sexta-feira, 14 de março de 2014

Martín Santomé: patrões e empregados

"Nesta manhã estive falando com os membros da Diretoria. Coisas sem maior importância, mas que me fizeram notar, apesar de tudo, que sentem por mim um amável e compreensível desprezo. Imagino que eles, quando se refestelam em suas poltronas estofadas da sala da Diretoria, devem se sentir quase onipotentes, pelo menos tão perto do Olimpo quanto pode se sentir uma alma sórdida e negra. Chegaram ao máximo. Para um futebolista, o máximo significa chegar um dia a jogar na seleção; para um místico, comunicar-se alguma vez com seu Deus; para um sentimental, achar em alguma ocasião em outro ser o verdadeiro eco de seus sentimentos. Para esta pobre gente, em compensação, o máximo é chegar a sentar em cadeiras presidenciais, experimentar a sensação (que para outros seria por demais incômoda) de que alguns destinos estão em suas mãos, ter a ilusão de que resolvem, de que dispõem, de que são alguém. Hoje, contudo, enquanto os olhava, não conseguia considerar suas caras como pertencentes a Alguém, mas sim a Algo. Parecem-me Coisas, não Pessoas. Mas o que eu lhes parecerei? Um imbecil, um incapaz, um trapo velho que se atreveu a rechaçar a oferta do Olimpo. Certa vez, há muitos anos, ouvi o mais velho entre eles dizer: 'O maior erro de alguns homens de comércio é tratar seus empregados como se fossem seres humanos'. Nunca me esqueci e jamais me esquecerei dessa pequena frase, simplesmente porque não o posso perdoar. Não apenas em meu nome, mas em nome de todo o gênero humano. Agora sinto uma forte tentação de inverter a frase e pensar: 'O maior erro de alguns empregados do comércio é tratar seus patrões como se eles fossem pessoas'. Mas resisto a essa tentação. São pessoas. Não parecem, mas são. E pessoas dignas de uma odiosa piedade, da mais infamante das piedades, porque a verdade é que eles formam para si uma casca de orgulho, um invólucro repugnante, uma sólida hipocrisia, mas no fundo são ocos. Asquerosos e ocos. E padecem da mais horrível variante da solidão: a solidão de quem não tem sequer a si mesmo."

BENEDETTI, Mario. A trégua. Porto Alegre: L&PM Editores, 2011.

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