domingo, 30 de agosto de 2015

Visões

Era tarde quente de verão, eu estava entediado.

Saí para a rua para ver. Não para olhar. Para ver. De verdade.

Por trás de cada máscara, pequenas e grandes dores. Mas quem era eu para definir se uma dor era grande ou pequena?

A cada passo, uma tremenda descoberta.

Eu vi muitas coisas.

Vi um homem que carregava nos olhos a dor da filha internada no hospital.

Vi a garota que sofre todos os dias no colégio por ter as pernas tortas.

Vi o rapaz apaixonado, invisível para quem ele ama, martirizando-se com sua capa.

Vi a senhorinha que não consegue mais acertar a quantidade de sal na comida.

Vi o velho que não entende a ausência do filho, o desprezo dos netos.

Vi o vendedor de mandolates suado, atucanado com a luz que fora cortada de sua casa.

Vi a mulher que suporta os desaforos do marido e bebe whisky às escondidas para amenizar a existência.

Vi o sujeito que se sente um lixo por passar de porta em porta e não encontrar um emprego.

Vi a princesa por baixo das espinhas que a fazem chorar em frente ao espelho.

Vi no cara tatuado dos pés à cabeça o desconforto de mais um dia de agonia disfarçada de revolta.

Vi no executivo de sapatos chiques e bem lustrados a vontade febril de estar de chinelos.

Vi o jovem frustrado, que marcou um encontro e não encontrou ninguém, nem a si mesmo.

Vi na repórter dinâmica e bem sucedida a solidão de uma noite acompanhada de uma garrafa de vinho.

Vi gente que se deixa pisotear.

Vi gente que sobrevive de migalhas.

Vi gente que perdeu seu próprio eu em alguma esquina sem graça.

Vi gente que diz amar, amar, amar, amar, amar, amar, a tudo e a todos, até que o amor se transforme numa massa disforme, sem gosto ou cheiro. 

Vi gente que tem um único amor, sagrado e valioso bibelô, que não tem o direito de amar. 

Vi gente que se desculpa apenas para ter uma desculpa.

Vi gente que confunde dinheiro com riqueza.

Vi gente que confunde querer com desejar.

Vi gente que confunde a si mesma, metida num labirinto maluco para a diversão alheia. 

Vi gente que confunde não-morte com vida.

Em cada sofrimento, pequeno ou grande, desconexo ou idêntico, tão outro ou tão próximo, vi um pouco de mim mesmo. 

2 comentários:

Gracita disse...

Oi Bruno
E quando paramos para observar nós fazemos uma analogia do nosso próprio eu e nos descobrimos imperfeitos
Um texto magnífico
Um abraço e boa semana

Bruno Mello Souza disse...

Obrigado, Gracita!

Boa semana.