segunda-feira, 29 de junho de 2015

Todas as sortes

Eis a sorte, uma luz que pisca numa fração de segundo.

É brilho rápido, quase imperceptível.

Entre meus dedos, a fuga.

Os momentos exatos passam.

Mas eles ficam registrados, num flash, para a eternidade.

Dor e deleite separam-se por centímetros.

E o que foi real por um átimo, torna-se delírio.

O absurdo existiu e teve vida.

Foi a invenção de um louco qualquer.

E quem se atreveria a dizer que loucuras são inexistências?

Está entre nós a perfeita engenharia desta anárquica mistura de cores, cheiros, texturas, imagens, sons e gostos.

E quem se atreveria a dizer que isso não tem sentido?

A mentirosa lucidez agora repousa sete palmos abaixo da terra.

Decidi ser todas as sortes, todo o caos, todos os sonhos.

Pois não esquecerei que, mesmo com os pés firmes no chão duro, estou voando pelo espaço, pertencendo a um todo interminável.

E isso não é um anseio, não é uma desconexão.

Minha insignificância me faz infinito.

E isso talvez seja um verdadeiro milagre. 

sábado, 27 de junho de 2015

Entre o amargo e o doce

O chão do caminho da vida é muito duro, para muitos.

E tudo o que passou às vezes deixa um gosto amargo na boca.

Mas há doçura quando você encontra algo para amar.

É simples esse jeito de viver, deixando a brisa tocar o rosto.

Nada está parado enquanto estamos sentindo.

A dor, então, não passa de uma fuga.

Busque o tesouro que faz seus olhos brilharem, mesmo que ele pareça não valer nada para quem nada sabe desse sentir intenso. 

Viva este sonho nas profundezas de sua alma, sem que palavras azedas lhe impeçam de continuar.

É isso que nos move, é isso que nos torna o que verdadeiramente somos.

Você tem tudo de que você precisa em seu coração.

E todas as coisas fora dele são mentiras para que você jogue sua vida fora, como tantos e tantos fazem por aí.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Mo Cuishle

A vida é luta e persistência, ela sempre soube.

Um direto de direita pode derrubar qualquer dificuldade.

Nenhuma dor é suficiente, nenhuma queda pode ser definitiva.

Nas moedas, a esperança de ser alguém.

Mo Cuishle, proteja-se sempre!

Mo Cuishle, persiga o seu sonho!

Mo Cuishle, levante e lute!

A vida é luta e perseverança, ela sempre soube.

O golpe foi desleal, acabou-se o movimento.

A ausência de dor pode ser bastante dolorosa.

E ela se vai, enquanto ecoam os gritos de sua glória.

Mo Cuishle, proteja-se sempre!

Mo Cuishle, persiga o seu sonho!

Mo Cuishle, levante e lute!

Nada compra sua dignidade.

Nada destrói sua integridade.

Mo Cuishle, feche seus olhos.

Mo Cuishle, que todos os sonhos sejam bem sonhados.

Mo Cuishle, agora descanse. 

Falso prolongamento

O que foi é apenas uma vaga lembrança.

O que é, já não sabe.

Vê tudo.

Ouve tudo.

Mas já não tem vontade própria.

Está preso à degradação.

É um objeto abastecível e poluente.

Havia tanto por ser e sonhar.

Agora é essa estátua viva, sem hoje, sem amanhã.

Já não distingue horas ou séculos.

Sua vida virou uma tv, com uma programação repetitiva que não pôde escolher.

Apenas assiste ao seu desespero.

Não há outro canal.

Seu entendimento se esvai com o sono.

É um falso prolongamento material e orgânico.

Falta apenas desligar o interruptor e fechar os olhos.

Ele já morreu há muito tempo. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Um mar tão calmo

Um mar tão calmo, ondas batendo em meus pés.

Uma estrela no céu a guiar uma nova vida.

Um mar tão calmo, ondas batendo em minhas canelas.

Dias de salvação, certeza de um abraço.

Um mar tão calmo, ondas batendo em meus joelhos.

Um brilho num riso, a leveza do ser.

Um mar tão calmo, ondas batendo em minha cintura.

As portas se abrem, definitivamente.

Um mar tão calmo, ondas batendo em minha barriga.

Palavras penetram profundamente em minha alma.

Um mar tão calmo, ondas batendo em meu peito.

E neste peito, batidas desencontradas em equívoco.

Um mar tão calmo, ondas batendo em meu queixo.

Meus olhos desistem de procurar qualquer horizonte.

Um mar tão calmo, a água invade boca, narinas, pulmões.

E me afogo, não dá pé, estou entregue.

Deito-me nas ondas, deixo-me levar.

Faço amor com a lua, acaricio as estrelas.

Salgada doçura, sou um ponto flutuando no oceano.

Sagrada ternura, agora pertenço ao universo.  

terça-feira, 23 de junho de 2015

O comprador

Uma moeda, uma alma.

Outra moeda, o amor.

Este homem compra tudo e não tem nada.

Uma moeda, um agrado.

Outra moeda, a reverência.

Este homem compra tudo e não tem nada.

Uma moeda, uma poça de sangue no chão.

Outra moeda, o poder mesquinho com o qual ninguém se importa.

Este homem compra tudo e não tem nada.

Uma moeda, uma perversão imaginária.

Outra moeda, o gracejo que dá ânsia de vômito.

Este homem compra tudo e não tem nada.

Este homem vai furar os azulejos do banheiro.

Este homem está com a cueca toda grudada.

domingo, 21 de junho de 2015

O que sobrou?

O que sobrou nestes destroços disfarçados de inabalável castelo?

O que sobrou para além das opiniões fáceis e frágeis?

O que sobrou para além dos aplausos babões daqueles que pensam que pensam?

O que sobrou para além do branquíssimo sorriso amarelo?

O que sobrou para além dessa pífia vontade de ser mais um?

O que sobrou para além desse anseio de ser medíocre e, sendo medíocre, pertencer a uma segura maioria neste ambiente perturbado de receitas prontas e sonhos enlatados?

O que sobrou para além da cartilha, daquilo que deve ser pensado para que bons olhos cheios de humanidade possam expressar divina aprovação?

O que sobrou para além dos cupins roendo papeis que dizem tudo o que você "é", mas não dizem QUEM você É?

O que sobrou para além da indigência de ideias, das gloriosas migalhas oferecidas por um moedor que acaba com seus dias, com seus anos, com sua vida?

O que sobrou para além da pose e do nariz empinado?

O que sobrou para além da inútil sofisticação, da inodora erudição, da pegajosa ânsia de vomitar todo esse volume morto nestes pratos mal servidos, tão caros, tão desprovidos de qualquer sabor?

O que sobrou para além do nascimento, da morte de cada dia, e do renascimento insosso e pastoso a cada manhã?

O que sobrou para além da carta de apresentação, da informação nutricional, do abre-fácil de você, comida congelada e consumida em minutos?

O que sobrou para além dos pratos sujos?

O que sobrou para além de todas as coisas tolas que você aprendeu a definir como "você"?

O que sobrou nestes destroços mal disfarçados de inabalável castelo, casinha de capim?

O que sobrou, afinal?

O que sobrou?

A caneta

Dia desses no bar presenciei o seguinte diálogo, entre uma promotora de alguma coisa, que trabalhava ali com seus materiais e planilhas, e seu chefe:

Ela: (...) Tá, e posso ficar com essa caneta?
Ele: Claro que não, querida. Paguei 180 dólares nela. Tu tem 180 dólares aí?

O homem sorriu, e olhou para mim, que observava ao lado, no balcão, a cena. 

Deu uma piscadinha de malandro, ao que respondi com um discreto -quase constrangido e incrédulo- sorriso.

Deve ter pensado "Como sou bacana".

E eu apenas pensava: "Que espécie de idiota paga 180 dólares por uma CANETA e ainda considera isso motivo de orgulho?".

sábado, 20 de junho de 2015

Mais do menos

Quando saímos de nossas casas, eles tentam nos contaminar.

Corremos como irresponsáveis que não querem ser aprisionados.

Rejeitamos as coleiras, tantos números não convencem.

E o orgulho reside em não se ajoelhar para essa gente que nada entende de viver e amar.

Somos mais do menos, abrimos uma garrafa para celebrar.

Meu tempo pode durar pouco, mas será meu.

Dedicamos cada risada tola àqueles que partiram sem jamais terem vivido.

Rejeitamos a escravidão daquilo que querem nos obrigar a pensar.

Somos mais do menos, somos muito mais sendo muito menos.

Eles rabiscam verdades de manuais, eles são bem adestrados.

Mas nós estamos aqui apenas para revirar latas e aproveitar nossas loucas e deliciosas presenças.

A vida não acaba no que os outros pensam; ela apenas começa ali.

Porque somos mais do menos, e sempre voltamos para inverter as lógicas desta indigência mental reinante.   

Qualquer julgamento será inútil.

Qualquer opinião será descartável.

E qualquer sabedoria pasteurizada será cuspida na calçada.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Tão raro

Ele está mergulhado na própria alma.

Às vezes é necessário tirar tudo do lugar.

O mundo não para de girar.

Ele precisa mover-se, entregar-se.

A felicidade custa caro.

Mas pagar o preço é melhor do que ficar na inércia do apego a tudo que virou fumaça.

O céu está aí, atreva-se a voar.

E se o amor existe, é para ser amado.

Porque isso é tão raro.

E isso é tão perfeito.

Porque isso é tão único.

E isso é tão imperfeito.

É a beleza que não precisa de explicação.

É o encanto que essa gente nunca vai entender.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Doce devaneio

Estamos à meia-luz.

Suficiente para que vejamos o brilho nos olhos um do outro.

São segundos que parecem horas.

Sem falar uma palavra, lemos tudo o que está dito, neste brilho, neste olhar que invade despudoradamente a alma alheia.

Então nos aproximamos.

Inclinamos levemente nossas cabeças.

Sinto sua respiração, ao mesmo tempo dócil e ofegante, tocar meu rosto.

E esse querer úmido e quente de nossas bocas e narizes vira a trilha mais intensa neste silêncio tocante.

Minha boca já está em sua pele.

Lentamente, escaneia cada traço e cada curva de seu rosto.

Não há pressa neste caminho que vou percorrendo.

Vou para lá e para cá, até que meus lábios encontram os seus.

Lábios sonhados, lábios tão sonhados!

Eles se tocam, e seu toque vira uma mordiscada.

Agora já estamos flutuando por aí.

E de cima, tudo o que nos atormenta torna-se menor.

Bocas levemente abertas, adentramos um ao outro.

Nossas línguas dançam, se entrelaçam, se acariciam, se entregam.

Nosso abraço aperta, e nos fundimos em um ser só.

Sinto seu coração pulsar, sincronizadamente com o meu.

Nos olhamos novamente, e você sorri.

O tempo está parado e curvado, em ato de solene reconhecimento, reverente a este momento único.

O sentimento floresce com todas as suas cores.

E volto a mim mesmo.

Você não está mais aqui, mas ainda sinto seu cheiro.

Estou, mais uma vez, rendido ao mais doce, belo e puro devaneio. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Armas de brinquedo

Essas armas de brinquedo ferem brutalmente.

Não há perdão possível por cada dia desses em que morremos.

Não deveríamos precisar agradecer tanto por isso.

O cheiro da fumaça revolta o estômago.

A inocência é uma utopia.

O que poderá valer mais, o que poderá acabar com você?

Sentimentos não cabem em um bolso.

É tão vazia essa voracidade por mais e mais.

Um ladrão de sorrisos pode muito bem liquidar com nossas esperanças.

Ele não vai pensar em nada, apenas destruir.

Tudo parecerá tão bem...

Há sempre um novo abuso para disfarçar.

Há sempre uma carta na manga.

E os tesouros dentro de nossos peitos, quando serão roubados?

E os tesouros dentro de nossos peitos, quando serão arrancados?

Pegue em minha mão, leve-me para longe disso.

Pegue em minha mão, e prometa-me a luz do dia.

Preciso que tudo fique bem, preciso ficar bem.

Preciso cristalizar o seu olhar no meu, para nunca me perder.  

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A dor de não ser mais o mesmo

As fotos são recordações geladas.

Das ruas em que vivi, daquilo que eu fui.

Estive em paz, apenas prorrogando o recomeço da minha guerra.

O sol era tão forte que ofuscava minha visão, mas não me importava.

Eu pensava que era importante, e que isso fazia alguma diferença.

Cada passo era cheio de vida e esperança.

Foi então que despertei, regressei e morri.

Paisagens são encantos, sonhos são apenas fugas.

Eu prometi muito a mim mesmo.

Eu pensei que o mundo me prometia algo de volta.

Uma aura dourada me acompanharia por onde eu fosse.

E isso me daria força para chegar a qualquer lugar.

Eu pensei que pertenceria a mim mesmo.

Eu pensei que havia algo para esperar.

De tão longe, estrelas mortas há muito tempo ainda brilham aos olhos.

Os fragmentos são cada vez menores, tento juntá-los, tento colá-los.

O ar leve virou peso em meus pulmões.

As boas novas já não são mais novidade.

E evaporaram mais rápido do que eu poderia imaginar.

Essa é a dor de não mudar nada quando se mudou tanto.

Essa é a dor de não ser mais o mesmo, vivendo as mesmas coisas de sempre.

domingo, 14 de junho de 2015

Merecimento

Ele merece mais do que o cheiro de urina no chão da rua.

Ele merece mais do que o tempo que é sobra.

Ele merece mais do que a mera ausência de dor.

Ele merece mais do que a insipidez da existência.

Ele merece mais do que o toque que não toca, o beijo que não beija.

Ele merece mais do que a masturbação no chuveiro.

Ele merece mais do que lindas palavras que rolam montanha acima.

Ele merece mais do que o amor que não deixa amar.

Ele merece mais do que uma fração.

Ele merece mais do que uma razão.

Ele merece mais do que a náusea.

Ele merece mais do que a angústia permanente de quem não tem nada.

Ele merece mais do que o coração que sobe pela garganta para pulsar no vazio, e agonizar como um peixe fora d'água..

Ele merece mais do que a solidão da calçada.

Ele merece mais do que migalhas de pão que levam a uma casa que não é sua.

Ele merece mais do que este desconhecido sem surpresa alguma. 

sábado, 13 de junho de 2015

Desenho abstrato

Em um dia tão impreciso, tudo o que existe aqui é incerteza.

O papel que desempenhamos é tão leve e imperceptível.

Não posso parar para observar paisagem alguma.

Sou o vento que passa balançando as árvores.

Não sei o que serei amanhã.

Encaixo as peças de forma diferente, e crio um desenho abstrato.

Gosto da desconexão em relação à realidade imposta e tacanhamente compartilhada.

É ela que verdadeiramente diz aquilo que contenho em mim.

É nela que sou genuinamente único, criador de meu mundo.

A que recanto essa falta de domínio pode levar?

Peço aos céus o perdão pelo pecado do deleite.

Tão fugaz, tão determinante dos meus destinos.

Na multidão sem forma e sem cor, quero sentidos, significados, vida.

É tão humana essa vontade de ser alguém.

E é tão nobre esse desejo por desvencilhar-se da mediocridade que reina e mata sonhos verdadeiros.

Cada anônimo sem rosto que joga o jogo dessa mesquinhez sem fim é um carrasco de almas.

Mas não me vergo, não me entrego.

Sou mais do que o sangue que escorre pelo ralo.

Sou mais do que aquilo que dizem que sou.

E sou muito mais do que aquilo que dizem que devo ser.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Deixa doer

O sonho extirpado, o anseio sufocado.

Deixa doer.

O calendário atrasado, o relógio parado.

Deixa doer.

O quase ser, o quase ter.

Deixa doer.

A cena na tv, a música clichê.

Deixa doer.

A esperança vazia, a cama tão fria.

Deixa doer.

O grito trancado, o beijo não dado.

Deixa doer.

Caminho solitário, destino arbitrário.

Deixa doer.

O choro engolido, o cheiro no vestido.

Deixa doer.

Deixa morrer.

Deixa doer.

Deixa viver.

Amar é doer.

Amar é viver.

Amar é morrer.  

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Direitos que não temos

Após sonhar e acordar, fico mais um tempo.

Mais um dia me cumprimenta nos furinhos da persiana.

Desejo um pouco mais, e levanto.

Talvez hoje seja o dia em que tudo faça sentido.

Me fortaleço, me encho de ânimo.

Quando o sol for embora e eu estiver sozinho sonhando novamente, talvez esteja triste mais uma vez.

Muitas almas sonham sem ter os caminhos e os meios.

E se realmente alguém estiver rindo e se divertindo com tudo isso?

Os carros parecem encaminhar-se à colisão.

Mas como pedir desculpas antecipadas?

São tantos os direitos que não temos, e são tantos os pedidos que não podemos fazer.

E se nada disso for real, qual terá sido o tamanho da tolice de viver?

Onde está a chave daquele mundo em que podemos voar, e voar?

Onde está o mapa que me leva a um lugar que seja só meu, em que eu possa descansar?

São tantos os que têm os direitos que não temos, e são tantos os pedidos que eles nem precisam fazer... 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Sonha(dor)

Deitei na cama.

E dormi.

Fui tudo o que queria.

Vivi tudo o que não podia.

Me deixei inundar por este amor cego e tolo.

Sonhei, e sonhei, e sonhei, os melhores sonhos.

E então acordei. 

No silêncio, suspirei.

E lamentei.

Sim, a gente sempre acorda.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Caixas e cabeças

Pare um pouco.

Pare e esqueça.

Pare e avance.

Eles estão mentindo desesperadamente.

Eles precisam manter suas posições.

Amanhece e anoitece, e nada vai mudar.

Você vive, você morre, e nada vai mudar.

Caixas no lugar das cabeças, e nada vai mudar.

Eu avanço, e isso está divertido.

Não há mais nada.

Não há mais medo.

domingo, 7 de junho de 2015

O carteiro, o poeta, e o Grêmio

Antonio Skármeta escreveu poema sobre o Grêmio.

Diz nele:

"Kleber Barcos, Barcos Kleber
Kleber Barcos, Barcos Kleber
Barcos Vargas y Grêmio campeón"

Óbvia e inevitável conclusão: esse sujeito é realmente bom na hora de criar uma ficção.

sábado, 6 de junho de 2015

Monopólio da nobreza

Eles querem mandar no que eu digo.

Eles querem mandar no que eu faço.

Eles querem o monopólio da nobreza.

Eles querem o monopólio da pobreza.

Eles querem mandar no que eu penso.

Eles querem mandar no que eu quero.

Bem-intencionados pra me doutrinar.

Bem-intencionados pra me dominar.

No conforto, palavras repetidas, em argumentos frágeis e bem ensaiados.

Um bando de idiotas salivando aplaude.

No conforto, a banalização do que é justo e injusto.

E um bando de idiotas salivando se deleita.

Mas as medidas são sempre diferentes.

E eles querem que todos peçam desculpas.

Porque todos os que discordam são a face do mal.

E eles, tão contrários a maniqueísmos, são os santos salvadores.

E eles, tão contrários a maniqueísmos, se colocam como a única face do bem.

Sabem bem o que é melhor pra mim.

Sabem bem o que é melhor pra você.

Sabem bem o que é melhor pra todos.  

E se você não estiver na mesma onda, prepare-se.

Porque eles vão lhe perseguir.

Eles vão lhe violentar.

Eles vão lhe destruir, sempre em nome da paz e do amor.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Extracorpóreo

Levante voo enquanto dorme.

Seja algo mais enquanto sonha.

Deixe-se levar na leveza que lhe ergue.

A lucidez é um entrave desnecessário.

Eis a oportunidade de ver as promessas serem cumpridas.

Porque nada diferencia o que é real do que não é.

Então sinta a vida correndo em cada centímetro do seu corpo.

E não implore para acordar.

E não se desespere enquanto mergulha naquilo em que não acredita.

Aqui não há o que não possa haver.

E tudo depende apenas da sua capacidade de criar, crer, flutuar, ver e sentir.

A paralisia é ilusória, é infinita possibilidade de movimento.

Supere os gritos, supere as vozes.

O desconhecido lhe move e suga.

A velocidade humanamente inimaginável traz medo.

Mas há um novo despertar logo à frente.

E sua alma permanecerá viva, mais do que nunca. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Pescados pela rede

Na tela, no tempo, na linha, ninguém me diz nada.

A celebridade mostra o corpo.

E todos querem ser celebridades.

Eles são o que comem, e levam isso a sério.

Por fora, sorrisos; por dentro, misérias.

Felicidades vazias só valem quando aplaudidas.

Opiniões irrelevantes sobre todas as coisas demarcam as regras.

Para além de pensar, precisam mostrar-se pensantes.

Que gente é essa, que acha que sabe de tudo?

Que gente é essa, que acha que me interesso pelo que diz?

Imagens, e imagens, e mais imagens, de tudo o que gostariam de ser.

Uma manada ovaciona, fingindo que elas realmente são.

Em algumas polegadas, tentam transparecer uma perfeição oca e desprovida de sentido.

Pescados pela rede, se debatem sem ar.

Num curto-circuito, tudo o que fazem pode morrer.

E então, sobra aquilo que são: o nada, despido da sua patética fantasia de tudo.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Asfixiando sonhos

Atravesso a rua sem olhar para os lados.

Estou com um pouco de pressa, então me desculpe.

Algumas coisas vão embora muito rapidamente.

Sim, a vida vai embora muito rapidamente.

Siga-me, se quiser e puder.

A realidade se molda aos meus pensamentos.

E o que eu faço é fruto daquilo que busco, mesmo sem perceber.

Então eu tento asfixiar meus sonhos e desejos, todos os dias.

Porque alguns sorrisos possuem o efeito devastador de uma bomba nuclear.

Talvez em uma única onda este mar me leve para sempre.

Mas não ficarei parado na areia seca.

Sei que o horizonte é uma ilusão sem fim.

Mas não tenho um porquê para parar de caminhar.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Ruído permanente

Entre você e seus anseios há um vidro.

Poucos são os que se atrevem a se cortar.

Cada um deveria saber o seu lugar.

Enterre a dor em minha pele.

Há um pouco de prazer guardado nisso.

Você me pergunta porque sempre escolho o atrito.

Como poderia não escolhê-lo diante de um mundo apodrecido?

Essa recusa faz todo o sentido, e me faz ter orgulho.

Escolhi mofar e incomodar.

Não quero tocar essa música, não quero nada disso.

Então serei o som da furadeira atravessando essa maldita estrutura, mesmo que nada mude.

Serei o ruído permanente e incômodo para estes ouvidos sensíveis.

Quando nos tornamos donos de nós mesmos e dos nossos destinos, não precisamos mais nos ajoelhar.

Sinto-me integral.

E sinto satisfação.

Sinto-me integral.

E sinto uma imensa satisfação.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sentir e ser

Não quero mais fazer perguntas.

Não preciso mais de respostas.

Quero apenas apreciar a perfeição deste milagre que me faz estar aqui, vivo.

Quero apenas olhar com encantamento para a grandeza das coisas mais simples.

Nada que eu não possa verdadeiramente sentir tem sentido algum.

Todos os rótulos externos, tudo o que está em papeis e registros carimbados, é tudo o que eu não sou.

Não vou comprar a limitação daqueles que precisam dar um nome para tudo.

Não vou comprar o entendimento daqueles que nada entendem.

Porque sou mais do que essa estupidez de pareceres, de teres.

Sou mais do que estas etiquetas prostituídas para ter um inútil selo de aprovação de quem nada significa para mim.

Sou muito mais do que este mundo diz que eu sou, que eu posso ser, que eu devo ser.

E tanto faz quem vá gostar ou desgostar.

Talvez eu seja um tolo perdido.

Talvez eu seja um sábio que se encontrou.

Talvez eu seja um pequeno elo, talvez eu seja o fim para tudo.

Seja o que for, estou certo de que sou bem mais do que a mediocridade dos medíocres permite compreender.

E o sentido da minha vida está bem aqui, dentro de mim, não fora.

Mas neste exato momento, não quero pensar.

Neste exato momento, quero apenas sentir.

E ser.

Sem substantivos. Sem adjetivos. Sem LIMITAÇÕES.