domingo, 21 de junho de 2015

O que sobrou?

O que sobrou nestes destroços disfarçados de inabalável castelo?

O que sobrou para além das opiniões fáceis e frágeis?

O que sobrou para além dos aplausos babões daqueles que pensam que pensam?

O que sobrou para além do branquíssimo sorriso amarelo?

O que sobrou para além dessa pífia vontade de ser mais um?

O que sobrou para além desse anseio de ser medíocre e, sendo medíocre, pertencer a uma segura maioria neste ambiente perturbado de receitas prontas e sonhos enlatados?

O que sobrou para além da cartilha, daquilo que deve ser pensado para que bons olhos cheios de humanidade possam expressar divina aprovação?

O que sobrou para além dos cupins roendo papeis que dizem tudo o que você "é", mas não dizem QUEM você É?

O que sobrou para além da indigência de ideias, das gloriosas migalhas oferecidas por um moedor que acaba com seus dias, com seus anos, com sua vida?

O que sobrou para além da pose e do nariz empinado?

O que sobrou para além da inútil sofisticação, da inodora erudição, da pegajosa ânsia de vomitar todo esse volume morto nestes pratos mal servidos, tão caros, tão desprovidos de qualquer sabor?

O que sobrou para além do nascimento, da morte de cada dia, e do renascimento insosso e pastoso a cada manhã?

O que sobrou para além da carta de apresentação, da informação nutricional, do abre-fácil de você, comida congelada e consumida em minutos?

O que sobrou para além dos pratos sujos?

O que sobrou para além de todas as coisas tolas que você aprendeu a definir como "você"?

O que sobrou nestes destroços mal disfarçados de inabalável castelo, casinha de capim?

O que sobrou, afinal?

O que sobrou?

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