quinta-feira, 31 de julho de 2014

Milhares e milhões

Eis na mesa aquele homem e sua garrafa de cerveja.

Ele é o que sobrou depois da noite.

Talvez seja varrido pelo dono do boteco.

Por enquanto, não foi, e é isso que verdadeiramente importa.

Ser o último traz consigo algo de transcendental.

É como ser um sobrevivente do apocalipse, que apreciou cada movimento, da glória humana à derrocada mais fragorosa de dor, de morte e de humilhação.

É como ver a inocência amadurecer e apodrecer, tornando-se cinismo.

Bebe mais um gole, olha para o céu.

De que adiantam as estrelas se elas já não têm resposta alguma para oferecer?

Está entregue àquilo que sempre fora destinado a ser: nada.

Unidades, dezenas, centenas, milhares e milhões.

Tudo cresce exponencialmente, fazendo-o diminuir-se cada vez mais.

Para alguns, o ato de viver resume-se a ser engolido todos os dias, lutando para não ser digerido, nem expelido em forma de excremento.

Diante das opções, ser cuspido não parece tão desinteressante.

O suor, a falta de ar, a degradação humana, tudo torna-se número e padrão, nada mais que um extrato bancário de fim de mês.

Palavras sagradas para uns são profanas para outros.

Tal assimetria é injusta, destrutiva.

Mas um pouco de cegueira e ignorância às vezes faz bem.

Não importa se o doce é cancro disfarçado, envolto em açúcar.

Nada interessa que seja mentira, se servir como ração.

O que importa, o que realmente importa, é a alucinação provocada, e o ter o que dizer.

O que dizer? Isso tanto faz, contanto que se diga.

É disso que se vive.

Depois, quando o sol ressurgir, fingirão por aí que tudo voltou ao lugar.

E como é fácil, como é simples, como é sorrateiramente tranquilo o ato de roubar almas.

Distribuem-se as palavras como se estas fossem brindes, como se algo nessa podridão toda guardasse algo de especial.

São peles ouriçadas, sim.

São peles arrancadas para fazer um casaco mais.

Há quem se orgulhe.

E há quem se embriague com a farsa humana, que trata o que se diz como plumas entregues ao vento. 

A noite vai passando, a vida se esvai no copo.

A garrafa, amiga gelada e verdadeira, continua a conversar.

No entanto, ela também se esvazia, se esgota, como tudo, como absolutamente tudo. 

Aquele homem é fantasma de si mesmo, mas quem não é?

O brete é bem claro, delimitando a manada, oferecendo vacina e migalhas.

E este gado, rumando à morte, oferecendo leite, carne e sangue, é o que, se não fantasma?

Estamos fadados a ser sombra daquilo que fomos.

Aquele homem, sobrevivente do caos da noite, é o cego que, com o milagre da luz, retorna à escuridão.

Porque foi para isso que ele nasceu, para ser sombra. 

E coloca-se na mesa sabendo que não haverá luz do dia capaz de enganá-lo, nunca mais.

Ao fim e ao cabo, o que resta é somente sua única e inesgotável companheira, a eterna solidão. 

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