domingo, 21 de dezembro de 2014

Cenário

As paredes.

O teto.

A caixa. 

O relógio.

A luz.

O remédio.

A tela.

Os livros.

A cadeira.

O roupeiro.

A mesa.

O amor.

A solidão.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Fogo brando

No fim da tarde, a despedida de mim mesmo.

Nos recôncavos da alma, tudo que não pode ser mudado.

Em fogo brando, nenhuma alteração.

Ondas calmas não sabem o que levam consigo.

Sou contemplação eterna, com o vento no rosto.

Agora está tudo perfeito em sua imperfeição.

Está tudo ajeitado em sua desorganização.

Agora está tudo completo em sua incompletude.

Está tudo simples em sua complexidade.  

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sem medo de se cortar

Não é à toa, nada do que se vive.

Ela chora num canto, mas esse não é o fim.

A vida às vezes pode dar certo.

Eu sempre fui do tipo que acredita nas grandes cenas de libertação.

É seguindo a própria estrada que se chega a algum lugar.

De vez em quando a poeira vai subir e ela vai tossir.

Mas ainda há chão pela frente.

Ela é tão doce, precisa ter sua alma acolhida.

Ela tem tanto amor, precisa apenas de alguém que abra o peito sem medo.

Ela tem tanta vida, precisa apenas de alguém que se permita enlouquecer junto.

Rasgando o livro de regras.

De pés descalços, sem medo de se cortar.

Entregando-se ao céu, perdendo o seu chão. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O lugar de cada um

Não há com o que se preocupar.

Eu já estou indo embora.

Eu estou cada vez mais longe.

Não há mais tempo a perder.

Não sei onde vim parar.

Mas isso não importa mais.

Isso não é um favor.

E nenhum esforço é necessário.

É só o lugar de cada um.

Eu sei bem o meu. 

E o vazio destinado.

Eu certamente estarei errado.

No fim, serei estúpido.

No fim, serei tolo.

No fim, serei ridículo.

No fim, serei louco. 

Sol da meia-noite

É uma luz que não se explica.

É meu alfa e meu ômega.

É minha essência em si mesma.

É o sol da meia-noite.

É a cor viva que penetra meu cinza.

Dou minha vida para ganhar um sorriso.

É a dor agridoce que me faz ter certeza de que existo.

Dou meu jardim para ganhar uma pétala.

É o valor que não se calcula, maior do que todo o tesouro do universo.

Dou minha alma para ganhar um abraço.

É o amor imenso que me atravessa e transcende.

Dou a eternidade para ganhar um segundo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Levantando

Castelos de areia se vão com as ondas.

A energia se foi.

Mas não, eu não estou morto.

Ainda estou aqui, há luta.

Até a última gota de suor, não me deixarei dobrar.

De nada adianta permanecer no solo.

Mesmo com as pernas ainda bambas, levantarei.

Da derrota de um dia reunirei forças para uma vitória permanente.

E resistirei enquanto a vida persistir.

E só desistirei quando não mais existir. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Quadro na parede

As linhas rasgam a folha, identifico sentidos no vazio que ali está.

Às vezes, apenas deslizo no espaço em branco.

Coisas bonitas são monótonas, não tenho mais imaginação.

As proibições são muralhas intransponíveis.

Já não sou um prisioneiro que se deleita com o sonho da liberdade.

E os efeitos do vício são cada vez mais curtos.

Quando escurece, a solidão me abraça.

Não tenho pra onde ir, não tenho pra quem ir.

Observo a alegria num quadro na parede.

Não, eu nunca estou lá.

Talvez eu tenha sido escolhido a dedo para apenas olhar e descrever.

Talvez meu destino seja apenas olhar e sentir.

Não, eu não me preocupo.

Não, eu não tenho anseios, não tenho vontades.

Na ampulheta, a eternidade.

No som, a mesma melodia.

Na mente, a limitação daquilo que não se vive e não se conhece de verdade.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Afetos provisórios

Vivo em meu próprio mundo, que sempre gira, mas nunca sacode.

E as coisas não saem do lugar.

As imagens bombardeiam, afetam o raciocínio.

Me dê um martelo, vou quebrar a tela.

Todas as mentiras entram em curto-circuito.

E nenhuma dessas verdades importa.

Eles competem para ver quem é o melhor farsante.

As intenções sempre estarão abaixo da superfície.

Às vezes, isso não importa.

Tenho sorrisos descartáveis guardados no bolso.

Às vezes, isso não importa.

Tenho afetos provisórios guardados em minha mala.

Às vezes, isso não importa.

Tenho alegria passageira em minha caixa de pílulas.

E já não me pergunto o sentido de tudo isso.

Decidi fechar o nariz, e não sentir mais o odor fétido das vaidades putrefatas.

Decidi fechar o nariz e não respirar mais este ar.

Decidi fechar o nariz e não respirar mais...

sábado, 13 de dezembro de 2014

Presente ausente

Há tantos anos aquelas estrelas já se apagaram.

Mas ainda brilham neste céu.

São nossos diferentes tempos que não nos mantêm aqui e agora.

É o passado imutável.

É o futuro que nunca chega.

É o presente, sempre ausente.

Segure minha mão, e não a solte mais.

Mantenha-me aqui, cole os pedaços do meu coração.

Deixe-me firme, cubra-me quando eu estiver congelando.

Preciso de algo que prove para mim mesmo que eu existo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Máscara de gesso

A luz é baixa, as cores se misturam.

Os olhos se encontram e desviam.

Delírios vêm em espasmos.

O tempo passa aqui dentro, enquanto amores congelam na rua.

Somos sobra, temos que sobreviver.

E precisamos de algo que nos faça esquecer nossos destinos.

A dor está à espreita.

E precisamos de algo que nos faça esquecer nossos instintos.

Então usamos mais anestesia para que o tempo não passe.

A euforia é irmã do desespero.

Mas nosso grito nunca é ouvido.

Amores calmos nos fazem sangrar e morrer lentamente.

Estamos grogues no meio de gente desconhecida.

Estamos no meio da calçada, até que um raio nos parta ao meio, de uma vez.

Somos reféns daquilo que não podemos viver.

Estamos acorrentados por todos os lados.

E nossas limitações aparecem assim, para rir de nossas caras.

E os sentimentos sobem pela garganta, parando no vaso sanitário.

Agora eles são tão azedos.

Precisamos apenas criar uma ilusão para dormir em paz.

Precisamos apenas inventar uma mentira que nos permita olhar para frente.

É assim que nos conformamos enquanto não temos nossa verdade.

É assim que nos completamos com uma máscara de gesso enquanto não temos um sorriso para sorrir.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Não sabe o que quer

Ele não sabe o que quer.

Pode ser um copo de suco de laranja, ou uma noite inesquecível.

Pode ser uma piada boba, ou um beijo libertador.

Pode ser uma lembrança, ou uma frase que mude o sentido de todos os seus dias. 

Pode ser um vento no rosto, ou a realização de seu maior sonho.

Pode ser uma barra de chocolate, ou todo o amor existente no mundo.

Pode ser um riso despretensioso, ou a lágrima da maior realização de sua existência.

Ele não sabe o que quer.

Ele não quer mais sua vida, ele quer viver.

Ele não sabe o que quer.

Ele não quer mais perder nenhum segundo, mas este segundo já se foi, e outro, e outro...

Ele não sabe o que quer.

Ele não quer mais o que lhe leva a um vazio sem cor.

Ele sabe bem o que quer. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Truques indecentes

Venha cá, sujeito.

Dono de almas, dono de nada.

Mau ladrão, agora você está preso.

Esfregue seu rosto no asfalto.

Nada queima, nada arde.

É tão doce, deleite irresistível!

Agora vá para longe.

Mais e mais longe.

Longe onde eu não possa enxergá-lo.

Longe onde você não possa existir.

Nos corredores, os truques indecentes.

Oh, como você é estúpido.

E tudo deu errado, veja onde está.

Estamos frente a frente.

É uma pena, mas eu nunca levei jeito para esse tipo de compaixão. 

Guarde um pouco da diversão, o espetáculo há de continuar.

Não há porque acabar tão rápido.

Um velho e desejado vinho deve ser apreciado em todas as suas notas, sem pressa.

É vinho tinto e seco, maldito desperdício!

Não despeje, estanque a boca dessa garrafa!

É vinho tinto e doce, dando-me náuseas!

Essa porcaria vai ficar grudenta e fedida no chão!

Loucos

O chão está sujo daquilo que somos.

Sim, às vezes vomitamos nossas almas.

Estamos entregues ao que somos, completamente loucos.

Eles dizem que podíamos ser tanto, e que somos tão pouco.

Mas não, somos tudo o que há.

E em nossa insanidade encontramos nosso alimento.

Em nossa perdição, encontramos nosso caminho.

Não somos iguais, não queremos ser.

Nosso sentido é a falta de sentido.

Cada um sozinho, com sua própria insensatez.

Todos juntos, queimando papeis e pintando a rua.

Sim, ainda seremos derrotados mais algumas vezes, sob os lençóis numa noite fria, ou olhando para este chão imundo.

Mas quando o mundo gira, apenas giramos com ele.

E deixamos apenas que tudo o que é continue sendo.

É na capacidade de permanecermos loucos que reside nossa maior glória.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sonhos sem fronteiras

Dê seus passos com mais confiança.

Se de um lado da rua há destruição, olhe para o outro.

Observe, lá há flores para apreciar.

Não se trata de ser otimista, apenas de ver a realidade completa.

Às vezes, a fumaça encobre tudo, e nos faz tossir.

Mas em algum momento ela se esvai, abrindo o terreno.

Sim, olhe bem à frente.

Então vá além.

Quem disse que seus sonhos têm fronteiras?

Se respiramos, é porque existe ar e vida, uma combinação milagrosa.

E quem foi que disse que somos mortais?

Num rompante, somos o universo.

E quem pode nos garantir que não somos tudo o que existe?

Neste instante, nada mais importa.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Sonhadora

Ela se olha no espelho.

Não foi por falta de amor.

Mas está perdendo novamente.

Fez da existência, poesia.

Ela foi o que poderia ser.

Colocando o coração em cada gesto.

Entregando a alma por um sorriso.

É a vida, feita de pinturas.

Mas essa não é a expressão que ela escolheu.

Sonhadora, esqueceu-se de si mesma.

Tudo mudou, mas agora ela está com os olhos molhados.

Ela é tão doce, mas seu coração só, dói.

Agora que tudo se esvai, seu coração só dói.

E pela janela, o sonho se vai.

E pela janela, o sonho se foi.

E em sua porta, o sonho chegou. 

Lembranças

Quando me corto, eu me lembro de você.

É meu curativo.

Quando o dia anoitece, eu me lembro de você.

É minha luz.

Quando o frio chega para congelar, eu me lembro de você.

É minha lareira.

Quando a solidão chega para assombrar, eu me lembro de você.

É minha companhia.

E quando penso que vou morrer, eu me lembro de você.

É minha vida.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Descompasso

Na melancolia, a outra face da felicidade incontida.

Respiro bem, respiro mal.

O que esses dias estão fazendo comigo?

Sonhei com belas árvores, num belo cenário.

Mas senti medo e acordei.

Há sempre fantasmas escondidos por entre os galhos.

Foram muitas vezes em que tudo me ameaçava.

Eu apenas busco um lugar que seja só meu.

As horas me roubam de mim mesmo.

Sou levado, estou me ausentando de minha própria vida.

O poeta me diz que não temos tempo a perder.

Mas como fazer, se os segundos escorrem pelos dedos?

Tenho tanto a querer, tanto a perder.

E o que fazer se o frio congelar meu peito aberto?

Aconchego-me na solidão, busco um alento na ilusão.

Eis o descompasso de tempos e sentimentos.

Eis o descompasso de lugares e possibilidades.

E somente no meu último suspiro, tudo se encaixará.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Amar e "amar"

O mundo atual é feito de pequenas friezas e pragmatismos.

É feito de muita correnteza e nenhuma contemplação.

Tudo muda, e o que vem, já foi, como um trem que passa pela estação sem parar.

Sentir tornou-se blasé.

A vontade do instinto mais cru parece ter vencido.

"Amores", assim, entre aspas, tornaram-se copos de iogurte.

Abrem-se, bebem-se em quinze segundos, jogam-se no lixo, para que se tome o próximo da cartela.

Não sei se isso é bom ou ruim.

Não me cabe fazer juízos de valor.

Mas confesso, jamais me adaptei a esse jeito de viver a vida.

Não pertence à minha índole.

Sou dessas aberrações dos dias atuais, que ainda atrevem-se a amar sem aspas.

Aberrações para as quais amar tem um caráter sublime, e não é apenas mais um verbo do dicionário a ser usado sem o invólucro mais sagrado da verdade mais verdadeira.

Talvez por isso, numa espécie de seleção natural, ou seja lá o que for, pessoas assim vão sendo jogadas para baixo do tapete.

Amar sem aspas é quase motivo para sentir vergonha, para pedir desculpas por ter nascido.

Escondidas, ou fingindo jogar o jogo, essas pessoas, reforçam o caráter asséptico com o qual os sentimentos são tratados.

Afinal, se elas não existem, talvez a maioria, aquela maioria que "ama", esteja certa.

Mas sempre há o momento em que todo o esforço hercúleo dessas pessoas vai para o espaço.

É quando elas pensam que, de alguma maneira, "agora vai dar certo".

É o início do fim.

Porque é exatamente aí que todas as dores, as frustrações, os mal-entendidos, afloram e despontam em uma só coisa.

É exatamente aí que toda a vontade de amar e ser amado, acumulada ao longo de toda uma existência, surgem devastadores.

E destroem tudo.

O coração estoura.

É como abrir um tanque enorme e superabastecido.

O que vem é uma enxurrada incontrolável, que leva e afoga.

E, como consequência quase inevitável, mais dor, mais acúmulo.

Em cada perda, em cada esperança que se vai, passageira no imparável trem, uma nova morte.

Pessoas assim são incompreendidas.

São anacrônicas.

E estão fadadas, talvez para o resto da vida, a esse interminável ciclo.

Acumulam dor e amor numa mesma batida.

Abrem-se, jorram, destroem, afogam.

E voltam ao estado anterior.

E então, não faltarão olhares de cínica desaprovação rotulando-as, em sua amargura, de mal-amadas.

Talvez o rótulo tenha razão, e não seja motivo para estranheza.  

Amar é raro, sublime, profundo. 

"Amar" é banal, ordinário, raso.

E num mundo em que muito se "ama", pouquíssimos amam, pouquíssimos sabem ser amados.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Descobrindo belezas

Toda chuva passa, você sabe disso.

E há sempre o velho guarda-chuva, você sabe melhor que ninguém.

Nessa paisagem às vezes morta, há sempre uma nova beleza a descobrir.

Pode ser um paralelepípedo fora do lugar, debochado, zombando da ordem dos seus pares.

Pode ser uma folha no chão, ou uma pegada.

Pode ser um cesto de maçãs na feira.

Ou pode ser um copo de cerveja gelada na sexta-feira.

Sem necessidade de dor ou lamento.

Você sabe disso, você sabe melhor que ninguém.

Viva o que você tem de melhor, e que está aí dentro.

E não deixe que nada desfaça seu sorriso.

E não deixe que nada ofusque seu brilho, pois ele é único. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Rei do lixo

Acorda para mais um dia de reinado.

Ele é o velho rei do lixo.

Sua coroa é de lata.

Seu cetro é um cano de plástico.

Sua poltrona, um vaso sanitário fétido, sobre uma montanha de coisas sem uso.

Seus súditos estão sujos.

Seus súditos são ratos.

Seu território é o desprezo das sobras.

Lá ele tem toda a importância, é a marca do seu tempo.

Mas o velho rei do lixo nunca é visto.

Sua capa de invisibilidade funciona, mas não há inteligentes ou estúpidos neste monte de passado que virou o nada do presente.

O velho rei do lixo nunca é ouvido.

O velho rei do lixo nunca foi.

A noite e o frio chegarão, sempre chegam.

E ele adormecerá com toda a pompa real.

Soberano em seus domínios, sozinho e imponente. 

Mas nada é real.

O velho rei do lixo é também o bobo da corte.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Silêncio(s)

Um silêncio, a dor.

Um silêncio, o querer.

Um silêncio, a preservação.

Um silêncio, a culpa.

Um silêncio, o sentimento.

Um silêncio, o impossível.

Um silêncio, a vergonha.

Um silêncio, o nunca.

Um silêncio, o medo de perder.

Um silêncio, o que não se pode explicar.

Um silêncio, a garganta num nó.

Um silêncio, nada e tudo ao mesmo tempo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Terceirizados

Eles são os entendidos.

Eles dizem o que é bom.

Eles dizem o que é ruim.

Eles dizem do que devo gostar.

Eles dizem o que devo querer.

Eles dizem com o que devo sonhar.

Mas não quero ser o que eles querem que eu seja.

Não vou terceirizar meus sentimentos.

Não vou terceirizar meus gostos.

Não vou terceirizar minhas vontades.

Não vou terceirizar meus sonhos.

Eles dão tudo pronto, apenas folheie estas páginas.

Mas eu não vou terceirizar meu coração.

Eles têm a receita do sucesso e da vitória para a qual estou me lixando.

Não, eu não vou terceirizar minha alma.