segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O mesmo

Ele raspou a cabeça.

Mas continuou sendo o mesmo.

Ele rasgou os livros, velhos mentirosos.

Mas continuou sendo o mesmo.

Ele respirou e se asfixiou.

Mas continuou sendo o mesmo.

Ele vagou por aí, se perdeu e se encontrou.

Mas continuou sendo o mesmo.

Ele se despiu de tudo que lhe trazia pesar.

Mas continuou sendo o mesmo.

Ele se libertou de todas as correntes.

Mas continuou sendo o mesmo. 

Ele pintou todo o corpo de vermelho.

Mas continuou sendo o mesmo.

Ele doou todos os seus órgãos.

Mas continuou sendo o mesmo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Falta de espera

Guardo tudo o que existe na palma da minha mão.

Abandono meus pensamentos, e mesmo aquilo que sou.

Tudo pode explodir, as coisas da vida são assim.

E represo toda esta energia.

E represo tudo o que quero enquanto silencio meu grito.

Entenda, isto é apenas o meu amor, apodrecendo em meu peito.

Aquilo que se diz, aquilo que se faz, morro enforcado por mim mesmo.

Não há mais ar, não há mais nada que me faça sobreviver precariamente.

Pequenos significados são tudo o que extermina o ser.

E quando o sol surgir, nada mais precisará fazer sentido.

Sou o mesmo, atravessando os tempos, atravessando minhas entranhas e meu espírito.

E isso é extremamente desesperador.

Mas agora, o desespero é apenas falta de espera.

Pois já não quero ser, não vale a pena.

E me afogarei neste oceano, nado, nada.

Para sempre, até nunca mais. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Do ralo ao universo

Respiração profunda.

Vai pelo ralo tudo o que contamina a percepção e traz ruídos e chuviscos à sintonia dos sentidos.

Tudo o que é mesquinho.

Tudo o que é menor.

Tudo o que fica na superfície.

Tudo o que é aparência.

Tudo o que para olhos menos treinados é tanto.

Tudo o que para a alma, não é nada.

Desce a água, e com ela, todas as imundices, aparentes e invisíveis.

Vai-se o ter, vai-se o parecer.

Fica o ser.

Fica o que de mais puro nós temos, desnudando o corpo e o espírito. 

E a satisfação de, naquele momento, tornar-se o próprio universo. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Chinaski e a cabeça enfaixada

"Pus uma roupa, deixei o quarto e caminhei pelo corredor. Havia um espelho junto à máquina de cigarros no saguão. Olhei para meu reflexo. Era genial. A minha cabeça estava inteiramente enfaixada. Eu estava todo branco. Não se podia ver nada além dos meus olhos, minha boca e minhas orelhas, e alguns tufos de cabelo no topo da minha cabeça. Eu tinha sido ocultado. Era maravilhoso. Fiquei ali e acendi um cigarro, dei uma olhada no saguão. Alguns internos estavam sentados, lendo jornais e revistas. Senti-me extraordinário e também um pouco diabólico. Ninguém tinha a mais vaga ideia do que acontecera comigo. Um acidente de carro. Uma briga até a morte. Um assassinato. Fogo. Ninguém sabia.

Caminhei pelo saguão e para fora do prédio e fiquei plantado na calçada. Ainda podia ouvir:

- Joe! Joe! Cadê você, Joe?

Joe não ia vir. Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança, não estava presente na humanidade."

Personagem Henry Chinaski em: BUKOWSKI, Charles. Misto quente (tradução de Pedro Gonzaga). Porto Alegre: L&PM, 2011. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Escravo da dor

Basta uma minúscula sacudida para que o copo, aparentemente vazio, transborde.

Basta um leve toque para que a cicatriz, aparentemente fechada, abra a ferida e verta sangue intensamente.

Basta uma delicada brisa para que os dentes comecem a bater em uma sensação de frio polar.

Basta um segundo para que todo o passado me engula de uma só vez.

Basta uma palavra para que se abra o vasto dicionário de decepções.

O que posso ver me agride, e o que não posso ver me tortura.

Angústia, maldito vício do qual não posso sequer sentir o cheiro.

Sou presa fácil e previsível, caindo em armadilhas, perdendo-me nos labirintos da minha alma.

Sou escravo da dor, e quando me liberto, logo sou capturado novamente.

sábado, 20 de setembro de 2014

Erupção latente

Para lá e para cá, andando sem rumo.

Segundos são eternos, erupção latente.

O caminho se empobreceu, cubro-o com flores.

Talvez o que exista seja apenas o nunca mais.

No chão, as palavras, projéteis no peito.

Na pele, feridas, nada passa no exercício de se existir.

O tempo para, tudo é tão pouco.

Sou tudo o que não precisava ser.

A imprecisão é deliciosa, erros acumulam recomeços libertadores, e então sou encarcerado novamente.

Fica a calma, entregue ao fim de uma história insossa.

O último grão caía na ampulheta, certeza de que nada ocorreria.

No concreto frio, um sonho impossível.

Olhos falam, olhos mentem.

Sem ter, sem querer, avisando que o espaço está vazio.

E nada serve para ocupá-lo, sentindo na língua o intenso sabor de coisa alguma.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Singela vida

As nuvens vão embora, sopradas cuidadosamente pelo vento.

Singela vida, o momento presente é tudo o que somos.

E o pouco que temos nos faz sorrir como bobos.

Tão bela ida, cenário de amor, aconchego de paz.

E de pés descalços pisamos na grama molhada, sem rumo, sem mapa, sem direção.

E quem quiser andar perfeitamente alinhado, com sapatos engraxados e nariz empinado, que o faça no caminho óbvio, desenhado para os que precisam de placas para se adequar à obviedade de insossas conquistas.  

Não há nada atrás, nem dos lados, nem à frente.

Não precisamos ganhar, não tememos perder.

Tudo que dizem ser grandioso torna-se tão pequeno, ínfimo e insignificante.

E todas as nossas pequenas coisas são nosso universo, o sentido para tudo.

A liberdade é um estado de espírito, flutuamos quando escolhemos o que nos faz bem.

Não há satisfação para dar, apenas satisfação para buscar.

Existência doce ou amarga, temos a receita e o açúcar.

Deixamo-nos ser, sem explicações, sem confusões que consomem nossos preciosos segundos.

Deitamo-nos para olhar o céu, abraço gigantesco e inesgotável, acima de tudo que corrói ou machuca.

Passado e paranoia, medo e dor inexistem neste riso despretensioso, porque o presente é um presente.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Falsos inocentes

Promova bem o que conhece melhor.

Conheço sua intenção disfarçada de altruísmo.

Uma plateia que ri e aplaude, este é o seu objetivo.

E não adianta enganar, porque eu sempre sei a verdade.

Apenas mais um na fila dos falsos inocentes.

Tudo pode ser perdido, então se promova um pouco mais.

Beije quantos pés achar necessário, coloque-se no centro do palco.

E isso me dá náuseas, preciso vomitar.

E isso me dá nojo, preciso ir embora.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A esparrela de LF7X1

LF7X1 não quer que a imprensa caia na "esparrela do Aranha" (leia aqui).

Uma declaração dessas espantaria se não viesse de um admirador do sanguinário Pinochet (leia aqui).

Vindo de quem veio, não surpreende em nada.

Afinal de contas, os gritos de "macaco" ouvidos naquele jogo eram uma gravação levada por um celular que Aranha escondera na luva.

E as imagens da ESPN Brasil, eram tão somente montagens.

A torcedora flagrada pela câmera da emissora gritava na verdade "casaco, casaco", pois estava morrendo de frio.

É a realidade paralela, o mundo alternativo criado por alguém que hoje tem pouquíssimo a oferecer para além do velho e batido "vamos que vamos" e "nós contra o mundo".

É a mesma realidade paralela que fez LF7X1 declarar que sua seleção seria Campeã Mundial (leia aqui), para depois levar inesquecíveis sete gols da Alemanha, em casa, numa semifinal de Copa.

Nada mais típico, também, para um sujeito que foi protagonista do maior fiasco da história do futebol brasileiro e achou o trabalho bom (leia aqui). 

Não sei se alguém vai "cair na esparrela do Aranha". 

Mas sei que já passou da hora de se parar de cair na esparrela de que LF7X1 é uma pessoa para ser levada a sério naquilo que diz.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: Casa de repouso

O melhor texto deste último ano no DC foi publicado em 4 de dezembro de 2013.

......................................................

Era um distante mês quente de janeiro.

Eu era tão jovem, descobrindo a mim mesmo.

Hoje sou tão velho, e sei tudo da vida sem poder vivê-la.

Eu pensava, e pensava, e pensava...

Hoje mal consigo lembrar meu nome completo. 

Eu respirava um ar tão puro, e com tanta facilidade!

Mas hoje fico ofegante ao subir uma escada.

Minha pele, marcada pelo tempo, denuncia tudo o que não fui.

E daquele tempo em que tinha sonhos, o que ficou?

E dos dias de hoje, em que apenas sinto sono, o que restará?

Estou abandonado, mas não estou sozinho.

A moça que troca os meus lençóis estava mal humorada, me fez sentir tão inútil!

Meus filhos, onde estão?

Faz tanto tempo que não os vejo...

Todo santo dia lhes espero enquanto observo a grama crescer.

Talvez o dia seja hoje, por que não?

Os minutos não passam, rastejam, mas meu relógio parou há muitos anos.

O sol desaparece lentamente, apaga-se em minhas entranhas também. 

Acabou-se o horário de visita, ainda estou aqui.

Mais uma vez, anoiteceu.

domingo, 14 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: Amarelinha

A medalha de prata do especial de 6 anos do DC pertence a um texto publicado em 19 de fevereiro deste ano.

.................................................................

Aquelas crianças na rua ainda correm e brincam.

Elas não estão preocupadas com a miséria do amanhã.

Vivem no inferno, mas não conhecem o paraíso.

Por isso, elas ainda riem.

A poeira vem de cima, tossida por senhores sem rosto.

Aqui embaixo, panelas vazias recolhendo restos mal digeridos por homens sem alma.

Da casa aos pedaços, berros e quebradeira.

Mais uma garrafa para selar aqueles destinos.

Raiva e dor lá dentro, e aqui fora, o que restou de inocência e amor.

Giz branco misturado à terra do chão batido.

Entre pulos e números daquela brincadeira despretensiosa, a única forma de chegar ao céu. 

6 anos de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: Carpinejar fala dos três clássicos da sociologia

A medalha de bronze do último ano do DC fica com um texto publicado em 14 de maio de 2014.

.............................................................

- Amigos do DC, estamos aqui mais uma vez com o Carpinejar, que hoje vai falar conosco sobre sociologia. Mais especificamente sobre os três autores principais, Marx, Weber e Durkheim. Carpinejar, o que você acha dos clássicos?
- Clássico. Cheiro de erudição. Aquilo que foi, mas marca. Marca muito, arrepia. Clássico. Gre-Nal, Atletiba, Ba-Vi. Clássico. Música clássica. Cultura clássica. Elegância que passeia solenemente. Passado que se transfigura no presente, no futuro. Permanência, mesmo que silenciosa. Falsamente silenciosa. Silêncio. Barulho que foi intimidado. Grito que foi calado. Música de nossas vidas que não toca, apenas se despede.
- Certo. Bom, a contribuição do Émile Durkheim é importante na medida em que este autor trabalhou com as ideias de fato social, solidariedades orgânica e mecânica, entre outras. O que você acha que ficou desta contribuição e pode ser aproveitado nos dias de hoje?
- Émile. Durkheim. Émile. Emília. Sítio do Pica-Pau Amarelo. Visconde de Sabugosa. Narizinho. Monteiro Lobato. Lobato. Lobo em pele de cordeiro. Pele que arrepia com um sussurro ao ouvido. Não qualquer sussurro. Sussurro do canalha. Contorce meu corpo. Congela minhas entranhas. Canalha, que não é cafajeste. É canalha. Beijo no pescoço. Terremoto interior. Fato. Foto. Mato. Rato. Moto. Fato, que é a especulação que resolveu se render e mostrar a cara sem temor. Sem tremor. Solidariedade. Sol. Liberdade. Luz. Luz, que é a escuridão que cansou e iluminou. Orgânica, mecânica. Química orgânica. Laranja mecânica. Stanley Kubrick. George Lucas. Coppolla. Poderoso Chefão. Corleone. Cor. Leão. Rugido.Spielberg. E.T. Que não sou eu.   
- Uhum... Temos ainda o Weber com seus tipos ideais... Você acha analiticamente interessantes? 
- Weber. W. V. Vê. Só não vê quem não quer. Ideal. Ideia. Crimideia. Orwell. Ideia, que é o concreto que ainda não nasceu. Nascimento, que é a morte ao avesso, dançando alegremente em um palco cheio de luz. Dance comigo, faça-me reviver aquilo que se foi, aquilo que será. Ser, não ser. Eis a questão. Questão, que é a exclamação revoltada, que abandona sua linha reta tornando-se tortuosa. Um caminho, um galopar. Suco de tomate.
- Tá. E tem ainda o Karl Marx, talvez o mais popular deles, trabalhando com os conceitos de capital, luta de classes, burguesia, proletariado...
- Karl Marx. Karl. Cacau. Nescau. Marx. Que não é Patrícia Marx, nem Gabriel Garcia Márquez. Não foi mulher. Leva "x". Um "x", um "x", um "x" no seu coração. Luta de classes. Luta sem classe. Puxão de cabelo. Puxão, que, como Marx, também tem "x". Xis. Completo. Burguesia. Hamburguer. Pampa Burguer. Proletários. Prole. Amor materno. Mãe, que se encaixa em perfeição com o pai para fazer o filho. Costas arranhadas. Arranhão, que é a carícia que pôs os dentes para fora para arder, excitar, inflamar. Capital. Centralidade política. Centro, que é o coadjuvante que decidiu protagonizar a peça. Capital. Capitão. Capitólio. Capa e tal. Copa. Sem Copa. Delírio coletivo. Capital. Capitu. Bentinho. Machado de Assis. Machado. Lenha. Fogo aquecendo uma noite fria. Frio, que é o calor que se desencantou e desistiu. Desencanto. Ex-encanto. Chave de fenda.
- Ok. Muito obrigado, Carpinejar. Um abraço, e até a próxima.
- Abraço. Que é o início, o fim e o meio. Abraço, que é o envolvimento que se materializa. Um cheiro, uma sensação. Sensação que me leva a outro mundo, que me faz flutuar. Coração que aperta e espreme. E pulsa. Bombeando o sangue. Bomba, guerra. Paz. Pomba.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Um milhão de possibilidades

O quarto melhor texto deste último ano do DC foi publicado em 17 de novembro de 2013.

...........................................................

Eu sou o ar que você respira.
Sou o perfume que se fixa em sua pele.
Sou o chão que reverencia cada passo seu.

Eu sou a brisa que beija o seu pescoço.
Sou a toalha que abraça o seu corpo.
Sou o espelho que explica e detalha cada traço da sua beleza.

Eu sou o diário que aguarda suas intimidades.
Sou o abajur que ilumina sua noite insone.
Sou o chocolate que derrete lentamente em sua boca.

Eu sou o sabonete que se deleita entre seus dedos.
Sou o pente que acaricia o seu cabelo.
Sou o travesseiro que decifra seus sonhos mais indiscretos.

Eu sou aquilo que posso ser, tão longe, não sei quão perto.
Sou a vontade que não se explica e não passa, desafiando palavras, querendo fazer-se destino.
Sou a poesia cafona, piegas, mas verdadeira, que expressa todo o bem que não posso gritar aos quatro ventos.

Eu sou a fração e o universo, o equilíbrio e a loucura.
Sou um milhão de possibilidades, alternativo a mim mesmo, completamente egoísta e extremamente altruísta.
Sou tudo o que você quiser que eu seja.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Eutanásia

O quinto colocado do especial de 6 anos do DC foi publicado no dia 21 de outubro do ano passado.

......................................................................

Jogado na cama com os lençóis urinados.

Olhando para o teto, até que alguém me dê uma colherada de sopa batida.

Desligue os aparelhos, eis minha súplica.

Não aguento mais ser um vegetal.

Desligue os aparelhos, liberte-me da imundice.

Não aguento mais o sol em meus olhos.

Desligue os aparelhos, e limpe minha boca.

As crianças estão abusando da minha inércia.

Desligue os aparelhos, amanhã será um dia lindo.

Não haverá remorso nem dor.

Desligue os aparelhos, acenda uma vela.

Estou tão angustiado sem poder me expressar!

Desligue os aparelhos, deixe-me viver.

Não há o que perdoar, e você terá toda minha gratidão e carinho.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 6ª posição: Helena encaixotada

O sexto colocado do último ano do DC foi publicado no dia 8 de março de 2014.

............................................................

Querida, por que você voltou?

Eis todo meu ouro, não consigo comprar seu afeto. 

Descuidada e esquecida, machucada em minha casa. 

Talvez doa, vou fazer o procedimento.

Tão bela, tão minha, deixe-me cuidá-la.

Membros inferiores ou superiores, não mais.

Helena está em minha caixa.

Ela não pode mais fugir da felicidade.

Rodeada de flores, tão adorada.

Helena está em minha caixa.

Ela grita, mas não pode me enforcar.

Ela chora, mas não pode correr.

Helena está em minha caixa.

Ela implora, mas não pode se matar.

Ela suplica, mas está impossibilitada.

Helena, beleza sem asas.

Helena, escultura viva.

Helena, morte em vida.

Helena, prisioneira sem algemas.

Helena, tronco e cabeça.

Helena, somente um sonho.

Helena, somente um pesadelo.

Helena, somente um filme. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: Cure-me, placebo

O sétimo lugar do especial de 6 anos do DC pertence ao texto "Cure-me, placebo", de 9 de agosto deste ano.

..............................................................

Com ou sem sol, o anoitecer é minha única certeza.

Cure-me, placebo.

É o sabor efêmero, que mal chega para logo partir.

Salve-me, placebo.

Fica o cheiro, fico eu, aqui no frio.

Mergulhe em minha corrente sanguínea, placebo.

A plenitude fica para amanhã; para hoje, apenas pílulas.

Agrida meu estômago, placebo.

É chegado o limite, uma multidão se arrasta.

Exploda meu peito, placebo.

As flores foram amassadas, restou o perfume.

Corroa minhas entranhas, placebo.

Sou a cobaia perfeita, um paciente terminal buscando uma esperança qualquer.

Mate-me logo, placebo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Agora e amanhã

O oitavo melhor texto do DC neste último ano se intitula "Agora e amanhã" (19 de março de 2014).

.........................................................

Ela me abraça forte e me dá um pouco de vida.

Mas amanhã ela irá me desprezar.

Ela aprecia as coisas que escrevo em meu velho caderno.

Mas amanhã serei apenas um analfabeto miserável.

Ela demonstra sentir um prazer pecaminoso.

Mas amanhã ela sentirá apenas repulsa.

Ela é minha confidente mais íntima.

Mas amanhã serei somente um estranho.

Ela beija minha boca, decidida.

Mas amanhã isso não será mais nada.

Ela morde meus lábios, cheia de tesão.

Mas amanhã estarei louco.

Com suas mãos geladas, ela segura as minhas.

Mas amanhã estarei morto.

domingo, 7 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: Quantos voos mais?

O nono lugar do especial de 6 anos do DC fica com o texto "Quantos voos mais?", publicado em 29 de maio deste ano.

...................................................................

Quantos voos mais serão necessários para que eu encontre o meu caminho?

Quantos voos mais serão necessários para que eu chegue ao meu destino?

Quantos voos mais serão necessários para que eu chegue ao meu ninho?

Quantos voos mais serão necessários para que eu encontre o meu céu?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa descansar?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa me libertar?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa me aquecer?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa encontrar minha paz?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa voar? 

Quantos voos mais? Quantos medos? Quantas quedas?  Quantos erros?

Quantos voos mais? 

sábado, 6 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Tinta guache

Começamos o especial de 6 anos do DC com o décimo melhor texto deste último ano, "Tinta guache", publicado em 6 de fevereiro de 2014.

.........................................................................

O vento que soprava por aqui fora sempre frio.

E quando tudo esquentava, ardia mais que o inferno.

Uma alma tem condições de renascer quantas vezes?

Os caminhos são tortos, placas erradas estão por todos os lados.

Levado ao equívoco, ele chegou onde queria.

Nada mais congela, nada mais queima.

Estava dentro do seu próprio paraíso, com tudo o que lhe importava.

Gotas de tinta guache no chão contrastam com o cinza da paisagem.

Daquele pedaço de piso, fez sua morada.

Desfez o nó da garganta, que outrora parecera um nó cego.

Abriu o peito, deixou o ar invadi-lo, como há muito não ocorria.

Caminhou demais para encontrar o tesouro.

Explorou as terras mais distantes.

Tantos "X" naqueles mapas foram mentirosos, cavou, cavou, cavou...

E nunca havia cavado por dentro de seu próprio coração, persistente e pulsante.

Encontrou a maior de todas as riquezas, composta por coisas que não podem ser vendidas, nem compradas.

O universo providenciou olhos de diamantes, sorrisos de pérolas, sentimentos de ouro maciço. 

Encontrou a paz que sempre buscou, sua resposta definitiva. 

Existir é o fim em si mesmo. 

Agora, aqui, neste chão, gotejado de tinta guache. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

6 anos de Dilemas Cotidianos

Seis.

Seis de setembro.

Seis anos.

Cá estou, em mais um aniversário do DC.

Agradeço, uma vez mais, a atenção e o carinho dos leitores do blog, de todos aqueles que acompanham, se identificam, e de um modo ou outro, me acompanhar por meio deste espaço, e me incentivam a prosseguir.

Um grande abraço a todos.

E, seguindo a tradição, os próximos dias serão dedicados à republicação dos 10 melhores textos do Dilemas Cotidianos no último ano.

Espero que gostem. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ensinamentos estéreis

Olho-me no espelho.

Deixo a água tomar meu rosto.

Estou tão calmo, como quem não espera mais nada.

Mergulho em minhas marcas, ensinamentos estéreis.

Projeto meus medos, protejo-me.

Estou mais forte do que nunca.

Estes dias são provas, venço uma a uma.

Exponho as coisas como elas são, e não me importo se vai doer.

Estou tomado da mais genuína sensação de que não tenho nada a perder.

Deixo-me ser, tão defeituoso.

Deixo-me ver, tão absoluto no erro perfeito da existência.

Respiro fundo, nesta doce e lenta lamentação.

Se a luta é vã, deixo-me levar por cada traço que temo e que me faz tremer.

Isto é o que sou, exposto, verdadeiro, completo em mim mesmo.

Sou vida e certeza, sou morte lenta e imprevisível.

Sou uma ampulheta, lentamente fazendo do tempo uma ilustração.

Sou a queda que já não mais machuca, a ausência de deleite e martírio.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Nada será

Viajei muitos quilômetros.

Demorei, mas descobri o que é ser livre.

Olhos vigilantes, asfixia permanente.

Sim, ainda sou prisioneiro.

Mas me liberto a cada nova negação.

Aprendi a distinguir o que é, e para o que é.

Torture-me, esprema até o fim.

Nada escapará, e permanecerei intacto.

Derrube-me, ocupe meu espaço.

Nada será, e permanecerei vivo, ao meu modo.  

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Palavra mágica

Finalmente chegou meu grande dia.

Agora posso ser um nada sem prestar satisfações.

Já não finjo, já não quero.

Eu me entrego, eu me rendo.

Preso, talvez eu esteja mais livre.

Doutrine-me, faça-me mais do mesmo.

Salsichas em latas, pessoas, tanto faz.

Sou tudo que não é.

Me sinto estranho, e adoro isso.

Para lá e para cá, uma conveniência a mais.

Prostitutas usam gravatas, elas falam bonito, e são tão eruditas!

Pegue a moeda que caiu no bueiro, e cheire até se enjoar.

Estou pronto para ser levado, sugue-me agora mesmo.

Faça mais suco de tomate, esprema até a polpa.

Passe a vassoura no chão, leve a poeira.

Estou aqui pelo gosto, abro este sorriso que você reivindica.

Pergunto se estou suficientemente bem, mas é apenas ironia.

Peço uma palavra mágica, apenas para não acreditar.

Porque sei o meu lugar nisso.

E sei de tudo, tudo que não posso alcançar.

Realidade digerida

O desconforto se guarda num canto.

Estou cansado dessas repetições.

Não defini qual é a minha fuga.

Quando os olhos me fulminam, não consigo deixar de olhá-los.

Quando o sorriso se abre, não consigo reagir, fingir-me intacto.

Lá fora sempre há alguém para dizer o que devo querer.

Pessoas digerem a realidade para dizer o que é importante.

A diferença é que já não me importo.