domingo, 31 de maio de 2015

Balões no céu

No alto, os balões, composição de cores.

Voam despretensiosos, para lá e para cá, para onde o vento leva.

A beleza se configura na naturalidade e leveza do movimento.

É vida no ar, é a simplicidade das cenas que realmente fazem sentido.

Não há dor, medo, ou preocupação.

No alto, os balões, harmonia da existência.

Mensagem de esperança, do querer mais puro e doce.

Que voem, e voem, e voem, e levem nossos sonhos para o céu.

sábado, 30 de maio de 2015

Escada rolante

Leandro e Sérgio estão na escada rolante do shopping. E ela para de funcionar, exatamente no meio da subida.

- Ei, o que é isso?
- A escada parou.
- Não pode ser!
- Meu Deus!
- Socoooorro!
- Ei, aí em cima, alguém! Socoooorro!
- Como isso foi acontecer com a minha vida?
- Não posso morrer aqui tão jovem!
- Socooooorro! Alguém ligue para os bombeiros, pelo amor de Deus!
- Socooooroo! Socooorro!
- E se a gente ficar aqui pra sempre?
- Cala essa boca! Socoorro! Alguém nos ajude! Socorrrooooooooo!
- Eles ficam só nos olhando!
- São hienas! Desgraçados! O ser humano não presta, mesmo!
- Uns desalmados até estão rindo! 
- Socoooorro!
- Eeeei! Para de filmar a tragédia dos outros e chama alguém com essa porcaria de telefone! Socooooroooooooo!
- Socoooooorroooo!

2 horas depois, chegam os bombeiros, que lançam duas cordas para os rapazes:

- Finalmente!
- Deus existe!
- Agora vamos devagar, tem que segurar na corda e dar um passo de casa vez. Olha lá como eles estão sinalizando.
- Ok, vamos devagar.
- Ufa, nem acredito.
- Estamos vivos! Estamos vivos, e isso é o que importa!
- Vivos e livres! 
- Nunca mais ando de escada rolante, eu juro!
- Eu também, nunca mais! Nunca mais!    

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A criança e sua caixa

Uma criança e sua caixa.

É dia de sol ardente.

Janelas fechadas, escuras, não haveria como ser diferente.

O esforço das pequenas pernas é em vão.

Dos canos, a fumaça; da boca, a tosse.

Gomas coloridas não têm tanto valor. 

E as balas, elas nunca acabam.

Na volta para casa, a criança e sua caixa.

Já é noite, e sozinha em meio aos estampidos, ela corre.

Janelas fechadas, escuras, não haveria como ser diferente.

O esforço das pequenas pernas é em vão.

Nos canos, a fumaça; na boca, o sangue. 

Vidas acinzentadas não têm tanto valor.

E as balas, elas nunca acabam...

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Infinita força

Talvez muitas coisas não façam sentido.

Sentimos isso o tempo todo.

E nos vemos ilhados no meio de coisas que não significam nada.

Mas temos essa infinita força, não esqueça.

Quando a neblina consumir o caminho da sua visão, lembre-se: estou ao seu lado, lhe guiando.

Não precisamos de grandes respostas ou significados.

Porque sorrisos verdadeiros são sorrisos sorrisos verdadeiros, e não necessitam de satisfações.

Todas as coisas que compõem esse cenário de hipocrisias acabam por derreter.

Sobrará aquilo que temos em nossas almas, todas as belezas de cada momento especial.

E em cada momento desses, nossas almas se abraçarão e repousarão, com a certeza de que cada segundo que fizemos nosso valeu a pena. 


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Hoje vou sair de casa

Hoje vou sair de casa.

Não para mexer nos papeis.

Não para contar dinheiro.

Não para encenar essa peça sem graça, falsa, de vidas não vividas.

Hoje vou sair de casa, sim.

Mas vou sair para sentir o cheiro de alguma flor.

Vou sair para tomar um sorvete bem doce.

Vou sair para me admirar com o sorriso de uma criança.

Hoje vou sair de casa.

Não para ser mais um morto-vivo.

Hoje vou sair de casa, sim.

Mas vou sair para viver. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

Terreno baldio

Deixe a água descer pelo ralo.

Esse banho pode lhe fazer bem.

E tudo ocupará seu devido lugar.

Não há choro, drama ou dano.

Seja o que merece ser, seja único.

A cada coisa, seu devido valor.

Nem mais, nem menos.

Cuide bem do seu terreno baldio, trate esse espaço vazio.

Existe mais, há de existir.

Fins podem ser recomeços.

E o que continuar, que continue como é.

E o que persistir, que persista como tem de ser.

Sem ilusões, dores ou pirotecnias.

Dias nublados e de ventania também guardam sua beleza.

E quando houver sol, você terá conhecido mais de si mesmo, em cada canto, cada lágrima, cada suspiro. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Siga em paz

Chega um dia em que se cansa de esperar.

E então se sai de casa sem rumo, se abre o peito, se perde o medo de andar a esmo.

A terra firme, por vezes areia movediça, não basta mais.

E aí se quer desbravar as nuvens pesadas, encontrar o sol.

A inércia é dor constante.

E a vida é bem mais do que isso.

Se há coisas melhores, vá em frente.

Não vou mais me importar.

Siga o seu rumo, siga em paz.

Sempre houve coisas melhores.

Então não vou mais me importar.

Siga o seu rumo, siga em paz.

sábado, 23 de maio de 2015

Doce tolice

Imersos em um sonho.

Abrimos as mãos.

Abrimos a alma.

Abrimos o coração.

A brisa inspira.

Que seja uma doce tolice.

Que seja um anseio irrealizável.

A amargura da realidade não tem mais lugar.

Aqui, a vontade de levantar.

Aqui, a resposta para tudo que desconforta.

Aqui, a alegria perdida.

Aqui, e só aqui, nosso escudo intransponível, protegendo-nos de todos os males.

Aqui, e só aqui, o amor que faz flutuar, mesmo que o mundo lá fora desabe.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O sol tem boas notícias

Ei, menina, olhe-se no espelho e sorria.

Não há nada a temer, confie.

Ei, menina, abra sua janela.

O sol tem boas notícias.

Ei, menina, respire fundo.

Você é um lindo milagre.

Ei, menina, silencie a mente, aprecie sua própria beleza.

Deixe que as coisas apodrecidas se evaporem.

Ei, menina, se precisar chorar, chore.

Mas lembre-se das nossas risadas, que essa gente jamais vai compreender.

E se cair, menina, segure firme minha mão para levantar-se.

E se for pra sentir dor, menina, vamos sentir dor juntos.

A cura está em tudo que tem capacidade de encantar.

Você não está sozinha, eu juro.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Subidas e descidas

É quase noite, o dia foi longo.

Estou suando, e suando, e suando.

As pálpebras pesam, despencam, e eu faço um esforço sobre-humano. 

Solavancos me tiram a estabilidade.

Até o ar precisa fazer atalhos para se mover por aqui.

O caminho é longo, a vida é curta.

Entre os que descem, a falsa liberdade dos que não chegam.

Entre os que sobem, os olhos que ressecam no meio do trajeto.

Não há descanso ou fim de linha.

Os limites são dados por relógios e calendários.

Mas tudo segue, sempre segue, cegamente segue, neste ônibus lotado.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Colhendo flores

Estou colhendo flores no campo.

E não me importo se rirem de mim.

Estou colhendo flores no campo.

E não me importo se elas murcharem.

Estou colhendo flores no campo.

E não me importo se elas forem para o lixo.

Estou colhendo flores no campo.

E isso me faz bem.

Estou colhendo flores no campo.

Porque isso me faz feliz.

terça-feira, 19 de maio de 2015

De manhã

Amei.

Sonhei.

Delirei.

Acordei.

Agora, estou escovando os dentes.

Mais um dia igual a todos os outros começou.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Utopias e distopias

Ainda estou sob o efeito dos dardos que você disparou contra mim.

Enterrado entre cobertores, edredons e lençóis. 

Estou ferido, mas sou incapaz de sentir qualquer dor.

Dias e séculos se passam enquanto me escondo de mim mesmo.

Mas algum dia eu despertarei, eu levantarei.

E deixarei o sol beijar meu rosto.

Em minha mente, passeio entre novas certezas e antigas dúvidas.

E se a eternidade for apenas uma promessa vazia?

Palavras e palavras, somente palavras, o tempo que se ganha.

Se quiser lutar por mim, lute, pois talvez eu tenha desistido de lutar por você.

A felicidade é uma velha utopia.

A liberdade é uma velha utopia.

A liberdade é uma velha distopia.

A felicidade é uma nova distopia.

sábado, 16 de maio de 2015

Recusa

Seus olhos estão sangrando, e você ainda sente sede.

O que você diz não muda a realidade à sua volta.

Quando tudo pareceu não ter valido a pena, talvez você tivesse razão.

Essa noite, vamos gargalhar enquanto nossas almas choram.

Mas isso não tem importância enquanto existir anestesia.

Assim fomos ensinados a viver.

E postergamos as coisas que o coração deseja.

Se tudo for mentira, há uma longa estrada.

E não vamos parar, independentemente da dor e das cicatrizes.

Faz um século que estou aqui, e sei bem como é isso.

A pele arde e queima.

Mas estou me recusando a parar.

Mesmo que isso nunca chegue ao fim.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

2 da manhã

Eram 2 da manhã, e ela despertou em desespero.

Abriu a gaveta do criado-mudo que ficava ao lado de sua cama, e lá não estavam as promessas.

Levantou-se e verificou o guarda-roupa, porta a porta: nem sinal de seus te amos.

Perturbada, foi ao banheiro, encheu o copo d'água e pegou seu vidrinho de felicidades: estava vazio.

"Que pesadelo é esse?", perguntou-se.

Foi à cozinha, e na geladeira, já não existiam doçuras, tudo havia azedado.

Parou, com as mãos na cabeça, e um tremendo e estranho pavor a fez regressar correndo ao seu quarto.

Ao olhar para a portinha aberta, não conteve o pranto.

Seu para sempre de estimação havia escapado da gaiola e fugido pela janela que ficara aberta.

Saiu para buscar, talvez, um ninho em que pudesse pousar, repousar, e se aquecer.

E ela ficou ali, sozinha, sentada na cama, engolida pelo vento frio.

E fez mais frio do que nunca naquela noite...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Para começar a caminhar

Tirou sua máscara.

Arrancou toda sua pele.

Livrou-se de tudo que pesava, pensamentos, angústias, planos, frustrações.

Despiu-se de seus sonhos.

E começou a caminhar.

E começou a viver.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Cinzeiro cheio, cerveja quente

O cinzeiro está cheio, quase transbordando.

Bitucas e mais bitucas de cigarro, cinzas de mim mesmo.

Meio copo de cerveja quente, é o que sobrou, e tomo aos microgoles para não sentir o gosto de derrota que uma cerveja quente e sem gás, e só uma cerveja quente e sem gás, possui.

Olho para as paredes como se isso fizesse o tempo passar, como se fizesse o sono chegar.

Mas me distraio e me mantenho desperto ao descobrir cada nova e pequena ranhura.

Sinto-me como uma vastidão vazia, um infinito de nada.

Talvez essa seja a sina dos homens que perdem o sono, que renegam a mediocridade da vida ordinária, enlatada como se fosse uma ração sem gosto.

Talvez essa seja a sina dos homens que se autodestroem porque não têm nada de mais divertido ou interessante para fazer.

É o cinza do cinzeiro, é o cinza no cinzeiro, é o cinza das paredes, é o cinza do amarelo, sim, amarelo acinzentado, da cerveja quente e sem gás.

É o cinza da existência outrora cheia de cores, do ontem quase belo, do amanhã quase real e feliz.

Tantos são os que sabem fingir bem e com todas as letras.

E talvez seja simplesmente essa a diferença, não entre tristes e alegres, não entre felizes e infelizes, mas sim entre os que sabem fingir e os que não sabem.

São ciclos, são alternâncias entre nada com alguma cor viva e coisa alguma no tom de cinza que encerra os corpos nas gavetas do cemitério.

O ardor com que se ama, a chama que se apaga com a chuva da verdade desse ser um nada com anseios de ser um algo, tudo se vai, tudo se esvai.

E como tolos, numa noite de dia de semana qualquer, acordamos de madrugada, olhamos para o espelho, e transbordamos todos os nossos sentimentos em forma de lágrimas que caem sobre a pia e escorrem para o esgoto da alma.

A cada sim disfarçado de não se acende uma luz que revigora a pele e a vida.

A cada não disfarçado de sim, os tecidos ressecam, apodrecem, e ficam ali, como indício e prova de que um dia alguma coisa, não se sabe exatamente o que, existiu.

E então vamos embora em nossa sagrada procissão, embebidos em nossa falsa e silenciosa paz, como se nada tivesse acontecido, como se eu não tivesse mais uma vez morrido.

Aí chego em casa, acendo um cigarro, encho o último copo, e olho para as paredes.

Apenas mais uma bituca, e apenas um copo a mais que logo em seguida será meio, e estará quente e sem gás, bebível somente por microgoles.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Mesma queda

A hora está passando enquanto eu espero.

Somos feitos de palavras não cumpridas.

A volta será a mesma de sempre, sempre sozinho.

Estamos cumprindo um castigo que não cessa.

Desconhecemos nosso crime, mas seguimos presos.

Fique mais um pouco, fique como puder.

Tudo está morrendo e se esvaindo ao meu redor.

Dê-me sua mão enquanto agonizo.

Estamos sendo engolidos de novo.

E vamos nos jogar mais uma vez.

É a mesma queda de diferentes penhascos.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um grito de vida

Não deixe que colem seus pés.

Se for preciso, saia correndo.

Não existe dívida alguma.

As grades dessa prisão são imaginárias.

Despeje o líquido quente em seu rosto.

Existe uma força destinando tudo.

Não tema a punição.

Todo reinado um dia acaba.

Os poderes que lhe esmagam estão sendo corroídos.

E as vaidades estão sendo derretidas pelo ácido.

Um grito de vida, do querer mais puro, pode ser ouvido.

O chão se abre em nome desta fuga sonhada.

Um grito de liberdade, afastando as nuvens com forte braçadas e ganhando o céu.

O universo é grande o suficiente para abraçar nossos desejos.

domingo, 10 de maio de 2015

Mesmo que chova

Esse chão tem muitas pedras, o caminho é espinhoso.

Os oásis prometidos são pura ilusão, não adianta se enganar.

Eu sempre lhe avisei que não seria fácil.

Eu sempre lhe alertei para as armadilhas.

Mas estou aqui para lhe dar minha mão.

Lado a lado chegaremos a algum lugar que seja nosso.

Não se preocupe, mesmo que chova, estarei bem aqui.

E quando o céu abrir, colheremos flores para enfeitar a sua cabeça.

Em minha mochila, cabem todos os sonhos do mundo.

E no meu peito, cabe todo o amor do mundo.

Se ao fim da estrada, houver apenas um abismo escuro, não teremos perdido nosso tempo.

Terá valido a pena porque teremos caminhado juntos.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Transformações

O olho no olho virou pensamento.

O pensamento virou aperto no peito.

O aperto no peito virou amor.

O amor virou dor.

A dor virou poesia.

Delírio noturno

Noite fria, um recomeço.

Cama vazia, um novo sonho.

Aqui sou liberdade, te amando loucamente.

Querendo estar contigo, me entregando pouco a pouco.

O seu olho no meu olho, o seu corpo no meu corpo.

Seu nariz em meu nariz, sua boca em minha boca.

O cheiro bom da sua pele, e a minha arrepiada.

A mordida dos seus dentes, tatuando o meu pescoço.

Com meus lábios, escaneio cada centímetro de você.

E o seu corpo lentamente derrete como manteiga quente.

Eu estou dentro de você, e você dentro de mim.

Nosso encaixe é perfeito, e agora somos apenas um.

Não me peça para acordar, fique aqui, fique assim.

Agora tudo faz sentido, porque estou aqui contigo. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Multidão sonhadora

Eu caminho na multidão, e tudo que vejo são sonhos.

Sonhos, sonhos e sonhos.

Grandes, médios, pequenos...

Apenas sonhos.

Essa gente luta todos os dias contra a realidade.

Essa gente acorda todos os dias esperando pelo amanhã.

E quantos já morreram sonhando, esperando o dia que nunca chegou?

Aperte o que pulsa em meu peito até que pare de pulsar.

Talvez algum dia os sonhos sejam realidade.

Mas de que adianta ficar parado nessa estação, se o trem nunca passa?

Eu sou a esperança que você tenta ter.

Estou apenas andando, não fugindo.

Vou embora, talvez eu volte.

Vou embora, perseguindo algo que eu possa tocar.

Vou embora, talvez não volte.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Das palavras

As palavras se movimentam, se deslocam.

As palavras se moldam, expõem, escoltam.

As palavras sufocam, enforcam, libertam.

As palavras apertam a bolsa de pus, ardem, aliviam.

As palavras agridem, acariciam.

As palavras maltratam, afagam.

As palavras travam, as palavras dançam, as palavras transam.

As palavras, doces, salgadas, amargas.

As palavras, asquerosas, insípidas, deliciosas.

As palavras, escravas, escravizadoras.

As palavras, sentido para a vida.

As palavras, motivo para a morte. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Prazer etéreo

As horas são consumidas pelo tédio da existência.

No quarto, quem não mais me ouve, quem não mais me abraça.

Eu aqui, no sofá, vou declarando, para que todos vejam, uma felicidade que não vejo.

A almofada é macia, por isso não saio.

Mas às vezes, ao olhar para fora, o desespero me contamina.

É lá que eu, inerte, vejo quem eu amo indo embora pelos caminhos mais fáceis que a vida oferece.

Quanto tempo estou perdendo enquanto ganho tempo?

Não sei o que vou fazer com ele, nem sei se vou fazer algo, ainda que devesse.

Estes papéis não me dizem nada, as paredes me sufocam.

A vida corroeu meus anseios, perdi a identidade.

Meu guia, me guie, até cansar, ou já cansou?

Meu anjo, me leve embaixo de suas asas, mostre-me que a vida é mais.

Vivo esse prazer ao mesmo tempo etéreo e egoísta, tenho medo de seu voo.

E sei que você merece muito mais do que este sagrado bem querer.

Mas como libertar-me, como dar-me de corpo e alma a você neste exato momento?

Você, tão livre, caminha, mas ainda pode me ouvir.

Eu, tão refém do que existe e desse medo avassalador, não grito.

E eu queria gritar, ah, como eu queria!

Enquanto eu não for tão livre quanto você, eu sei, você não me dará sua mão.

Existe uma inenarrável e dolorosa dignidade nessa sua ausência de gesto, eu sei.

Meu espírito está pálido e quer você, quer manchar-se com sua cor, e voar junto.

Mas esta palidez confunde-se com a palidez destes papeis que nada, absolutamente nada, me dizem.

Enquanto isso, você, à minha espera, caminha para longe.

E eu continuo aqui, ganhando tempo, perdendo tempo, perdendo a vida, gota a gota...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Todo destino

Aviões, trens, ônibus, carros, motos e pés.

Tanta gente anda, para lá e para cá, e não tem rumo algum.

São moscas, e suas tarefas, o inseticida.

Ficam por aí tontas, entre círculos e zigue-zagues, atrás de comida, atrás de sentido para a vida.

Seus dias passam, e elas permanecem inertes e drogadas sob a falsa impressão de que avançam para algo.

E não sabem, no fundo não sabem, o que é este algo que perseguem, prisioneiras de um jogo perverso que leva sempre ao mesmo resultado.

Os destinos mudam, milhares ou milhões deles, todos os dias.  

As pretensas ordens e certezas não existem.

Todos são caos.

Eu, aqui de cima deste prédio, prestes a me jogar, observando tudo, também sou. 

As coisas estão no seu lugar?

Não, não estão, nunca estão.

Toda a beleza é medonha, toda a feiura é bonita.

Ainda há conflitos e dicotomias, e eles são fundamentais, ainda há os interesses...

Mas tudo isso é palco, é obra que se desenvolve, é enredo na avenida da existência.

Faltam os preenchimentos às lacunas, faltam respostas, mas o que há, há, e pode ser observado, pode ser respirado.

Falta libertar-se das amarras, das expectativas nossas e dos outros, do querer ser, e simplesmente ser, ser o que se quer ser, ser o que se pode ser neste exato momento. 

Sem forma, sem vasilha, apenas conteúdo, sentimento, aquilo que transborda, aquilo que se deseja.

Todos os quadros na parede são quadros na parede, todas as pinturas são pinturas, e não importa quem as fez, não importa como as fez.

Falta essa gente pintada de fora pintar-se, falta essa gente observada também observar, também colorir, falta sair do quadro, falta fazer o quadro que se quer.

Falta tão somente abraçar o agora, sem hora, sem barreiras, como o tempo que define todo o nosso destino, e todo o nosso destino está aqui, neste segundo.

E todo o meu destino está aqui, se ficar ou se cair, se me jogar ou desistir...

domingo, 3 de maio de 2015

Só sobrou a loucura

Agora, que o sol foi embora...

Só sobrou a loucura.

Agora, que as crianças não têm mais a rua...

Só sobrou a loucura.

Agora, que as flores murcharam...

Só sobrou a loucura.

Agora, que nossa pintura virou um borrão...

Só sobrou a loucura.

Agora, que os risos frouxos viraram carranca...

Só sobrou a loucura,

Agora, que o amor cristalizou-se numa poesia...

Só sobrou a loucura. 

sábado, 2 de maio de 2015

Tudo está no seu lugar

Tudo está no seu lugar.

Você não pode se mover.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode falar.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode sonhar.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode amar.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode viver.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode respirar.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode ter.

Tudo está no seu lugar.

Você não pode pertencer.

Tudo está no seu lugar.

E você está preso naquilo que é.

Tudo está no seu lugar.

E você está preso naquilo que não pode ser.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sem carne, sem osso

Andando pelas ruas, ela sempre é olhada mas nunca é vista.

É como um fantasma, amado sem carne, sem osso.

Existe como um fluido, passeia por entre palavras que lhe aliviam mas não lhe curam.

O futuro sempre se esconde, ela vive mergulhada em seus sonhos.

Chora em seu confidente travesseiro, não sabe quem é, não sabe o que é.

Promessas imaginárias vão consumindo seus dias e nervos.

Flutua sem direção à espera de uma mão que lhe conduza.

Do chão, a boca que se abre e a engole.

Do firmamento, o silêncio e a angústia.

E a cada despertar, uma nova incerteza a respeito de quantas horas ou séculos ainda terá que aguardar.