sexta-feira, 27 de junho de 2014

Mar de ressaca

Forças da natureza recolhidas.

Meu interior, energia que pulsa.

Mar de ressaca, areia molhada.

Após a explosão, a certeza de que nada mais será igual.

Flores desabrocham das entranhas, o mundo se moveu de verdade.  

Meu coração, de tão preenchido de vida, agora descansa.

Do tum tum tum à quietude.

Tempo, carrasco que injeta o veneno gota a gota.

Do tic-tac ao silêncio definitivo.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Brincando na chuva

Chove lá fora, as crianças brincam.

Não se preocupam com a roupa suja.

Não pensam em resfriados e espirros.

Apenas chutam as poças, apenas riem.

Porque a única coisa que não é virtual é o agora.

E ele pode ser delicioso e simples.

Com o peito cheio de alegria e os olhos brilhando, elas seguem.

Apaixonando-se pela vida, doce dádiva.

Esquecendo as procrastinações de uma felicidade artificial, imposta, prometida e nunca conquistada.

Este anseio, este querer que borbulha na alma, é simplesmente inadiável.

Porque o céu cinza e chuvoso também pode trazer satisfação.

Não deixa de ser belo, não deixa de ser céu. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Dores e cores

A noite acabou, o sol chegou.

Não há trevas que durem para sempre.

A dor passou, bálsamo no peito.

Não há ferida que nunca cicatrize.

Ainda existem as cores, balde de tinta virado sobre tudo o que já fora cinzento.

Há bons dias para se respirar fundo e viver de verdade.

E agora não é tarde, a luz explodirá em mim, vista por toda a galáxia, intimidando a escuridão do infinito.

Em minhas narinas, o persistente cheiro das flores do paraíso.

Em meu coração, transbordamento de mim mesmo, a força do amanhã que sempre poderá sorrir.

Em minha alma, toda a gratidão por ainda existir.

Pois mesmo quando lágrimas surgirem, algo ainda fará sentido.

E reinará a paz daquilo que pulsa por alguma coisa valiosa, para além da vã espera de velas e flores.

Porque somos loucos assim mesmo, e de nossas loucuras faremos a razão que transcende toda a mesquinhez do maldito jogo raso que nos recusamos a jogar.

Porque somos tinta que respinga no nariz, e de nossas dores faremos mais e mais cores. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Meu céu

De todos os dias que se passaram, hoje eu sei os que mais valeram.

Há tanto por ver, tanto por descobrir.

Com você, tudo pode ser mais bonito.

Minha luz, meu brilho, reflexo dos seus olhos.

Num momento me reencontro, e tudo ganha um significado.

Ganho força, e tudo parece insignificante perto daquilo que você é dentro do meu peito. 

Se falo das estrelas, da lua ou do sol, é só porque você é meu céu.

E quando eu me perder em você, deixe-me lá, onde me sinto melhor.

Deixe sua boca me responder sem dizer nada.

Sim, nós podemos reinventar a felicidade.

Você sabe o quanto me inspira?

E o bem que me faz, você sabe?

Por isso, peça que eu deixe de respirar, se for este o caso.

Mas não peça que eu esqueça você. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Árvore sem folhas

Sei tudo que fui, tudo que não sou mais.

Eu sempre soube das coisas que se vão num estalar de dedos.

Me sumo, me consumo.

E não há mais com o que se preocupar.

Pois estou me evaporando.

Fui apenas um espectro, ou um holograma que fez ou disse algo útil.

Me deixe em paz e sozinho.

Não há mais necessidade, quando algo melhor cresce.

Sou árvore velha, já não tenho folhas.

E algo novo e melhor sempre surgirá na sua estrada.

E algo novo e melhor já surgiu para você, sorria para a luz que vai piscar.

Então não finja mais que algum dia eu existi.

Não finja mais que tenho algo a oferecer.

Pois não quero mais respirar por aparelhos.

E agora estou me libertando, já não tenho necessidades.

E agora estou indo embora, já não sou necessário.

Você está livre.   

O preço de voar

Acordei, acordei, mas fiquei tão parado aqui, uivando em solidão.
Eu tentei, eu tentei emergir, mas permaneci submerso em mim.
Eu lutei, eu lutei, mas caí, não mais levantei, estou de novo assim.
Eu busquei, eu busquei algo pra sorrir, mas não consegui, e fiquei no chão.

E o que me faz brilhar, me apagou.
O que me faz ganhar, me derrotou.
E o que me faz gritar, agora me calou.
O que me faz crescer, hoje me limou.

Eu mudei, eu mudei, arrisquei tesouros em vão, tola decisão.
Retornei, retornei ao ponto inicial, perto do final, explorei meu mar.
Eu paguei, eu paguei o preço de voar, tive que aterrissar, mal saí do lugar.
Arranquei, arranquei a raiz, tudo em minha mão, gélida razão.

E o que me faz brilhar, me apagou.
O que me faz andar, me derrubou.
E o que me faz gritar, agora me calou.
O que me faz viver, hoje me matou.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Neymar, o bom moço

http://oglobo.globo.com/esportes/copa-2014/craques-dentro-de-campo-neymar-messi-tem-atitudes-opostas-com-fas-12888345

Agora, essa.

Neymar, o herói nacional, o salvador de criancinhas indefesas.

Messi, o malvado, bicho-papão.

O argentino se defendeu (http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/06/16/messi-se-defende-de-acusacoes-e-diz-que-jamais-ignoraria-uma-crianca.htm).

Em vídeo, inclusive fica claro que após cumprimentar a arbitragem, o craque argentino cumprimenta outro garoto (http://www.ojogo.pt/mundial2014/grupo_f/Argentina/interior.aspx?content_id=3974309).

Se Messi fosse a encarnação do mal, não teria cumprimentado nenhum.

Simplesmente não viu o primeiro.

Quantas e quantas vezes estamos distraídos e passamos batidos sobre várias coisas ao nosso redor?

"O Globo" dá exemplo de péssimo jornalismo.

Expressa uma tentativa ridícula e desesperada de criar simpatia artificial por seu queridinho, e antipatia pelo argentino, criando uma falsa dicotomia (Neymar é espetacular, mas ainda tem que comer muito, mas muito feijão para amarrar a chuteira de Messi).

Ainda perguntarão mais vezes: Neymar ou Messi?

E assim como em 2011, creio que por um bom tempo continuarei respondendo: Messi, é claro (http://dilemascotidianos.blogspot.com.br/2011/12/messi-e-claro.html).

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Pedaço de dor

No meio da rua, no meio da multidão, eu caminhava.

Tantos rostos sem forma passam, meros objetos cenográficos.

Então, passo por aquele homem de meia idade, com lágrimas nos olhos.

A encarada é rápida, como se ele pedisse socorro não para mim, mas para a vida.

É coisa de segundos.

E, de uma forma ou outra, a loucura, dessas reflexões que dão um significado ímpar às coisas.

Em uma fração de fração de fração de fração de tempo, vi compartilhado comigo um pedaço de uma dor que desconheço.

Mas que provavelmente era a maior dor do mundo naquele momento.

domingo, 15 de junho de 2014

Assustadora

http://extra.globo.com/noticias/mundo/menina-com-cicatrizes-no-rosto-expulsa-de-restaurante-por-assustar-clientes-nos-eua-12863720.html

Uma menininha de 3 anos de idade, com cicatrizes no rosto.

Assustadora?

Não, não.

Ela é linda do jeito que é.

Mas existe, sim, algo bizarro nisso: a ignorância dessa gente que expulsou a menina do restaurante.

Existe, sim, algo extremamente incômodo nisso: a falta de humanidade dessas pessoas.

Isso, sim, é extremamente assustador.

sábado, 14 de junho de 2014

Areia fina

O passado não passa.

O presente não é.

E o futuro é uma incógnita previsível.

Será, para todo o sempre, passado que não passará.

Será, para todo o sempre, uma promessa que não se cumpre.

Será, para todo o sempre, uma porção de areia fina, fugindo por entre os dedos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Aula holandesa: como se portar quando se está goleando

Podem falar o que quiserem, mas uma verdade é insofismável: para quem gosta de futebol, a Copa do Mundo é uma deliciosa overdose.

Há pouco, jogaram Espanha e Holanda.

Que jogo magnífico!

Muito mais por parte da Holanda.

Ensinou como se portar em uma goleada.

Fez o terceiro? Busca o quarto. Fez o quarto? Busca o quinto.

Em futebol, não existe piedade.

E, para o perdedor, nada é mais humilhante do que ver que o adversário não está jogando o máximo.

Coisa chata é time que se acomoda com uma goleada (e às vezes até com menos).

Como se fosse um pecado, uma afronta à etiqueta, fazer mais gols sobre um adversário abatido. 

Uma das vitórias mais irritantes do Inter a qual já assisti na vida foi um 8 a 1 sobre o Caxias na final do Gauchão em 2009.

Isso: um 8 a 1 me irritou.

O Inter fez 7 a 0 no primeiro tempo.

O que o inocente aqui esperava?

Ora, que o Inter fizesse mais seis, sete, oito gols.

14, 15 ou 16 a 0. Por que não?

O Inter fez um pálido gol ao final daquele jogo.

Até dava pra compreender o time se poupando. 

Mas no papel de torcedor, eu queria mais, muito mais.

Queria tantos gols quantos fossem possíveis.

O Inter fez menos.

E, até comemorar, tive que conter o meu aborrecimento por alguns minutos.

Futebol é para fazer gols.

E quanto mais, melhor.

A Holanda deu aula de como se buscar mais gols.

Era o atual Campeão do Mundo do outro lado? Paciência.

Marque mais, busque mais, pressione mais.

Aproveite a perturbação do adversário.

E faça mais, e mais, e mais.

A Holanda deu um espetáculo de como encarar uma goleada.

Gol, meus amigos, nunca é demais.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Carpinejar fala sobre suas expectativas para a Copa do Mundo

- Amigos do DC, como todos devem saber, hoje começa a Copa do Mundo. Por isso, estamos aqui com o Carpinejar, que hoje vai falar sobre o torneio de futebol que mais mexe com os corações das pessoas. Olá, Carpinejar!
- Olá. Alô. Olé. Ali. Babá. Quarenta ladrões. Que são o quarenta e um que esqueceu uma alma pelo meio do caminho. Ladrões. Que são os compradores que levam o dinheiro apenas na consciência. Consciência. Que é a inconsciência que se libertou e resolveu surgir para todos. 
- O que você espera deste jogo inaugural entre Brasil e Croácia?
- Brasil. Brasão. Brasa. Churrasqueira. Chama que me chama. Chama que me aquece. Maminha e picanha. Croácia. Croissant. Crocância. Crocs. Croata. Cratera. Lasanha à bolonhesa. Lasanha e Saldanha. Porta de madeira.
- Uhum... E favoritos? Quais seriam para você? A maioria fala das cinco maiores forças, Brasil, Argentina, Alemanha, Itália e Espanha...
- Favorito. Curtido. Compartilhado. Favorito. Favor. Don Corleone. Brasil. Brazuca. Branca de Neve. Argentina. Menina. Menina argentina. Meninos. Mordida. Alfajor. Major. Alfa e Beta. Alfabeto. Betamax. Beto Bombeiro. Maria Bethânia. Britânia. Britânico. Britadeira. Paulo Brito. Feito, emoção e batata na boca. Alemanha. Alento e desalento de vidas vividas e sonhadas. Alemanha. Manha. Alemanha manhosa. Como um canalha. Canalha, que não é cafajeste. É canalha. Como um beijo na minha nuca, congelando a espinha. Itália. Tattaglia. Itália no talo. Talão de cheques. Que é o cartão de crédito que resolveu se vestir em modelo retrô, e sair às compras. Espanha. Espinho. Espinha. Acnase. Aracnídeo. Aracy Balabanian. Espanha. Que poderia levar um x, um x, um x no seu coração. Ex-panha. Que é a panha que desistiu de tudo. E agora é Ex-panha. 
- Ok. Há também um segundo grupo, no qual poucos acreditam para título, como Ingleterra, Uruguai, Holanda...
- Inglaterra. Ingla. Terra. Terra dos ingleses. Íngua. Míngua. Água. Leite. Mingau. Com ou sem canela. Sabor característico. Adoça. Adocica, meu amor, adocica. Adocica, meu amor, a minha vida, oi. Jaspion. Uruguai. Uai. Mineiro. Uai. Why? American Pie. Clóvis Bornay. Uruguai. Doce de leite. Mumu. Mu de Áries. Holanda. Ivo Holanda. Buarque de Holanda. Holanda. Olinda. Holandês. Eu perguntava, tio holandês. Eu te abraçava, tio holandês. Lembrar você, um sonho a mais não faz mal.
- E as surpresas? Fala-se em Bélgica, Costa do Marfim...
- Bélgica. Belga. Beldade. Bel Marques. Fada Bela. Falabella. Miguel Falabella. Débora Falabella. Dado Dolabella. Netinho de Paula. Mike Tyson. Chaveiro. Costa do Marfim. Costa. Massagem nas costas. Meu arrepio. Arrepio provocado e provocante do canalha. Que não é cafajeste. É canalha. Como uma língua que se entrelaça para maldizer logo depois. 
-Ahã. E o craque da Copa? Despontam nomes como Neymar, Iniesta, Messi, Cristiano Ronaldo. O que você acha?       
- Craque. Crack. Maconha e cocaína. Neymar. Ney e mar. Mergulho. Mar de rosas. Flores. Que são a grama que resolveu se produzir para a festa de gala. Iniesta. E nesta. E naquela. Iniesta. Neston. Nescau. Nestlé. Garoto. Michael Jackson. Sopa de cebola. Messi. Meço. Medes. Mede. Medo. Medonho. Nhonho. Que é o filho do Seu Barriga. Seu Madruga. Quico e Chaves. Hector Bonilla. Cristiano Ronaldo. Cristão. Ronaldo. Zina. Naldo. Nadadeira. Golfinho. Garfinho. Garfinkel. Garfield. 
- Certo. Obrigado, Carpinejar. Até a próxima.
- Próxima. Que é a anterior que resolveu esperar mais um pouco. Vez que não chega. Vez e voz. Avós. A vós. Que são o tu multiplicado. Multiplicação, que é a rival da divisão. Divisão, que é a subtração que resolveu se organizar em partes iguais. Igual, que é o diferente que resolveu fazer a barba.  

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Objeto inorgânico

Vá lá, faça o que quiser.

Talvez surja algo novo para substituir.

Deixe o que passou esquecido no chão, pisoteado.

Misture-se ao que detesta.

E depois venha se lamentar.

Torne-se um objeto inorgânico.

E depois venha se queixar.

Jogue o jogo, perca o jogo.

E depois venha chorar.

Nada pulsa, nada segue.

A estrada estará vazia.

É sua vontade de se incorporar.

E ao final, desmontada a armadura de precisões, só restará a carne podre e fétida. 

É seu anseio, em busca de nada.

E tudo se resumirá a lembranças do que nunca aconteceu.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Invisíveis

Ela caminha solitária no meio da multidão.

Sente-se invisível, indo para o nada.

Engolida pela existência, sem sentido algum.

Figurante de sua própria vida.

Mal percebe o quão linda ela é.

Observada por mim, solitário, do alto da janela.

Eu, invisível, mergulhado no meu nada.

Eu, aqui, engolido pela existência, sem sentido algum.

Eu, figurante de minha própria vida.

Tão longe, sem saber o nome daquela beleza rara, sem poder dizê-la o quanto me inspira.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Banalidade

Acordo.

Levanto-me.

Inicio, mais uma vez.

Saio para a rua.

Faço o que tenho de fazer.

Retorno para casa.

Deito-me.

Durmo.

Termino, mais uma vez.

sábado, 7 de junho de 2014

Pequena crônica de um sábado triste

Foi um sábado triste ao extremo.

Desde o choque da manhã, correndo o dia, até a noite, busquei manter a estrutura.

Lacrimejava pelos cantos, me mantinha econômico nos gestos.

Saí, e vi uma Porto Alegre cinza, que não sorria.

A melancolia estava no ar, estava na atmosfera.

Porto foi tudo, menos Alegre.

E independia de cores clubísticas: era uma consternação geral, dos colorados e da esmagadora maioria dos gremistas, que em dia tão doloroso demonstrou uma grandeza de espírito admirável.

Cada movimento de inspiração e expiração foi pesado, difícil. 

Mas tentei rir, tentei viver.

Ao fim do dia, porém, todo o hercúleo esforço se fez vão.

Desmoronei nos braços de minha mãe.

E chorei como uma criança.

Nunca haverá adeus suficiente, Fernandão. 

Luto

Hoje, o DC esté de luto pela morte do eterno ídolo colorado, Fernandão.

Deixo a quem quiser ler, o link com minha coluna de hoje no Final Sports, uma singela despedida do Capitão Planeta: http://asombradoseucaliptos.final.com.br/2014/06/07/adeus-querido-capitao/

Até mais.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Existência pasteurizada

Sorriso mentiroso, apenas um engano a mais.

Para todos que não se interessam, o brilho.

Isso não faz a menor diferença, porque preciso vomitar.

Tudo que é exposto é de plástico.

Mostre-me seus piores demônios, e não aquilo que lhe impõem.

Talvez seja ingenuidade ou insegurança.

Mas é tão desnecessária essa demonstração tola.

Patética necessidade, alimentando-se de frutos cenográficos.

Essa prisão é insuficiente, tente parecer um pouco mais.

Manipulável, sufocando-se para a próxima brincadeira.

Faça-se produto, mais um objeto para consumo.

Em promoção, preço baixo no encarte.

Da prateleira para todos, sem ter seu próprio lugar.

É mais fácil assim, existência pasteurizada.

Cumprindo à risca o velho jogo da oferta e da procura.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Pele ou lâmina

Depois que estive vivo, me deixei congelar.

E fiquei bem longe.

Mas toda esta força se desintegra rapidamente.

Redescubro o encanto dos seus olhos, e me rendo de novo.

Já não sei como fugir.

Não sei mais quantos dias se passarão.

Sustente minha existência enquanto aguardo, espera para a eternidade.

É noite, e me sinto sozinho.

É noite, e preciso me divertir.

Estou, mas não sou.

Doce sabor, vômito azedo do amanhã.

Pele suave agora, lâmina que me corta logo depois.

De nada adianta conhecer o destino quando queremos nos entregar no momento presente.

O preço já não tem importância alguma.

É o que sinto hoje, para depois da minha vida.

Estará lá, pulsando, mesmo que num átomo.

Estará lá, brilhando, maior que o universo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Surdez, cegueira, mudez

Vermelho, piso escorregadio.

O mundo inteiro é um imenso canto.

Não há como se esconder.

Verde, tapete sujo.

Cada lugar é escuro.

Não há como fugir.

Expanda o tempo, abra o peito.

Viva o eterno amanhã.

Comprima o tempo, feche este peito.

Morra em cada hoje que vira ontem.

Surdez, cegueira, mudez.

Não há sentidos, não há sentido.

Cale a boca, baixe a cabeça.

Toda sabedoria é enganosa.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Já não espero mais

Abra a porta, não estou aqui.
Ouço sinos decadentes.
O que faço sempre sai do tom.
Tantos riscos, tantos erros.

Eu perdi meu tempo com você.
Eu queria ser melhor.
Mas agora já não quero mais.
Mas agora já não espero mais.

Não me diga o que vai viver.
Não me avise o que faz doer.
Fim de guerra, mesmo sem paz.
Eu escolho não olhar pra trás.

Eu perdi meu tempo com você.
Eu queria ser melhor.
Mas agora já não quero mais.
Mas agora já não espero mais.

O vazio me tomou.
O vento congelou.
Nada em vista, mas me sinto bem.
Nessa estrada já não tem ninguém.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Poça de sangue

Era noite fria.

Eu precisava tirar um dinheiro no banco.

Vaguei pela rua até achar um 24 horas.

Adentrei.

Eram quatro caixas.

Escolhi o terceiro, da direita para a esquerda.

Enquanto me dirigia para a máquina, num rompante, tudo escureceu e se apagou.

Meu estado de inconsciência não durou muito.

Então, voltei a mim mesmo.

Abri meus olhos, e estava deitado sobre uma imensa poça de sangue. 

Não sabia o que era real, nem se era real.

Dali, do chão, enxergava aqueles sapatos, uma calça escura, de linho, e uma pasta, dessas de executivo.

Tentei não me mexer, tentei não fazer ruídos.

E tudo voltava a escurecer, inescapavelmente.

Não sentia dor alguma.

Apenas me sentia apagando, sugado por uma força estupendamente poderosa.

Minha consciência estava indo embora de forma lenta, porém inapelável.

E naquele último instante, eu apenas me perguntei se voltaria a despertar, numa cama, talvez, ou se estava adormecendo para sempre.