terça-feira, 22 de julho de 2014

Dunga: solução rasa para um problema profundo

Estou longe de ser um daqueles que acham um horror, um absurdo a contratação de Dunga pela CBF. Seu trabalho na Seleção para a Copa de 2010 esteve longe de ser um desastre. Quando passou pelo Inter no ano passado, foi engolido pela falta de qualidade do elenco, mas fez um trabalho bastante razoável para as possibilidades de que dispunha. Dunga é, sim, bom treinador. 

A crucificação preliminar que boa parte da imprensa impõe a Dunga não conta com meu apoio. Não o considero o anticristo, tampouco a destruição completa da Seleção brasileira- esta, Felipão e Parreira trataram de promover.  

Com Dunga, não haverá chacrinha, selfiezinha e oba oba. Não haverá Luciano Huck invadindo concentração. Não tem risinho e vaselina. Não tem estrelinha. É um sujeito sério. Controverso, muitas vezes, mas de caráter e personalidade fortes. O novo treinador fará um arroz com feijão bem feito, disso não tenho dúvida.

A grande questão é que talvez o futebol brasileiro precise de mais do que arroz com feijão. Uma lasanha, talvez, fosse uma boa pedida. E é aí que entra o macro do futebol nacional, que passa absolutamente batido pela visão rasa dos mandantes da CBF. 

Discute-se Seleção, e Seleção e Seleção. Discute-se Olimpíada e Copa do Mundo de 2018. Mas os problemas estruturais vão muito além disso. E mais uma vez, estão sendo negligenciados, por interesses já bem conhecidos. 

A bem da verdade, o que menos importa no momento é o nome do técnico da CBF. Se não se atacar a raiz do problema, não adianta ter como treinador Dunga, Tite, Muricy ou quem quer que seja. Claro, um ou outro treinador poderia ser a representação de um trabalho de maior fôlego e menor imediatismo, um trabalho que pudesse se dar de forma concertada com uma ampla reestruturação e discussão do futebol brasileiro. 

Dunga é um nome que representa provavelmente bons frutos para a Seleção Brasileira porque, como eu já disse, é bom treinador. Mas não necessariamente representa o avanço necessário para o futebol brasileiro, que é muito mais do que o time da CBF. Nosso problema não se dá de quatro em quatro anos. Se dá de ano em ano, de mês em mês. E a ambição deveria ultrapassar o ciclo de Copas do Mundo. Ela deveria se dirigir a termos estádios cheios como uma rotina nos campeonatos nacionais. Ela deveria se dirigir a banir a violência nos estádios, atraindo mais e mais mulheres e crianças para o campo. Ela deveria se dirigir a jogos de melhor qualidade. Ela deveria se dirigir a uma maior credibilidade administrativa, que evite campeões com asteriscos e rebaixados dentro das quatro linhas subindo nos tribunais. 

Afinal de contas, que porcaria importa ser penta, hexa, hepta ou octa, se no dia a dia temos públicos ridículos? Que porcaria importa um ouro olímpico se terminamos nossos campeonatos nacionais, olhando para a classificação final sem a certeza de que ela será mantida? Qual é a real importância de taças e mais taças se no fim-de-semana ensolarado o estádio não parece um programa atrativo, pela desorganização e ameaça constante de que meia dúzia de imbecis transforme lazer em desespero?   

O que fica, ao fim e ao cabo, é que tudo continua como estava, em sua essência. Dunga pode ser garantia de maior seriedade e disciplina. Com Dunga uma Seleção Brasileira jamais levaria 7 a 1 numa semifinal de Copa em casa. Mas essa é uma visão minimalista. É a solução rasa para um problema profundo. 

Seleção Brasileira é uma parcela- mínima, eu diria- do futebol brasileiro. E calendário? E distribuição de cotas de televisão? E modernidade de gestão? E a transformação do Campeonato Brasileiro num produto mais atrativo? E a transparência administrativa de CBF e federações estaduais? E o combate à violência dos marginais fantasiados de torcedores? 

Isso tudo, ao que parece, ficará para o Bom Senso Futebol Clube discutir. Pelo jeito, com as paredes.    

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