sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Amar e "amar"

O mundo atual é feito de pequenas friezas e pragmatismos.

É feito de muita correnteza e nenhuma contemplação.

Tudo muda, e o que vem, já foi, como um trem que passa pela estação sem parar.

Sentir tornou-se blasé.

A vontade do instinto mais cru parece ter vencido.

"Amores", assim, entre aspas, tornaram-se copos de iogurte.

Abrem-se, bebem-se em quinze segundos, jogam-se no lixo, para que se tome o próximo da cartela.

Não sei se isso é bom ou ruim.

Não me cabe fazer juízos de valor.

Mas confesso, jamais me adaptei a esse jeito de viver a vida.

Não pertence à minha índole.

Sou dessas aberrações dos dias atuais, que ainda atrevem-se a amar sem aspas.

Aberrações para as quais amar tem um caráter sublime, e não é apenas mais um verbo do dicionário a ser usado sem o invólucro mais sagrado da verdade mais verdadeira.

Talvez por isso, numa espécie de seleção natural, ou seja lá o que for, pessoas assim vão sendo jogadas para baixo do tapete.

Amar sem aspas é quase motivo para sentir vergonha, para pedir desculpas por ter nascido.

Escondidas, ou fingindo jogar o jogo, essas pessoas, reforçam o caráter asséptico com o qual os sentimentos são tratados.

Afinal, se elas não existem, talvez a maioria, aquela maioria que "ama", esteja certa.

Mas sempre há o momento em que todo o esforço hercúleo dessas pessoas vai para o espaço.

É quando elas pensam que, de alguma maneira, "agora vai dar certo".

É o início do fim.

Porque é exatamente aí que todas as dores, as frustrações, os mal-entendidos, afloram e despontam em uma só coisa.

É exatamente aí que toda a vontade de amar e ser amado, acumulada ao longo de toda uma existência, surgem devastadores.

E destroem tudo.

O coração estoura.

É como abrir um tanque enorme e superabastecido.

O que vem é uma enxurrada incontrolável, que leva e afoga.

E, como consequência quase inevitável, mais dor, mais acúmulo.

Em cada perda, em cada esperança que se vai, passageira no imparável trem, uma nova morte.

Pessoas assim são incompreendidas.

São anacrônicas.

E estão fadadas, talvez para o resto da vida, a esse interminável ciclo.

Acumulam dor e amor numa mesma batida.

Abrem-se, jorram, destroem, afogam.

E voltam ao estado anterior.

E então, não faltarão olhares de cínica desaprovação rotulando-as, em sua amargura, de mal-amadas.

Talvez o rótulo tenha razão, e não seja motivo para estranheza.  

Amar é raro, sublime, profundo. 

"Amar" é banal, ordinário, raso.

E num mundo em que muito se "ama", pouquíssimos amam, pouquíssimos sabem ser amados.

2 comentários:

Arthur Claro disse...

Muito bom esse post. Parabéns pela criatividade.

Arthur Claro
http://www.arthur-claro.blogspot.com

Bruno Mello Souza disse...

Obrigado, Arthur!

Abraços.