terça-feira, 5 de maio de 2015

Prazer etéreo

As horas são consumidas pelo tédio da existência.

No quarto, quem não mais me ouve, quem não mais me abraça.

Eu aqui, no sofá, vou declarando, para que todos vejam, uma felicidade que não vejo.

A almofada é macia, por isso não saio.

Mas às vezes, ao olhar para fora, o desespero me contamina.

É lá que eu, inerte, vejo quem eu amo indo embora pelos caminhos mais fáceis que a vida oferece.

Quanto tempo estou perdendo enquanto ganho tempo?

Não sei o que vou fazer com ele, nem sei se vou fazer algo, ainda que devesse.

Estes papéis não me dizem nada, as paredes me sufocam.

A vida corroeu meus anseios, perdi a identidade.

Meu guia, me guie, até cansar, ou já cansou?

Meu anjo, me leve embaixo de suas asas, mostre-me que a vida é mais.

Vivo esse prazer ao mesmo tempo etéreo e egoísta, tenho medo de seu voo.

E sei que você merece muito mais do que este sagrado bem querer.

Mas como libertar-me, como dar-me de corpo e alma a você neste exato momento?

Você, tão livre, caminha, mas ainda pode me ouvir.

Eu, tão refém do que existe e desse medo avassalador, não grito.

E eu queria gritar, ah, como eu queria!

Enquanto eu não for tão livre quanto você, eu sei, você não me dará sua mão.

Existe uma inenarrável e dolorosa dignidade nessa sua ausência de gesto, eu sei.

Meu espírito está pálido e quer você, quer manchar-se com sua cor, e voar junto.

Mas esta palidez confunde-se com a palidez destes papeis que nada, absolutamente nada, me dizem.

Enquanto isso, você, à minha espera, caminha para longe.

E eu continuo aqui, ganhando tempo, perdendo tempo, perdendo a vida, gota a gota...

2 comentários:

Alexandre disse...

Nossa, belo texto. Adorei o blog.

Bruno Mello Souza disse...

Valeu, Alexandre!

Estás convidado a voltar sempre.

Abraços.