sábado, 31 de janeiro de 2015

O tolo no banco da praça

O tolo está sentado no banco da praça.

Esperançoso, ele espera.

Chove, faz sol, tanto faz.

Ele permanece lá, esperando.

Passam sorrisos e carrancas.

Passam dores e amores.

Passa o vendedor de algodão doce.

Passam as crianças, correndo.

Passa o casal com o carrinho de bebê.

É a vida, passando diante dos seus olhos.

Mas o tolo permanece sentado no banco da praça.

E espera, espera, espera...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O impacto social de uma bunda

O mais novo estampido a ressoar no Brasil vem de uma bunda. Não, não se trata de um peido. Mas sim da exibição de Paolla Oliveira em uma micro-lingerie em rede nacional, numa minissérie chamada "Felizes para Sempre". Dei uma olhada e, de fato, é uma bunda de respeito, é uma bunda iluminada.

Entretanto, para além da bunda em si, é notável o impacto social que ela gera, entre amores e rancores. Se as nádegas de Paolla Oliveira tivessem orelhas, elas estariam queimando infernalmente. A metagenda do momento é encabeçada pela bunda da Paolla. Até Rafinha Bastos fez sua versão- não tão sexy- da cena. É impressionante a capacidade de comoção que as bundas possuem.

Bundas são a melhor forma de fazer um homem meditar. Um bom par de nádegas conduz instantaneamente até a alma mais voadora e dispersa para o momento presente. Contas a pagar? Petrobrás? A dor e o sofrimento da existência humana? Qui est Charlie? Ebola? Não! Rebola! Tudo acaba sendo eclipsado por uma bunda portentosa.

Não é à toa que os anos 90 giraram em torno do É o Tchan, com as polpinhas das dançarinas sacudindo alegremente para lá e para cá; e da banheira do Gugu, com bundinhas e bundões envolvidos num hipnótico jogo que levava a outra dimensão pais de família em plenas tardes de domingo. Uba, uba, uba, hey! Ou, traduzindo do raimundês, "tv a rabo, aqui só no botão".

Vivemos num sistema bundocêntrico. E o que ocorre é mais ou menos como uma atração gravitacional. As grandes esferas nadegais, como enormes sóis, atraem e fazem girar em torno de si as pequenas esferas oculares, como se fossem planetinhas, geralmente masculinos.

E, veja bem, quando escrevo isso, não estou de forma alguma me colocando acima do bem e do mal, como se fosse isento ou imune. Adoro uma bunda. Adoro peitos. Sou um homem médio, e como homem médio, estou exposto a toda essa série de coisas que mobilizam o imaginário masculino. Não atingi ainda um nível existencial e espiritual suficientemente elevado para desconsiderar um atrativo par de seios ou um substancioso par de nádegas- inclusive, quem quiser interpretar erradamente o que estou dizendo e me chamar de machista/escroto/opressor, está convidado: o analfabetismo funcional já não me irrita mais, apenas me diverte. O que digo, isso sim, é que há uma desproporção, um ranqueamento errado de prioridades. 

Bundas são e continuarão sendo ótimas. Mas há algo mais nas pessoas do que isso. Há algo mais no mundo, na vida. Bundas são efêmeras. Bundas passam. Bundas vêm, bundas vão, e são substituídas por outras bundas. E então, no final das contas, sempre reinará a pergunta, decisiva, derradeira e inescapável: o que fica para além da bunda?    

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Máscaras e pesadelos

Todos os pesadelos são espelhos distorcidos.

Você está pronto para quebrá-los?

Todos os fantasmas são suas dores disfarçadas.

Você é capaz de assustar-se tanto consigo mesmo?

Olhe bem se há algo além.

Admire-se com toda sua criação.

E verifique toda a tolice desta angústia.

Ela é tão maior do que aquilo que você quer ser.

Ela é tão menor do que aquilo que você realmente é.

Toda noite acaba, você sabe disso.

O mundo lhe deu uma porção de máscaras.

E você é assombrado por elas.

Você tem coragem para tirá-las, uma após a outra?

É só aí que irá se encontrar de verdade.

É só então que será livre.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Melhor insuficiente

Sozinho no escuro, suas pupilas não dilatam.

Chora por não ter seu próprio aconchego.

O máximo nunca é suficiente.

Não transborda, apodrece.

A maioria das pessoas não entende das coisas que se acumulam no peito, do amor que vira catarro.

E pensam que toda dor é uma farsa.

Ele nunca fez mal algum, precisa apenas se proteger.

Ele só precisava de seu próprio espaço para respirar.

Hoje em dia, isso parece tanto.

Hoje em dia, isso parece tão fácil.

Se alguns segundos pudessem durar a vida toda, ele escolheria sempre os mesmos.

Se alguns segundos pudessem durar a vida toda, ele talvez não tivesse nada maior para escolher.

E mergulharia em seu melhor insuficiente. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

70 anos

Num sopro, a vida vai.

O espelho é a eterna testemunha.

Enquanto eu piscava, o tempo passava.

Enquanto eu dormia, o sol se despedia.

Tudo que perdi, tudo que desperdicei.

E os segundos tornaram-se horas.

E as horas tornaram-se dias.

E os dias tornaram-se anos, muitos anos.

É uma bela manhã.

E o espelho, minha eterna testemunha.

Por um instante, não me reconheço.

Tenho 70 anos, e passou tão rápido.

E essas marcas são tudo o que não vivi.

O beijo que não dei.

O banho de chuva que não tomei.

O riso frouxo que recusei.

Um dia eu faria isso, ah, eu faria.

Eu lutei tanto por esse futuro.

E esse futuro é apenas o fim. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

2000 vezes Dilemas Cotidianos

Esta postagem é nada menos do que a de número 2000 do DC.

É uma marca que me parece bem interessante, construída ao longo de aproximadamente 6 anos e meio. 

Obrigado a todos os leitores e seguidores.

Obrigado a todos que gostam e acompanham o blog.

Obrigado, enfim, por me aguentarem.

Um grande abraço.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Noiva ao mar

Eram muitos dias de espera.

Ela correu, ela enlouqueceu.

Era muito amor se decompondo em seu coração.

Ela fugiu, ela desapareceu.

Eram muitos sonhos invadindo sua realidade.

Ela se vestiu de noiva, ela se entregou ao mar.

Eram muitas vozes em sua cabeça.  

Ela sumiu no horizonte, ela conseguiu silenciá-las.

A sabedoria dos bebês

Eu geralmente sento numa parte do ônibus que fica bem próxima ao espaço vazio onde, dentre outras coisas, mães e pais se posicionam com seus bebês em seus carrinhos.

Particularmente, fico maravilhado quando vejo bebês, principalmente os de colo.

Eles observam tudo à sua volta com uma vida, com um interesse, com um deslumbramento, que são empolgantes.

Fico observando seus olhares, seus espantos, seus escaneamentos pelo cenário, pelas pessoas com suas reações.

Às vezes, devido ao lugar onde sento, em algum momento eles me encontram, e geralmente sorriem.

O sorriso de um bebê tem uma magia sem igual. É um sorriso que não carrega consigo nenhum tipo de maldade, maquiavelismo, interesse para além do momento presente. 

O sorriso de um bebê é a manifestação mais pura de que algo realmente lhe contenta, lhe compraz, lhe diverte, sem conceitos ou pré-conceitos.

Eu me pego olhando e pensando naquele pedacinho de gente, no que ele vai ser. E ele devia ser assim pra sempre. Crescer fisicamente, mas manter aquela sabedoria típica dessa linda fase da vida.

Um bebê não se preocupa se ele é ou será mais ou menos, maior ou menor, melhor ou pior do que qualquer outro bebê, do que qualquer ser humano da face da Terra.

Um bebê não se preocupa se daqui a 20 ou 30 anos ele será arquiteto, médico, banqueiro ou engenheiro. Não se preocupa com beleza ou feiura. Não se preocupa se é rico ou se é pobre.  

Um bebê não se preocupa nem com o dia de amanhã.

É aí que reside a maior sabedoria dos bebês.

Mais do que nós, tolos e ignorantes crescidos, eles sabem que o passado e o futuro não existem. O que foi, não é. O que será, tampouco é. Somente o que é, é. Somente o agora, é.

Infelizmente, eles crescerão e adquirirão os mesmos vícios que nós, os tolos e ignorantes crescidos, adquirimos, baseados em tempos, números e padrões que absolutamente nada dizem, que absolutamente nada têm de essencial.

O processo do crescimento e florescimento de uma vida humana é um processo inverso, de perda de sabedoria, e lamentavelmente não há fórmula, manual ou erudição capaz de compensar plenamente esta perda.   

Ah, os bebês... Quanto teríamos de re-aprender com eles. E quão pouco o que temos a ensiná-los representa em relação a isso...   

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

13 ou 14 anos

Em seus sonhos, ele estava doente.

Em seus sonhos, ele precisava ser encontrado.

E num dia qualquer, tudo começaria pra valer.

E ele sairia daquele poço escuro.

A sorte havia chegado, eles desceriam para brincar.

E aquele cheiro era um desassossego.

Dois mundos e uma cratera, ele queria desbravar.

Era um garoto tolo que nunca se atrasava.

Era um garoto tolo que chutava pedras para ser visto.

Perversa, ela disse "você parece um rato".

Perversa, ela urinava todas as noites na cama.

13 ou 14 anos são muito pouco.

Sim, garoto, um dia você vai ver.

Você vai ver que todos os pesadelos intermináveis um dia terminam.

Sim, garoto, um dia você vai ver.

Você vai ver que 13 ou 14 anos são muito pouco. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Acorde

Acorde, seu dia chegou.

Acorde, acenda sua luz.

Acorde, o céu está florido.

Acorde, o jardim está estrelado.

Acorde, seu dia chegou.

Acorde, as crianças brincam lá fora.

Acorde, todos dançam sem motivo aparente.

Acorde, o mundo é seu.

Acorde, seu dia chegou.

Acorde, no agora tudo está bem.

Acorde, e se maravilhe com esse exato instante.

Acorde, não há mais tempo para não ter tempo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Garota (des)iludida

Ela sai de casa, só vê sombras.

Ontem ela perdeu tudo, de novo.

E morreu, e sobreviveu.

E morreu, e sempre quis mais.

Tudo ficou cinza novamente.

Ela esteve linda para a noite passada.

Ela havia esperado tanto, sempre esperou tanto.

Mas ela perdeu tudo, de novo.

No meio da pista, ela se despedaçava.

Ela se foi com a fumaça do gelo seco.

E nem sequer foi notada.

Seu coração fica tão perto do alvo, mas ninguém jamais o vê.

Era tão cedo, ela queria ir embora.

Era tão tarde para não ficar lá mastigando sua dor.

Ela morreu, e agora é um fantasma.

Ela morreu, e ainda quer mais. 

A ilusão do tempo

O tempo corre tanto que parece ter parado.

Ele sempre foi uma grande ilusão.

Sonhamos com a eternidade.

Mas será que ela não é muito pouco tempo?

O agora é tudo que tenho.

E ele é sempre tão sólido.

Mas ele escorre tanto por entre meus dedos.

A vida, tão frágil, é tudo o que temos.

E ela escorre entre nossos dedos a cada segundo.

Sinto-me tão louco quando estou lúcido.

E o que devo fazer enquanto meus sonhos corroem meu estômago?

Talvez eu precise de ar, ou de vento em meu rosto.

Eu amo, eu amo, eu não sou real.

Eu amo, eu amo, e nada é real.

Eu sonho, eu sonho, mas eu não sou real.

Eu sonho, eu sonho, mas nada é real.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Mais realistas que o rei

A sede de sangue continua, cada vez mais intensa.

Não, eles não entendem nada do amor.

E não sabem o que é um coração disparando e explodindo. 

Não sabem a vida que isso produz.

Inventam mentiras, acreditam nelas.

Eles precisam ser mais realistas que o rei.

Eles precisam encaixar uma revolução atrasada nesta história.

Eles precisam justificar qualquer coisa para parecerem visionários.

Mas não há nenhuma relação.

Não, não há mundo suficiente quando eles salivam.

Eu não me importo com o que está na sua cabeça.

Eu não me importo com o seu manual de instruções.

Eles falam em nos libertar.

É tudo tão material, a ignorância e a estupidez estão travestidas de justiça.

Que justiça?

Quem eles verdadeiramente são enquanto brincam de matar e morrer?

Agradeço as boas intenções, mas, por favor, não me salve.

Agradeço tanta visão de futuro em suas ideias obsoletas, mas, por favor, me deixe aqui.

Arranje outro rótulo, peça uma resposta ao seu dono, ou procure no seu dicionário.

Mas me deixe bem aqui, me deixe bem assim.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um entre outros

Ele apenas perdeu tempo.

Não há como voltar.

Todos sabiam.

Todos viram.

Todos aplaudiram.

A mentira não alimenta mais.

Então ele precisa vomitar.

Ele nunca quis ser um entre outros.

Ele precisava ser único.

Mas agora ele não se preocupa, não se importa.

Porque é tudo tão patético.

Os lugares escolhidos são os lugares mais fáceis.

Mas ele nunca teve o seu.

Agora ele não se importa, não se preocupa.

Porque é tudo tão repetitivo.

E nada vai mudar, ninguém vai mudar.

É tudo tão cômodo nessa posição.

Ele nunca deixou de ser um tolo. 

Chutando poças d'água

Nós corremos, nós fugimos para muito longe.

Todo o mundo ao nosso redor era mentira.

Nós já sabíamos que isso era verdade, antes de todos.

Mas eles continuam mentindo para dominar. 

A música arrepia toda pele.

As aves, elas apontam a melhor direção.

As coisas eram muito mais simples.

Não há porque fugir da chuva.

De cima, eles não podem mais nos parar ou punir.

No nariz empinado, eu enxergo toda meleca.

Onde foi parar aquela prepotência?

A ambição era ridícula.

Estamos rindo por dentro enquanto aplaudimos. 

Mas não aponte o dedo para mim, por favor.

Não espirre em mim, por favor.

Eu vou explodir de tanto rir.

Nunca precisei do que eles precisam.

Porque ser importante não tem importância alguma.

Estou ocupado demais enquanto chuto poças d'água.

Desculpe-me, isso sempre foi assim.

Desculpe-me, as referências são distintas.

E isso sempre foi assim.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Dedicatória

Não tenho nada grandioso para dedicar a você.

Não tenho ouro, não tenho honras.

Não tenho obras faraônicas.

Não tenho o céu, o sol ou as estrelas.

Então dedico a você minha respiração.

Dedico a você cada passo que eu dou.

Dedico a você cada sorriso meu.

Dedico a você cada pequeno acerto.

Não tenho nada grandioso para dedicar a você.

Então dedico apenas a minha existência.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Up

Ela ainda é uma criança.

E tem que conviver com essa carga genética demasiada.

E tem que sobreviver em meio aos estigmas.

A natureza às vezes é cruel e injusta.

Mas a forma como ela sorri para sua mãe é um encanto.

É como se dissesse "está tudo bem".

É como se dissesse "obrigado por todo esse amor".

Uma pequena menina, um olhar doce de quem não espera da vida mais do que vida.

E se rirem dela, ela sorrirá.

É a resposta ingênua e deliciosa.

Quão medíocres são seus grandes problemas?

Ela ainda é uma criança.

E sua existência talvez seja um milagre.

Quão tacanhas são suas ambições de dominar o mundo?

Ela ainda é uma criança.

E vence todos os dias os dedos que apontam sem piedade.

Quão microscópicas são suas glórias homéricas? 

Ela ainda é uma criança.

E é um oásis da pureza que sobrou.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Dos medos e inércias

Às vezes, ele sente medo.

Medo de não conseguir.

Medo de não sobreviver.

Medo de não chegar.

Mas para chegar, deve-se dar o primeiro passo.

E outro, e outro, e outro.

É preciso mover seu mundo.

E ir acontecendo aos poucos.

A inércia não realiza.

O sol surge e baixa, sem que nada aconteça.

Então, ele se move.

Segue as estrelas.

Pode ser que, mesmo assim, não chegue.

Mas terá andado bastante.

Terá seguido seu coração, sem seguir aquilo que determinaram de fora.

Terá sido o melhor que podia ser.

E não há vitória maior que esta. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Vergonhas e desculpas

Não sei quantas desculpas devo pedir.

Não sei quantas vergonhas devo sentir.

O dia passa tão rápido, e eu aqui, tão letárgico, aprisionado.

Seus pés me levam para cada vez mais longe de mim.

Mas estou tão só com meus pensamentos.

O erro é um veneno que bebo lentamente.

Não, eu não morro.

Mas vou queimando minhas entranhas.

Não, eu não posso controlar.

Aqueles que abusaram enquanto você sorria, eles nunca morrem.

Eles estouram as paredes da minha cabeça.

E se eu estivesse a sós com você, poderia contar meus sonhos.

Mas é tudo tão puro.

É tudo tão contagioso e destrutivo.  

Em minha mente, é tudo tão lindo.

Em minha mente, é tudo tão terrível.

Não sei quantas vergonhas devo pedir.

Não sei quantas desculpas devo sentir.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Pequeno devaneio numa esquina salmantina

Estou numa esquina de Salamanca, sentado, bebendo uma cerveja deliciosa por 2 euros. Estou muito próximo da felicidade. Ainda falta algo. Mas talvez sempre falte algo. Talvez a felicidade seja, afinal, uma utopia.

De todo modo, sinto-me muito contente. Estou a um oceano daqueles que amo, isto é certo. Porém, talvez essa seja a única queixa. Afinal, estou vivendo uma relação de amor e paixão puros pelo lugar em que estou. Me sinto praticamente um salmantino. Moraria aqui pelo resto da vida, se fosse possível, e se comigo eu pudesse ter quem eu amo.

Esta cidade me faz sentir vivo e encantado por existir. Aqui me sinto seguro. Aqui me sinto aconchegado. Acho que não há, no mundo todo, uma cidade com atmosfera tão simpática e acolhedora.

Salamanca destila beleza em cada esquina. E seus mesmos lugares conseguem me surpreender a cada nova vez em que os vejo. Na Plaza Mayor, nos arredores das catedrais, em cada pequena rua, não há chateação que resista muito tempo diante de tão magnífico encantamento.

Sinto-me no ápice da minha existência. Salamanca, a seu modo, me abraçou. Me sinto simultaneamente servo e senhor deste lugar. Sinto uma alegria intensa e imensa pelo simples fato de estar vivo. Sinto-me absolutamente grato ao universo, por ter me dado essa oportunidade.

Aqui, o tempo voa. Deve ser essa intensidade. Pressinto que os seis meses passarão como se fossem apenas um. Talvez isso não seja má notícia. Em primeiro lugar, porque há braços para os quais conto os dias para voltar. E em segundo lugar, porque as melhores coisas da vida são assim, passam rápido. Os infernos se demoram, ardem, queimam até o limite que a pele suporta. Mas os paraísos, de tão leves, flutuam, e passam.

Hoje, eu amo Salamanca. Não sei o que virá pela frente. Mas hoje afirmo sem medo de errar: eu amo esta cidade. E amo estar vivendo isso. Mesmo estando longe de quem eu amo. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Pequeno manicômio colorido

As realidades não se cruzam, e não precisamos mais disso.

Lá fora, eles nos olham como se fôssemos loucos.

E na verdade, somos.

Lá fora, eles ficam incomodados com nosso modo de viver.

Viverão com o martírio de nunca terem a bênção de enlouquecer.

Escalas, números e hierarquias.

Precisam inventar essas coisas para darem algum sentido para suas vidas.

E nós, aqui, não.

Nós, aqui, deliciosamente não.

Apenas dançamos, apenas vivemos esse amor à nossa maneira.

E nossa única regra é o nosso inesgotável sentimento.

Eles ficam furiosos, porque nunca entenderão.

Lá fora, ao ar livre, estão todos presos.

Aqui dentro, em nosso pequeno manicômio colorido, estamos livres.  

Lá fora, eles usam a máscara da empáfia da receita pronta, procurando mais de algo que nunca satisfará.

Aqui dentro, a luz que brilha dentro do peito, sem dar importância ao que transpareceremos.

Lá fora, paranoia, busca de uma "perfeição" que satisfaz uma força alheia carrancuda.

Aqui dentro, a paz do agora, do querer mais simples, do ser mais pleno.

Relógio quebrado

Já não me importam os segundos que passam.

Eles passariam igual.

Já não me importam os minutos que passam.

Eles passariam igual.

Já não me importam as horas que passam.

Elas passariam igual.

Já não me importa se é dia ou se é noite.

Já não me importa se é o começo ou o fim.

A cama e os cobertores estarão sempre ali.

E poderei seguir esperando por algum dia ou alguma hora.

E poderei seguir esperando por algo que não sei o que é.

Mas já não me importa a vida que passa.

Ela passaria igual...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quando te abraço

Quando te abraço, encontro meu conforto.

Quando te abraço, me sinto o mais forte.

Quando te abraço, exorcizo meus fantasmas.

Quando te abraço, eu venço qualquer obstáculo.

Teu abraço é minha vitória, sou eu em mim, sou eu em ti.

Quando te abraço, e nossos corações quase se tocam, o planeta para de girar.

E fica apenas o pulsar intenso.

Quando te abraço, sou sorriso, cura e amor.

Quando te abraço, não importa a hora, o tempo descansa.

Quando te abraço, meu mundo se completa.

Quando te abraço, não preciso de mais nada nesse mundo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Órbita

Tanto se dá, e sempre é tão pouco.

Amor trancado no peito sufoca.

A luz do sol para alguns planetas é a chama de um isqueiro.

Está lá, mas não esquenta o suficiente.

E ele continua luminoso, vivo, dando seu máximo.

E eu continuo em sua órbita. 

Ninguém tem culpa do quanto se sente.

São tantos aqueles que saem todos os dias para a rua para serem vistos, mas nunca serem enxergados.

São tantos os gritos de desespero que só eles dão, só eles ouvem.

São tantos os tesouros trancados em baús sem chaves para abrir.

Vou morrendo asfixiado por minhas esperanças, e revivendo a cada nova pista ou migalha pelo caminho, mesmo que vá me perdendo mais.

Eis o jogo que jogo sozinho, e perderei sozinho.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Despertar

Ando em meio ao nada, e mantenho-me preso aos meus pensamentos.

Sinto como se o fim deste sonho fosse inevitável.

Houve dores, e muitas, intensas, profundas.

Mas o que tive de mais lindo compensou tudo.

Eu não queria que a estrada terminasse tão cedo.

Porém, algo me suga e leva a crer que, sim, falta pouco.

Foi tanto que eu quis.

Foi tanto que amei, e amei, e amei.

Não sei exatamente o que deixo.

Mas deixo o que de melhor pude fazer.

Sinto um pouco de medo, e vou evitando minha verdade derradeira, prorrogando esse bonito cenário com um cochilo a mais.

Entretanto, enfrento, mesmo hesitante.

E, quando eu fechar os olhos, não chore.

Estarei despertando.   

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

2015

Ano novo, layout novo.

O DC estreia sua versão 2015, tendo como capa a linda Plaza Mayor de Salamanca (Espanha).

Aos leitores, desejo muitas felicidades neste novo ano.

Que seja um ano de muita saúde, muita alegria e muita paz.

Que seja um ano de realizações.

Sigamos, que o show não pode parar.