sábado, 26 de dezembro de 2015

À deriva

O sono me consome, não tenho como dormir.

Há alguma coisa queimando minha mente sem trégua ou alívio.

E para onde quer que eu vá, não posso fugir.

Existe um desespero latejando no peito, um anseio não satisfeito em permanente desassossego.

Pelos meus caminhos, vou deixando lacunas.

Sou uma estrada pessimamente pavimentada.

Busco estragar a mim mesmo em cada canto, deixo-me espancar a cada rua.

Não peço socorro, a dignidade se perde em camadas, camadas que nunca terminam.

Minha dor se reflete na falta de expressão em meus olhos.

No âmago do espírito, um buraco que suga as energias, e que jamais será preenchido.

Não há revolta maior e mais sublime do que a desistência.

A existência é o mero e insignificante detalhe que faz toda a diferença.

O universo fala comigo em um idioma que não consigo decifrar.

Eis a ironia de tudo, a ignorância que me tortura, os papeis que não consigo ler, desmanchando-se nas minhas mãos.

Eu fico para depois, e depois, e depois.

A chuva fina me toca sem que eu sequer perceba, enquanto a tempestade me inunda e deixa o coração à deriva.

E quando é que, afinal, não foi assim?

Não existe terra firme para qualquer sentimento que eu crie, recrie ou distorça.

E quando é que, afinal, não fui assim?

Esperando por esperanças

Um olhar doce e triste, uma voz que expressa toda a inocência.

A vida é árdua cedo demais.

Todo pedido é um pedido, não existem escolhas para ela.

A garota espera que lhe dêem esperanças que são sonegadas todos os dias.

Estamos ocupados demais com nossos próprios narizes.

Nada é limpo, nada é justo quando não se tem um amanhã, e nem sequer um hoje.

Para ela é tanto, para nós é tão pouco, e ainda assim não nos importamos.

Mas todos estão de cabeça erguida e orgulhosos por jamais terem feito nada.

Mas todos estão com a desculpa pronta na ponta da língua para manterem suas consciências limpas.

O esquecimento é rápido, fácil e indolor.

E assim seguimos.

E assim ela segue.

Nas costas de uma criança, toda a carga de um mundo frio e distante que parece não ter sido feito para ela.

Nas costas de uma criança, todo o fardo pesado que ela jamais pediu para carregar.

E precisa resistir.

Precisa sobreviver.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Semelhanças e diferenças

Nos erros vão surgindo os caminhos.

Do avesso emergimos para a superfície.

Respirar pode ser bem mais simples.

Abrimos mão de certas coisas para poder agarrar outras.

Tantos estragos já foram feitos por aqueles que não sabem amar.

Uma simples canção me torna mais resistente.

Semelhanças e diferenças esboçam as possibilidades logo à frente.

Não existe nada para ser entendido enquanto se está vagando no escuro.

Ainda assim é dia lá fora, e ninguém me avisou.

O mais fácil dói menos, pulsa menos.

Somos prisioneiros atrás de grades que nós mesmos criamos.

Não há nada perdido, porque nada jamais nos pertenceu.

E nada jamais irá nos pertencer.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Liberte-se

Liberte-se.

Liberte-se de tudo o que lhe amputa o espírito.

Liberte-se do que querem que você pense, se você não pensa.

Liberte-se do que querem que você goste, se você não gosta. 

Liberte-se daquilo que querem que você engula, se você não engole.

Liberte-se de tudo que querem que você seja, se você não é.

Liberte-se.

Liberte-se das histórias que não lhe convencem.

Liberte-se das cartilhas, dos manuais.

Liberte-se daquilo em que querem que você acredite, se você não acredita.

Liberte-se do que lhe dizem que é bonito, se você acha feio.

Liberte-se do que lhe dizem que é certo, se você acha errado.

Liberte-se das necessidades que não são suas.

Liberte-se das lágrimas que não lhe pertencem.

Liberte-se das ilusões e dos sofrimentos.

Liberte-se de tudo que joga seus preciosos segundos pela janela.

Liberte-se de tudo que lhe violenta a alma.

Liberte-se! Liberte-se! Liberte-se!

Liberte-se do bom dia, se ele não for bom.

Liberte-se do açúcar, se estiver se sentindo amargo.

Liberte-se da calma, se ela for artificial.

Liberte-se da multidão, liberte-se de tudo aquilo que promete e não cumpre.

Liberte-se do que lhe frustra, liberte-se do que lhe rasga. 

Liberte-se, agora!

Liberte-se da roupa de que você não gosta.

Liberte-se daquilo que esperam de você, e deixe que esperem, e esperem, e esperem, se não for aquilo que move o seu coração.

Liberte-se do caminho que não lhe convence.

Liberte-se de tudo que é entregue pela metade.

Liberte-se de todos os quases que não lhe satisfazem.

Liberte-se! Liberte-se!

Liberte-se do carinho que corta e sangra, liberte-se do afeto que lhe engole e mata dia após dia. 

Liberte-se do seu ouro, se ele lhe escraviza.

Liberte-se da sua carne e do seu couro, se eles lhe limitam.

Liberte-se de tudo que lhe incomoda, liberte-se de tudo que lhe dá náuseas.

Liberte-se de tudo que lhe asfixia.

Liberte-se da fúria, liberte-se do amor, liberte-se da apatia, liberte-se da cura.

Liberte-se, permita-se voar como os pássaros.

Liberte-se e seja passageiro dos seus próprios sonhos.

Liberte-se do sorriso forçado, liberte-se até da gratidão por aquilo que não lhe faz sentir grato.

Liberte-se, liberte-se, liberte-se.

Liberte-se do silêncio, liberte-se das palavras. 

Liberte-se do desperdício, liberte-se dos gritos, liberte-se das dores.

Liberte-se, liberte-se, liberte-se.

Liberte-se de tudo, liberte-se das fronteiras que lhe impõem, liberte-se da prisão em que trancafiaram sua mente.

Liberte-se! Liberte-se! Liberte-se!

Liberte-se e viva consigo mesmo sua paixão, seu delírio, sua loucura.  

Liberte-se de tudo.

Apenas liberte-se.

E liberte-se até da liberdade proposta por quem lhe diz para se libertar, se assim você o quiser.

Normalidade estranha

Você está tentando digerir aquilo que lhe obrigam a engolir.

A vida oferecida é pastosa e sem gosto algum.

E então você dá adeus à forma e à ordem.

Porque não existe nada de verdadeiro nisso.

A normalidade é tão estranha!

Em tudo que lhe programam a fazer não há nada de você.

A beleza de tudo está escondida em cada milagre.

E ter o privilégio de ser vida é um milagre.

Não há porque sentar-se sobre um baú de humilhações.

Há mais do que isso, muito mais do que uma cegueira passageira.

Porque com as mãos não há como segurar a fumaça que sobe pela chaminé.

E o martírio é pura bobagem quando se está apenas no meio de um caminho cheio de escolhas.

Então seja a forma que lhe satisfaz, e não pare.

Faça do fogo que arde a luz para seus passos, e ria.

Nos fins estão os recomeços no interminável fluxo do rio da vida.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A cor diferente no meio do cinza

Num sopro, apago as velas.

Sobrou a noite toda para sonhar.

Em cada gesto, um pedaço da alma.

A delicada perfeição está em cada poro, em cada respiração e sussurro.

Porque cada segundo pode ser sublime.

E esse perfume pode permanecer até que amanheça, até que acordemos.

Então seremos a cor diferente no meio do cinza, andando na multidão, tragando a poluição.

Seremos a gota doce na caneca de café amargo.

Seremos o riso isolado quebrando o silêncio carrancudo que faz pesadas nossas ruas.

E nos livraremos da atmosfera tensa, da seriedade asfixiante, das formas que nos limitam.

Afinal, nada disso importará mais.  

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Minha distração

Você está bonita hoje.

E eu gostaria que soubesse disso.

Seus olhos tristes são intrigante poesia.

Fique um tempo aqui.

Aqueles passos ainda estão na minha memória.

E você nem deve lembrar mais.

Reserve uma noite para que eu exista.

Não quero que você se vá.

Aceite minha correção do passado.

O perfume não queimará minhas entranhas.

Seja agora minha distração.

E talvez eu transforme seus minutos em uma eternidade. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Caos e ordem

Levando o mundo nas costas.

Carregando todas as amarguras, todos os anseios.

No peito, o coração, cansado.

Na pele, a marca do fogo do sol.

A liberdade parece uma promessa não cumprida.

Mas ela está presente no ar que respira.

Toda espera é mentirosa, é tempo perdido.

O caos é harmonia, a ordem é violência. 

O que dói tem vida.

Então ele deixa-se doer, deixa-se viver.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Brado engasgado

As folhas voam, e com elas voam as dignidades dessa gente.

O mundo que prometem é feito de mentiras descaradas.

Não adianta implorar salvação, se o que move essa máquina é a sujeira.

Boas intenções são pulverizadas no ar, numa estrada feita de péssimas encenações.

Esses significados foram feitos para que ninguém os compreenda.

Na honraria, está incluída a queda e a putrefação.

Então não há porque entregar a alma para essa entidade.

O brado está engasgado, o sangue pulsará ainda mais forte.

A liberdade cobra seu preço, deixamos o ouro para os tolos.

Rasgamos nossa carne, gargalharemos depois disso.

Dê-me o poder para que eu o amasse.

Dê-me o poder para que eu o liquide.

Dê-me o poder para que eu o enterre.   


domingo, 13 de dezembro de 2015

Nenhuma reação possível

Não encontrava nada do que era necessário.

E só no meio do caminho eu lembrei que não podia estar na rua.

Voltei a tempo de evitar a perda de tempo.

Mas quando tudo parecia se acalmar, estava de volta à rua.

Tanto caos sem motivo, nenhuma reação possível.

Ainda havia vida cambaleante, e eu fiquei incrédulo.

A dor física se dissolve no desespero emocional.

Terminei sem um lugar definido, mas bem onde eu queria.

Terminei bem onde queria, cercado por gente que eu não conhecia.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Beijo cristalizado

Uma desculpa qualquer foi a melhor desculpa.

Logo depois, estávamos conversando sobre escolhas e precipícios.

Entregues à nossa própria sorte, deixamos que tudo acontecesse.

Nos devorávamos, e o tempo parou, solenemente.

Deixei-me invadir pelo cheiro que me levava ao paraíso.

Minha pele na sua pele, minha boca acariciando a sua boca, meus dedos tateando meus sonhos.

Mas em seguida sempre aparece um bloqueio, um aborto de todos os anseios.

E tudo se torna um inferno que queima a alma.

Ressuscitamos algumas vezes, e não posso dizer que tenha havido arrependimento.

Então me pego imerso em minhas recordações.

O mundo mudou.

Mas aquele beijo ficou cristalizado.

E não importa onde você está, onde eu estou.

Um pouco de nós continua pelo ar, para nunca se desfazer.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

No fim das contas

Desculpe-me a pressa, tenho de ir.

Estive mergulhado em águas que não me levavam a lugar nenhum.

Agora eu respiro, eu busco coisas que não conheço.

Acredite, isso é melhor do que essa previsibilidade.

Existe uma plateia apática, apenas observando seu esforço.

Tudo o que eu disse naquelas noites já foi pelo ralo.

Nos dias rasgados do calendário, fui apenas mais um.

As palavras foram promessas predestinadas ao vazio.

No fim das contas, é melhor nos apegarmos àquilo que realmente temos.

No fim de tudo, é melhor deixar-se levar pelo oceano, sem saber onde chegar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sopro de beleza mórbida

As folhas secas caem sobre seu casaco bege.

Ela está em busca de cor no céu acinzentado.

O vento é poesia movendo seus cabelos, gelando sua face.

Ela espera não esperar por mais nada.

O vermelho de seu coração exposto a torna mais vulnerável.

Ela tem o olhar que expressa a desesperança angustiada de um dia vazio.

A lã não protege do frio que vem do âmago do ser.

Ela tem em suas mãos todos os motivos para fugir dali.

Foi uma marionete censurada, arrebentou os fios que lhe escravizavam.

Ela é um sopro de beleza mórbida, de morte em vida, escrevendo linhas para que ninguém leia.

Um olhar penetra, um olhar desvia, berra e se perde.

Ela é a perfeita representação do incompreendido que se esconde no ar que circula.

Bem do alto, a gratidão profunda pela graça não alcançada.

Ela é a perversão de todo imaginado, de todo sonhado.

É tempo de solidão e vagos prolongamentos.

Ela é a maçã suculenta e mordida, o sabor que se esconde e foge pelo canto da boca.  

Tudo padece e termina a todo momento.

Ela é a conformidade que arranha o vidro que lhe faz cativa em si mesma. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Significados frouxos

O controle de tudo e todos, a queda.

Eles se alimentam de migalhas.

Reconhecem para esquecer novamente.

É uma luta de significados frouxos.

A nobreza se ajoelha, com os pingos da chuva em suas costas.

É chegada a hora da verdade.

Então eles correm, eles fogem, eles gritam.

O desespero é a voz que se impõe.

Já não há céu, não há estrelas.

Restaram somente sensações.

A vida não acabou, ela apenas se inicia.

Eles são nada, eles são tudo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Cinco

Estávamos sentados lá, numa tarde quente.

Tanta gente com quem eu não queria estar.

Você fingia não me ver, e eu fingia não ver você.

Sentia meu peito cortar, mas, e daí?

Talvez houvesse algo a ser dito.

Mas optamos por manter o silêncio e a impessoalidade.

No fim das contas, tudo parece acabar, mesmo.

E eu não sou um privilegiado.

As pessoas mantêm seu cinco, não arriscam-se ao dez por medo do zero.

Então eu olho para frente, fazendo questão de manter-me tolo.

Ainda sinto o gosto, ainda tenho capacidade de amar.

Busco por aí aquilo que mereço, e ainda não recebi.  

sábado, 5 de dezembro de 2015

O balão vermelho

Oitenta e poucos anos.

Ela está sentada.

Em sua mão, a cordinha com o balão vermelho.

É o que ainda a prende às suas melhores lembranças.

Porque a cabeça não ajuda mais.

E a solidão tornou os dias pastosos.

Porque tantos se foram, sem que ninguém mais venha.

Eis a senhora e o balão.

Um último resquício de vida. 

A única coisa que ainda possui cor neste quadro em preto e branco. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Velha dívida

Daqueles tempos, restaram apenas as memórias.

E tudo era tão novo e bonito, ele se sentia amado.

Até o silêncio fazia bem, e a respiração era tão leve.

O anoitecer não chegava com jeito de castigo.

Mesmo no frio, sentia-se acolhido.

A solidão era uma companhia tão mais agradável.

Ninguém pode entender o que se passou.

Agora, a solidão chega cobrando uma velha dívida.

Agora, as noites quentes tornaram-se frias.

Agora, o silêncio pesa uma tonelada.

Agora, não há mais novidades para distrair.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Fuga em desespero

Bem ao longe está o garoto correndo.

Ele está fugindo de si mesmo, em desespero.

Se vai ao alto, está alto demais.

Se vai para baixo, está baixo demais.

As insatisfações e desapontamentos mais parecem deboche.

E sabe bem do que lhe incomoda.

Não precisa que ninguém lhe diga seus problemas.

A cada dia, comete um suicídio diferente.

Porque nada jamais será suficiente.

E nada estará bom, nunca terá paz.

Então ele grita para se libertar.

Ele grita porque está tudo acumulado.

Em êxtase, abandona toda e qualquer ambição.

É o fim, é o começo.

Não há mais fim, só os meios.   

Porque nada é aquilo de que sempre precisou.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Você pode até não acreditar

Você pode até não acreditar, mas há algo bom reservado à frente.

Você pode até não acreditar, mas a próxima música fará você dançar feliz.

Você pode até não acreditar, mas seu choro virará um riso frouxo.

Você pode até não acreditar, mas as flores vão colorir esse cinza apático dos prédios.

Você pode até não acreditar, mas a vida amarga logo terá sabor de doce de leite.

Você pode até não acreditar, mas o sol vai brilhar após a tempestade, trazendo consigo o arco-íris.

Você pode até não acreditar, mas a tristeza de hoje é o adubo para a alegria cintilante de amanhã.

Você pode até não acreditar, mas as crianças tornarão a brincar nas ruas, comendo balas de morango sem medo das de pólvora.

Você pode até não acreditar, mas sua vitória chegará cheia de luz intensa.

Você pode até não acreditar, mas tudo isso fará sentido e as angústias serão apenas memórias de um passado que lhe fortalece.

Você pode até não acreditar, mas as melhores coisas vão acontecer, independentemente de você acreditar nisso.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O desespero que brilha na penumbra

A cada novo dia, uma morte diferente.

O ar pesado asfixia todos nós.

Buscamos esperanças nas esquinas, mas só encontramos sujeira.

Os mais diversos estrondos nos abalam, nos distraem de quem somos.

As angústias escravizam, os temores imperam.

Carnes apodrecem, ossos são roídos.

É o desespero que brilha na penumbra.

Certezas, não as temos mais.

Trocamos a vida pela sobrevivência.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Vagando por aí

Procurou sempre pela dor.

Às vezes, pensou esperar demais.

Teve a chance de se curar.

Foi então que não aproveitou.

Insistiu em fugir.

Insistiu em desistir.

E continua vagando por aí, fingindo que está tudo bem.

sábado, 28 de novembro de 2015

O agora que nada me promete

Eu tinha uma flor para lhe dar.

Mas foi melhor ter partido.

Eu tinha um sorriso para lhe oferecer.

Mas está tudo certo como está.

Eu tinha um passeio para desfrutar.

Mas tolices passam e se evaporam.

Eu tinha um sonho para mergulhar.

Mas estar com os pés fincados em vigília é melhor.

Eu tinha um futuro que não me pertencia para lhe presentear.

Mas consigo minha paz neste agora que nada me promete.

Eu tinha um brinde a fazer.

Mas tenho de permanecer sóbrio até o fim da noite.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Boas notícias

Todos adormecem, porque mais um dia já se foi.

Eu trouxe boas notícias, mas já não tenho boas notícias para dar.

Quando tudo silencia, eu fico desconfortável.

Não, eu não queria que fosse assim.

No meio da noite, nem sabemos quem somos.

É tarde demais para pedir um abraço de verdade.

Eu sei que vocês se importam.

Eu queria que sentissem orgulho.

Adormeço uma vez mais, eu queria ser bem melhor.

Me despeço uma vez mais, eu queria fazê-los felizes.

Está tudo bem, porque ao amanhecer vou fazer novas promessas.

Está tudo bem, porque não vou cumprir nenhuma delas.

Não sei quanto brilho seria suficiente.

Não sei quanto de mim seria suficiente.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Pisoteado

A velocidade foi aumentando, e aumentando.

Havia um poste para parar tudo de forma abrupta.

Não há como terminar o seu serviço.

Os acontecimentos eram tão promissores.

E lhe fizeram acelerar e acelerar.

Mas toda empolgação possui um freio.

Sempre há algo para terminar com tudo.

Porque alguém teria de se divertir enquanto via você cair.

Tão bonito ato, tão engraçado para a plateia.

Ainda sobraram resquícios, necessidades inacabadas.

Para todos parece tão simples.

E quando apontam o dedo para a sua cara, você sabe melhor do que ninguém.

Porque desconhecem que você se angustia mais do que qualquer um.

Eles esquecem que você sofre mais do que qualquer um.

E pisoteiam, pisoteiam até o fim.

Pisoteiam como se tudo isso fosse besteira.

Pisoteiam como se fosse fácil para você.

Eles pisoteiam, pisoteiam até o fim. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Nova primavera

Faltou pouco para as luzes se apagarem.

O cheiro que eu sentia era maravilhoso.

As flores surgiram, como em uma nova primavera.

Muitas foram as magias não vistas. 

Tantas foram as vontades não satisfeitas.

Mas todas as dores quase se tornaram um abraço.

A visão ficou turva.

Quando amanhece, tudo fica menos certo do que os sonhos mais confusos.

É assim que permanecemos.

É assim que nos despedimos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Tudo, afinal, passa

As flores murcham.

Ilusões se despedem.

A alma dói.

E o tempo atropela.

Aí, você acorda.

Você levanta.

Você encara a realidade.

E agora é você que atropela o tempo. 

Porque tudo, afinal, passa.

domingo, 22 de novembro de 2015

10 grandes momentos da saga de Rocky Balboa

Os filmes que contam a saga do boxeador Rocky Balboa são clássicos absolutos da história do cinema. E, como em todo clássico, tem seus momentos emblemáticos, inesquecíveis, frases marcantes, lições de vida. É baseado nisso que apresento os 10 grandes momentos das películas estreladas por Sylvester Stallone. 

Momento 1: Os brutos também amam. O primeiro beijo de Balboa na até então desajeitada e extremamente tímida Adrian- que viria a ser a grande companheira de sua vida- é um momento doce, uma cena muito bonita, do encontro de dois personagens extremamente sofridos, cada um por seus motivos (assista aqui). 

Momento 2: O treinamento no primeiro filme, na preparação de Rocky para o confronto com o astro Apollo Creed, fala por si mesmo. Absolutamente icônico (assista aqui). 

Momento 3: A primeira luta de Balboa contra Apollo Creed. Para o campeão, eram favas contadas, uma luta fácil, de marketing, para oferecer 15 segundos de fama para um desconhecido amador. Mas Rocky endureceu, e o que parecia fácil tornou-se uma luta épica de resistência. Impossível não se arrepiar com a trilha ao final (assista aqui).

Momento 4: No segundo filme da série, a grande revanche de Balboa contra Creed. Dessa vez, deu Rocky, tirando forças do fundo da alma para se levantar e levar o cinturão (assista aqui).

Momento 5: A morte de seu velho treinador Mickey Goldmill, seguida pelo desespero de um Rocky chorando feito criança, configura uma das cenas mais comoventes da série e mesmo da história do cinema. A cena pertence ao terceiro filme de Balboa (assista aqui).

Momento 6: No quarto filme, ocorre uma das cenas mais chocantes e tristes dos filmes de Rocky: Apollo Creed, antigo rival que se tornara um grande amigo de Balboa morre no ringue, diante de uma máquina soviética, anabolizada e demolidora, Ivan Drago (assista aqui).

Momento 7: Como forma de vingar a morte do amigo Creed, Rocky enfrenta Drago na União Soviética, em ambiente hostil e em plena Guerra Fria. Mas o cenário acaba se invertendo no final (assista aqui e aqui).

Momento 8: No quinto filme, Rocky, aposentado e falido, relembra as lições de vida de seu falecido treinador Mickey Goldmill (assista aqui).

Momento 9: Rocky treinou e preparou um discípulo, Tommy Gunn, que acaba lhe traindo ao cair nos braços de um empresário oportunista. O jovem, mesmo campeão, não conquistara respeito após isso. E então, para legitimar-se, resolveu desafiar seu mentor. Só não esperava que a luta ocorreria na rua, mesmo... (assista aqui).

Momento 10: No sexto e último filme da série, a grande lição de Rocky ao seu filho: a vida não se trata do quão forte você bate, mas sim do quanto aguenta apanhar e ficar de pé. Falas e e cena simplesmente espetaculares (assista aqui).

sábado, 21 de novembro de 2015

Escadas

Vai subindo as escadas, degrau a degrau.

Só enxerga nuvens lá em cima.

Não tem ideia do quanto falta.

Mas vai seguindo.

O cansaço lhe consome as pernas.

Continua sua subida.

Às vezes, pensa que não chegará a lugar algum.

Talvez o céu seja só uma ilusão.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Apegos pela estrada

O tempo passa, a vida esmaga.

O vento leva mais um dia, e o peso aumenta.

A caminhada é espera, despedida daquilo que não fomos.

Seguimos, deixamos nossos apegos pela estrada.

Choramos, mas sim, seguimos.

Em nossos peitos, corações triturados que insistem em pulsar.

Cicatrizes ou manchas, já nem sabemos mais.

Existe dor, mas persistem os anseios.

Rostos vão se tornando vapor, vão se esvaindo.

Mas há sempre uma esquina, uma rua logo à frente.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Intimidade

- Olá, meu amor!
- Oi, meu bem!
- Minha princesa!
- Meu lindo!
- Minha vida!
- Meu querido!
- Minha deusa!
- Meu tudo!
- Minha delicinha!
- Meu docinho!
- Cute, cute, cute!
- Aiiin!
- Pocotó, pocotó, minha eguinha pocotó!
- Brrr, brrr!
- Bom, qual vai ser o pedido?
- Hum... Vou querer filé com aspargos e uma Coca-Cola.
- Gelo e limão?
- Só gelo.
- Tá bem. Qual o seu nome mesmo, pra eu anotar direitinho na comanda?
- Karen.
- Ok. O meu é Roger. Qualquer coisa que precise, é só chamar.
- Tá certo. Obrigada.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Mão gelada

Estávamos sentados, quando você colou seu rosto no meu.

Disse que me amava, segurou minha mão gelada.

Espantada, a soltou rapidamente.

E ficou me observando de longe, enquanto eu tentava adivinhar seus pensamentos.

Em meio à hostilidade do lugar, me alertou.

Mas não havia como me salvar.

Então você me pediu mil desculpas.

Fui aquecido, mas logo em seguida fui castigado pelo frio mais intenso.

E eu fui embora, sozinho, como sempre.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

No travesseiro

No travesseiro, guarda seus anseios.

No travesseiro, guarda suas angústias.

No travesseiro, guarda suas lembranças.

No travesseiro, guarda seu dia.

No travesseiro, guarda seus sonhos.

No travesseiro, guarda sua vida.

E adormece.

domingo, 15 de novembro de 2015

Libertar

Eles querem nos libertar.

E por isso querem mandar no que vemos.

Eles querem nos libertar.

E por isso querem mandar no que fazemos.

Eles querem nos libertar.

E por isso querem mandar por onde andamos.

Eles querem nos libertar.

E por isso querem mandar no que dizemos.

Eles querem nos libertar.

E por isso querem mandar no que sentimos.

Eles querem nos libertar.

E por isso querem mandar no que pensamos.

sábado, 14 de novembro de 2015

Grandezas evaporadas

Os dias correm sem que se possa agarrá-los com as mãos.

Há um silêncio ecoando em tudo que não se pode acompanhar.

Gente abjeta liquida esperanças, gente abjeta justifica tudo isso.

As grandezas se evaporam, diluídas pela dor.

Flexibilidades inventadas estão destruindo a alegria que restou.

E fazer de conta que há algo além do óbvio para se martirizar, é puro cinismo.

Assim são as vaidades que surgem como se fossem luzes a guiar.  

Mas alguns permanecem exalando um odor insuportável.

Não há nobreza nessas palavras, apenas desprezo.

Está tão escuro, uma onda suja tenta nos levar para as profundezas.

Mas resistimos, cravando nossos pés.

Não sabemos do amanhã, mas estamos olhando tudo da janela.

São muitas as mentiras de que havia um destino a se cumprir.

Não culpe a beleza do céu pela estupidez que tenta nos amordaçar.

As intenções estão apodrecidas, não há engano.

Não existe lição alguma, mesmo que alguém queira interpretar este velho papel.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Hemorragia intensa

Mais sangue no chão, exalando o absurdo dessas intenções.

Os rostos em pânico tomam uma palidez desalentadora.

Não há esperança alguma nestes atos.

E o ódio se espalha como uma doença incontrolável.

Qual será a cura?

Haverá cura?

Mais sangue e mais sangue, o mundo em hemorragia intensa.

Não existem justificativas plausíveis, o sofrimento não é um preço justo a pagar.

Então até quando você buscará desculpas para fingir que isso faz sentido?

Até quando você arrotará palavras que nada dizem sobre os corpos caídos?

Tudo é estupidez, tudo é desfaçatez.

Não tenho aplausos, apenas lágrimas.

E isso me faz humano.

Mais sangue e mais sangue, a dor em cada esquina.

E essa doença ainda irá matar você também.

Porque a fumaça intoxica a todos.

E essa doença ainda irá matar cada um de nós.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Recusa recorrente

Ligue seu alerta para a notícia que virá.

Fica muito mais fácil se você mantiver seu silêncio.

Deixe-se banhar pelas palavras, deixe tocar uma canção em sua mente.

De fora, as coisas sempre são muito mais simples.

Mas você sabe o que guarda dentro de si melhor do que ninguém.

E se corresse, e se dissesse coisas sem sentido, talvez ninguém se incomodasse.

O mundo é feito para as pessoas que aceitam seu lugar, e jogam o jogo que há para jogar.

Sua recusa recorrente é sua salvação, e as aparências se quebram bem na sua frente.

Sempre há soluções prontas, mas você segue a corroer as estruturas apodrecidas de sua existência.

Deixe a vida voar, e com ela as falsas incompreensões.

Sempre há um lugar cômodo e seguro para vomitar coerências enganosas.

Não há nada para ser entendido, o final é sempre o mesmo.

Então faça do seu jeito, deixe-se levar.

Salve a si mesmo, pois o final é sempre escuro e silencioso.

E isso vale para os certos e os errados.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Asas de papel

A liberdade está em cada passo que você dá para frente.

Cavalos correm enquanto o dinheiro é contado.

As janelas se abrem, as pessoas despertam.

Tudo que você dá é tomado por terceiros.

Mas o jogo muda, e com ele as regras.

O sorriso na foto derrete as entranhas.

Estamos queimando as lembranças de dias que não existiram.

Estamos imperando sobre nossas próprias vidas agora.

É tão doce o gosto da irresponsabilidade.

É tão bom caminhar, cantarolar e rir das caras dos transeuntes.  

Corra mais e mais, ainda será lento demais.

Os perdedores fazem uma sociedade, e caem uma vez mais.

Rostos cheios de lama, simbolizando nada além da tolice de quem prefere as caretas.

Corações são bolas jogadas para lá e para cá neste novo entretenimento.

A dança imperfeita termina com um salto no salão.

Mas ninguém aplaude, estamos no vazio.

Eles dão mais um vexame, eles não sentem vergonha alguma.

E fingem voar com suas asas de papel.

Podem ser livres em seus melhores sonhos.

E fingem ganhar nas linhas riscadas no chão.

Podem ser felizes em seus mais loucos devaneios.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Verbos sagrados, rabiscos no papel amarelado

Cada onda é igualmente salgada.

Cada onda tem sua própria pancada.

Sentimentos são palavras na areia, apagados com a maré que tudo leva.

Fazer planos sobre o nada é o alento de muitas pessoas.

Mas elas não possuem palavras suficientes.

Não há como traduzir as cartas e seus verdadeiros sentidos.

Mas isso nunca teve real importância.

Reproduzir o dia que se passou é uma imensa tolice.

Os gestos e anseios tornaram-se fumaça que se esvai pela chaminé.

Todas as lembranças foram feitas para serem esquecidas.

E as pessoas fingem que ainda pertencem ao presente, fingem que ainda existem.

O apego às inexistências é apenas um modo de mascarar o que mudou.

Pílulas mantêm a respiração, mas vegetar não é uma boa saída.

Verbos sagrados são apenas rabiscos de tinta no papel amarelado.

Tantos podem lê-los, tantos podem escrevê-los.

Eles são tão banais quando a noite chega!

Tudo tornou-se vazio, a caminhada é sempre solitária.

Não há nada de tão ruim nisso quando se entende o significado.

Não há vida na esperança, porque viver jamais foi esperar.

domingo, 8 de novembro de 2015

Rotina

Acordou no horário em que não queria acordar.

Bebeu o café de uma marca que não gostava de beber.

Barbeou-se, ele não gostava de se barbear.

Tomou o banho numa temperatura em que não gostava de tomar.

Foi ao trabalho que não gostava de trabalhar.

Falou com pessoas com as quais não gostava de falar.

Almoçou um prato que não gostava de comer.

Passou o resto da tarde de um jeito que não gostava de passar.

Voltou para casa no ônibus que não gostava de pegar.

Jantou alguns restos frios que não gostava de jantar.

Viu na televisão um programa que não gostava de ver.

Dormiu ao lado de quem já não gostava mais de dormir.

Vive todos os dias uma vida que não gosta de viver.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O homem que nunca foi amado

Ele segue parado, esperando por nada.

É a história do homem que nunca foi amado.

Movimentos mecânicos, coisas que precisam ser guardadas.

Este é o homem que nunca foi amado.

Palavras duras interrompem o silêncio corriqueiro.

Mas este é o homem que nunca foi amado.

E os dias são iguais e monótonos.

É a história do homem que nunca foi amado.

É a história do homem que nunca existiu.

Nada tem gosto, tudo é seco.

Mas este é o homem que nunca foi amado.

Este é o homem que nunca existiu.    

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Filme rápido

Tudo está sendo levado daqui.

Ainda resto como minha propriedade.

Até quando, não sei.

Tudo se compra, tudo se rouba.

O céu aberto anuncia as possibilidades.

Nem todas as texturas podem ser sentidas.

Tudo passa como um filme rápido, mas enorme.

Olhar para os lados às vezes só serve como distração.

Sentimentos sentidos, calma e repouso numa cadeira de balanço.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por isso rimos

Passos de dança, seu acerto, meu erro.

Estamos nós, um pouco loucos, esperando a primavera chegar.

Frutas mordidas distraem, saciam a fome.

No vento, tantas mensagens são ditas num sopro.

Tudo que nos pertence voa, porque jamais foi nosso.

Mas nem todos aprenderam a contemplar o próprio sofrimento.

E as coisas bonitas de quando sangramos podem parecer apenas sujeira no chão.

Todas as cores são cinzas, sentimentos que algum dia acendemos em nossas bocas.

Vícios de gente tola, amores que se foram mas sempre serão, ainda que jamais tenham sido.

Nos atos corriqueiros vemos que somos, e nos olhamos.

Brincamos com as pétalas das flores, criamos sonhos e amassamos papeis em branco.

Somos crianças, deixamos a responsabilidade num baldinho cheio de areia.

Mas não há mais aquele jeito de viver.

E nos deixamos evaporar com os dias, dentro de uma realidade com gosto de fumaça.

O sabor do morango com chocolate virou besteira para as pessoas sérias.

E por isso rimos, e rimos.

Por isso apenas rimos, porque não temos mais nada a ganhar.

E por isso rimos, e rimos.

Por isso apenas rimos, sem qualquer necessidade de rimas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Encanto despercebido

Ela deixa mais um dia passar atravessando seus dedos.

O tempo não pode ser controlado, as horas são insuficientes.

Ela sente muitas coisas, mas o que ela sente não é bem entendido.

Talvez já tenha desistido, entregue à surdez e cegueira alheia.

Ela não é igual, ela é um encanto difícil de perceber.

Um abraço e um beijo podem fazê-la aflorar.

Ela se asfixia para perder sua consciência.

É a única forma de não perder tudo.

Ela se deixa ser esquecida.

Em sua aceitação, tenta se tornar ausência de dor.

sábado, 31 de outubro de 2015

Abrir e fechar das cortinas

Abrem-se as cortinas, e um dia de sol nem sempre precisa ser um espetáculo.

Brilhos desnecessários e fugazes alimentam de sentido as coisas não sentidas.

Aplausos e afagos são mentiras mal contadas nas quais todos fingem acreditar.

Entranhas são expostas num show dantesco, como se qualquer tentativa fosse válida.

Risos compulsórios e palavras carregadas geram uma teia de imagens irreais.

Cada número move em direção a um abismo interior.

Almas profundas deixam-se arranhar pelo reino das coisas passageiras.

Hoje o que importa é apenas o que não possui importância alguma.

Na boca, o elogio e a traição.

Na boca, o beijo e a trituração.

Na boca, o sorriso e a devoração.

Em cada segundo, a adoração se engalfinha com a banalização.

O amor inventado acalenta, temperado por gotas certeiras de lágrimas.

O amor não vivido esfria no prato, dissolvido na saliva não compartilhada.

Todo o brilho fugaz agora é uma coleção de lembranças incertas, cobertas por uma cortante descrença.   

Fecham-se as cortinas, e tudo tornou-se o infinito silêncio da solidão. 

Hipocondria emocional

Uma noite mal dormida é apenas reflexo do que não somos.

As dores estão em todos os lugares, menos aqui.

Mas isso não significa que elas não doam.

Sofremos dessa espécie de hipocondria emocional.

Ficamos reféns de fantasmas que só existem em nossas cabeças.

O ontem que talvez não tenha acontecido está presente, em permanente tortura.

O amanhã que possivelmente não acontecerá fica bem aqui, sussurrando coisas terríveis aos ouvidos.

E o hoje, o hoje é uma ausência que abre esse buraco que se deixa preencher pela angústia da existência.

Não há nada que possamos tocar, não há nada que possamos segurar em nossas mãos.

Tudo aquilo que amamos nos escapa o tempo todo.

E tudo que nos resta é a certeza da incerteza.

Porque em alguma esquina encontraremos uma nova tristeza para nos consolar.

Em algum beco estaremos nos escondendo, e parindo esperanças condenadas à morte.  

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Sopro de consciência

Fecho meus olhos e não descanso.

O despertar custa muito caro.

Viro um sopro de consciência.

Fico de cabeça para baixo.

A estática tenta tomar conta de tudo enquanto reluto para encontrar uma imagem.

E eu luto para não ser sugado novamente.

Abro bem meus olhos, estou de volta.

Mais uma vez não foi a última.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Navegante

O barco vai balançando, levado pelas ondas.

O mar é vista linda, mas nunca vejo terra firme.

Não sei onde estou, não tenho bússola.

Eu nem sei se algum dia chegarei a algum lugar.

O vento toca meu rosto, um híbrido de alegria, angústia e tristeza.

Talvez um meteoro caia por aqui.

Em minha cabeça, eles caem o tempo todo.

Desconheço meu fim, não reencontro um começo.

Para que lado eu devo ir, não sei mais.

As coisas que parecem insignificantes têm tanto significado enquanto procuro meu caminho nessa vastidão.

Preciso deitar e dormir um pouco.

Mas estou tão cansado de sonhar.

As ondas me abraçam e refrescam.

Mas não, eu não sei onde estou.

Eu navego entra a euforia e a depressão.

No céu, as estrelas brilham, me fazem sentir um ponto perdido.

Tudo é tão bonito, tudo é tão irreal.

E quanto mais eu navego, mais eu me perco.

Porque eu definitivamente não sei onde estou.  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desejos

Eu desejo respirar bem fundo.

Eu desejo sentir o gosto das coisas.

Eu desejo rir e sorrir.

Eu desejo amar e ser amado.

Eu desejo uma flor que eu possa cheirar.

Eu desejo um tempo só meu.

Eu desejo chorar de alegria.

Eu desejo poder ser eu integralmente.

Eu desejo matar todos os fantasmas que me intoxicam.

Eu desejo meu peito aberto e sem angústia.

Eu desejo voar num céu limpo e azul.

Eu desejo me livrar das nuvens carregadas.

Eu desejo luz e claridade.

Eu desejo encontrar um caminho que me explique todas as coisas.

Eu desejo ser livre em relação à minha mente.

Eu desejo o hoje, para hoje.

Eu desejo que a realidade seja um grande e interminável sonho.

domingo, 25 de outubro de 2015

Rascunhos

No meu caminho, árvores altas, frutos que não posso colher.

Resgato as cores, caio de joelhos.

Eu sei bem daquilo que preciso, sei o que não é suficiente.

As pessoas sempre estragam tudo, liquidando a si mesmas.

E então eu ressurjo, envolto em medos que nunca foram os meus.

Eu debocho, eu aponto o dedo para mim mesmo.

Há sempre algo melhor para experimentar, enquanto você espera na fila.

Onde eu vou não há nada do que procuro.

Sou um lunático que busca um lugar que seja somente meu.

Sou um transeunte dividindo espaços na multidão.

E lutando, e lutando, a cada centímetro de chão.

Nas fotografias, registro os sonhos e as coisas das quais não posso ter certeza.

E no fim das contas, eu jamais tenho certeza de nada.

Tudo escapa, tudo foge, tudo acaba.

E eu amo o amor que não posso amar, me dou de corpo e alma para um mundo que não me abraça.

Na loucura que me faz sobreviver, eu sigo inventando sentimentos e sentidos, tão reais, tão inexistentes.

E persisto porque preciso de significados para tudo isso, mesmo que me destrua pouco a pouco.

No meu coração, alimento, desejo, acaricio e dou vida à minha mais bela criação.

E me deixo engolir pela minha alma, pelo meu silêncio compulsório, que arde, que cavoca, que maltrata, que instiga, que tortura.

Deixo-me misturar ao universo, mergulho, ganho velocidade, e esqueço minha própria existência.

Como pode inexistir este amor que existe pulsando tão intensamente em meu peito? 

De cada sentimento, de cada coisa vivida, ficam somente os rascunhos, precários e amassados.

Porque parece que a vida nunca é quadro, nunca ganha moldura, nunca é obra pronta.

E eu sou o artista fadado a apresentar em minha exposição sempre uma sala branca e vazia.

Sou o desenhista da vaca e do pasto.

Sou a dor que distrai e diverte, sem valor, sem destino.

Sou a abstração de todos os amores que voam com o vento sem que ninguém os veja, sem que ninguém os viva.

sábado, 24 de outubro de 2015

Mastigação

Mastigamos a dor.

Mastigamos a mágoa.

Mastigamos a culpa.

Mastigamos as desculpas.

Mastigamos a angústia.

Mastigamos a ausência.

Mastigamos o silêncio.

Mastigamos o querer.

Mastigamos as lembranças, cascas de feridas que insistem em sangrar.

Mastigamos as migalhas e farelos.

E engolimos tudo, a seco.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Eu lhe trago flores

Eu lhe trago flores.

É manhã, e a rua demorou a ganhar cor.

Eu lhe trago flores.

Com elas, o perfume que inspira.

Eu lhe trago flores.

Não se assuste se eu parecer um tolo.

Eu lhe trago flores.

Desculpe, não posso deixá-las murchar.

Eu lhe trago flores.

O inverno foi longo demais, mas a primavera finalmente chegou.

Sem linha de chegada

Quando você vê o garoto correndo, o que será que pensa?

Talvez esteja muito ocupado para isso.

É a velha vontade de correr por correr, sem linha de chegada.

Mas isso parece mais uma banalidade.

Abandonamos a essência, e tudo tornou-se milimétrico.

Sempre temos que terminar, sempre temos que terminar.

Mas eu quero continuar, quero continuar.

E assim como aquele garoto, quero correr até que minhas energias tenham se esgotado.

Estou brilhando, brilhando.

Estou queimando, queimando.

Olhe para as estrelas.

E voe, mesmo que pareça impossível.

Olhe para as estrelas.

E chegue até elas, mesmo que seja impossível.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

As coisas ruins uma hora vão passar

Eu entendo quando você diz que dói.

A demência levou o mundo a um estágio inaceitável.

Mas as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

Se o coração acelerar, respire fundo.

Não há monstro nenhum aqui.

E as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

Os dias correrão, e tudo voltará ao seu lugar.

Os risos estão guardados, eles voltarão para iluminar a existência.

Porque as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

Existe uma espessa camada de amor para cobrir suas feridas.

A angústia tão pesada logo será pluma diante da beleza das flores, dos campos nos quais você corre.

Sim, as coisas ruins uma hora vão passar, eu juro.

As nuvens choram, mas o sol sempre volta sorrindo.

Descanse a alma, permita-se sentir a paz que existe na imperfeição.

Porque as coisas ruins já estão passando, eu juro.