sexta-feira, 31 de julho de 2015

Entrevista de emprego

- Bom dia, senhor.
- Bom dia, er... Gilberto, né? Pode se sentar.
- Obrigado.
- Bem, Gilberto... Por que você acha que tem o perfil para o cargo de gerente administrativo da nossa empresa?
- Ah, eu creio que tenho o tipo de personalidade adequado para o cargo. Sou dinâmico, tenho liderança, sou expansivo e tenho muita vontade de progredir junto com a empresa.
- Um sonho?
- Oi?
- Um sonho.
- Er... Deixa eu ver... Viajar pelo mundo com meus filhos e esposa.
- Uma cor.
- Hum... Verde.
- Um medo.
- Er... O esquecimento.
- Um livro.
- "A Metamorfose".
- Felicidade é...
- Contentar-se com as coisas mais simples da vida.
- Serra ou litoral?
- Serra.
- Uma palavra bonita.
- Carinho.
- Uma palavra feia.
- Mocreia.
- Doce ou salgado?
- Salgado.
- Bate forte o tambor...?
- Eu quero é tic tic tic tic tac.
- Ok, Gilberto. Você está contratado. Amanhã às nove da manhã te esperamos aqui.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Despertar

Amanhece o dia.

O sol me cumprimenta pelos buraquinhos da persiana.

Eu acordo. 

Eu rolo para lá e para cá.

Eu me espreguiço.

Levanto, vou ao banheiro, me olho no espelho.

Sorrio.

Que bom, que bom é perceber que não foi um sonho.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Só quero dormir

Flores e pétalas, só em música e poesia.

Não importa, eu só quero dormir.

Ilusões rasas, sonhos que nem foram sonhados.

Não importa, eu só quero dormir.

Passos sem rumo, perfume sem cheiro.

Não me importa, eu só quero dormir.

O tudo que vira nada, o dia que vira noite.

Não me importa, eu só quero dormir.

Um sentimento se desintegra no vazio.

Não me importa, eu só quero dormir.

Do sonho à vigília, indesejável chegada.

E eu só quero dormir.

Só quero dormir.

domingo, 26 de julho de 2015

Paleta de infinitas tintas

O carro freia, num golpe de sorte você está aí.

Chove sem parar, derrapagens são corriqueiras.

O silêncio é a angústia do esquecimento.

Mas você sabe que não há nada de errado.

Os fantasmas morreram, você sabe.

Um passo depois do outro, tudo é bem metódico.

Não há motivos para temer a queda.

Você conseguiu esquecer o que necessitava.

Mais e mais provas não serão necessárias.

Se o céu está aberto, não invente nuvens.

Às vezes uma brisa é somente uma brisa, inofensiva e sem prenúncios.

Respire fundo, seja o momento que quer ser.

A vida é um quadro, vá pintando-o como bem entender.

Sua paleta tem infinitas tintas, com todas as cores e tons. 

Não espere que tudo fique bem, porque tudo está bem.

sábado, 25 de julho de 2015

O mundo fica mais bonito

Quando você se movimenta com sua leveza, o mundo fica mais bonito.

Quando sou inebriado pelo seu cheiro, eu juro, o mundo fica mais bonito.

Quando meus olhos encontram os seus, bem lá no fundo, o mundo fica mais bonito.

Quando os dedos de nossas mãos se entrelaçam, eu juro, o mundo fica bem mais bonito.

Quando nossos lábios se encontram, quando nossas línguas friccionam, o mundo fica mais bonito.

Quando seu gosto me invade, eu juro, o mundo fica mais bonito.

Quando sua boca massageia meu pescoço, o mundo fica mais bonito.

Quando nos fundimos em um nesse abraço quente, eu juro, o mundo fica bem mais bonito.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Gente

Gente que chora.

Gente que sofre.

Gente que grita.

Gente que sangra.

Gente que não é de papel. 

Gente que não está em alta definição.

Gente.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Inexistência

A inexistência, um temor megalomaníaco.

A inexistência, uma interrogação persistente no fim da linha.

Na inexistência não há dor ou sofrimento.

Na inexistência não há amor ou alegria.

Na inexistência não há cor.

Na inexistência não há perversidade.

Na inexistência não há mágoas.

Na inexistência não há o doce sabor de um beijo cheio de sentimento.

A inexistência não é vida.

A inexistência não é morte.

A inexistência não é nada.

Inexistência, inexistência, inexistência...

Será que, afinal, a inexistência existe?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Gosto de vida

Foi numa esquina qualquer que encontrei a mim mesmo, enquanto caminhava despretensiosamente.

Agora estou bastante contente, assoviando canções tolas por aí.

Então eu percebo que nenhum lugar é um lugar qualquer.

Sei que meus olhos estão brilhando, sem disfarçar a alegria de estar aqui.

Estou contente, pode chover, pode trovejar.

Estou contente, mesmo que alguém aponte o dedo para mim.

Estou contente, e adoro estar assim.

Estou contente, suspirando e querendo mais desse gosto tão doce de vida.

Estou contente, sentindo o cheiro que me rende e entrega ao encantamento dessa paisagem florida.

Sim, vivo, eu estou vivo.

Sim, contente, eu estou contente.

E precisava lhe contar.

E precisava lhe agradecer. 

sábado, 18 de julho de 2015

Rolando pela grama

O sabor desse dia é bem doce.

Brincamos irresponsavelmente, rolando pela grama.

Não há gritos ou carrancas capazes de nos fazer parar.

Todas as coisas que nos tiram do que realmente importa são guardadas numa gaveta.

O que importa é esse riso gostoso que estou ouvindo.

O que importa é esse olhar iluminado que estou mirando.

A vida pode ser bem melhor.

Depende daquilo que você escolhe olhar, ouvir, sentir, viver.

Ao fim de tudo, chegaremos todos ao mesmo lugar.

Ao fim de tudo, seremos todos a mesma coisa.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Reverência

Era uma tarde de sol.

Nos olhamos.

Encontramos um ao outro, como nunca antes havíamos encontrado, naquele exato instante.

O ângulo da luz beijando seu rosto foi de uma beleza sacra.

Ali, encontrei a resposta para todos os mistérios da vida e de tudo que nos cerca.

E em seu olhar, vi todas as estrelas.

O mundo parou.

Todos os sons formaram uma inexplicável e reveladora sinfonia de silêncios.

Isso tudo, num segundo apenas.

O universo sabe reverenciar acontecimentos tão grandiosos.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Àqueles que amo

Àqueles que amo, dedico cada segundo.

Àqueles que amo, dedico cada palavra.

Àqueles que amo, dedico cada sonho.

Àqueles que amo, dedico cada riso.

Àqueles que amo, dedico cada realização.

Àqueles que amo, dedico uma colherada de doce de leite.

Àqueles que amo, dedico a música cafona que diz tudo que sinto.

Àqueles que amo, dedico a imagem de um jardim repleto de flores.

Àqueles que amo, dedico a luz do sol e a brisa que refresca.

Àqueles que amo, dedico meus tolos mas sinceros versos.

Àqueles que amo, dedico aquilo que sou.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Remador

Vou remando tranquilamente em meu caiaque.

A vista é absolutamente deslumbrante.

Eu não pensava que houvesse beleza assim no mundo.

Então, ávido por mais, vou remando e remando.

Agora, a correnteza está mais forte.

Os remos são inúteis, e sou levado em alta velocidade.

Tudo é vertigem.

Vivo um híbrido do medo mais aterrador com a empolgação mais intensa.

Não sei onde vou parar.

Não sei se é o fim de tudo.

Mas se for, terá valido a pena.

domingo, 12 de julho de 2015

Sonhos, estrelas e luzes acesas

Mais uma noite chega, e em minha cama não tenho refúgio.

Entre os papeis sobre a escrivaninha, busco a resposta para o sentido da vida.

Só encontro números e anotações avulsas.

Avulso estou eu, pendurado no planeta, prisioneiro da gravidade.

E em noites como essa, isso parece extremamente grave.

Não compreendo as anotações, não entendo a mim mesmo.

Eu quero sonhar, eu gosto de sonhar.

Mas, honestamente, não sei qual sonho devo sonhar.

Me ajude, me ajude, desesperadamente lhe peço, me ajude a achar o caminho.

Estou cansado de estar cansado, e vejo esperanças partindo, cansadas de tanto esperar.

O céu é beleza e silêncio.

Calmas estrelas brilham sem se importar se alguém está olhando.

E em alguma hora elas explodem sem avisar.

Talvez o ontem seja um mentiroso e o amanhã, um debochado.

Mas o hoje está tão quieto enquanto faço sala e bebo um café com ele!

Tudo escureceu, mas estou me recusando a anoitecer.

Então me diga, eu devo sonhar?

Apenas me diga, eu mereço sonhar?

Quantos e quantos milhões, assim como eu, estão à procura de resposta nesse exato momento, em suas escrivaninhas?

Quantos e quantos bilhões de necessidades, anseios, ganas, números e anotações avulsas podemos reunir?

Que brilho temos nós, estrelas calmas, janelas de apartamentos com luzes acesas iluminando a penumbra de ruas frias e sem respostas, sem nos importarmos se alguém está nos olhando?

E quando nós explodiremos sem avisar?

E quando será que apagaremos sem deixar sequer um "boa noite"?

No fim de tudo

Ela se joga de seu abismo interior.

É isso que as pessoas fazem quando seus dias não são os dias delas.

Um segundo pode demarcar o que você será para sempre.

Ela deita em sua cama, como se o tempo pudesse mudar tudo.

Mas talvez algumas coisas sejam para sempre como são.

E muitos séculos serão insuficientes.

Ela é toda doçura não experimentada.

Porque é sempre mais fácil não se entregar integralmente.

Um piscar de olhos pode durar uma eternidade.

E no fim de tudo, o peito liberta-se do sentimento.

E no fim de tudo, o sentimento liberta-se do peito.

E no fim de tudo, não somos mais prisioneiros.

E no fim de tudo, não somos mais donos de nós mesmos.

sábado, 11 de julho de 2015

Nada será como antes

O mundo pode parecer feio em uma noite qualquer.

Mas no meio do deserto, há uma flor para lhe dizer que há vida.

As dores passam, e o que fica é a força de quem as superou.

Segure minha mão, aprecie o horizonte.

Tudo fica bem se não paramos de caminhar.

Sinta seu coração, sinta o meu também, encontre o motivo maior para isso tudo.

Aqueles que não sabem amar se esvairão como fumaça.

Faça da tempestade um banho purificador.

Guarde a certeza de que nada será como antes.

Porque tudo será muito melhor.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Promessa

Pare aí, a brincadeira chegou ao fim.

Tire suas mãos imundas, não há nada para conversar.

Mais acima, quase na divisa, suas nádegas foram golpeadas com força.

Eu tenho certeza de que ela tinha razão.

Nem todas as bruxas têm estômago para comer sua sujeira.

Algum dia pareceu que o que você fazia tinha alguma importância.

Não lamento informar que todos riem da sua cara enquanto você está se masturbando.

Acredite, ninguém acredita no que você finge que é.

Limpe esse chão com a língua, saboreie aquilo que é quase sua extensão.

Que nojo! Você pode fazer melhor do que isso!

E agora tudo será resolvido.

Eu fiz uma promessa, e vou cumpri-la.

Eu fiz uma promessa, e vou cumpri-la.

Eu fiz uma promessa, e vou me divertir.      

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O convite

- Alô, Lilian?
- Oi, Marcos!
- Então, como você tá?
- Bem, e você?
- Bem, também. Tem algo pra fazer hoje à noite?
- Não, não, tô livre.
- Vamos fazer alguma coisa. Um cineminha e um jantar num restaurante japonês, que tal?
- Ótimo.
- Umas sete horas nos encontramos, então?
- Pode ser!
- Perfeito. E tem problema se eu convidar uma amiga?
- Sim, tem.
- Oi?
- Sim. Tem problema, sim.
- Mas... Por quê?
- Ora, você perguntou se tem problema e eu respondi.
- Mas você nem conhece ela!
- Uhum... Mas não tô a fim.
- Ela é legal! Te garanto!
- É...Não duvido que seja... Mas isso não me importa.
- Bom... Então tá...
- Certo. Tchau, tchau.
- Tchau...

terça-feira, 7 de julho de 2015

Esquizofrenia sentimental

Há noites em que nenhum cobertor vence o frio.

E bato meus dentes esperando o amanhecer.

Há noites em que os sonhos são difíceis de sonhar.

E meus próprios enredos não me convencem de que haverá um final feliz.

Há noites em que o seu abraço é demasiadamente curto.

E eu gostaria de dormir em seu colo.

Há noites em que minha boca fica longe dos meus desejos.

E um suave toque poderia ser a minha salvação.

Há noites em que desnudo o que sinto, sem qualquer censura.

E deixo o peito doer, deixo o estômago arder.

Há noites em que penso em você, e penso, e penso, e quase enlouqueço.

E a solidão afoga as ilusões criadas por minha estupidez.

Há noites em que sua voz ecoa, seu olhar me consome, seu sorriso me tortura.

E descanso sem paz, atordoado por tudo que eu deveria arrancar do peito, sem anestesia.

Há noites em que sou todo o amor que não posso dar, escondendo meu rosto no travesseiro.

E sou refém desse flecheiro míope que erra, e erra, e erra, sempre e sempre.

Há noites em que sou eu mesmo, fecho o nariz, mergulho na insuficiência.

E sou o lamento silencioso de todos os amores asfixiados, jogados às moscas, devorados pelos vermes no chão destas ruas.

Há noites em que sou coadjuvante da minha própria vida, observando atos que esmagam meu coração, e pisoteiam minha alma.

E desperdiço meu tempo, choro e rio da minha própria cara, sofrendo com essa esquizofrenia sentimental, tão pura, tão perturbadora.

Porque sou todo o beijo não dado.

Sou toda a ausência de toque.

Sou todo o louco devaneio que virou pó.

Sou todo o amor desperdiçado.  

domingo, 5 de julho de 2015

Sem aqui, sem agora

Pensamentos inundam meu cérebro.

E assim não vejo nem ouço nada.

Estou em todos os lugares, menos aqui.

Estou em todos os tempos, menos agora.

Os dias e anos que passaram, remorso.

O que será de mim nos dias que virão?

E depois destes dias, o que será de mim?

Tudo o que tenho é leve demais.

Balões coloridos podem voar para longe, bem longe.

Sobra o peso daquilo que sou e sinto.

Fantasmas saem das paredes, o passado atordoa.

Sou enforcado por monstros que eu mesmo criei, e o futuro golpeia a mente.

A vida vai se atrelando a inexistências.

Mas a dor que estou sentindo é tão real!

E quando eu for pó, ainda serei angústia, para sempre esperando pela vassoura que me levará para mais longe.

Tolo no escuro

Não consigo dormir, estou silencioso demais.

Noites de paz são privilégio para poucos.

Estou preso a memórias que não tenho.

Deixo-me corroer por coisas que nunca vi.

O tempo que me contam se prolongou.

Mas não sou dono dessas preocupações.

Todos estão ocupados demais em seu conforto, e nas coisas que nunca perdem.

A doença se espalha pelo corpo e molha o chão.

Sujeiras e náuseas são a angústia que mata cada dia.

Conte-me, como fugir da sua própria mente?

Monstros à solta utilizam falsas inocências e pretextos estúpidos para beber mais e mais sangue.

Não existem más intenções enquanto esfaqueiam suas costas.

Eu sou um tolo no escuro, chorando pelo que não é meu.

Eu sou um tolo no escuro, sofrendo pelo que nunca foi meu.

Quem precisa de cafeína quando se tem os pensamentos?

Quem precisa de amor quando se tem este sofrimento?

sábado, 4 de julho de 2015

Quem é você?

Quem é você?

Não, não quero saber seu nome, CPF ou RG.

Não estou falando de inutilidades como qual sua profissão ou quais honrarias já recebeu.

Quero saber é das coisas que realmente têm importância.

Por exemplo, que filme lhe comove?

Quero saber o que você sente quando come uma colherada de doce de leite.

Quero saber a frase de um livro qualquer que você nunca esquecerá.

Quero saber a música que lhe inspira, e a que lhe faz explodir por dentro.

Quero saber o que você pensa sobre o amor.

Quero saber seu maior sonho, o que lhe move de verdade.

Quem é você?

Não, eu não quero saber do que está escrito na embalagem, e estou me lixando para a tabela de informação nutricional.

Eu quero saber é que gosto você tem.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Livre de ser como você

Armem o circo, ofereçam o discurso mastigado!

Começou a hipocrisia, aplaudam com força!

Boas máscaras às vezes são incapazes de esconder as verdadeiras intenções.

E essa nobreza freudiana, alguém explica?

O sangue nesse chão não é seu.

A sujeira que está grudando no solo não compadece ninguém.

O cálice está quebrado e não tem mais vinho.

Se isso que você faz é me libertar, então engula a chave.

Ofereça mais compaixão e bondade, lance mão de sua cartilha.

Substitua uma bíblia pela outra, e mantenha-os reféns.

Mantenha-me longe dessas boas intenções.

Decida os merecedores, desafie a lógica.

Muitos polegares se erguerão.

E você estará rico, gastando toda a sua miséria.

Estou livre de ser igual a essa manada.

Estou livre de ser como você.

Estou livre de pensar com um Ctrl+Z e um Ctrl+V.