domingo, 31 de agosto de 2014

Um segundo, uma vida

A cada noite de sono, nos despedimos daquilo que somos.

E cada dia que surge pela janela é um aceno.

O mesmo sol é sempre um novo sol.

E o que mais ilumina muitas vezes pode ser o que mais nos obscurece.

Nem sempre os olhos sensíveis estão prontos para tanto brilho.

Na brisa, um tornado; no silêncio, o ensurdecimento; nas ondas calmas, um maremoto.

Os significados ocultos são a verdade mais escancarada.

O som da chuva, o cheiro da grama molhada, tudo é memória dos momentos mais felizes.

Momentos que não ocorreram, e estão em alguma colorida realidade paralela.

Um segundo pode representar toda uma vida.

E nele, podemos ficar presos por toda a eternidade.

Ali, concentramos toda uma doação do que se é, do que se ama, do que se quer.

Ali, naquela fração, somos o que sonhamos, e colocamos todo o universo na palma da mão.

E o tempo continua a correr, e sei que tive o privilégio de ser tudo o que existe.

Sei que fui tudo o que poderia ter sido.

Sei que este abismo é tudo que sou, com um fim que a visão não pode alcançar.

Fecho agora os olhos, e salto.

Entrego-me às profundezas de mim mesmo.

sábado, 30 de agosto de 2014

Racismo no futebol: contemporizar não resolve nada

Infelizmente, o mundo do futebol possui setores hiper-reacionários que, consciente ou inconscientemente, com suas posturas, travam um avanço que tem de andar de mãos dadas com a sociedade.

Estes setores estão à direita e à esquerda.

Seja pelo viés que for, os lamentáveis coros de "macaco" e imitações do animal para atingir o goleiro santista Aranha despertaram em alguns a mais profunda e legítima indignação, e em outros, contemporizações de todas as espécies.

Desvios de foco - às vezes com um falso ar progressista- não são pouco comuns, sempre tentando denotar que trata-se de coisa de estádio, coisa instintiva, misturando alhos com bugalhos e tentando colocar elementos totalmente diferentes no mesmo balaio, como se um "filha da puta" ou um "macaco imundo" tivessem o mesmo peso (Mauro Cézar Pereira tratou deste assunto com extrema precisão no texto que você pode ler aqui).

Personagens como o dirigente gremista Chitolina (leia aqui), o santista Oswaldo de Oliveira (leia aqui), e o flamenguista Vanderlei Luxemburgo (leia aqui) perderam ótimas chances para ficarem calados. O colorado Abel Braga, em outro momento em que o debate se colocava, também teve postura lastimável (leia aqui).

Fato é que, em um caso tão delicado, qualquer tentativa de contemporização ou de varrer o lixo para baixo do tapete soa como extremo cinismo.

O racismo de alguns torcedores do Grêmio não é novidade nem aqui, nem na Conchinchina.

Possui caráter histórico, de um tempo em que falar em "coisas de crioulo" não era considerado assim tão ofensivo (leia aqui).

O problema é que algumas pessoas não evoluíram com o espírito dos tempos.

E, de tempos em tempos, tais demonstrações têm se reproduzido, nos mesmos cenários, com as mesmas cores, como em 2009 (leia aqui), 2011 (leia aqui), e agora mesmo, em 2014 (leia aqui).

Isso sem contar os cânticos de macaco imundo, direcionados à torcida do Inter (veja aqui) e, fugindo um pouco do tema racismo, mas ainda assim humanamente tão inaceitável e ridícula, a vibração com a morte de Fernandão (veja aqui).

Dentro de todo esse cenário, surge como grande preocupação, maior, talvez, do que os atos lamentáveis de parcela da torcida tricolor, a empreitada de dizer que o Grêmio não é um clube racista, tentando censurar parte da imprensa (leia aqui).

Qualquer pessoa com dois neurônios sabe que esses atos e gestos racistas são, hoje em dia, de uma minoria de gremistas. É ridículo de tão óbvio que aqueles gestos mesquinhos não podem ser generalizados. A grande questão é a prioridade que se dá.

A melhor forma do Grêmio suplantar de uma vez por todas a pecha de racista, é identificar, perseguir e punir exemplarmente todas aquelas pessoas que aparecem nos flagrantes da ESPN Brasil. Isso sim é uma resposta convincente, e, sejamos justos na medida dos fatos, consta que o Grêmio efetivamente tem colaborado com a justiça nesse sentido (leia aqui).

Mas é preciso mais, bem mais. Esse tipo de coisa tem de ser eliminado da cultura futebolística, do estádio do Grêmio, e de todo e qualquer estádio em que possa ocorrer. A instituição tem de ser mais firme nessa empreitada. Encarar um problema, que é histórico, de uma minoria, também histórica, e aprofundar a luta contra o racismo.

Os torcedores não racistas- que são a maioria- devem coibir estes absurdos não com silêncio e constrangimento, mas, sim, com vaias, como se acostumaram a fazer quando ocorrem confusões entre pessoas que não estão nem aí para o clube para o qual torcem, ou para o espetáculo.

Depois de um longo inverno de mãos sobre cabeças, de uma imprensa regional que, em sua  maioria, historicamente tem minimizado esse tipo de coisa, chegou a hora de colocar o dedo na ferida, e apertar muito, independentemente da dor e da quantidade de pus.

Concordo que muitos não podem pagar por poucos. Mas estes muitos têm de sair da posição de entes passivos, e fazer algo nesta disputa que não é de cores clubísticas, mas de humanidade.

O futebol tem de ser um espaço de lazer, alegria e boa convivência, e não de ódio, violência física e moral, constrangimento e medo.

Que vença a maioria.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A humanidade faliu

A cada grito de intolerância.

A cada agressão gratuita.

A cada manifestação do ódio mais mesquinho e despropositado.

A cada gesto de violência, física ou verbal, não justificado.

A cada vida que se vai.

A cada alma que se destroça.

A cada nariz que se empina, em nome de aparências, papeis e status, em nome de tudo que diz tudo que as pessoas são, menos o que elas realmente são.

A cada simplismo binário.

A cada prova de incapacidade de convivência com aquilo que é diferente ou divergente.

A cada nova amostra da idiotice corrente que se espalha como uma praga, firmo mais a minha convicção.

A humanidade faliu.

Prisioneiro e emancipado

Respiro lentamente.

Não ter opções às vezes é a melhor solução.

Esvazio tudo que tenho por dentro.

E, juro, não me importo mais.

Tenho minha ficha para esta espera, mas ela não tem número.

Outrora revolto, agora sou angustiante calmaria.

Já não derrubo barcos, mas também não tenho direção a oferecer.

Navegue em mim, se tiver vontade, mas se quiser chegar longe, terá de remar muito.

O que são, afinal, horas, dias, meses ou anos?

Todo o poder interior fica reservado em um canto.

Deixo-me violentar pelo imbatível e determinado relógio.

E paro meu próprio tempo, prisioneiro e emancipado.

Quando eu for consciência dormente, algo ainda ficará espalhado por aí.

E talvez eu seja maior, e compreenda melhor o sentido disso tudo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A solidão e a tarantela

Ele está sentado sozinho, pensativo naquele banco.

Pergunta-se algo, não sabe exatamente o quê.

A vida é mar revolto, levando para qualquer direção.

Esperava mais, porque não queria ser tanto.

Foi levado para a teia, não pode mais escapar.

Está exposto, indefeso, mas precisa atacar.

Chegou a este ponto quase sem entender como, pelos tortuosos caminhos da existência.

Restou apenas ser o que lhe restou ser.

O fardo é pesado, uma dependência que não mais acabará.

Quanto maiores somos, menos podemos.

Somos atravessados pelo tempo.

E sobra, em meio à frenética andança, essa solidão.

Quando tudo para por alguns minutos, fica o silêncio, que vai sendo mentalmente substituído por aquela melodia.

No fundo da alma, apenas a velha e animada tarantela, agora inacreditavelmente melancólica. 

Com ela, passeiam as lembranças dos tempos em que podia fazer escolhas e amar.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Surto

Fecho os olhos, estabilizo a atividade.

É só o preâmbulo do colapso.

O coração dispara, o cérebro dá pane.

E tudo se desordena, sem a certeza do próximo minuto.

As horas se arrastam enquanto os mundos se misturam.

O sol começa a se despedir pelos furinhos da persiana.

Quero levantar, mas não consigo.

Então fujo e me escondo.

Talvez tudo seja apenas um surto.

Talvez tudo volte a ficar bem.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Obtuso

Estou aqui, mas não tenho o menor interesse em ouvi-lo.

Quero mais um comprimido, você é o que mais abomino e desprezo.

Mundo feito de "admiráveis" presunçosos, perfeitos idiotas circenses que não me enganam desde o primeiro segundo. 

Devolva meu tempo!

Devolva meu dia!

Estupre-me com seu conhecimento vazio, masturbe seu intelecto.

Quem sabe eu possa engolir todas as suas bobagens?

Quem sabe eu possa fazê-lo engolir toda a sua imbecilidade, perder o ar e ficar roxo?

Você é mais do mesmo lixo, obtuso até o talo.

Você é fétido como esgoto.

Devolva meu tempo!

Devolva minhas horas!

Meu estômago dói, vou ao banheiro.

A privada está cheia.

Despeço-me e dou descarga em você.

domingo, 24 de agosto de 2014

Monólogo sem fim

O som dos vidros se tocando.

Plástico naqueles rostos.

Estou fora disso, com minha carne e meu sangue.

Alguns se apegam ao que não existe mais.

É a falsa ingenuidade que ajuda a construir uma identidade com cheiro de mofo.

Talvez seja pré-requisito para pertencer ao clube. 

O silêncio fala mais do que qualquer palavra.

Agora estou livre, sem precisar de nada.

Posso ser eu mesmo, e virar as costas para tudo que me enoja.

Todos precisam fingir que são importantes.

Todos precisam ter algo para dizer, mesmo que ninguém se importe. 

Mas abandonei minhas necessidades.

É como estar em coma acordado.

É como estar vivo sem um coração pulsando.

Desço do palco para esculhambar o enredo.

Dispenso os aplausos, abandono a cena em nome do caos e da desordem.

Deixo-me ser um monólogo sem fim, ecoando numa sala vazia.

sábado, 23 de agosto de 2014

Figurinhas das eleições

Em 2010 lancei a ideia. Está cada vez mais claro, principalmente depois do sucesso álbum da Copa, que a Panini deve investir na ideia. Fiquem com o texto "Políticos e figurinhas", escrito por este que vos fala em 2 de outubro de 2010, direto do túnel do tempo.

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Andando pelo centro de Porto Alegre ontem, recebi pelo menos uma dúzia de santinhos de candidatos. É impressionante a variedade! Tem pra todos os gostos. Mas é um desperdício. Desde já, deixo uma sugestão: a Panini poderia lançar o álbum de figurinhas das eleições. Seria sensacional!

O álbum viria dividido por partidos. Duas páginas para cada um. Dos maiores. Tipo, PT, PSDB, PMDB. Partidos como PSTU, PTN, PCO, viriam em uma página. Com aqueles cromos repartidos ao meio, com dois candidatos cada. Como a seleção da Bolívia no álbum da Copa de 1994.

Os candidatos das majoritárias poderiam vir naquele formato "quebra-cabeças". Aos poucos, daria pra formar a carequinha do Serra. O laquê da Dilma. A carinha de manga chupada da Marina.

Não poderiam faltar as figurinhas com os "distintivos" dos partidos. Com efeito holográfico, é claro. Estrelinha do PT, tucaninho do PSDB, mãozinha segurando a rosinha do PDT... E por aí vai.

O álbum poderia ser dividido por afinidades ideológicas. Uma parte para a esquerda. Outra para a esquerda porra-louca. Uma para o centro, uma para a direita, e uma para os partidos desprovidos de ideologia. Por maiores que sejam as dificuldades conceituais, ainda daria pra fazer isso com algum critério.

Imaginem as crianças jogando bafo e fazendo trocas no colégio durante a semana! "Tá me faltando o Cláudio Janta". "Eu tenho uma Maria do Rosário repetida. Troca pelo Sebenelo?". "Alguém aí quer a Ana Amélia?". "Não, obrigado".

No fim das contas e das eleições, os candidatos se resumem a isso mesmo. Figurinhas entulhando caixas de correspondência. Colocando-as num álbum, pelo menos aumentariam as probabilidades de o povo lembrar em quem votou nas eleições anteriores.

Panini, tá dada a dica. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Resplandecer e caminhar

Da escuridão da minha alma, faço-me luz.

Chegou o momento de resplandecer e caminhar.

A cegueira inicial vai passar, e seguirei.

Pois nada pode ofuscar essa estrada.

Guardo o que de mais doce eu tenho em mim.

Está bem no fundo do meu peito.

As pernas tremem, pareço transbordar.

Mas dou um passo de cada vez.

Se enfraqueço, paro um pouco.

Num sorriso, minha vida.

E então volto, e ando mais, e luto mais.

Quebro a ampulheta, liberto-me de todas as amarras.

Afinal, ser é apenas a sucessão dos estares.

Faço, assim, do que estou, aquilo que posso ser.

Se tenho somente este segundo, este segundo viverei.

E depois outro, e outro.

A liberdade é não mais esperar.

É dar-se o direito de viver o exato momento, com exatamente aquilo que ele proporciona.

Estou completo, mais do que nunca, mesmo que não tenha tudo.

Pois tenho tudo o que posso verdadeiramente ter: tenho a mim mesmo.

A menina e os escombros

A pequena garota está sozinha, caminhando pelos escombros.

No rosto sujo, lágrimas e alguma esperança vã.

Procura pelo pai, chama sua mãe.

Levanta, sob seus pés, o pó que se tornou sua vida, de uma hora para outra.

Sonhava, até que tudo desmoronasse.

Não há mais bonecas, apenas esse mundo que recomeça do zero.

A destruição possui um peso cruel.

Difícil para uma criança suportar.

Ela deve ter uns oito anos.

Terá de ser adulta daqui pra frente.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Espectador dormente

Ando sozinho pela rua.

Sozinho, mas cheio de gente ao redor.

A placa serve de colete para aquele homem.

"Compro almas, vendo almas."

Pequeno presente, pequena lembrança.

Suficiente, no entanto, para satisfazer aqueles que nada entendem.

Dão um pouco do seu tempo e do seu ser.

Mas é tudo tão oco.

Eis o imenso jogo de cena, e a repulsa inevitável a mim, espectador dormente.

Da essência, nada sobrou.

Talvez o jogo seja esse.

Nem por isso, me deixo jogá-lo.

Fico de fora, aplaudindo debochadamente, nauseado mas dono de mim.

"Compro almas, vendo almas".

Dane-se, não preciso disso.

Se ela, minha alma, mofar, ou perder o valor, ou tornar-se obsoleta, ainda terei meu orgulho.

Ela é minha, só minha, do meu jeito, de mim crescida e por mim cuidada. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

No giro do mundo

Deixe os olhos sorrirem.

O mundo não parou de girar.

Há mãos que, na cegueira da escuridão, podem lhe guiar.

A liberdade pulsa quando você se torna amigo de si mesmo.

Cante a música, deguste cada detalhe dessa melodia.

Há doces sabores espalhados por aí, mas não os procure no açougue.

Mesmo com nuvens, o sol está escondido mas presente lá em cima, trazendo sua luz.

E se chover, floresça e renasça mais uma vez.

E se chover, dance como se a nova ordem fosse apenas viver.

Venha comigo, vamos tirar tudo que faz o coração pesar.

Porque o amor não pode ser um fardo.

O que agride não pode acariciar.

O que lhe deixa em guerra não pode trazer paz.

E lembre-se que o mundo ainda está girando, ele não desiste.

Então, por que parar logo agora?

domingo, 17 de agosto de 2014

Máscara divertida

É tanto calor no coração que ele virou carvão.

Deixe-me ensinar como se usa esse objeto.

Arrancando cuidadosamente a pele do meu rosto.

Faça uma máscara divertida para você.

Batendo violentamente minha cabeça contra a parede até virar purê.

No piso escorregadio de molho, não há mais resistência para seus instintos.

Você não entende que o inferno é a minha mente?

Você percebe que estou condenado a seguir com essa repulsa até o último segundo?

Colecione almas, roube a minha.

E ria até explodir, sujando todo o recinto.

Pegue a boneca, quebre a porcelana.

Não emprestarei a minha cola.

Cresça e beba mais suco.

Sinais verdes, bendito encontro!

Não me convença de que isso é coincidência.

Bem-entendidos são a base de toda dissimulação.

Ateie o fogo, incendeie ainda mais.

Eu sempre soube exatamente o que aconteceria.

Existir é queimar.

É jogar-se de um abismo sem fundo.

É ter a falsa sensação de libertação.

Não conheço a verdade disso, não tive acesso a esta condenação.

Então cumpro a pena, perpétua até que termine. 

Vagando em mim mesmo.

Dilacerando cada pedaço do meu ser.

E fingindo que não sinto nada, apenas para não ser mais torturado.

sábado, 16 de agosto de 2014

Labirinto sem saída

Correndo por entre as árvores.

A fuga alucinada parece não ter fim.

O dia nunca amanhece.

Cortando os pés.

Fantasmas da noite perseguem sem perdão ou descanso.

Esta floresta é labirinto do qual nunca escapará.

Juntando os fragmentos.

A maldição talvez seja a de que isso jamais fará sentido.

Não há término para o anseio de vida e paz.

Buscando uma resposta.

Em cada canto, uma ameaça, aumentando a tensão.

Tudo o que existe pode não existir, depende da perspectiva.

Desistindo, enfim, sem mais força alguma.

Deita-se no mato, aceita o destino, aceita a demonstração de força vinda do alto.

Finalmente entendendo que não tem chance alguma de escapar ou vencer, deixa-se devorar pelas feras vorazes que tão pacientemente espreitaram, à espera do que já estava escrito e decidido.

Mais rápido

Caminhe mais rápido, apresse os passos.

Os reis aguardam mais uma taça de sangue.

Pense mais rápido, apresse sua mente.

Você não tem direito de se insubordinar.

Seja mais rápido, sirva-se com a massa ainda crua.

Seus donos estão famintos, e querem mais e mais de você.

Olhe para tudo mais rápido, apresse a sua vida.

A paisagem não pode ser observada.

E agradeça pela benevolência de joelhos.

E olhe de baixo, como se algo não pulsasse com os mesmos mecanismos.

E implore por mais uma gota de existência para quem mal sabe que você existe.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Flores de plástico

Bola de fogo ardendo no estômago.

Espalha-se pelas entranhas, tornando a dor insuportável.

Um pesadelo, sangue no chão.

Começamos apenas para esperar o fim.

E estaremos condenados à eterna insatisfação.

Porque o amanhã nunca chega.

Porque o próximo segundo já passou.

Acreditamos na utopia.

E fomos indefesos para um jogo de cartas marcadas.

Desminta-me, se for capaz.

Se o sol é um mentiroso que faz promessas vãs todos os dias, feche as persianas.

Até quando cheiraremos estas flores de plástico que nenhum perfume são capazes de exalar?

Da mente cheia de pus libertam-se fantasmas que me estrangulam todas as noites.

E no dia em que eu me livrar disso, por favor, sorria.

Cada um sabe do peso que aguenta levar nas costas, e por quanto tempo.

E no dia em que eu me livrar disso, por favor, abra a janela.

As nuvens carregadas podem ser a melhor resposta, prontas para lavar o próximo dia.

E tudo será esquecido.

E eu serei semente de uma próxima vida, bem mais feliz.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Mesmo número

Olhe sua pele, está cinza.

Despertar é difícil, quando as pálpebras não lhe obedecem.

Cada frase soprada ao ouvido pode ser a armadilha derradeira.

Exponha-me um pouco mais, deixe-me ao relento.

Em todos os cantos, você caminha por aí.

Suas companhias não me interessam.

E não quero saber se elas lhe agradam mais ou menos.

Pois tudo é carniça e putrefação, enganando e roubando.

Rejeito a chance de ser parte disso.

Se sou apenas o mesmo número, prefiro não ser.

Se sou apenas mais um, prefiro não ser. 

Se eu estiver longe, é porque já não valho nada.

Jogue dias e horas no lixo, minta para mim por alguns minutos.

Se respiro por aparelhos, faça logo essa eutanásia.

Recuso-me a ser farelo, se já não posso alimentar direito.

Deixo cada coisa no seu lugar, pois tudo pode me destruir.

Não me peça explicações, pois não tenho nada para dizer.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Voando e caindo

Do céu, eu vejo quanto tudo é insignificante.

Em minhas asas, todo o anseio por ser algo mais, por trazer alguma paz.

Agora eu sou um grande "sim".

Abra as portas para essa boa nova.

Inocentes úteis não são mais inocentes.

Dê um passo mais, eu posso lhe ajudar.

Tenho tanta vontade quanto você.

Velhos fumando palheiro são mentirosos disfarçando-se de ignorância.

Abra meu peito, deixe-me respirar.

Estou voando, não permita que eu caia.

Estou voando, experimento a liberdade.

Estou caindo, e isso me dá tanto prazer.

Estou caindo, e agora sei quem eu sou.

Do solo, eu vejo o quanto sou insignificante.

Ameaçado, esmagado, indefeso enquanto espero meu fim, tão menor que o pretendido.

Agora eu sou um grande "não".

Cercado por animais

Estou cercado por animais.

Urre e coma todo o lixo.

Satisfaça a carne maldita.

E ria como se fosse inocente.

Estou cercado por animais.

Mentira e cinismo, acredita quem quer.

Vou apenas vomitar toda essa porcaria.

Passe as fezes no rosto, cuide bem da sua pele.

Estou cercado por animais.

Lave sua boca antes que seus dentes caiam.

Patê espalhado no chão, gente faminta trará suas fatias de pão.

Não sobram palavras quando se está tão exposto.

Estou cercado por animais.

Arranque seus olhos para dizer que nada viu.

Na taça de vinho, apenas esgoto.

Coloque gelo e engula de uma vez só.

sábado, 9 de agosto de 2014

Cure-me, placebo

Com ou sem sol, o anoitecer é minha única certeza.

Cure-me, placebo.

É o sabor efêmero, que mal chega para logo partir.

Salve-me, placebo.

Fica o cheiro, fico eu, aqui no frio.

Mergulhe em minha corrente sanguínea, placebo.

A plenitude fica para amanhã; para hoje, apenas pílulas.

Agrida meu estômago, placebo.

É chegado o limite, uma multidão se arrasta.

Exploda meu peito, placebo.

As flores foram amassadas, restou o perfume.

Corroa minhas entranhas, placebo.

Sou a cobaia perfeita, um paciente terminal buscando uma esperança qualquer.

Mate-me logo, placebo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Riqueza e miséria

Lama na cara, esfregue um pouco mais.

Somos os palhaços do lodo, fazendo graça para tudo que nos cerca.

Linda plateia, o jato sai da minha boca solenemente.

Ladrões, amantes da boa arte.

Assassinos, eruditos.

Castrados, bons moços.

Misture e destrua tudo.

Sinto nojo, quero correr.

Limpe bem a boca, não deixe resquícios.

Escove bem os dentes, fio dental não é preto.

Tome o lugar, e me mate uma vez mais.

Deixo num canto a riqueza e a miséria.

Abra o espaço para os porcos domesticados mostrarem seu novo número.

Tudo será trocado, como sempre.

Morte em vida, substituição permanente.

E se não houver amanhecer, me dê sua mão.

E se não houver esperança, não me deixe ficar cego.

O que não é de interesse está sepultado.

O orgulho é uma mentira, apenas.

Então, eu salto do abismo sem medo.

O sangue se libertou, eu me libertei. 

Ventania no peito

Ventania no peito, a vontade mais intensa do ser.

Maré baixa após a tormenta.

Tudo se agitou, agora é calmaria.

Aprendemos a respirar fundo, e esperar.

Fazemos de cada palavra um alento.

E de seus significados, o motivo da nossa sobrevivência.

Nos olhos, o mais doce sorriso.

Na boca, o olhar mais fulminante.

O mundo inteiro para neste segundo para descansar.

É só a pausa para o reinício e o reordenamento do seu movimento.  

Lentamente, retoma sua rotação e translação, de uma nova e surpreendente maneira.

Resolve dançar ao redor do sol, como se fosse um gentil mestre-sala.

É a poesia que surge no infinito das estrelas e do universo.

Para que o mar nos banhe sem nos afogar.

Para que o querer persista, mas agora com leveza.

Inflando e desinflando, soprando para lá e para cá com harmonia.

Ventania no peito, a vontade mais intensa de ser.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Novo tempo

O mundo está destruído.

É quando surge uma luz por entre os escombros.

Somos nós, estamos vivos.

Foram tantas lutas e ensurdecedoras explosões.

Chegamos ao limite de nossos corpos e almas.

Mesmo quando derrotados, jamais nos demos por vencidos.

Por isso, levantamos do pó e das pedras.

É noite infernal que parece não ter fim.

Mas chegará o despertar em paz.

E admiraremos novamente o sol, a grama e as flores, sob a sombra de uma gigantesca árvore.

Estaremos puros e renascidos, iniciando um novo tempo.

Sem mais dor, sem mais lágrimas amargas.

E poderemos então descansar.

domingo, 3 de agosto de 2014

Girando pelo espaço

Veja seu rosto molhado no espelho, é hora de se olhar bem.

Se precisar, grite com toda a força do peito. 

Ressurja como a fênix, exploda essa energia.

Faça o mundo todo brilhar.

Aqueles que não entendem nada dos verdadeiros encantos da vida terão a visão ofuscada, mas e daí?

Existir é deixar-se levar pelo tempo com leveza.

Tudo muda enquanto giramos pelo espaço, e é isso que faz disso tudo uma delícia.

Erga a cabeça, desmanche as carrancas com o seu sorriso.

Há alguns anos eu disse que era um bobo, você lembra?

E como faz bem ser assim, reinventando em cada pequeno gesto o significado da alegria.

A redenção é agora, respire e agradeça este milagre.

Deixe-se pulsar, é isso que permite reescrever a própria história.

E se cair e o joelho se esfolar, encontre um sentido na dor.

Porque se dói é porque você tem vida.

E se cair, deixe-se cicatrizar, mas siga em frente.

Encontre em cada segundo a resposta que procura.

E não esqueça que a ausência de resposta pode ser a resposta para tudo. 

Faça dos seus braços, asas.

E voe.

Coloque um nariz de palhaço nos rostos inexpressivos dos ditadores da razão e da verdade. 

Eles nada têm a dizer da vida nestas páginas geladas e escritas para almas padronizadas em escala industrial.

Coloque suas cores neste preto e branco sem amor genuíno.

E sonhe. 

Porque tudo pode mudar enquanto girarmos pelo espaço.

E é por isso que isso tudo é uma delícia. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Florescer

Quantas vezes você já se perguntou se está realmente vivo?

Tantas palavras a dizer, tanto amor represado, ressecando e apodrecendo no peito.

Atravesse o rio, experimente respirar.

Voe e faça graça no ar.

Pise descalço no chão em que se sente acolhido.

O silêncio ecoa, a alma repousa.

E todos os medos de ultrapassagens, onde se situam?

E o temor do tempo que leva consigo as pétalas das flores que tudo colorem, em que canto está?

A doçura se derrama com o coração espatifado no chão.

É somente uma chance a mais de vermos aquilo que verdadeiramente somos.

Eis a natureza mais rica da qual dispomos.

Se somos loucos, é melhor permanecermos exatamente assim.

Correndo para brincar, não para chegar.

E então você está vivo na colherada de leite condensado, direto da lata.

E então você finalmente encontra a si mesmo ao rolar pela grama sem medo de sujar a roupa nova. 

E então você existe quando o mais lindo sorriso floresce.

Porque o que faz sentido é somente o que podemos sentir.