quinta-feira, 30 de abril de 2015

Teatro de fantoches

O circo está armado mais uma vez.

Palhaços sem graça estão prontos para mais um espetáculo deprimente.

Eles não conseguirão limpar a sujeira que fazem.

Fantoches mobilizam sua superioridade esquizofrênica.

Está aí o show, eles fingem que têm algo realmente importante a dizer.

Mas fantoches não possuem vida própria.

Eles precisam de uma mão alheia escondida por baixo da roupa para indicar o que devem fazer.

Em um reino de mediocridades, só a mediocridade pode reinar.

E seria tolice esperar qualquer coisa diferente disso.

Uns precisam das desimportâncias dos outros para alimentar esta farsa.

Se não tivessem a mesquinhez que lhes mantém com suas poses, não encontrariam sentido na vida.

Os grandes egos precisam das menores coisas, existentes ou não.

Mas no fim, nada disso terá importância alguma.

Nada tem importância...

São apenas idiotas...

Nada tem importância...

São apenas idiotas... 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Um raio

Um raio cortou o céu.

Naquele lapso, ele teve sua ideia.

Um raio lhe partiu ao meio.

Naquela fração, ele viu o abismo à sua frente.

Como fugir se o olho do furacão está dentro de você?

Amores partem sem nunca terem chegado.

Corações se partem sem nunca terem pulsado.

O que, além de nada, ocorre nessa sucessão de vezes em que quase se é alguém?

Doa-se, deixa doer.

E a vontade de se transbordar bate sempre em seu peito.

Viver é amar, é teimar.

Viver é querer, é morrer.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Abrace a si mesma

Menina, não fique atemorizada quando olha para este mundo acinzentado.

Ele está assim porque está à espera das suas tintas e do seu olhar.

Então desenhe toda a natureza e a vida que deseja.

Menina, essas caras fechadas nas ruas não são nada para que você baixe a cabeça.

Faça a mágica de ser diferente, ria deles, sorria sem travas.

Essa gente é tola demais por se levar tão a sério.

Menina, abrace a si mesma e todas as coisas lindas que guarda dentro de si.

Veja como toda a escuridão desaparece quando o seu interior se ilumina.

Quando você é o centro do seu próprio universo, adquire um poder divino.

Menina, não perca seu tempo com quem desconhece o cheiro das flores.

O mundo é basicamente feito de pessoas pelas quais devemos passar reto.

Prefira o jardim, a alegria e a respiração leve e perfumada de quem sabe entregar-se ao milagre de ser eterno diante do infinito do cosmos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Só mais um

Sou o vento que traz más notícias.

Sou a onda que traz sujeira para a areia.

Algum dia, pensei que tudo poderia ser melhor.

Mas nada mudou, estou no mesmo lugar.

Eu fui uma ilusão, sou um desiludido.

Estou esperando o dia em que a vida se torne viva.

Talvez fosse melhor se nada tivesse acontecido.

Talvez fosse melhor se ninguém tivesse sentido.

A paz, uma utopia.

Para ser segundo, terceiro ou quarto.

Para não ser nada, assim é bem melhor.

A vida não pode ser feita de insuficiências.

Ser só mais um, eu não quero.

Ser igual, jamais. 

sábado, 25 de abril de 2015

Grama molhada

À sombra das árvores nós corríamos.

E nos olhávamos como se o mundo nunca fosse acabar.

Na grama molhada, nós deitávamos.

E frente a frente, contávamos nossos sonhos sem dizer uma palavra.

Não havia dor que derrubasse aquele magnetismo.

Meus olhos secaram, mas ainda brilham estranhamente.

Estou de volta ao mesmo ponto.

Eu jamais havia saído dele.

Leve-me pela mão, ensine-me a voar.

Talvez eu precise apenas sonhar.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Clube dos corações congelados

Por favor, retire o coração do meu peito e coloque-o num congelador.

Desperte-o somente quando ele tiver o direito de amar.

E deixe-o pulsar novamente só quando houver sol e luz.

Por enquanto, vou marchar com o clube dos corações congelados.

Caminharei lado a lado com essa gente que busca apenas a sua vez.

E deixarei o tempo passar e ir embora com a fumaça.

Talvez algum dia a soma desses nadas forme alguma coisa.

E talvez esses motivos certos em lugares errados ultrapassem as meras palavras e vontades.

Nesta marcha, não há destino, não há dor.

Não há o peso insuportável destes órgãos pulsantes.

Na marcha dos corações congelados, não há direção equivocada.

Há somente espera em movimento sem esperanças, essas armadilhas que nos aguardam a cada esquina.

No clube dos corações congelados eu vou me encontrar.

Vou adormecer acordado, sem sonhar.

E ocupar o lugar que me é de direito.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Para fora da caixinha

Ele estava quase feliz.

E todas as coisas estavam em seu devido lugar. 

Porém, estava tão apático.

E as cores desbotavam em sua caixinha, tão bem construída.

Tudo está tão certo e definido nessa zona de conforto.

Mas ele precisa de um amor transbordante, que ultrapasse todas as medidas.

Ele precisa de algo que mova o seu mundo e tire tudo do lugar, se assim for preciso.

Ele precisa de drama, sim, e de loucura, desvario, delírio.

Talvez ele se desapegue da caixinha e abra o peito para os perigos dessa aventura.

As cores dentro de si combinam mais com o que está lá fora, pulsando.

Lá estão todos os azuis, amarelos, laranjas e vermelhos para sair do quase e ser feliz.

Lá está um coração que lhe espera e abraça sem medo.

Lá está uma vida que não se limita às funções orgânicas e está destinada a viver, sofrer, querer e amar junto.  

Basta querer.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Síndrome de Estocolmo

Quando o sorriso desvia, eu sinto medo.

Talvez eu esteja faminto, e precise me defender.

Se eu perco seus olhos por um segundo, a dor dura toda uma eternidade.

E foram tantas as vezes em que me avisei, mas nunca me ouvi.

Peço perdão a você e a mim mesmo, sempre em silêncio.

As pequenas existências parecem isoladas umas das outras.

E nas águas que as separam, sinto apenas dor.

Com suas ondas, você me traz todos os significados.

Com suas ondas, você leva tudo que tenho.

Eu sofro, eu amo, e neste cálculo distorcido, continuo me entregando.

Isso é tão desigual e desproporcional, continuo refém.

E com essa Síndrome de Estocolmo, eu reluto em me libertar.

Caio lentamente, não encontro meu leito.

Caio eternamente, não encontro meu chão.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Lá na esquina

As pessoas estão todas com preguiça.

E eu queria dormir um pouco mais para não ouvi-las.

Ou isso, ou aquilo.

E por que não podem ser as duas coisas?

Emburrecimento e estupidez, cada um segue sua bíblia.

Pensar parece muito trabalhoso.

Eles escolhem a receita pronta.

E usam os mesmos métodos que condenam.

Exceções só servem se for para apelar à pieguice forçada.

Bons samaritanos saem de suas cavernas para me dizer o que devo querer.

Eles só precisam masturbar um pouco mais seus áridos intelectos, e enfeitá-los com flores de plástico.

E tudo isso é tão miserável e tacanho.

Estou sentado e rindo enquanto eles tentam fingir que fazem algo importante.

Olhe para o meu dedo, veja se estou lá na esquina.

Talvez lá alguém possa concordar com as bobagens que você diz.

domingo, 19 de abril de 2015

Garoto em fuga

O garoto corre sem rumo, quase é atropelado.

É sempre difícil fugir de si mesmo.

O garoto não para de correr, tropeça e cai.

É sempre difícil fugir de seu próprio coração.

O que ele vê lhe atormenta.

O que ele ouve lhe atormenta.

O que ele pensa lhe atormenta.

O que ele sente lhe atormenta.

Então só lhe resta correr, e correr.

Então só lhe resta não chegar a lugar algum.

sábado, 18 de abril de 2015

Em sua beleza

Em sua beleza, estou hipnotizado.

Em sua beleza, estou afogado.

Em sua beleza, eu me escondo.

Em sua beleza, eu me calo.

Em sua beleza, estou embriagado.

Em sua beleza, estou adormecido.

Em sua beleza, eu me esqueço.

Em sua beleza, eu me flagelo.

Em sua beleza, estou triste, estou estranho.

Em sua beleza, estou caído.

Em sua beleza, eu me sujo, eu me banho. 

Em sua beleza, eu me suicido.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Iluminado de pés sujos

Eu estou bradando por liberdade.

Eu tenho tudo num pacote completo.

Eu sou contra todo o consumo.

Eu consumo o discurso pronto e enlatado do panfleto.

Sou estúpido, não sei interpretar.

Eu só quero enrolar o tempo e queimá-lo na folha de um calendário.

Roubaram três quartos do meu cérebro.

Me restou apenas ser a reprodução de frases prontas.

É tão empolgante quando me aplaudem enquanto não sei o que digo.

E é tão bonito quando finjo que entendo.

A visão é clara no meio da fumaça.

Sou um iluminado de trapos e pés sujos.

Eu não sei distinguir o preto do branco.

Sou apenas uma massa de outro sabor.

Eu não sei fugir do que querem que eu diga.

Sou apenas um manipulado denunciando manipulações.

E sigo minha própria manada.

E finjo que me importo com a pauta do dia.

E sigo o cheiro do meio do mato.

E finjo que sei pensar.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Desproporções

Eu não tinha saída, eu caí.

Você não tem culpa por essas desproporções.

O tempo passa e dói.

E alguns vivem sempre para não serem nunca.

A ferida é aberta e exposta.

Não há fuga, apenas este deixar passar.

O tempo é este líquido que escorre pelos dedos.

E isso acontece o tempo todo.

Falo sobre dores e analgésicos, e mais dores, e mais analgésicos.

Porque não há cura, não há paz plena.

E o sossego só vem disfarçado quando fecho os olhos e tento sonhar.

Tudo bem, nada vem.

É tudo questão de se acostumar.

E fazer da dor contínua uma parte do corpo e da alma.

De tão presente, ausente.

De tanto querer, apatia.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Fim da festa

Acabou-se o carnaval.

Restou o salão vazio, apenas eu e você.

Acabaram-se os confetes e serpentinas.

Restou a solidão a dois.

Acabou-se a música.

Restou a ressaca do amor sonhado e não vivido nesta noite.

Acabaram-se as palavras dizíveis.

Restaram apenas meus olhos nos seus olhos.

E eles dizem tudo.

domingo, 12 de abril de 2015

Adiós, Salamanca

Salamanca querida, eu já imaginava que a despedida iria doer.

Mas não pensei que doeria tanto.

Nos teus braços, Salamanca, eu cresci.

Nas tuas ruas, Salamanca, eu me conheci.

E quando entristeci, Salamanca, ganhei teu colo na Plaza Mayor.

Quando me faltou oxigênio, tua Catedral Nova me deslumbrou e me fez respirar em paz.

Ah, Salamanca, que falta tu farás em minha vida!

Em ti, não há amargor que não se dissolva no sorvete de doce de leite argentino do Café Novelty.

Em ti, não há baixo astral que resista ao sanduíche de frango com queijo acompanhado de um milk shake de morango da Tahona de la Abuela.

Em ti, não há mágoa que não se afogue nos baldinhos de cinco Mahous do Puerto de Chus.

Ah, Salamanca, te levo comigo em meio às lágrimas da despedida que refletem todo o significado de alguns dos sorrisos mais lindos que tive o privilégio de ver, que terei a alegria de relembrar.

Levo comigo todo o afeto e carinho que passei a ter por ti.

Ah, bela cidade, tenho de ir, a vida me chama.

Mas ainda quero te encontrar por aí.

Nossa história não chegou ao fim.  

Adiós, Salamanca.

sábado, 11 de abril de 2015

Menina do fim da noite

Com o batom, ela risca o espelho e pinta toda sua cara.

Menina do fim da noite, chora e soluça.

Ele diz que a ama, ele diz isso para qualquer uma.

E quando no ápice da festa, a boca que ele beija não é a sua, ela corre e se esconde.

Com a mão desnuda de qualquer aliança, ela quebra o espelho e com os cacos risca toda sua cara.

Menina do fim da noite, arde em sua anestesia.

Não tem sua vez, embriagada de seus tolos sentimentos.

E o mundo não sabe que os sentimentos mais tolos são também os mais bonitos.

Dê-me sua mão cortada, vamos dançar.

Deixe-me beber este coquetel de sangue e lágrimas que escorre por seu rosto.

Eu prometo que você não será mais uma numa fila. 

Seu coração merece mais, muito mais, e sei que nada que não seja tudo será miseravelmente insuficiente.

Eu prometo que você será meu único, eterno e insubstituível amor.

Porque seu coração não merece menos do que isso.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sobre mergulhar na própria alma

A alma guarda em si todo o universo.

O coração é o mundo.

É dentro de nós que encontramos todos os aprendizados realmente necessários.

Não é nada fácil mergulhar em si mesmo.

Dá até medo.

Porque dentro de nós podemos encontrar os lugares mais lindos, mas também podemos encontrar os becos mais escuros e assustadores.

De algum modo, vale a pena percorrer cada esquina de nós mesmos.

É assim que conhecemos nossos caminhos, nossos descaminhos, e é assim que podemos descobrir nossos próprios atalhos. 

É assim que passamos a experimentar as ruas que não levam a lugar algum, as avenidas que conduzem ao precipício, e as pontes que nos levam à paz, ao alívio de um bonito e perfumado campo florido.

Alguns usam sempre os mesmos e seguros caminhos para passarem por si mesmos no dia a dia.

Tornam-se previsíveis, pecam pela ignorância da riqueza de toda a sorte de possibilidades a que levam os mais diversos caminhos que o espírito pode percorrer em si mesmo.

Talvez sofram menos, confrontam menos percalços, certamente.

Mas perdem também a capacidade de surpreender-se com as belas e deslumbrantes paisagens que só uma atenta viagem interior pode proporcionar.   

Eu continuo passeando em mim mesmo.

Ainda sofro ao ver algumas de minhas misérias pela janela.

Mas também encho o peito de esperança quando passo por trechos bonitos.

Ainda persigo meu próprio Éden, o campo florido que seja meu, só meu, em que eu possa deitar, em que eu possa descansar, em que eu possa viver sem medo.

Se o encontrarei, não sei.

Mas sigo de olhos bem abertos pelo trajeto, observando minhas feiuras e preciosidades.

Sigo desfrutando o caminho. 

Sigo me conhecendo e passeando pelos meus medos, anseios e sentimentos.

Dá um tremendo frio na barriga.

Mas é bom e vale a pena.

Mancha de sangue

Está tudo brilhando.

Está tudo lindo.

Está tudo tão limpo.

É só o início da sujeira.

Quem será arrastado?

Quem será massacrado?

Quem será violentado dessa vez?

Agora você fez um bom trabalho.

Mas nada apaga aquela mancha de sangue.

Nada apagará aquela mancha.

Porque você é o mesmo, sempre será.

E nada vai limpar.

E nada vai levar. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Anestesias

Bijuterias douradas não são ouro.

Um sorriso no rosto não é necessariamente felicidade.

E dizer que algo é não o faz ser.

Quantas são as drogas que nos anestesiam?

De que vale um amor dormente em um coração arrancado?

Migalhas para gente faminta podem servir para alimentar o próprio ego.

As necessidades alheias estão em segundo plano.

Às vezes palavras não são mais do que palavras.

E o sagrado torna-se banal por pura vaidade.

Se não é único, deixe partir. 

Se não é tudo, deixe voar.

Porque quase jamais será suficiente. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Presença

Eu posso perfeitamente sentir sua presença quando fecho os olhos.

Você me invade, e me sinto melhor assim.

Nesses momentos, fico completo.

É como se nada pudesse me destruir.

E na verdade, nessas horas nada pode, mesmo.

Seu sorriso desabrocha, seu riso torna-se melodia.

Então eu fico feliz.

Fico mais vivo e mais presente.

Torno-me integral e posso tocar o céu.