sábado, 31 de maio de 2014

"Setevidas": uma breve análise do novo álbum da Pitty

Há 11 anos, mais ou menos, eu me dirigia à Multisom numa manhã ensolarada de segunda-feira para comprar meu cd do mês. Era uma espécie de ritual: todo mês, eu comprava algum disco. Nesse dia específico, uma música insistia em pulsar na minha cabeça: era "Admirável Chip Novo", de uma para mim até então sombria nova roqueira que surgia no cenário pop nacional. Resolvi, então, comprar o álbum daquela moça. Não me arrependi, e me apaixonei pela banda, a ponto de fazer de uma de suas músicas, "Déjà Vu", tão a minha cara, a minha música de formatura.

Passou-se mais de uma década daquele dia de 2003. Hoje, com seus 36 anos, Pitty alia maturidade e explosão juvenil em mais um ótimo álbum. Me impressiona o fato de que ela e sua banda não baixem o seu excelente nível. É o quarto álbum de estúdio. E todos são realmente muito bons. É até difícil compará-los, uma vez que cada um possui seus encantos muito particulares. Este novo, "Setevidas", guarda a mesma atmosfera sombria e tensa do anterior, mas possui vida própria. Talvez sete, vá lá. Tem seus pontos baixos, sim. Mas os pontos altos compensam com alguma sobra. Abaixo, deixo minhas breves impressões sobre cada uma das dez faixas.

1. Pouco: A música começa com uma pegada bem interessante, até ser tomada por incômodos e irritantes gritinhos e sussurros de "é pouco", e "tão pouco", que só não estragam totalmente a canção porque o final mais acelerado dá um toque de fúria genuína bastante agradável para fechar a faixa (https://www.youtube.com/watch?v=-9EKA4hvM2s).

2. Deixa ela entrar: Bom rock'n'roll: letra bacaninha, um solo de guitarra breve, mas marcante, e um ritmo que faz o ouvinte se mexer, mesmo que involuntariamente, e vai crescendo, levando a um refrão mediano, que poderia oferecer um pouco mais (https://www.youtube.com/watch?v=4uX3BVLTjLM).

3. Pequena morte: A faixa mais fraca do disco. Sua ausência não faria o álbum perder absolutamente nada. Música legalzinha para se ouvir enquanto se coloca a camisinha. E só (https://www.youtube.com/watch?v=SNy50z1NGBc).

4. Um leão: Música com a assinatura da Pitty, tendo o ponto alto nos seus 2 minutos, com uma deliciosa transição para a estrofe subsequente. O refrão tem melodia previsível, mas é muito bem interpretado (https://www.youtube.com/watch?v=fUSrocn3o_I).

5. Lado de lá: É aqui que o álbum começa a crescer de verdade. Minha música favorita deste disco, pelo menos num primeiro momento. Canção com a força e a grandiosidade que a última faixa talvez pretendesse ter, mas não consegue. É melancólica, poética, sombria. Traz na sua tristeza e angústia uma beleza ímpar. Uma das melhores canções da história de Pitty e sua banda (https://www.youtube.com/watch?v=BJ7nUE5YcfU).

6. Olho calmo: Ótima canção, alia a doçura das estrofes com um belo e libertador refrão, explosivo na medida exata para formar um belo contraste com o restante da música. A voz de Priscilla Leone está especialmente bonita nessa faixa (https://www.youtube.com/watch?v=Cv282pioZno).

7. Boca aberta: Possui uma atmosfera tensa e excelente letra, mas tem um prejuízo praticamente irreparável provocado por um refrão que deixa muito a desejar, parecendo meio mal encaixado no resto da música (https://www.youtube.com/watch?v=lddhA3HitVs).

8. A massa: A letra mais legal e arrojada do álbum. Extremamente sagaz, extremamente inteligente. Traz, ainda, uma interpretação inesquecível da Pitty. Faixa muito bacana, ótimas estrofes, refrão muito agradável, desses que despertam uma vontade incontrolável de sair cantando junto (https://www.youtube.com/watch?v=sF3DnoNQmDg). 

9. Setevidas: Primeiro single, que leva o mesmo nome do álbum. Um hino para aqueles dias em que você resolve levantar da cama, secar as lágrimas, jogar tudo que não serve no lixo e sair para a rua para mudar tudo para melhor. Música absolutamente contagiante (https://www.youtube.com/watch?v=6qpV_KiB3Gg).

10. Serpente: Música que tenta dar um caráter de grandiosidade para o fim do álbum, porém, não convence. É uma pena, porque a letra não é ruim. Mas músicas com "ô ô ô" caem muito fácil na armadilha de se tornarem clichê. Ficou com jeito de campanha da Coca-Cola em época de Copa do Mundo. O álbum merecia um desfecho melhor e mais cru (https://www.youtube.com/watch?v=8NOVRObwZFA).   

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Percepção tardia

Raios, numa fração, a noite se faz dia.

Trovões, nuvens em santa guerra.

Gotas d'água, purificação do céu.

Firmamento, todos de braços abertos esperando pelo grande fim.

Não se trata de apenas mais uma tempestade.

A percepção é tardia, fechamos este ciclo sem termos iniciado de verdade.

Já não há mais perdão possível enquanto o chão se abre.

Já não há mais esperança esperável enquanto mergulhamos nas chamas.

Já não há mais lágrimas que purifiquem nossos olhos, devorados por cada visão que não quisemos ter.

Eu queria apenas mais uma chance de ouvir aquela doce sinfonia.

Eu queria apenas mais uma chance de ser iluminado pelo sol.

Eu queria apenas mais uma chance de me comover com o brilho daqueles olhos.

E aproveitar a liberdade que eu nunca soube que tive.

E aproveitar a paz e o descanso, perdidos enquanto, desavisado, eu estava em guerra comigo mesmo. 

E aproveitar toda a vida que, represada em meu peito, agora apodrece dentro de mim.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Quantos voos mais?

Quantos voos mais serão necessários para que eu encontre o meu caminho?

Quantos voos mais serão necessários para que eu chegue ao meu destino?

Quantos voos mais serão necessários para que eu chegue ao meu ninho?

Quantos voos mais serão necessários para que eu encontre o meu céu?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa descansar?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa me libertar?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa me aquecer?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa encontrar minha paz?

Quantos voos mais serão necessários para que eu possa voar? 

Quantos voos mais? Quantos medos? Quantas quedas?  Quantos erros?

Quantos voos mais?

terça-feira, 27 de maio de 2014

Perguntas e respostas

Você me pergunta por que sou tão estranho.

Simplesmente não sei lidar com divisões.

Você me pergunta por que eu desisti de tudo.

Não sou parte disso, não tenho talento para este desfile.

Você me pergunta por que não estou sorrindo.

Meu rosto está cansado, estou morrendo lentamente.

Você me pergunta por que abandonei a esperança.

Na verdade, eu que fui abandonado por ela.

Você me pergunta por que não olho para o dia de sol.

Isso só serve para me cegar.

Você me pergunta por que já não tenho mais vida.

Perdi toda luz, tudo foi artificial.

Eu sou apenas uma escuridão que você jamais vai compreender.

Eu sou apenas aquele que se despede todos os dias.

Eu sou apenas um espasmo de felicidade, em meio a uma dor que nunca cessa.   

Eu sou apenas o amor esmagado, o sangue coagulado de um coração que desistiu de pulsar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Água e espuma

Um gosto de vida, pequeno espaço para dois corpos.

Água quente cai no meu rosto, não enxergo nada, mas isso não tem importância.

Aqui os olhos são acessórios, pois todas as texturas estão na boca e nos dedos.

Espuma corre entre nós, lubrificando cada pequena fricção.

Já não são necessários superegos e pequenas vaidades quando estamos tão expostos.

Aqui não há perdedores, tampouco falsos vencedores.

Então, deixo o mundo e os vermes explodindo lá fora, existências vazias com suas glórias tacanhas, tocando-se em frente ao espelho. 

No fim disso tudo, tudo apodrecerá, até as presunções megalomaníacas de cada dia.

Então, ficamos aqui, entregues à água, à espuma, ao tato e à saliva.

Afogados deliciosamente em nossos instintos.

Entregues aos nossos desejos.

Sem que nada mais importe.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

"Avellaneda e eu"

"Quis fazer-lhe uma surpresa. Fui esperar por ela a uma quadra do escritório. Às sete e cinco eu a vi aproximar-se. Mas vinha junto com Robledo. Não sei o que lhe dizia Robledo, mas o certo é que ela ria às frouxas, divertindo-se a valer. Desde quando Robledo é tão engraçado? Entrei em um café, deixei-os passar e depois os segui, a trinta passos de distância. Ao chegar à Andes, os dois se despediram. Ela dobrou para tomar a San José. Ia para o apartamento, claro. Entrei em uma cafeteria pequena e suja, onde me serviram um pingado em uma xícara que ainda trazia marcas de batom. Não bebi o café, mas nem disse nada ao garçom. Eu estava agitado, nervoso, inquieto. Sobretudo, indignado comigo mesmo. Avellaneda rindo com Robledo. Que mal havia nisso? Avellaneda em uma simples relação humana, não meramente de trabalho, com um sujeito que não era eu. Avellaneda seguindo pela rua com um homem jovem, alguém de sua geração, não um velhusco como eu. Avellaneda longe de mim, vivendo por conta própria. Claro que não havia nada de mal naquilo tudo. Mas a horrível sensação provém, talvez, de que esta é a primeira vez que entrevejo conscientemente a possibilidade de que Avellaneda possa existir, desenvolver-se e rir, sem que meu amparo (não digamos meu amor) seja imprescindível. Eu sabia que a conversa entre ela e Robledo havia sido inocente. Ou talvez não. Porque Robledo não tem como saber que ela não é desimpedida. Que idiota, que piegas, que convencional me sinto ao escrever: 'Ela não é desimpedida'. Desimpedida para quê? Talvez a essência de minha inquietude seja ter comprovado isso, nada mais: que ela possa se sentir bastante à vontade entre gente jovem, especialmente na companhia de um homem jovem. E outra coisa: isso que eu vi não é nada, mas, por outro lado, é muito o que entrevi, e o que entrevi é o risco de perder tudo. Robledo não interessa. No fundo é um frívolo que jamais chegaria a lhe interessar. Mas e os outros, os outros espalhados pelo mundo? Se um homem jovem a faz rir, quantos outros poderiam atraí-la? Se ela me perde um dia (sua única inimiga pode ser a morte, a maliciosa morte que nos tem a todos fichados), ela teria ainda a vida inteira, teria o tempo em suas mãos, teria seu coração, que sempre será novo, generoso, esplêndido. Mas se eu a perco um dia (meu único inimigo é o Homem, o Homem que está em todas as esquinas do mundo, o Homem que é jovem e forte e que promete), perderia com ela minha última oportunidade de viver, o último respiro do tempo, porque embora meu coração agora se sinta generoso, alegre, renovado, sem ela voltaria a ser um coração definitivamente envelhecido.

Paguei o pingado que não tomei e me dirigi para o apartamento. Levava comigo um embaraçoso temor de seu silêncio, sobretudo porque sabia de antemão que, mesmo que ela não dissesse nada, eu não iria investigar, nem perguntar, nem reprovar. Simplesmente ia engolir a seco a amargura e, isso sim era certo, começar uma era de pequenas tormentas sem vazão. Tenho uma desconfiança particular em relação as minhas épocas sombrias. Acho que minha mão tremia quando fiz girar a chave na fechadura. 'Por que chegou tão tarde?', gritou da cozinha. 'Esperava você chegar para contar a última loucura do Robledo, que figura! Fazia anos que não ria tanto.' E apareceu no living com seu avental, sua saia verde, seu pulôver preto, seus olhos limpos, cálidos, sinceros. Ela não poderá saber nunca que me salvava com aquelas palavras. Puxei-a contra mim e, enquanto a abraçava, enquanto aspirava o cheiro ternamente animal de seus ombros através do cheiro universal da lã, senti que o mundo começava a girar de novo, senti que poderia relegar a um futuro longínquo, ainda inominado, essa ameaça concreta que se chamara Avellaneda e os Outros. 'Avellaneda e eu', eu disse devagar. Ela não entendeu o porquê dessas três palavras nessa ocasião em específico, mas alguma obscura intuição a fez saber que estava acontecendo algo importante. Separou-se um pouco de mim, ainda sem me soltar, e pediu: 'Vamos ver, diga outra vez'. 'Avellaneda e eu', repeti, obediente. Agora estou sozinho, de volta em casa, e são quase duas da manhã. De vez em quando, simplesmente porque me dá forças e vigor e sustento, continuo repetindo: 'Avellaneda e eu'."

(Mario Benedetti. A trégua/ tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre: L&PM Editores, 2011.)   

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Primata de gravata

Manhã de vazio, a tragédia está anunciada.

Não é a morte, é apenas a continuidade.

Dentes arreganhados, um tanto de satisfação alheia.

Ontem foi um novo dia.

Jogue-me no palco, chicoteie o meu lombo.

Amanhã é um velho dia.

Jogue-me no chão, dê um tiro na minha cara.

Hoje é o mesmo dia.

Primata de gravata, ganhe mais alguns aplausos.

Acabe de uma vez comigo.

Se eu vomitar em seu rosto, não se incomode.

É apenas minha dor de estômago.

São tantos recomeços para um fim que nunca chega.

Me ame, me destrua.

Me odeie, arranque meus órgãos.

Tudo está em seu lugar, fedendo a esgoto.

Tudo que dança, morre.

Ouça o silêncio, veja o escuro.

Queria estar dormindo, mas é tudo tão real.

Entretenimento vazio e cego, meus olhos como bolinhas de gude.

Diversão extrema, ingresso gratuito.

Mas não há com o que se importar.

Queria estar dormindo, mas estou completamente acordado.

Vivendo o pesadelo dos seus sonhos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Estranhos e dementes

Minha face derrete com o ácido.

Havia tanto por fazer, mas é sempre melhor desistir.

Cave minha cova, jogue-me num saco preto.

Um dia eu pensei que tivesse importância.

Mas tantos são os melhores para você.

Então prefiro ser o pior sozinho, mesmo.

Quantos são os únicos e insubstituíveis, mesmo?

Você diz que ama minhas diferenças, mas só o faz às escondidas.

Na verdade, é absolutamente igual a tudo que me enoja, e valoriza as mesmas coisas que esta plateia vazia.

Talvez ser mais do mesmo seja uma virtude, então seja, mas não me envolva nisso.

O que importa, o que não importa, você mente mais um pouco.

Não sei ser só mais um, nem quero isso.

Então todos são estranhos para mim.

E não quero que isso mude.

Pequenas vaidades, pequenas mediocridades.

Você diz que não faz diferença, mas aplaude.

Então todos são dementes para mim.

E não quero que isso mude.

Quero que os outros permaneçam sendo outros, não me obrigue a ser como você quer.

Desista, não sou colecionável.

Jamais serei fração, jamais serei peça da sua engrenagem.

Prefiro ser inútil sem precisar operar.

Prefiro apodrecer sem precisar sorrir.

Então me esqueça, e jogue com quem sabe jogar.

Então me esqueça, e não minta sobre mais nada.

Então me esqueça, e me deixe em paz.

Então me esqueça, e não finja que algum dia fui alguma coisa.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Carpinejar fala dos três clássicos da sociologia

- Amigos do DC, estamos aqui mais uma vez com o Carpinejar, que hoje vai falar conosco sobre sociologia. Mais especificamente sobre os três autores principais, Marx, Weber e Durkheim. Carpinejar, o que você acha dos clássicos?
- Clássico. Cheiro de erudição. Aquilo que foi, mas marca. Marca muito, arrepia. Clássico. Gre-Nal, Atletiba, Ba-Vi. Clássico. Música clássica. Cultura clássica. Elegância que passeia solenemente. Passado que se transfigura no presente, no futuro. Permanência, mesmo que silenciosa. Falsamente silenciosa. Silêncio. Barulho que foi intimidado. Grito que foi calado. Música de nossas vidas que não toca, apenas se despede.
- Certo. Bom, a contribuição do Émile Durkheim é importante na medida em que este autor trabalhou com as ideias de fato social, solidariedades orgânica e mecânica, entre outras. O que você acha que ficou desta contribuição e pode ser aproveitado nos dias de hoje?
- Émile. Durkheim. Émile. Emília. Sítio do Pica-Pau Amarelo. Visconde de Sabugosa. Narizinho. Monteiro Lobato. Lobato. Lobo em pele de cordeiro. Pele que arrepia com um sussurro ao ouvido. Não qualquer sussurro. Sussurro do canalha. Contorce meu corpo. Congela minhas entranhas. Canalha, que não é cafajeste. É canalha. Beijo no pescoço. Terremoto interior. Fato. Foto. Mato. Rato. Moto. Fato, que é a especulação que resolveu se render e mostrar a cara sem temor. Sem tremor. Solidariedade. Sol. Liberdade. Luz. Luz, que é a escuridão que cansou e iluminou. Orgânica, mecânica. Química orgânica. Laranja mecânica. Stanley Kubrick. George Lucas. Coppolla. Poderoso Chefão. Corleone. Cor. Leão. Rugido.Spielberg. E.T. Que não sou eu.   
- Uhum... Temos ainda o Weber com seus tipos ideais... Você acha analiticamente interessantes? 
- Weber. W. V. Vê. Só não vê quem não quer. Ideal. Ideia. Crimideia. Orwell. Ideia, que é o concreto que ainda não nasceu. Nascimento, que é a morte ao avesso, dançando alegremente em um palco cheio de luz. Dance comigo, faça-me reviver aquilo que se foi, aquilo que será. Ser, não ser. Eis a questão. Questão, que é a exclamação revoltada, que abandona sua linha reta tornando-se tortuosa. Um caminho, um galopar. Suco de tomate.
- Tá. E tem ainda o Karl Marx, talvez o mais popular deles, trabalhando com os conceitos de capital, luta de classes, burguesia, proletariado...
- Karl Marx. Karl. Cacau. Nescau. Marx. Que não é Patrícia Marx, nem Gabriel Garcia Márquez. Não foi mulher. Leva "x". Um "x", um "x", um "x" no seu coração. Luta de classes. Luta sem classe. Puxão de cabelo. Puxão, que, como Marx, também tem "x". Xis. Completo. Burguesia. Hamburguer. Pampa Burguer. Proletários. Prole. Amor materno. Mãe, que se encaixa em perfeição com o pai para fazer o filho. Costas arranhadas. Arranhão, que é a carícia que pôs os dentes para fora para arder, excitar, inflamar. Capital. Centralidade política. Centro, que é o coadjuvante que decidiu protagonizar a peça. Capital. Capitão. Capitólio. Capa e tal. Copa. Sem Copa. Delírio coletivo. Capital. Capitu. Bentinho. Machado de Assis. Machado. Lenha. Fogo aquecendo uma noite fria. Frio, que é o calor que se desencantou e desistiu. Desencanto. Ex-encanto. Chave de fenda.
- Ok. Muito obrigado, Carpinejar. Um abraço, e até a próxima.
- Abraço. Que é o início, o fim e o meio. Abraço, que é o envolvimento que se materializa. Um cheiro, uma sensação. Sensação que me leva a outro mundo, que me faz flutuar. Coração que aperta e espreme. E pulsa. Bombeando o sangue. Bomba, guerra. Paz. Pomba. 

domingo, 11 de maio de 2014

O abraço de boa sorte

Quando eu era criança, tinha um hábito antes de fazer provas na escola.

Pedia sempre antes de sair de casa, para minha mãe, um abraço de boa sorte.

Não importava a matéria, a importância ou o nível de dificuldade.

Era como um ritual.

Era algo que me fazia sentir fortalecido, protegido, mais confiante.

Como se, com aquele abraço, nada de mau pudesse me acontecer.

E funcionava.

É nessas pequenas coisas que muitas pessoas ganham relevância genuína para a gente.

Eu poderia falar da extrema importância do amor e das grandes lições humanas e de caráter que minha progenitora me deu.

Não faria injustiça.

Mas os gestos singelos também valem muito, às vezes tanto quanto os mais perceptíveis ao ambiente externo.

Eles refletem as grandes coisas de nossa vida de forma doce e palpável.

Para mim, aquele abraço que antecedia cada prova era importante e emblemático.

É algo que sempre vou recordar.

Um feliz dia das mães para a minha, dona Sonia, e para todas as mães leitoras do DC.

sábado, 10 de maio de 2014

Porcos na lama

No meio da lama, fornicando com os porcos.

Suje seu focinho um pouco mais.

Valores estúpidos, náuseas intermináveis.

Esfregue-se, engula, perca o ar.

Aqui não há orgulho ou dignidade.

Aqui nós somos menos humanos, mas eu já fugi há tempos.

Observe que lindo, todos fétidos, agindo como seus donos mandam.

Obedeça até ser engolido, digerido e defecado.

Deixe-se pisar por pés malcheirosos.

Coma mais lama, rasteje na comida.

Todos estão satisfeitos porque estão vivos.

Todos estão felizes por existir.

Mas eu ainda estou faminto e entediado.

E não farei o que eles querem para mudar isso.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Todas as cores

Depois da chuva, o sol ressurge.

Feche os olhos, sinta a luz que vem de cima.

A paz chegou para nunca mais lhe deixar.

E nenhum dia mais será desperdiçado.

São muitas as formas de sentir, muitos os formatos deste amor infinito.

Sinta o calor, um abraço forte que não lhe abandonará jamais.

Modele a vida, torne-a bonita a seu modo.

A beleza está em tudo que é verdadeiro.

Quebre paradigmas, liberte-se daquilo que lhe é imposto.

Seja o que quiser, brinque com a existência.

Dance no meio da multidão que caminha em direção a nada.

Bilhões ou centavos serão o mesmo, números, só números.

Com mãos beijadas ou joelhos sujos, somos o que vivemos.

Pompas, imagens, pequenos e mal disfarçados pedantismos, tudo é superfície rasa.

Egos bem alimentados, almas famintas e miseráveis: qual o sentido disso? 

Permita-se não querer nada para poder tudo. 

Seja criança, vista sua pior roupa.

Pinte o nariz, deixe-se sujar com essa tinta.

E enquanto não for cinzas, seja todas as cores.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Convocadas as seleções da Tropa de Choque, dos Mascarados e dos Coxinhas

O divertidíssimo Guia da Copa do Olé do Brasil (http://www.oledobrasil.com.br/guia/) traz muitos detalhes de 32 das seleções que estarão em campo durante o Mundial. Mas como nem tudo é perfeito, ficaram faltando três das principais protagonistas durante o torneio. Por isso, lhes apresento as convocações das seleções da Tropa de Choque, dos Mascarados e dos Coxinhas. Vamos às listas:

Seleção da Tropa de Choque
1. Capitão Fábio
2. Capitão Planeta
3. Chokito
4. André Matias
5. Spray de Pimenta
6. Blanka
7. Coronel Formoso
8. Choque de Gestão
9. Capitão Oliveira
10. Lasier Martins 
11. Neto
12. Rosa Choque
13. Sargento Alves
14. Major Gouveia
15. Capitão Dunga
16. Coronel Jesuíno
17. Cassetete
18. Major Rocha
19. Bomba de Efeito Moral
20. Recruta Zero 
21. Capitão América
22. Fio Desencapado
23. Sargento Pincel
Técnico: Capitão Nascimento 

Seleção dos Mascarados
475. Manifestante não identificado 1
32848948. Manifestante não identificado 2
632. Pierrot
45645. Manifestante não identificado 3
8. Infiltrado 1
9475. Infiltrado 2
565. Mister M
6537899944555. Manifestante não identificado 4
546545. Stanley Ipkiss
74. Jason Vorhees
387. Infiltrado 3
2. Jiraiya
468748. Manifestante não identificado 5
16. Tiazinha
287944446. Infiltrado 4
7. Neymar
15. Máscara da Morte
1498484. Manifestante não identificado 6
875. Arlequim
161186. Colombina
1. Wolverine
55494848894948948. Patrine
4. Infiltrado 5
Técnico: não tem, porque os componentes desta seleção são contra todo e qualquer tipo de dominação pautado por hierarquias opressoras

Seleção dos Coxinhas
1. Roberto Justus
2. Manifestante que usa a bandeira do Brasil como capa sobre as costas
3. Diogo Mainardi
4. Coxinha de Galinha
5. Carpinejar
6. Juninho (atleta sub-17 do Coritiba)
7. Manifestante que chora quando ouve o Hino Nacional
8. Caio Ribeiro
9. Admirador do Joaquim Barbosa
10. Willian Bonner
11. David Coimbra
12. Telespectadora da Ana Maria Braga
13. Felipe Moura Brasil
14. Jovem Empreendedor
15. Tiozinho que protesta contra os impostos escorchantes sem saber o significado de escorchantes
16. Tiago Leifert
17. Jovenzinha que está contra tudo isso que está aí
18. Homem de meia idade carregando cartaz de "Fora Petralhas"
19. Coxão Mole (coxão naturalizado coxinha)
20. Bolsonarete
21. Rodrigo Faro
22. Manifestante que só quer tirar umas fotos pra postar no Facebook
23. Morador do Leblon 
Técnico: Luciano Huck   

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Impassível pulsante

As horas passam, estou sozinho no escuro.

Seria tão bom se eu conseguisse adormecer um pouco.

Os dias passam, estou sozinho vendo o sol pela janela.

Seria tão bom se eu conseguisse levantar dessa cama.

Os anos passam, estou sozinho vendo a minha vida se esvair.

Seria tão bom se eu conseguisse existir um pouco.

Talvez eu caminhe e respire.

Mas tudo está pesado.

Talvez eu grite e seja espancado.

E alguma coisa faria sentido.

Torno-me pedra, mais uma vez.

Mesmo que eu pulse por dentro, estarei impassível.

Já não tenho rosto, nem importância alguma.

Não sou fração, recuso frações.

Prefiro ser nada, e simplesmente me evaporar.

Prefiro desistir antes de sangrar.

E fazer do meu presente e do meu futuro, passado.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobre os sonhos

Sonhos surgem aos montes. Ah, como eles surgem!

Somos incorrigíveis fabricantes de sonhos.

É bom sonhar, não digo que não.

Porém, é tudo muito fácil de se quebrar.

Sonhos deveriam vir protegidos numa embalagem: "Cuidado: frágil".

São horas, dias, meses, anos. Às vezes décadas.

Vamos lapidando nossos sonhos.

Cuidamos deles com um zelo, um amor, uma dedicação, uma doçura, que chegam a comover aqueles que nos observam de fora.

Se sonhar é viver, vivemos morrendo.

Porque todo o cuidado, zelo, amor, dedicação e doçura com os quais cultivamos nossos sonhos, de nada valem.

É num instante, num ato, num estalar de dedos, em uma fração de fração de infelicidade do destino, que eles viram cinzas.

É tão difícil construí-los, alimentá-los. 

E é com tanta facilidade, facilidade ao mesmo tempo debochada e um tanto blasé, que a vida nos rouba nossos sonhos, como se fosse uma onda desmanchando um castelo de areia.

E de algo adianta culpar o mar, amaldiçoar a natureza?

Não, não adianta nada, nadica de nada.

Porque o mar é mar por ele mesmo, porque a vida é vida por ela mesma.

Não há culpas, não há culpados.

Há tão somente a realidade de tudo que se vai para uns, ou que vem para outros, de acordo com destinos mais ou menos afortunados, mais ou menos desgraçados.

Sonhos são frágeis. Sonhos são vidas. 

E se sonhar é viver, vivemos morrendo.  

Sonhos são frágeis. Sonhos são flores, com suas delicadas pétalas, sempre bonitas, sempre inspiradoras, sempre expostas ao vento que desmancha, à mão que amassa, indiferente à sua beleza, incapaz de apreender o significado de sua textura.

Talvez, mais pragmáticos e bem direcionados, os sonhos pudessem ser flores de plástico, um tanto mais firmes, menos frágeis e sujeitas às intempéries vindas do que lhes é exterior.

Mas aí, não seriam sonhos, não seriam flores.

Porque sonhos e flores de verdade têm vida. Sonhos e flores de verdade têm perfume.

Se sonhar é viver, vivemos morrendo. Sim, é verdade.

Mas se nossos sonhos, vidas e mortes permanecem dançando em harmonia, permaneçamos assim, dançando esta música: sonhando, vivendo, morrendo e renascendo para sonhar de novo. Para viver de novo.

Afogamento

Ele poderia ser apenas um velho com um regador.

Gostaria tanto que fosse isso!

Mas tudo pode ser pior.

Estou mergulhado no fluido dos fantasmas. 

Para esta dor, um efeito placebo pode ser a melhor escolha.

Recolha algo na rua, acene com a cabeça.

Gostaria tanto que fosse isso!

Mas tudo pode ser mais destrutivo.

Estou me afogando, a água invade os meus pulmões.

Deixe-me cair, salve-me da vida.

Diga-me algo que me faça dormir com alguma paz.

domingo, 4 de maio de 2014

Amor, amar

Hoje eu quero amar.

Não importa o que você diga.

Não importa o que você pense.

Não importa o desamor.

Não sei quem me ama.

Mas alguém eu vou amar.

E não me importo em ser um tolo.

E não me importo se você rir.

E não me importo se você me desprezar.

E não me importo em errar.

Porque erra quem não ama.

E por isso hoje eu vou amar.

sábado, 3 de maio de 2014

Vida eterna

Preso a si mesmo.

Sentado à espera de nada.

Cigarro na boca, whisky na não direita.

Ele observa o sol que se despede mais uma vez.

Condenado à imortalidade.

Ele vê as eras passarem.

Ele vê os que ama partirem.

Ele vê tudo que vem e vai.

Sentenciado à vida eterna, sem sentido algum.

Tem o tempo na palma da mão, mas não sabe o que fazer.

Prisão sem fuga, busca por respostas.

É tudo e todos, e por isso não é nada nem ninguém.

Não há o que buscar, agoniza sem esperança.

Reviu, releu e reviveu as mesmas coisas milhões de vezes.

Já usou todas as palavras, todas as frases, todas as combinações possíveis.

Já inventou tudo o que podia, já ultrapassou todos os limites.

Agora não há nada além de voltas em círculos, perturbando sua mente.

O fim é a única novidade possível, mas não é uma opção.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pensamentos cervejeiros

Brindo meus leitores com esses meus pequenos pensamentos de sabedoria cervejeira: 

1. É melhor uma Schin na mão do que duas Heinekens trancadas na geladeira do bar.

2. Essa Norteña se faz de Kaiser pra ficar no botequim da  esquina.

3. Quem bebe Stadt Bier Uva, é pra se embebedar.

4. O bom casco cheio retorna.

5. Casa de mestre cervejeiro, cerveja Crystal.

6. Apressado bebe à temperatura ambiente.

7. Quem nasceu Bavaria, nunca será Stella Artois.

8. Uma latinha só não faz litrão.

9. Só aprendemos o valor de uma Belco quando a geladeira esvazia.

10. Homem de ressaca tem medo de guaraná.

11. Se quiser conhecer verdadeiramente um borracho, dê-lhe um boteco.

12. Bebe Colônia e arrota Whitehead.

13. Quem não tem garrafa de vidro que atire a primeira lata.

14. É melhor beber uma Krill na Cidade Baixa do que uma Zillertal no aniversário da tia-avó.

15. Guitt's no fígado dos outros é água mineral.

16. Aqui se enche a cara, aqui se vomita.

17. Não há Bohemia que sempre dure, nem Glacial que nunca se acabe.

18. Cerveja dada, não se olha os ingredientes.

19. Puxando o gelo para a sua latinha. 

20. Quem espera, sempre bebe choca.

21. Vão-se as cervejas, ficam as garrafas.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

20 anos sem Senna

Passaram-se 20 anos.

Era 1° de maio de 1994.

Eu tinha 8 anos.

Mas tenho minhas recordações com alguma clareza.

O dia foi de pesadelo.

Nos instantes logo após o acidente, a tendência é minimizar.

Afinal, heróis, mitos, estes estão acima dos reles humanos de carne e osso.

Não, não havia de ser nada.

Pequena atribulação, nada demais.

Mas não... "Nada", não era.

O que ocorria ali não era apenas uma pequena atribulação.

O passar dos minutos, e depois das horas, aumentava a angústia.

E era assim, de forma contemplativa e perplexa, que víamos que infelizmente sim, ali havia algo.

Era assim, com a areia descendo pela ampulheta, que, mesmo incrédulos, percebíamos que a situação era dramaticamente séria.

Era assim que notávamos que aquele não era um dia normal.

Foi assim, no início daquela tarde de domingo, que sofremos o duro golpe de realidade: os heróis, os mitos... Eles também são reles humanos, de carne e osso. Eles também se machucam. Eles também morrem.

Restou a dor, o sentimento de perda, o vazio.

Senna foi diferenciado. Um gênio. Um piloto espetacular. Um homem que, entre defeitos, virtudes, brilho e carisma, foi exemplo de obstinação, de amor ao que fazia. Entre Xuxas e Adrianes, sua maior paixão era a velocidade. 

Ayrton Senna da Silva tinha a vitória no DNA.

Tanto era assim, que, naquela irregular, frustrante e opaca temporada na Williams, naquele fatídico fim de semana de Ímola, que iniciara com a morte de Roland Ratzenberger no dia anterior, naquela corrida que parecia amaldiçoada por uma força estranha, poderosa, temível e terrível, como que por capricho dos deuses, como se fosse um último reconhecimento de todas as divindades ao seu imenso talento, na curva Tamburello, Senna morria exatamente da forma como parecia destinado a se colocar desde o primeiro dia de sua vida: ocupando o primeiro lugar.