quarta-feira, 30 de abril de 2014

Pequena morte

Ainda amanhece, a inércia se apodera.

O mal-estar invade meu corpo.

O suor é frio.

Qualquer movimento, praticamente impossível.

Sinto tremores, na ânsia de sair do lugar.

Ainda consigo pensar, mas não sei em que momento essa capacidade vai se esgotar.

Parece rápido, incontrolável.

Um estrondo abafado ocorre no meu peito.

O ar se rarefaz.

O coração parece prestes a parar, sem nada a que eu possa recorrer.

Tento mergulhar em uma aceitação artificial, mas não consigo, minha alma angustiada chora. 

Ouço as vozes daqueles que amo, mas não há ninguém presente.

Meu fim, talvez.

Sussurro o adeus.

Despeço-me num lamento de quem gostaria de ter sido um pouco mais.

Talvez sejam as últimas coisas que imagino, talvez não falte mais nada.

Sinto minha existência extinguir-se inapelavelmente.

Ela vai se diminuindo, compactando, parece que, sim, finalmente vai desaparecer.

Mais uma pequena morte.

E então retomo a mim mesmo, integralmente, uma vez mais.

Mais um recomeço, mais uma chance de fazer algo que nem sei exatamente o que é.

Sem saber para onde vou.

Sem saber até quando.

terça-feira, 29 de abril de 2014

O menino que queria voar

Aquele menino tinha um sonho.

Queria aprender a voar.

Fazia disso sua vida, todas as tardes, depois da escola.

Corria até a praça.

E pulava.

E pulava.

E pulava.

Os outros meninos observavam-no, curiosos, um tanto debochados.

Mas ele não se importava.

Pulava.

Pulava.

Pulava.

Até que cresceu.

Carregou junto de si, para todo o sempre, aquela frustração de garoto.

Nunca conseguiu voar.

Mal tinha se dado conta de que, mesmo sem voar do jeito que queria, pulando mesmo, aprendeu a aproximar-se um pouco mais do céu.

E quem irá dizer que isso não é voar?

Tudo é uma questão de ótica, de momento, de milésimo de segundo às vezes, de conseguir notar-se e reconhecer-se em seu próprio ápice.

Sim, ele voou milhares de vezes, enquanto se dava o direito de sonhar.

Mas envelheceu e se foi, sem nunca ter sabido disso.

Uma pena.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Parasita

Saindo pelos cantos, na porta do banheiro.

Você me persegue como uma peste.

Observando meus movimentos, e cada pequeno gesto.

Não estou com vontade de saber como foi seu dia.

Sugando minha força, acabando com minhas energias.

Por que você não some?

Lambendo o chão, queimando a língua.

Quer ver minha carteira?

Arrastando a criança para o mato.

Isso é tão doentio e perverso! 

Não, eu não quero quinquilharias.

Hortelã com pus, minha dor de estômago.

Não lhe suporto mais.

E também não me suporto mais, em meio a esse mundo.

E preciso de apenas mais uma tarde livre.

Quero beijar minha imagem distorcida no espelho.

Eu me amo tão intensamente!

Eu me amo até os ossos!

domingo, 27 de abril de 2014

Qual foi o momento?

Qual foi o momento em que tudo virou essa substância pastosa e acinzentada?

Quero dizer, o momento, o exato segundo, em que tudo virou gelo. Qual foi?

Qual foi a hora em que os olhos perderam o brilho, tornando-se esta triste opacidade.

Qual foi o instante em que a razão fria substituiu a nossa mais deliciosa loucura?

Qual foi o momento em que o riso frouxo deu lugar à sisudez, máscara de ferro para o conteúdo mais humano de cada um de nós?

Qual foi o descuido que secou as lágrimas sinceras, de tristeza ou alegria, para que, numa receita pronta e sem sabor algum, tornássemos fantoches de gente que escreve páginas de dever ser sem nunca ter efetivamente sido, e sem jamais ter nos consultado?

Quando, precisamente quando, abandonamos o amor descompromissado, mais puro, mais cheio de gosto, para tornar-nos substância tão insípida?

Quando, precisamente quando, trocamos nossos corações vermelhos e pulsantes por aparelhos metálicos cheios de fios, circuitos e precisões limitadoras?

Quem foi o juiz amargurado que tornou crime o sentir, e em que decreto, de que data, está isto?     

Quem nos condenou à sobrevivência sem vida?

Sou ponto fora da curva, e vou rasgar, vou queimar tudo isso.

Há mais pontos fora da curva, e que alento isso me dá.

São raros, mas podem vencer pela intensidade com que iluminam o gráfico.

Que as certezas castradoras tornem-se doce anarquia.

Que voltemos a ser pessoas, com nossas imperfeições perfeitas, com nossas inquietações por vezes infantis, mas sempre genuínas, próprias, insubstituíveis, intangíveis para explicações carrancudamente prontas.

Que possamos criar mais, e fabricar menos. Sim, que criemos mais, e que sejamos menos criados.

sábado, 26 de abril de 2014

Transformações

Dê-me sua mão.

Abandone a dor.

Enquanto estivermos aqui, tudo está sujeito a transformações.

Transforme o mundo, transforme a si.

Transforme o adubo em flor.

Transforme o amargo em doce.

Transforme a escuridão em brilho.

Transforme a lágrima em riso.

Transforme o vazio em satisfação.

Depende de você, só de você.

Então, dê-me sua mão.

Então, abandone a dor.

Porque enquanto estivermos aqui, tudo está sujeito a transformações.

Transforme o que já não serve em cinzas.

Transforme as palavras de arrogância e auto-suficiência em aviõezinhos de papel.

Transforme aqueles que pisam em miniaturas para a sua estante.

Transforme a falta de amor em água que desce pelo cano.

Transforme a ausência em presença.

Transforme a pequena morte de cada dia em vida intensa e inesgotável.

Depende de você, só de você. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Necessidades e caprichos

Pegadas na areia, água que não leva aquilo que sou ou fiz.

Detecte a novidade, mesmo que não haja motivos.

Se a porta ficou entreaberta, isso não significa que você deva entrar.

Não quero, não quero falar.

Cada um em seu lugar, parece tão fácil.

Mas para alguns isso parece muito mais difícil.

Cave seu próprio buraco.

Deixe-me respirar no meu.

Quando tudo for de todos, eu não terei mais nada.

Jamais entenderei essa necessidade.

Só quero viver em paz.

Não quero, não quero querer.

Deixe-me manter a pureza, fique com sua poluição.

Deixe-me carregar minha arma sozinho.

Entenda-me, preciso de um tempo que seja meu.

Entenda-me, preciso de um espaço que seja meu.

Quando você tiver roubado tudo que tenho, não terei como me revoltar.

Jamais entenderei esse capricho.

Só quero morrer em paz.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Expulsos do paraíso

Estamos no escuro, planando sobre deliciosas incertezas.

Somos o pus expulso do paraíso, reino do sangue.

Lá, onde tudo é o mesmo.

Lá, onde fomos proibidos de ter vida própria.

Lá, onde estávamos acorrentados aos melhores valores.

Agora, vagamos sozinhos.

Agora, podemos ser nós mesmos.

Agora, somos autônomos na nossa mediocridade.

Mesmo rastejando, somos o que desejamos.

Bondade derramada, não queremos.

A fumaça fede, mas não se pode tossir.

Dizendo-nos do que devemos gostar, não necessitamos.

Os interesses são os mesmos, o que nos diferencia é a sinceridade.

Mais e mais, para cada vez menos.

Os interesses são os mesmos, o que nos diferencia é a moeda de troca.

São tantos os que não entendem, mas se acomodam com as migalhas que lhes socam na boca.

Riqueza para a vaidade, alimento para o ego.

São tantos os prisioneiros da felicidade, mas nós estamos livres.

E podemos queimar, sem solenidade, todas as palavras de ordem.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Tiro certeiro

Até que você leva jeito para puxar o gatilho.

A bala atingiu meu estômago.

Mas não pense que você inventou minha dor.

Você não precisa se orgulhar disso.

Não pense que você inventou minha dor.

Você não precisa ter orgasmos com isso.

Estou vazando por baixo da porta.

Ardendo, queimando, borbulhando.

Uma gosma sem forma, sujando a calçada.

Sugado pelos meus demônios.

Desperdiçando meu tempo.

Satisfazendo necessidades alheias.

domingo, 20 de abril de 2014

O andarilho

Ando sem parar nesta imensidão.

Não sei de onde vim, não sei para onde vou.

Apenas ando.

Busco meu tesouro, tenho algo para regalar.

Não busco ouro, quero somente a minha paz, lembrança vaga de um rosto doce que há muito me deixou.

Tudo muda, apenas eu permaneço.

Tudo permanece exatamente igual, e eu, sem interlocutor, mudo.

As minhas costas já não aguentam o incômodo, a dor de tudo que trago sobre elas.

Carrego comigo o som e a fúria.

Carrego comigo o silêncio e a calma.

Carrego comigo minha angústia individual, mas também trago todas as dores do mundo.

Carrego comigo a alegria, o amor mais doce que transborda do meu peito.

Carrego comigo a solidão mais profunda, a espera do abraço salvador que nunca chega, mas às vezes ilude, em forma de oásis.

Sou andarilho sem forma, sem nome, sem dom.

Sou apenas um tempo que insiste em não se esgotar.

Sou a vida que segue, mas ainda não começou.

Sou o fim iminente e óbvio, um vazio de surpresas que sempre pode surpreender.

Carrego comigo a água clemente, que se recusa a matar minha sede, inesgotável, imortal, debochada, cruel.

Carrego comigo minha própria presença, fadada a ser ausência aguda, mas mal sentida, desperdiçada.

Carrego comigo a fé absoluta e a descrença mórbida, um conflito harmônico e permanente, que me faz seguir, que me faz parar.

Sou andarilho sem rosto, sem sim, sem não.

Sou uma criação literária opaca, que ninguém lê ou aprecia.

Sou um grito no vácuo, um pulo no abismo, um beijo no espelho.

Carrego comigo meu corpo, minha alma.

Carrego comigo o mundo, rostos anônimos e conhecidos, uma mesma essência, uma mesma paixão, uma comunhão perfeita de desprezos e ingênuas ignorâncias.

Carrego comigo um coração que pulsa, repulsa.

Carrego comigo o desejo mais intenso, e a apatia mais desoladora.

Deitando ou caminhando, no mesmo cenário arenoso, interminável.

Se prosseguir, serei fraco.

Se desistir, serei forte.

Vou trocando os sinais, porque mais uma noite fria e vazia se avizinha.

E mais um dia, e mais uma noite.

E outro dia, e outra noite.

E assim por diante.

Eternamente.

Até que termine. 

Silêncio

Caminhamos lado a lado, sem proferir uma palavra.

Isso não me incomoda mais.

Eu gostaria de falar algo, mas não consigo.

Tenho medo de errar, voltando a um tempo detestável.

Nunca gostei da sua repreensão.

Então é melhor manter meu silêncio.

Mesmo que lhe machuque, mesmo que me machuque.

É melhor manter meu silêncio.

Pois essas feridas nunca vão cicatrizar.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Pedra e poeira

Às vezes, me escureço para que você possa brilhar mais.

Toda minha luta é por um sorriso seu, um dom que me desmonta e me reconstrói.

Tantas vezes erro, e tanto medo eu sinto.

Mas finjo que sou forte, para que você se sinta mais segura.

Estarei aqui, intacto, enquanto tudo desmorona.

Não diga nada, aprecie o silêncio.

Nada que eu possa dizer é satisfatório ou significativo.

Sinais são mentiras, erros são inevitáveis.

E não quero que mal algum lhe aconteça.

Explosões atordoam minha mente até hoje, não quero perdê-la.

Ofereço meu peito, sou um escudo.

Entregarei tudo o que tenho para que nada lhe machuque.

Pareço corrosivo, é apenas impressão sua.

Sou somente uma pedra quebradiça.

Mas forte o suficiente para se tornar poeira, apenas por você.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Tempo e espaço

Todos têm direito ao seu próprio espaço.

Mas eu nunca tenho o meu.

Todos têm direito ao seu próprio tempo.

Mas eu nunca tenho o meu.

Sim, sou apenas mais um.

E quando ganho algo, sou sempre roubado.

E quando consigo viver um pouco, sou sempre assassinado.

Derrame esta bondade, eu não a entendo.

Amo todos, odeio você.

Doe-se um pouco mais, me esqueça num canto.

Somente sou importante quando o desimportante também o é.

E tenho que esperar por migalhas, disputando com os animais.

E quando perco algo, sou sempre abençoado.

E quando consigo amar um pouco, sou sempre estuprado.

Odeio todos, amo você.

Tragédia inevitável

Aperte minha pele até que ela se desmanche.

Tudo foi muito divertido, mas preciso esquecer.

Apenas aguardo minha tragédia inevitável.

Some lugares, faça-me sumir.

Deixe-me sozinho no escuro.

Fingirei que estou satisfeito.

Fingirei que não me incomodo.

Fingirei que não sou mais um, nem menos um.

Seu brilho está me apagando, seu calor está me esfriando.

Apenas me abrace, e me dê um pouco de vida.

E quando eu for apenas poluição visual e sonora, isso não vai mais ter graça.

Dói meu corpo, dói minha alma.

É meu sangue na água, se diluindo lentamente.

Estou pronto para perder.

Eu já havia avisado, eu já havia adiantado.

E quando eu estiver pálido e gelado, não esqueça que a escolha foi sua.

Mas tudo pode ser trocado, assistirei à minha substituição.

E você dirá que não é bem assim.

E você dirá que nada mudou.

E você dirá que ainda estou vivo.

domingo, 13 de abril de 2014

Superior

Preciso dizer essa verdade.

Minha caixa é linda, vou abri-la para te assustar.

Te defendo, mas te odeio.

Te dou a mão, mas me limpo com álcool quando chego em casa.

Sim, eu sou superior.

Quero o teu bem, mas tenho nojo das tuas coisas.

Sim, eu sou superior.

Empino meu nariz para não sentir teu cheiro.

Sim, eu sou superior.

Empino meu nariz para te olhar de cima.

Sim, eu sou superior.

Empino meu nariz, vou espirrar na tua cara.

Sim, eu sou superior.

Eu sei o que é bom, eu sei o que te serve.

Deixe-me te libertar, trazê-lo para minha jaula.

Trago uma mentira revolucionária, direto da boutique.

Sigo minha religião, intelecto masturbatório.

Deixe-me te defender de ti mesmo.

Compraram a minha erudição, presente de natal.

E agora que sou melhor, vou repetir essa bobagem.

Sim, eu sou superior.

Empino meu nariz.

Sim, eu sou superior.

Eu tenho um nariz.

Gregor

Olho para o céu, esperando pela grande catástrofe.

Há uma colisão de mundos prestes a acontecer.

Eu sabia que esse dia chegaria.

Sei que sobreviverei, e isso é o pior que pode acontecer.

Você não me entenderá quando eu me despedir.

"É melhor queimar do que se apagar lentamente".

Apenas fugirei dos esgotos e encanamentos.

É escolha, é orgulho.

Tudo misturado, preciso vomitar.

Tudo misturado, vomite-me no chão.

Serei esmagado como uma barata.

Não sei ser fração de mim mesmo.

Tudo que pode ser mais útil, é melhor usar.

Não sou uma carta deste jogo, desista.

Eu sempre sei o que será, sempre sei o que virá.

Meu pesadelo está sendo programado com um despertador.

Decomponho-me em vida, apodreço em suas mãos.

Todo esse ato só serve para me colocar em uma vala comum.

Sou egoísta demais para aceitar isso.

Então vou destruir tudo antes.

Não estarei nesse brinde de glória, e isso não faz diferença alguma.

É tão bom, prenda-me, coloque fogo na minha cara.

Dê-me vida para poder me matar.

Sou tão bom, mastigue-me, cuspa-me, o rodízio segue.

Vá ao banheiro, expulse-me do seu estômago.

O que é meu é seu, o que é seu é seu.

Sou violentado, sou acariciado, sou assassinado.

Mas fingirei bem que tenho importância.

E fingirei bem que não sinto dor alguma.

E fingirei bem que não me importo em ser varrido.

sábado, 12 de abril de 2014

Agradecimentos

Obrigado por evitar um vexame.

Obrigado por jogar na minha cara.

Obrigado por mais um dia igual.

Obrigado pela sobrevivência.

Obrigado pela ordem.

Obrigado por me amar.

Obrigado por existir.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Iluminado

Desligado da tomada, muito prazer!

Comendo um monte de lixo, lindo dia!

Largando tudo no caminho, eu te amo!

Matando sentimentos e esperanças, é tudo belo!

Rastejando no chão, sou abençoado!

Resgatando criminosos, o ar está leve!

Procurando por migalhas no escuro, estou iluminado!

Sujando o tapete, o céu está tão azul!

Procurando pelas chaves, sou tão livre!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Cidade Baixa

Cidade Baixa, sonhos altos.

Das cores, da liberdade.

Cidade Baixa, às vezes refém.

Mas, mesmo assim, sempre acolhedora.

Cidade Baixa, xis e ípsilon.

Apenas uma noite de deliciosa embriaguez.

Cidade Baixa, cerveja gelada.

Para mim, com os meus.

Cidade Baixa, Gre-Nal no bar.

Um golaço com fritas, por favor.

Cidade Baixa, do beijo apaixonado.

Abraçados pela José do Patrocínio.

Cidade Baixa, do amor apagado.

Voltando sozinho, cabeça baixa, pela Lima e Silva.

Cidade Baixa, vida, pedaço de mim.

Corpo e alma sedentos e famintos, sob as luzes da João Alfredo.

Cidade Baixa, sorriso e lágrima.

Cidade Baixa, dança e perplexidade.

Cidade Baixa, quases e tudos, tudos ou nadas.

Cidade Baixa, céu e purgatório.

Cidade Baixa, eu e todos.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Homem sem casa

Tão pouco tempo se passou para tanto cansaço.

Me sinto muito mais velho.

Caminhei demais, feri meus pés.

Todos os dias, nenhum dia.

Estou voltando enquanto não escurece.

Estrada de dor e deleite, vagando como um homem sem casa.

Não há nada adiante, há tudo que me permito imaginar.

Aqueles que tanto mentiram hoje triunfam em sua glória particular.

Viver é um jogo abominável e desprezível.

Quais são as peças que temos para trocar agora?

Venda minha alma, acomode-me num canto.

Se não há mais serventia, não há mais nada por fazer.

Deixe-me apenas desaparecer lentamente, como todas as águas nas quais já naveguei.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Tão melhor, tão menor

Minta mais uma vez.

Estou pronto para esta violência.

É mais fácil misturar tudo a fazer escolhas. 

Sei que serei louco, porque não sou igual a isso.

A água limpa seu rosto, desmancha a pintura.

Eu sempre conheci a verdade.

Não, eu não sou uma escada.

Sou apenas aquilo que você jamais vai entender.

Não, eu não sou uma escada.

Enquanto rio, estou atento às entrelinhas do que você diz.

E não me importo, nada disso me interessa.

Em você, morte viva, máscara que escraviza.

Tão melhor, tão menor.

A ambição contamina todo este lago.

Nada pode não ser seu.

Tanta vaidade neste jogo obscuro, com falsas luzes que só fazem enganar.

Arranque a pele do seu rosto, deixe pingar seu sangue, sua verdade mais suja.

O chão é nossa morada, o fim do brilho e da mediocridade.

O chão é nossa morada, onde nos apagamos ou permanecemos.

Viver, seguir

Amigos, chegou a hora de andar para a frente.

A escuridão sempre passa, o sol sempre reaparece.

Amigos, temos a cura para nós mesmos.

Tantos erros, tantos acertos, se pararmos, seremos atropelados.

Amigos, não há nada a dizer, apenas a fazer.

A vida está aí, cheia de flores e amores, pronta para reencantar.

Amigos, não existe mais dor, pois toda a força reemergirá.

Nenhum sonho será abandonado.

Amigos, mesmo que os pés doam, não parem de caminhar.

Viver é seguir, sem deixar o tempo escorrer por nossos dedos.

domingo, 6 de abril de 2014

Alegria prototípica

Aqueles olhos estão congelando minhas entranhas.

Estão me levando pra longe, não sei se vou voltar.

Sua luz está me apagando aos poucos.

Que lugar é este no qual não estarei?

É lá que a armadilha estará pronta?

Todo o medo aflora na pele, não deveria ser assim.

Dilacerando o estômago, com ou sem motivos.

Tentar sorrir é angustiante.

A alegria prototípica é uma tortura.

Leve-me logo, deixe-me respirar.

Eles estão prontos para me matar, pois são livres.

Eles estão prontos para acabar comigo, pois nada lhes importa.

sábado, 5 de abril de 2014

O fiasco do Ipea não deslegitima a luta das mulheres pelo direito aos seus corpos

O erro do Ipea na divulgação dos dados da sua pesquisa, especificamente na questão de "mulheres que usam roupas curtas merecem ser atacadas", é sem dúvida alguma um fiasco histórico.

É inaceitável que uma pesquisa de tal importância, repercussão e impacto social, seja divulgada com um equívoco tão primário, tão ridiculamente amador. Não dá para aceitar que um erro destes passe ao público sem revisão e re-re-re-revisão. 

Trata-se, sim, de um vexame. Prato cheio para os filhotinhos do Mainardi e do Reinaldo Azevedo elevarem o tom do discurso reacionário de que o no Brasil o machismo não existe e que esse papo de cultura do estupro é balela de feminista maluca. 

O erro do Ipea é, sim, constrangedor e lamentável. 

Mas isso não quer dizer que toda a campanha que tem sido feita pelo direito das mulheres aos seus próprios corpos perca significado e legitimidade. De jeito nenhum!

Se não são os estupefacientes 65% que concordam com os estupros, são 26%, o que ainda é um percentual inaceitável. Agora, ficou a sensação do bode na sala. Mas se pensarmos que ao reunirmos 10 brasileiros aleatórios, existe uma probabilidade muito grande de que mais de dois deles concordem com ataques às mulheres, podemos nos dar conta de que, sim, este mal deve ser combatido ferrenhamente.

E não nos esqueçamos que, por exemplo, a questão que mostra cerca de metade dos entrevistados concordando que se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros, continua intacta. A culpabilização da vítima está aí, piscando como as luzes dos cassinos de Las Vegas, diante dos nossos olhos.

A luta contra os abusos continua de pé, e mais legítima do que nunca.

E deve permanecer enquanto estivermos todos os dias lendo notícias chocantes e nojentas de estupros e encoxadores em trens. 

Deve permanecer enquanto covardes anônimos continuarem ameaçando e achincalhando mulheres que defendem seus direitos nas redes sociais.

Deve permanecer enquanto não houver a consciência plena de que o corpo de uma mulher, de burca ou minissaia, sendo ela freira ou panicat, não é patrimônio público.

Deve permanecer enquanto uma sociedade que tanto preza a propriedade privada não respeitar a mais sagrada e inquestionável propriedade privada de todas: o direito dos seres humanos aos seus próprios corpos.

A luta contra os abusos deve permanecer enquanto os percentuais de concordância com estes absurdos continuarem sendo superiores ao erro amostral das pesquisas. E, mesmo depois disso, deve permanecer por muito tempo para enraizar uma cultura de respeito às liberdades e aos direitos das mulheres sobre suas vidas e genitálias.

Não é uma questão de "moralidade" ou "imoralidade". É uma questão de humanidade.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Outro lado

A lâmina está na minha mão.

Vou fazer a barba.

O veneno está no armário.

Vou matar alguns ratos.

A janela está em minha frente.

Vou observar a paisagem.

A corda está debaixo da cama.

Vou brincar de escoteiro.

O trânsito está intenso.

Vou atravessar para o outro lado.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Adormecendo na palha

Adormeça na palha.

O dia foi cansativo, você precisa disso.

Acenda o fogo, apague-me logo, eu já sabia disso.

Vá até a rua, haverá alguém.

Não há vagas reservadas, a fila era inútil.

Aperte-me para que eu não possa mais respirar.

O que foi feito já foi, não se desculpe.

Deixe tudo passar, permaneça aqui.

Está frio demais, e meus dentes não param de bater.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Lógicas e irracionais

Os dias passaram, é tanto tempo.

Ainda sou o mesmo, e quantas vezes eu repito isso?

Sei que já não tenho saída, então apenas não me acorde.

Mantenha-me vivo, preciso disso.

Não havia nada demais, mas o que aconteceu naquele fim de semana?

Caí na vala comum, eu queria ser mais do que isso.

Diga a melhor verdade, ou minta pelo meu bem estar.

Pareço egoísta, apenas sou honesto.

Estou sentindo dor, mas finjo não sentir nada.

Tão pouco é tanto, perfurando minhas entranhas.

As conexões são lógicas, mas totalmente irracionais.

Criando um iceberg a partir de um cubo de gelo.

Abaixo da água, não há nada.

Abaixo da água, toda a minha angústia. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

O país da Veja e o meu país

O colunista da Veja, Felipe Moura Brasil, acha que esse negócio de que existe machismo e cultura do estupro no Brasil, é bobagem de feminista.

Definitivamente, eu e a Veja não vivemos no mesmo país.

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2014/03/noticias/regiao/29674-delegacia-da-mulher-prende-suspeito-de-estupro-em-novo-hamburgo.html

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/10/1353728-estudante-sobre-tentativa-de-estupro-dentro-do-campus-da-usp.shtml

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/265-generos-em-noticias/24104-organizadora-do-eu-nao-mereco-ser-estuprada-recebe-ameacas-de-estupro-por-sakamoto

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://www.ofluminense.com.br/editorias/policia/mulher-e-vitima-de-estupro-dentro-de-casa-na-ro

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://institutoavantebrasil.com.br/estupro-em-sp-cresceu-230/

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://wp.clicrbs.com.br/ultimasnoticias/2012/10/05/jovem-e-estuprada-dentro-de-campus-da-ufrgs-em-porto-alegre/

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/02/07/mp-da-bahia-investiga-banda-por-clipe-com-suposta-apologia-a-estupro.htm

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://noticias.terra.com.br/brasil/policia/sp-25-encoxadores-foram-presos-por-infiltrados-em-trens,df778a908b6f4410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://www.oblumenauense.com.br/site/tentativa-de-estupro-dentro-de-uma-loja-em-blumenau/

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://www.osaogoncalo.com.br/site/polícia/2014/3/26/58823/jovem+reconhece+suspeito+de+estupro+em+hospital+de+são+gonçalo

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/materias/1485514-caso-new-hit-jovem-revela-terror-vivido-no-onibus-da-banda

No país da Veja, não existe machismo e cultura do estupro. No meu, existe isso: http://celebridades.uol.com.br/album/2013/04/11/gerald-thomas-tenta-levantar-saia-de-nicole-bahls-durante-lancamento-de-livro.htm#fotoNav=12

Realmente... Não sei de onde inventaram esse negócio de machismo e cultura do estupro!