vê-lo.

Meu destino é tão incerto, mas posso perfeitamente sofrê-lo. 

Então eu fecho meus olhos, estamos dançando.

Fecho meus olhos, vivo um amanhã nunca prometido.

Fecho meus olhos, e gostaria de não precisar mais abri-los.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Silhueta sem identidade

No toque do sino, eu lembro que estou no lugar errado.

Tantos são os seres famintos que vivem alimentados por suas esperanças.

Encho-me de ar, é disso que tenho que me encher.

A hóstia serve apenas para dizer que também somos filhos.

Mas somos filhos esquecidos no chão molhado dessas esquinas.

Sou uma ferida cheia de pus, que arde com o álcool.

Sou a parte do corpo que fica escondida, e que revelada gera repulsa.

Somos o resto, comemos o que restou, frio e misturado.

Que amanhã ofereceremos às crianças, se elas sequer possuem o hoje?

Eu sou uma canção desafinada que você não gosta de ouvir.

As luzes do poste não me iluminam, porque sou apenas um vulto.

Nos jornais que me cobrem, soluções promissoras de gente que não sabe quem eu sou.

Para os jornais que me cobrem, eu não sou motivo de cobertura.

Sou sombra, silhueta sem identidade.

Mas sou de carne e osso, sou carne e osso, secos e gelados dentro da sacola de plástico.

Sei que não pareço, que não tenho preço, mas também sou uma vida.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Mais seu

Se você se vai, eu fico tão perdido aqui sozinho. 

Isso é um erro, sou o primeiro flagelado desse castigo.

Se você não me vê, meu reflexo desaparece do espelho.

Eu deixo de ser eu mesmo, eu deixo de existir.

Se você fica num lugar que não me pertence, eu choro e me destruo por dentro.

Estou me machucando por pensar demasiadamente em você.

Se você desaparece por um segundo, minha bússola entra em colapso.

Eu não posso mais confiar em nada que eu decida nesse espaço de tempo.

Eu olho para o outro lado enlouquecido de vontade de te olhar.

Porque eu sou mais seu a cada dia.

E assim eu não sou mais meu.

Eu sou o pensamento persistente, a marca do que não posso ver.

Eu sou mais seu a cada dia.

Sou colocado para fazer algo que não sei e não consigo.

E meus olhos insistem em marejar quando felizmente ninguém pode me observar. 

Eu sou mais seu a cada dia.

Mas não posso ser nada disso, então sou apenas o silêncio de uma madrugada de quereres asfixiados.

Eu não posso ser seu, eu preciso ser meu.

Mas não sei exatamente onde eu estou.