terça-feira, 18 de março de 2014

Natureza morta

Está sozinho, cumprindo seu velho ritual, olhando para o nada, contemplando cada segundo que nasce e morre.

Está pensando, olhando sua vida de fora.

É um eterno coadjuvante de sua própria existência.

Passa como uma brisa, mistura-se ao todo sem cor e sem atrativos.

É mais do mesmo cinza do céu, dos prédios, e dos olhares frios e vazios de gente que é natureza morta, em lugares que jamais lhe acolhem.

Já não espera por mudança, já não espera por cores.

Está entregue ao alívio da melancolia daqueles que já não querem querer nada.

Princípio ou fim, vida ou morte, riso ou choro, já não há diferença.

Tudo é, acima de tudo, permanência de uma solidão incurável e de um modo de existir pastoso e sem sabor algum.

Sem arco-íris, já não há um pote de ouro a procurar.

Sem pote de ouro, já não há esperança.

E sem esperança, não há contraste, não há mais luz, não há mais cruz, não há mais dor.

Morrer em vida não deixa de ser uma espécie de bênção.

E desistir de si mesmo não deixa de ser uma dádiva, uma oportunidade de descanso, um peso que se tira das costas e se põe no chão, largado no meio do nada, sem mais precisar caminhar em um deserto interminável.

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