terça-feira, 14 de outubro de 2014

O jardim

Em certo momento da minha vida, cuidei muito de um imenso jardim que havia perto do caminho da minha casa. Ele era muito bonito, e eu buscava cuidá-lo bem, sempre com muito afinco. Mas suas flores, com seus espinhos afiadíssimos, evitavam o toque carinhoso de minhas mãos. Eu me machucava, sempre e inevitavelmente. Mas seguia cuidando-o.

Certo dia, porém, um dilúvio caiu sobre a cidade. Havia um vento terrível, destruidor. Fui ao jardim, em meio à tempestade, para tentar, de alguma forma, salvar o cenário. Em vão, me encharquei, enquanto o sangue dos cortes provocados pelos espinhos, se diluíam na água intensa e feroz. Tudo foi em vão. Eu chorava como uma criança olhando aquilo. Não era o fim do mundo. Mas ali, parecia ser o fim do meu mundo. Um mundo de cores que cobravam meu sangue para me maravilhar com a beleza,a textura e o perfume de suas flores.

Depois daquilo, as coisas mudaram, eu mudei. Evitava visitar aquele jardim. Já foi cheio de flores. Já foi destruído completamente. Eu não queria mais nem passar perto, depois daquilo. Queria manter as boas memórias, por meio da cegueira e da ignorância. Tinha medo das visões que eu poderia ter. Tinha medo das lembranças ruins daquele temporal, que poderiam vir à tona. Tinha medo da angústia. Tinha medo de mim mesmo, e das minhas reações. Tinha medo da desesperança da realidade crua.

Mas hoje, quando passei pela esquina que eu dobrava, e dava para o velho jardim, a um quarteirão do mesmo, uma vontade me veio de súbito. Queria ver suas condições. Haveria flores por lá, tanto tempo depois? Haveria um cenário destruído, triste, pálido, que me levaria à melancolia extrema de quem espera por cores e se depara com o abandono e o vazio da infertilidade?

Resolvi ir. Observar. Mesmo que fosse um pouquinho. Resolvi ir. Ir e enfrentar um turbilhão emocional que talvez pudesse me devastar. De algum modo, era importante dar aqueles passos, enfrentar aquele sentimento.

Cheguei ao local. Estava entregue a um triste abandono. Nenhuma beleza. Nenhum perfume. Nenhuma esperança. Nada.

Eu pensava que uma coisa dessas me destruiria a alma. Eu pensava que ficaria inconsolável. Mas não. Não senti nada. Apenas olhei um pouco. E aquele nada na minha retina se via refletido por um ainda mais vazio nada no meu coração. 

Perdi tempo temendo abrir a ferida, como a pessoa que não tira o band-aid por medo da dor do puxão, de descolar a casca e voltar a sangrar. Ao fim e ao cabo, já não havia mais ferida, e a pele deixou, em vão, de respirar, por um longo período.

Libertei-me completamente daquele jardim, e daquela beleza efêmera. Sua beleza, aliás, era superestimada por mim pela falta de parâmetros, pela negação de que aquele lugar não é o início nem o fim do mundo. De que há mais vida. E de que hoje tenho, sim, meu próprio jardim em minha casa. Mais simples, talvez. Sem todas as flores que eu gostaria de ter, certamente. Mas um jardim meu. Do qual posso cuidar do meu jeito, sem temer dilúvios ou destruições, porque vou protegê-lo e, em troca, ao acordar, terei todos os dias a visão mais linda, de flores coloridas, e um perfume inigualável.

Jardins que merecem cuidado e cultivo, assim o são, cuidados e cultivados. Os que não merecem, em um momento ou outro, não mais o são. E viram terreno baldio. 

Nenhum comentário: