quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A cueca de 20 euros

Jerry Seinfeld sabiamente já disse: nós, homens, usamos cuecas até o limite aceitável; não jogamos no lixo uma cueca até que ela tenha se desintegrado completamente; não nos livramos dela até que tenha se tornado vapor de cueca.

Pois, assim mesmo, por mais dolorosa que seja a despedida, um dia ela acontece. 

O luto é terrível, a sensação de vazio, de perda, é quase indescritível.

Mas há de se levantar a cabeça e olhar para frente.

Para mim, hoje foi um desses dias.

Diante do adeus a uma já agonizante cueca, tive de seguir em frente sem olhar para trás.

Tratei de buscar a reposição.

A fila anda, afinal.

Saí à procura da minha primeira cueca espanhola.

E foi árduo, foi difícil.

A cada nova loja, um golpe no coração.

Até onde minha paciência e meus pés permitiram pesquisar, constatei que os preços variam de 20 a 30 euros, o que daria, bem grosseiramente, de 60 a 90 reais, mais ou menos.

Sim, isso mesmo: uma cueca, uma unidade de cueca, de 20 a 30 euros.

Comprei uma de vinte.

No Brasil, com esse valor, compraria umas nove, no mínimo.

E agora, farei dessa cueca minha grande riqueza.

Pelos meus cálculos, pelo que paguei, deverá durar umas três gerações.

Ela estará no meu testamento.

"Meu filho, pra você, deixo minha cueca de 20 euros".

E ele sairá com os olhos marejados, emocionado com o reconhecimento.

"Eu te amo, papai! Eu sabia! Eu sabia que ele me amava!"

Fato é que isso muda substancialmente a vida de um sujeito como eu.

Como não mudar a postura?

Como fingir que nada mudou?

Até hoje, eu era apenas um homem.

Agora, sou um homem com uma cueca de 20 euros.

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