sexta-feira, 25 de julho de 2014

Açougue

É noite fria, estou efervescente.

Mergulho no líquido, sou um bom nadador.

Mereço a medalha, cheguei ao fim da prova.

Nariz entupido, besteira salgada.

Adentro o cano, quero sempre mais.

Engulo toda a sujeira, me delicio com minha miséria.

De volta ao esgoto, de onde eu jamais deveria ter saído.

De volta ao escuro, para não mais me cegar.

Vinte e nove velas, um funeral.

Preciso de alguns canos mais para sugar o que ainda resta de mim.

A carne se move lentamente, à esquerda e à direita.

Não há ideologia nesta posição tão libertadora.

Eis a vontade do instinto, levando cada migalha.

É o canibalismo que aperta, espreme e mastiga.

Mais é menos, tortura que não tem fim.
  
Sapatos brilham, é a mesma lambida.

Não quero lições de quem cospe na minha cara.

Dentes serrados são apenas uma brincadeira.

Mentiras são óbvias, a indigência faz crer.  

É neste imenso açougue que penso que sou uma ave.

É neste imenso açougue que penso que encontrei um lugar só para mim.

É neste imenso açougue que sou abatido mais uma vez.

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