quinta-feira, 31 de julho de 2014

Milhares e milhões

Eis na mesa aquele homem e sua garrafa de cerveja.

Ele é o que sobrou depois da noite.

Talvez seja varrido pelo dono do boteco.

Por enquanto, não foi, e é isso que verdadeiramente importa.

Ser o último traz consigo algo de transcendental.

É como ser um sobrevivente do apocalipse, que apreciou cada movimento, da glória humana à derrocada mais fragorosa de dor, de morte e de humilhação.

É como ver a inocência amadurecer e apodrecer, tornando-se cinismo.

Bebe mais um gole, olha para o céu.

De que adiantam as estrelas se elas já não têm resposta alguma para oferecer?

Está entregue àquilo que sempre fora destinado a ser: nada.

Unidades, dezenas, centenas, milhares e milhões.

Tudo cresce exponencialmente, fazendo-o diminuir-se cada vez mais.

Para alguns, o ato de viver resume-se a ser engolido todos os dias, lutando para não ser digerido, nem expelido em forma de excremento.

Diante das opções, ser cuspido não parece tão desinteressante.

O suor, a falta de ar, a degradação humana, tudo torna-se número e padrão, nada mais que um extrato bancário de fim de mês.

Palavras sagradas para uns são profanas para outros.

Tal assimetria é injusta, destrutiva.

Mas um pouco de cegueira e ignorância às vezes faz bem.

Não importa se o doce é cancro disfarçado, envolto em açúcar.

Nada interessa que seja mentira, se servir como ração.

O que importa, o que realmente importa, é a alucinação provocada, e o ter o que dizer.

O que dizer? Isso tanto faz, contanto que se diga.

É disso que se vive.

Depois, quando o sol ressurgir, fingirão por aí que tudo voltou ao lugar.

E como é fácil, como é simples, como é sorrateiramente tranquilo o ato de roubar almas.

Distribuem-se as palavras como se estas fossem brindes, como se algo nessa podridão toda guardasse algo de especial.

São peles ouriçadas, sim.

São peles arrancadas para fazer um casaco mais.

Há quem se orgulhe.

E há quem se embriague com a farsa humana, que trata o que se diz como plumas entregues ao vento. 

A noite vai passando, a vida se esvai no copo.

A garrafa, amiga gelada e verdadeira, continua a conversar.

No entanto, ela também se esvazia, se esgota, como tudo, como absolutamente tudo. 

Aquele homem é fantasma de si mesmo, mas quem não é?

O brete é bem claro, delimitando a manada, oferecendo vacina e migalhas.

E este gado, rumando à morte, oferecendo leite, carne e sangue, é o que, se não fantasma?

Estamos fadados a ser sombra daquilo que fomos.

Aquele homem, sobrevivente do caos da noite, é o cego que, com o milagre da luz, retorna à escuridão.

Porque foi para isso que ele nasceu, para ser sombra. 

E coloca-se na mesa sabendo que não haverá luz do dia capaz de enganá-lo, nunca mais.

Ao fim e ao cabo, o que resta é somente sua única e inesgotável companheira, a eterna solidão. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Adeus, Fausto

A morte- a princípio por suicídio- de Fausto Fanti, do Hermes e Renato, me pegou bastante de surpresa. É uma grande perda, de um grande talento, de um cara que, junto da sua trupe, exercitou, principalmente nos bons tempos de MTV, verdadeira liberdade para fazer humor, sem as malditas amarras do politicamente correto. Como singela homenagem, reproduzo aqui os 10 melhores momentos de Hermes e Renato, escolhidos por mim, e já publicados por aqui em janeiro de 2012.

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 Os 10 melhores momentos de "Hermes e Renato"

"Hermes e Renato" foi um clássico da MTV. Um programa marcante, amado e odiado, caracterizado por um humor absolutamente anárquico, simples, livre, e, por vezes (não poucas), escatológico. Após a transferência para a Rede Record, a trupe, que passou a se chamar "Banana Mecânica", nunca mais foi a mesma, sucumbindo no péssimo "Legendários". Porém, aquilo que eles fizeram de bom na MTV nunca será apagado. E é por isso que passo a apresentar, a partir de agora, a lista dos 10 melhores momentos de "Hermes e Renato":

10ª posição: O rei do sensacionalismo, Cláudio Ricardo, presta uma comovente homenagem a Dedé Carvoeiro (http://www.youtube.com/watch?v=NoVCczjF1WM).

9ª posição: "Mataram meu passarinho! Pega eles, Tupi! Pega eles, Tupi!" (http://www.youtube.com/watch?v=lvg_-vYTGhw).

8ª posição: Dona Máxima, a megera da novela "Sinhá Boça", dá uma voadora na empregada Jaqueline, após ter sido "agredida" (http://www.youtube.com/watch?v=HEbHGK03BVs).

7ª posição: Reggae do Maconheiro: "Sou rasta, vagabundo e cachaceiro" (http://www.youtube.com/watch?v=qgvInKzjxhk).

6ª posição: Boça e sua vingança maligna na lanchonete (http://www.youtube.com/watch?v=vh6IgsrdDFA).

5ª posição: LMV- Legião da Má Vontade: "Cada um com seus problemas" (http://www.youtube.com/watch?v=fDoSF4apVY4).

4ª posição: A comovente história de Charlinho, o menino que só queria estudar (http://www.youtube.com/watch?v=B6Vyhtvpp4k).

3ª posição: Professor Gilmar, dando um esporro histórico nos seus alunos de Direito, em "Sinhá Boça" (http://www.youtube.com/watch?v=99eDWSCQRgk).

2ª posição: "Merda Acontece", com o caso de Lindomar (http://www.youtube.com/watch?v=kwnUBxGKu9Q).

1ª posição: E o grande campeão do nosso ranking é o Palhaço Gozo, com o quadro "Alô Gozo" (http://www.youtube.com/watch?v=NJnAK6PQEjE). 

Contagem regressiva

Falta tão pouco, cada vez menos.

Eu ganharei o céu, e você também.

Voaremos, voltaremos.

Apenas não sei se conseguirei suportar a espera.

Tanto por desejar, mas o desejo é mais simples.

Que passe rápido, que o mundo não acabe.

Porque parece que ele vai desabar em minha cabeça.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Fracionamento

Num retrato, as lembranças.

Havia sol, e eu sentia vontade de sorrir.

Agora, me pego sozinho, com o coração gelado.

Quando ouço que há espaço para tudo e todos, sei bem que é mentira.

Quando ouço que sempre haverá mais tempo, sei que se trata de um engano.

Tempo e espaço são recursos limitados, e eu sei que não estou louco.

Quanto mais, menos.

Quanto melhor, pior.

É um processo de fracionamento permanente, diminuindo, tornando todo o sentido insignificante.

Sempre há uma boa substituição, o céu debochado sempre proverá.

E nada mais será como outrora, o esforço será em vão.

Tentarei fingir que ainda tenho importância, mas estarei cada vez mais longe da vírgula, engolido e sufocado pelos zeros.

Sabores fortes enjoam fácil, e às vezes agridem o sistema digestivo.

O que é insípido tomará meu lugar nessas veias e ficará, diluindo tudo que um dia eu fui, expulsando-me pela urina.

Assusta e desafia menos o paladar.

Não tardará, e haverá novos retratos, mais e mais, soterrando o meu.

domingo, 27 de julho de 2014

Derretimento

Perfeita obra de arte, esculpida com cuidado.

Beleza fugaz, destino certo.

Passageira, mortífera, mortal.

É só um sonho, uma noite.

Tão certa e cheia de vida, sabe o que ocorrerá quando o sol entrar pela janela ao amanhecer.

Derreterá, desfará toda forma e cor.

E será como se cada traço daquela doce perfeição jamais tivesse existido.

Será massa uniforme, sem mais detalhes ou contrastes para admirar.

Será resto disforme, esparramado pelo assoalho.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Açougue

É noite fria, estou efervescente.

Mergulho no líquido, sou um bom nadador.

Mereço a medalha, cheguei ao fim da prova.

Nariz entupido, besteira salgada.

Adentro o cano, quero sempre mais.

Engulo toda a sujeira, me delicio com minha miséria.

De volta ao esgoto, de onde eu jamais deveria ter saído.

De volta ao escuro, para não mais me cegar.

Vinte e nove velas, um funeral.

Preciso de alguns canos mais para sugar o que ainda resta de mim.

A carne se move lentamente, à esquerda e à direita.

Não há ideologia nesta posição tão libertadora.

Eis a vontade do instinto, levando cada migalha.

É o canibalismo que aperta, espreme e mastiga.

Mais é menos, tortura que não tem fim.
  
Sapatos brilham, é a mesma lambida.

Não quero lições de quem cospe na minha cara.

Dentes serrados são apenas uma brincadeira.

Mentiras são óbvias, a indigência faz crer.  

É neste imenso açougue que penso que sou uma ave.

É neste imenso açougue que penso que encontrei um lugar só para mim.

É neste imenso açougue que sou abatido mais uma vez.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ei, menina

Ei, menina, anteontem eu acordei feliz.

Mas logo em seguida, preferiria ter dormido novamente.

Ei, menina, ontem eu acordei vomitando.

E logo em seguida voltei para a cama para ver o dia passar pela janela.

Ei, menina, hoje eu acordei com o coração disparado.

E logo em seguida voltei para os pesadelos habituais.

Ei, menina, em nenhuma momento eu menti.

Expus minhas fraquezas enquanto você fingia se interessar.

Ei, menina, eu achei que poderia fazer sua vida bonita, mas sou tão feio.

Libertei-me pulando de um abismo de dor.

Ei, menina, eu achei que poderia lhe fazer feliz, mas sou tão triste.

E em frente ao espelho vejo como todos os sonhos são uma grande tolice.

Poeira varrida

Parado na esquina, varrendo os cantos.

Sua vida é o líquido que se vai pelo bueiro.

Ratos são reis.

A corte tem um odor fétido.

A poeira sobe, ele não se curva.

E limpa para poder sujar um pouco mais.

Pura pólvora, estômago frágil.

Não sabe como ainda está ali.

Certamente perderá, mas é um verme persistente.

De pé até ser esmagado.

Vivo até ser queimado.

Firme até virar poeira.

Movendo-se na esquina, sendo varrido pelos cantos.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Temor permanente

Tudo muda para ser exatamente o mesmo.

O tempo nos liquida e desgasta.

E quando não há mais palavras a dizer, somos enterrados.

Tudo que brilha, apaga.

Nascemos para não ser.

Tudo é tão passageiro, não há onde se segurar.

A vida é ventania, levando a nós e nossos sonhos.

Como imbecis, ainda ficamos à espera de algo.

Vagaremos neste escuro até o fim.

A cada salto no abismo, algumas cicatrizes a mais.

E nenhuma prova será suficiente para descansarmos.

Há ladrões por todos os lados, roubando o dia de amanhã.

Não há caminhada saudável, minas terrestres são um temor permanente.

Onde está a próxima armadilha?

Em qual ponto exatamente está o próximo deboche?

Em que estação encontrarei minha próxima dor? 

Um vácuo, um riso, e tudo é descontinuidade.

Tudo se acumula até a explosão.

Mas temos de ser fortes, e explodir sozinhos, com o menor ruído possível.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Dunga: solução rasa para um problema profundo

Estou longe de ser um daqueles que acham um horror, um absurdo a contratação de Dunga pela CBF. Seu trabalho na Seleção para a Copa de 2010 esteve longe de ser um desastre. Quando passou pelo Inter no ano passado, foi engolido pela falta de qualidade do elenco, mas fez um trabalho bastante razoável para as possibilidades de que dispunha. Dunga é, sim, bom treinador. 

A crucificação preliminar que boa parte da imprensa impõe a Dunga não conta com meu apoio. Não o considero o anticristo, tampouco a destruição completa da Seleção brasileira- esta, Felipão e Parreira trataram de promover.  

Com Dunga, não haverá chacrinha, selfiezinha e oba oba. Não haverá Luciano Huck invadindo concentração. Não tem risinho e vaselina. Não tem estrelinha. É um sujeito sério. Controverso, muitas vezes, mas de caráter e personalidade fortes. O novo treinador fará um arroz com feijão bem feito, disso não tenho dúvida.

A grande questão é que talvez o futebol brasileiro precise de mais do que arroz com feijão. Uma lasanha, talvez, fosse uma boa pedida. E é aí que entra o macro do futebol nacional, que passa absolutamente batido pela visão rasa dos mandantes da CBF. 

Discute-se Seleção, e Seleção e Seleção. Discute-se Olimpíada e Copa do Mundo de 2018. Mas os problemas estruturais vão muito além disso. E mais uma vez, estão sendo negligenciados, por interesses já bem conhecidos. 

A bem da verdade, o que menos importa no momento é o nome do técnico da CBF. Se não se atacar a raiz do problema, não adianta ter como treinador Dunga, Tite, Muricy ou quem quer que seja. Claro, um ou outro treinador poderia ser a representação de um trabalho de maior fôlego e menor imediatismo, um trabalho que pudesse se dar de forma concertada com uma ampla reestruturação e discussão do futebol brasileiro. 

Dunga é um nome que representa provavelmente bons frutos para a Seleção Brasileira porque, como eu já disse, é bom treinador. Mas não necessariamente representa o avanço necessário para o futebol brasileiro, que é muito mais do que o time da CBF. Nosso problema não se dá de quatro em quatro anos. Se dá de ano em ano, de mês em mês. E a ambição deveria ultrapassar o ciclo de Copas do Mundo. Ela deveria se dirigir a termos estádios cheios como uma rotina nos campeonatos nacionais. Ela deveria se dirigir a banir a violência nos estádios, atraindo mais e mais mulheres e crianças para o campo. Ela deveria se dirigir a jogos de melhor qualidade. Ela deveria se dirigir a uma maior credibilidade administrativa, que evite campeões com asteriscos e rebaixados dentro das quatro linhas subindo nos tribunais. 

Afinal de contas, que porcaria importa ser penta, hexa, hepta ou octa, se no dia a dia temos públicos ridículos? Que porcaria importa um ouro olímpico se terminamos nossos campeonatos nacionais, olhando para a classificação final sem a certeza de que ela será mantida? Qual é a real importância de taças e mais taças se no fim-de-semana ensolarado o estádio não parece um programa atrativo, pela desorganização e ameaça constante de que meia dúzia de imbecis transforme lazer em desespero?   

O que fica, ao fim e ao cabo, é que tudo continua como estava, em sua essência. Dunga pode ser garantia de maior seriedade e disciplina. Com Dunga uma Seleção Brasileira jamais levaria 7 a 1 numa semifinal de Copa em casa. Mas essa é uma visão minimalista. É a solução rasa para um problema profundo. 

Seleção Brasileira é uma parcela- mínima, eu diria- do futebol brasileiro. E calendário? E distribuição de cotas de televisão? E modernidade de gestão? E a transformação do Campeonato Brasileiro num produto mais atrativo? E a transparência administrativa de CBF e federações estaduais? E o combate à violência dos marginais fantasiados de torcedores? 

Isso tudo, ao que parece, ficará para o Bom Senso Futebol Clube discutir. Pelo jeito, com as paredes.    

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Couvert

- Ei, garçom!
- Pois não, senhor.
- Por favor, poderia me trazer uma manteiguinha?
- Como?
- Uma manteiga, para acompanhar o couvert. Você pode me trazer, por favor?
- Não.
- Hein?
- Não.
- Mas... Nas outras mesas... Estou vendo várias pessoas com manteiga.
- Sim, é verdade.
- Então? Acabaram as manteiguinhas?
- Ainda temos manteiga, senhor.
- Pois me traga uma, por favor.
- Não.
- Mas... Por quê?
- Eu conheço um pervertido de longe, senhor. 
- Hã?
- Gente do seu tipo está por todos os lados. Depravados como você estão por toda a parte, a quem você pensa que engana?
- Mas... Eu só quero uma manteiguinha!?
- E ainda tem a desfaçatez de pedir como se fosse normal.
- Ué! Mas eu só quero uma manteiga!
- Que tipo de restaurante você acha que é esse? É um restaurante de família. Tem pais, mães, crianças. O senhor não se envergonha?
- Do quê? Por favor, só quero uma manteiguinha pra passar no pão!
- Pão?! É assim que depravados como você chamam...?
- Hã?
- Fora daqui, senhor. Ou terei que chamar a segurança.
- Como?
- Fora daqui. Vá fazer suas pequenas brincadeiras doentias noutro lugar!
- Mas...
- Fora! Não vou falar mais uma vez.
- Mas... Nem um requeijãozinho?

domingo, 20 de julho de 2014

O lobo e as hienas

O lobo solitário uiva para a lua.

Não há mais espaço para seu antigo lamento.

Força, imponência, cansaço.

Conquistou o céu para jogar-se do precipício.

Logo abaixo, hienas salivam à espera da carne fresca.

Tão raro, tudo é questão de oportunidade.

E ao seu modo rasteiro, alimentadas de resquícios e sobras, elas sobrevivem, elas vencem, elas riem.  

Vida e dor podem se tornar um belo banquete.

Lobo da lua, lobo da angústia.

Agora é apenas carcaça.

sábado, 19 de julho de 2014

Tulipas

Quando você sente dor, eu gostaria de levar um pouco comigo.

Quando você respira, quero compartilhar este ar.

Quero sua voz no meu ouvido, quero a sua boca na minha.

Recebi sua melodia, lhe trouxe algumas tulipas.

Linda flor, pedaço de mim.

Se hoje trago um sorriso, você é responsável por isto.

Se hoje trago esperanças, você é a tradução para tudo o que quero.

Você traz a luz do sol, e quero poder iluminar um pouco, também.

Meu amanhã mais bonito tornou-se hoje com você.

Então eu lhe trouxe algumas tulipas, agradecendo pela sua existência na minha vida.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Pílula vermelha

Vim de um lugar que só eu conheço.

Enxergo para além da superfície.

Todos estão dormindo por baixo dessas máscaras de permanente vigília.

Doam sangue para seus reis beberem em seus tronos de ouro.

Já não são almas, são apenas etiquetas e rótulos.

E suas existências dependem não mais deles mesmos, mas dos outros.

A escravidão está disfarçada de liberdade e glória.

Então eu sou o incômodo, e prometo continuar a sê-lo.

Sou como um fantasma que eles se negam a ver, mas sabem que existe.

Joguei a pílula azul na privada, e dei descarga.

Sim, só tenho a pílula vermelha para lhe oferecer.

Então, venha comigo ou permaneça sendo um holograma.

A escolha é muito simples, entre ser visto e não existir, ou existir e não ser visto.

Sim, eu já fiz a minha.

Então, vomite toda a mentira que engana o estômago, mas não alimenta.

A escolha é muito simples, entre ser o prisioneiro que se destaca ao lado do rei, e ser livre sem mais necessitar da miserável riqueza deste palácio.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Chuva e contraste

Chove forte.

O céu cinza é lamento.

A água é purificação.

O sol ressurgirá, brilhante.

Dos contrastes surge a beleza.

E do intimidador trovão, o riso.

Tudo há de ser melhor.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Caminhando na areia

Caminho na areia sem me preocupar com o local ao qual vou chegar.

O destino é incerto, e certa somente é a textura dos grãos que massageiam meus pés.

Ouço as ondas, olho para o céu de fim de tarde.

A beleza é ímpar, pronta para se esgotar em instantes, e é isso que a torna docemente melancólica. 

Não há recipientes para se guardar sensações, e em toda a felicidade genuína, em sua perfeita imperfeição, há o germe da tristeza mais sublime.

A noite chegará, e as ondas levarão consigo os vestígios dos meus passos.

Mas isso não importará mais.

Tudo que brilha como as estrelas, algum dia se apaga.

Não é fim, não há fim.

Porque cada passo é uma fração da eternidade.

E deixa demarcada sua existência, mesmo que venha a aparentemente desaparecer.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Moedas e miséria

Cadeira de rodas, unhas pretas.

Esgoto vivo, odor fétido que resulta de existências perfumadas. 

Ele é o embrutecimento de todos nós.

Feito de sobras, vida de restos.

Moedas e miséria.

Ele é lixo, já não é mais humano.

Varrido para baixo do tapete.

Porque, por mais que fale, ele é mudo.

E nós, surdos e cegos.

domingo, 13 de julho de 2014

DC extra: Ficou em boas mãos

Acabou-se a Copa, com uma belíssima final.

Final entre dois times de futebol.

Times com organização, com postura, com grandeza.

A Argentina superou-se.

Marcou e lutou.

Criou suas oportunidades.

Teve a desvantagem de ter enfrentado uma semifinal duríssima, com prorrogação e pênaltis, um dia depois do adversário, que enfrentou um time de várzea um dia antes.

Foi resistente, mas sentiu mais uma prorrogação, e o esgotamento escancarado de seu time. 

É inegável, porém, o absoluto merecimento alemão.

Futebol pode, sim, combinar eficiência tática com muita qualidade técnica.

A Alemanha sempre soube o que fazer em campo.

Encarou dificuldades durante a Copa.

Mas superou todas exatamente por ter a noção das ações a adotar a cada dificuldade.

Seus únicos jogos verdadeiramente fáceis foram contra Portugal com um a menos e contra o Brasil com onze a menos. 

Não precisou de choro, não precisou de berro, não precisou de canastrices.

Perdeu Marco Reus, talvez seu melhor jogador, antes do Mundial, e não tratou tal fato como o dramático falecimento de um herói nacional.

Simplesmente seguiu.

Trabalhou com competência.

E venceu.  

Parabéns, Alemanha: Campeã e melhor time da Copa do Mundo de 2014.

Scolari e a sua fuga da realidade

A desconexão da realidade do técnico da CBF, Luiz Felipe Scolari, atinge níveis alarmantes.

Não se sabe se ele fala as coisas que fala a sério, ou se ele pensa que alguém se engana.

Subestima demais a inteligência do torcedor.

Ontem, o técnico fez elogios à campanha brasileira na Copa (leia aqui).

Disse também que não vê como essa Seleção Brasileira possa ser criticada (leia aqui).

A "campanha maravilhosa" da Copa foi construída na base de vitórias e empates conseguidos sempre com más atuações diante de times ou fracos, ou sem peso, ou as duas coisas. É, acima de tudo, uma campanha pautada pela fraqueza, pelo fracasso, e por uma avalanche de recordes negativos que só comprovam que a visão donalucista de Scolari é uma farsa (leia aqui).

Após a derrota acachapante para a Alemanha, tentou-se impor a esdrúxula tese do "apagão", jogando para debaixo do tapete toda uma preparação equivocada pautada em uma visão ultrapassada de futebol e no pensamento mágico de que se vai ganhar só na base do "vamos que vamos".

Mas a realidade tratou de desmentir essa balela no jogo diante da Holanda. Foram mais três gols na sacola, e outra atuação pavorosa.  

Quando a Copa começou de verdade para o time de Felipão, contra adversários qualificados e que não tremem diante da ridícula paçocada emocional oferecida pela Família Scolari, a campanha foi a seguinte: 2 jogos; 2 derrotas; 1 gol marcado; 10 gols sofridos.

Mesmo que amenizemos a situação, guardemos as más atuações numa gaveta e consideremos toda a campanha, os números são alarmantes. A CBF sofreu 14 gols em 7 jogos, média de 2 por jogo. Isso significa que para vencer seus jogos, o time tinha de marcar uma média de 3 gols por partida. Simplesmente o dobro da média de gols marcados, que foi de algo em torno de 1,5 gol por partida. 

Os números da "bela campanha" são secos, objetivos e incontestáveis. São cruéis e vorazes. Contra eles, não há qualquer argumento minimamente válido.

A Seleção Brasileira foi um tremendo vexame estatístico, desportivo e comportamental nesta Copa. Negar isto é negar a realidade. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A Rede Globo e as Donas Lúcias

A cobertura que a Rede Globo e seus braços fazem da Seleção Brasileira geralmente é surreal, ufanista, pachequista e completamente fora do tom. Isso não é novidade para ninguém.

Mas a empresa tem conseguido se superar absurdamente nos últimos dias, após o fiasco histórico do Brasil diante da Alemanha.

No mar de bobagens propagadas por Luiz Felipe Scolari, Carlos Alberto Parreira e cia, surgiu aquela que foi a cereja do bolo: a cartinha da Dona Lúcia.

A boa velhinha exaltava a competência, o caráter e a humildade de Felipão e sua Comissão Técnica. Dona Lúcia, que se pudesse, mandaria anexado ao e-mail um bolinho de cenoura, agradecia entusiasticamente o imenso favor feito por Scolari e sua trupe.

Depois disso, a família de Dona Lúcia- sim, aquelas pessoas devem ter algum grau de parentesco com a benevolente e compreensiva senhorinha, e, imagino, utilizem o sobrenome Pacheco- (veja aqui) apareceu na Granja Comary, tirou fotos com José Maria Marin e proporcionou mais um episódio engraçadíssimo e surreal.

Acumulam-se coisas inacreditáveis na CBF ao longo não só da Copa, mas desde muito tempo. O vexame- sim, vexame- foi apenas o desfecho de uma história pavorosa que acumula incompetências, e desatualizações pautadas por uma visão ultrapassada de um futebol que "se ganha no grito, no hino, no patriotismo e na magia da amarelinha, sempre com muito orgulho e com muito amor".

Neste momento de imenso desgosto e vergonha futebolística para os torcedores da Seleção Brasileira, o que se coloca na pauta é o repensar estrutural do futebol brasileiro. Filosofia de jogo, métodos de trabalho, tendências táticas, estrutura e calendário do nosso futebol. Há gente muito séria pensando e falando sobre isso de forma muito clara- embora, infelizmente, seja provável que esteja falando para as paredes.

Mas a Rede Globo, com seus interesses muitas vezes obscuros, mantém em seu jornalismo um modo muito "Dona Lúcia" de encarar os acontecimentos. Pena, para Dunga, que não havia uma doce e meiga Dona Lúcia para salvá-lo das palavras secas, diretas e cheias de ódio da plim-plim e seus anexos, quando o Brasil fora eliminado com um 2 a 1 (só cinco gols a menos, afinal) da Copa de 2010.

Agora, o que vemos é uma salva de palmas no patético programa matinal da não menos patética Fátima Bernardes, uma espécie de encarnação real de alguma personagem das tramas aguadas de Manoel Carlos, com seus dramas e pequenas tragédias do sofrido povo do Leblon.

Vemos, também, a pobre repórter-musa que chora, sem saber explicar para as criancinhas o que será do mundo após uma derrota da CBF. Realmente comovente. 

Agora, vejo no Globo.com uma iluminada matéria com psicólogos explicando o "apagão" (leia aqui). Eles defendem muito carinho neste momento, e que, não, não é vergonha nem vexame. Sofrer 7x1 em uma semifinal de Copa dentro de casa é corriqueiro e normal. Abracemo-nos todos, choremos e cantemos o hino nacional a plenos pulmões, porque um novo dia há de raiar.

É a sublimação do cinismo. 

É evidente que houve, TAMBÉM, um problema emocional. Mas ele foi decorrente de um trabalho horroroso da CBF e de sua Comissão Técnica, que- jamais esqueçamos- convenceu os jogadores de que o time seria campeão a qualquer custo, que isto estava escrito nas estrelas (relembre aqui e aqui). Foi precisamente daí que se gerou a perplexidade e o descontrole a cada dificuldade que aparecia. 

A Globo e sua postura benevolente, com sua abordagem de Dona Lúcia, está buscando defender os seus interesses, não os do futebol brasileiro. Colocar o dedo na ferida pode comprometer um tipo de relação que a ela é bastante conveniente. Brigar com a CBF pode significar perder o direito de colocar Luciano Huck na concentração da "nossa" seleção. Vazar o pus contido no futebol brasileiro pode comprometer o direito de transmitir jogos às 22h de quarta-feira, "logo após as emoções de 'Em Família'". 

Rever o futebol brasileiro é algo ao mesmo tempo amplo, profundo e inadiável. Passa por discutir, a sério, qual futebol queremos, em todos os âmbitos, passando por uma profissionalização crescente das gestões desde a base até o nível mais elevado e visível, chegando à visão mercadológica do esporte bretão no Brasil, seu tratamento como produto final. Passa por examinar criticamente as cotas de televisão distribuídas com ridícula desigualdade entre os clubes, cada vez mais enfraquecidos e estupidamente desunidos. Passa por um tipo de calendário que talvez não sirva à Globo. Passa por uma revisão estrutural de uma instituição que lhe é parceira e, uma vez rompidos os vícios, pode deixar de sê-lo.

A defesa de que está tudo bem, que foi apenas "uma pane", serve a interesses bastante específicos e mesquinhos. Não há interesse global em fazer do futebol do país um produto melhor. O único interesse aí contido é de que ele se mantenha sendo um produto SEU. Por isso, a luta incessante e estapafúrdia de justificar o injustificável. É um contorcionismo emocional ridículo, infantil e abominável. 

A mudança radical e necessária dá medo. É uma ameaça à hegemonia de quem manda e desmanda no nosso futebol. É até certo ponto esperável, mesmo com a perda de uma boa dose de dignidade e credibilidade, que a principal emissora do país tão desesperadamente se abrace ao status quo. Ela está defendendo seus interesses empresariais. "São apenas negócios".

O torcedor? Ah, este que se dane. Ou, como diria o competente e humilde Luiz Felipe Scolari: que vá para o inferno. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Anacronismos

Sua garganta está ressequida.

Era melhor ter se hidratado.

Velho ciclo, até afundar na areia movediça.

Mergulhe com cuidado, prepare o estômago.

Vazio e silêncio, não há como propagar seu desespero.

Crianças correm, velhos morrem.

E tudo torna-se anacrônico, contrariando seus desejos.

Acelerando o descanso, tornando lento o desgosto.

Permitindo que seu recanto seja destruído de maneira impecável.

Sonhos são varridos como pó.

E os anseios quebram-se no chão, cacos de vidro afiados, prontos para cortar seus pés.

Viva seu próprio apocalipse, quebre o espelho.

O fogo que aquece, queima.

O frio que ameniza, congela.

O coração que pulsa, mata.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Enganou-se quem quis

Ontem, a Seleção Brasileira deu o seu maior vexame- disparadamente- na história das Copas.

Não há o que justifique uma Pentacampeã do Mundo ser estraçalhada como foi, diante da Alemanha.

O que se viu não foi um jogo de futebol. Não, amigos. Se viu um time de futebol: o alemão.

Do outro lado, havia um amontoado pastoso, desorganizado, completamente entregue. Eram moscas voando para lá e para cá, atordoadas por um eficaz spray de inseticida.

A Seleção Brasileira foi nada menos do que ridícula.

Óbvio que um 7x1 representa uma humilhação que ficará marcada para todo o sempre.

Ficará nas páginas mais gloriosas de qualquer livro que trate da Seleção Alemã, e nas páginas mais negras da história desportiva da CBF- que, sim, fora das quatro linhas, consegue ter histórias ainda mais cabeludas e descabidas.

A Copa das Copas ofereceu mais uma lição, não só para a seleção, mas também para o futebol brasileiro como um todo.

Mãozinha no ombro, saltar veias do pescoço cantando hino, esbravejar, tudo isso é perfumaria diante do jogo jogado. Pode ajudar, circunstancialmente? Pode. Mas não é tudo. Sem uma bola que role redondinha de um pé ao outro, sem uma marcação que encaixote o adversário, sem trabalho eficiente, isso tudo é tão inútil quanto camisinha para eunuco.

A exemplo de 2006, a Seleção Brasileira foi uma tremenda palhaçada.

Assim sendo, diante das dificuldades e da miserável falta de soluções no jogo jogado, o que se apresentou foi um desempenho horroroso.

O amontoado formado foi convencido pela Comissão Técnica e pelos Pachecos de plantão de que seria Hexacampeão. Só não foi avisado de como faria isso. E isso repercutia em extremo descontrole emocional nos momentos em que dificuldades se apresentavam.

Alguns atletas pareciam fazer beiço e, se pudessem, começariam a bater o pé e aos prantos gritar: "Manhêê! Paiêêê! Eu não ia ser campeão? Manhêê! Paiêê! Esses bobos não querem me deixar ganhar a taçaaaaa! "

Más atuações foram se seguindo.

O time claudicava na primeira fase contra seleções que nunca foram exatamente potências do futebol mundial.

Nas oitavas e nas quartas, enfrentou bons times.

Contra o Chile, sucumbiu, e só passou graças ao Sobrenatural de Almeida.

Contra a Colômbia, teve espasmos de bom futebol, muito mais pela perturbação de um adversário atônito pela grandeza do momento do que por grandes méritos técnicos ou táticos.

Inclusive, nos últimos 15 ou 20 minutos daquela partida, quando a Colômbia já se via como caso perdido e, tirando um pouco do peso das costas, passou a jogar futebol, deu um calor danado nos meninos de Scolari.

Nas semi, o primeiro grande desafio: um time grande, extremamente qualificado, de camisa. Um time que não tremeria com berros em hino nacional. Um time que jogaria seu futebol de cabeça erguida.

Primeiro grande desafio, definitivo e contundente fracasso.

A Alemanha esmagou. Fez sete porque puxou o freio. Poderia ter feito muito mais.

É o melancólico fim da linha para uma medíocre Seleção Brasileira numa extraordinária Copa do Mundo.

Claro que os sete são surpreendentes. 

Mas o resultado final e prático, para quem via com olhos minimamente realistas o que estava ocorrendo, não.

Enganou-se quem quis.

Esconderijo libertador

Edredom, esconderijo.

Passos ensaiados, copos cheios e vazios.

As palavras, produtos pasteurizados nestas bocas.

Causas nobres, interesses rasteiros.

Jogo de cena, mentiras erguidas ao ar.

Ninguém tem coragem de gritar e romper.

Guardo meus resíduos, já não pertenço a isso.

Ainda existe amor, sem morte diária.

Ainda existe vida, sem máscaras ou superegos.

Ainda existo aqui, com motivos tão meus.

Longe de tudo, mais perto de mim.

Satisfeito com a verdade, e com aquele sorriso doce que me faz seguir assim. 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Via única

Meia idade, meio realizado.

Fios brancos, lenta despedida.

Estabilidade sobre a corda bamba.

Conta gorda, cartão carregado.

Alma raquítica, arma carregada.

Sobre os papéis, tinta vermelha.

Assinatura definitiva, final homologado em via única.

sábado, 5 de julho de 2014

Garota

Garota, meus dias com você sempre são ensolarados.

Fico como um bobo buscando explicações para mim mesmo.

Ah, garota, quando te vejo os meus olhos brilham.

E me sinto grato por estar aqui.

Garota, você me ensinou a ser feliz.

E às vezes, confesso, temo desaprender.

Ah, garota, e tudo que eu digo é tolice para quem não tem alma.

Mas não me importo se isso lhe fizer sorrir.

Garota, meu peito agora transborda.

Troco séculos de imortalidade gélida por um segundo sentindo seu calor.

Ah. garota, estou lhe dando minha mão para caminharmos sem rumo.

Porque, ao seu lado, qualquer caminho levará ao lugar onde desejo chegar. 

Pachequismo desenfreado

A Copa do Mundo é um evento magnífico, mas tem seu outro lado da moeda: é sempre um momento propício para a exacerbação do pachequismo latente no peito de cada um.

Não condeno. Quem quer ser Pacheco, que seja. Pouco ou nada me importa.

Me importa, sim, e incomoda, é que esses Pachecos queiram mandar no comportamento, na torcida e nos sentimentos de cada um.

Com a lesão de Neymar, isso ficou muito claro.

Se você não chorar um oceano de lágrimas por uma lesão que vai levar um mês de recuperação, você é um "traidor da nação".

Se você não acha que Zuñiga é a encarnação de Lúcifer destinada a promover o Armagedon e banhar a humanidade em sangue fervente, você "deveria se mudar daqui". 

Menos, gente. Bem menos.

Óbvio que o que aconteceu com Neymar não deixa ninguém feliz. Lamento pelo moleque. Mas o estardalhaço todo, a condenação pública à guilhotina de Zuñiga, tudo isso é um tremendo exagero.

O colombiano foi maldoso, sim. Fez uma daquelas típicas faltas para intimidar o adversário. Comprou o risco inerente ao ato. E deu o azar de ter efetivamente lesionado Neymar. 

Vejam bem, não estou dizendo que isso é bonito ou correto. Estou dizendo que é bastante recorrente no futebol. E é.

Neymar vai perder o restante da Copa da mesma maneira como ocorreu com Ribéry, Montez, Falcão Garcia e Marco Reus. Todos os times destes atletas seguiram suas trajetórias com relativo sucesso na Copa, e o mundo não acabou para ninguém.

"Ah, mas era o Mundial no Brasil. Neymar perdeu a chance de brilhar num título inesquecível".

É, cara-pálida: então deveriam ter guardado Neymar numa redoma de vidro até a final. Enquanto se joga, há esse risco, de divididas, jogadas ríspidas e deslealdades pontuais. 

Repito: não digo que é bom, apenas digo que existe. 

Isso sem contar que não há a menor garantia de que: 1. o Brasil vá ganhar a Copa; e 2. Neymar brilharia numa eventual final (não havia brilhado em três dos cinco jogos da seleção até agora: México, Chile e Colômbia). 

E então, chegamos ao cerne do que originou esse debate: o pachequismo desenfreado.

A seleção brasileira não é o país (desculpem-me os que pensam o contrário). É um time de futebol. Só isso.

Não sinto empatia, não sinto vontade de torcer pela CBF, e creio que este seja um direito democrático (ainda).

Dependesse de alguns, seria criado um chip de patriotismo e patriotada, e seria instalado no cérebro de cada cidadão brasileiro.

Não torcer pela seleção (ainda) não é crimideia. 

É um direito legítimo que deve ser respeitado. Assim como respeito aqueles que sentem essa empolgação toda pela CBF, que eu, como amante do futebol, como alguém que se delicia com cada minuto de bola rolando nesta fantástica Copa do Mundo, até gostaria de sentir, mas não sinto. 

E não me sinto menos brasileiro por causa disso, porque, repito, o Brasil é bem mais do que um time de futebol.    

Acima de tudo, não sou nem um pouco adepto ou simpatizante do "Ame-o ou deixe-o". 

Esse tipo de mentalidade binária e maniqueísta- creio que alguns saibam- pode causar um tremendo estrago.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Humilhação soberana

Eles rastejam no chão sujo de champagne.

Lambem cada gota derramada.

Eles rastejam no chão por um pouco de atenção.

Lambem as botas, são os reis.

Humilhação soberana, um ato patético.

Saliva corre pelas bocas, ouça aquelas risadas.

Carteirinha para membros, mais um e mais um.

Todos iguais, por um lugar ao sol.

No final, só restou a ânsia de vômito.

Humilhação soberana, seres humanos que se superam.

No final, só restou bile onde as botas pisaram.