sexta-feira, 28 de março de 2014

Culpando a vítima, justificando o injustificável: sintomas de uma sociedade doente

São aterradores os dados da pesquisa do Ipea, em estudo sobre machismo, estupros e outras relações de gênero.

É de assustar principalmente o percentual de cerca de 60% de concordância com afirmações absurdas como "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", ou "Se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros". 

Como assim, cara-pálida?

Que tipo de mentalidade bárbara e doentia é essa?

Não há justificativa para qualquer tipo de abuso sexual.

Culpar a vítima é uma covardia sem tamanho, que demonstra quão opressora é a nossa sociedade contra as mulheres.

Vestindo hábitos, minissaias ou blusas decotadas, dá no mesmo. O corpo de uma mulher pertence a ela mesma, e só ela pode dar permissão de acesso ao mesmo.

Qual o próximo passo da opressão? Culpar as vítimas por saírem de casa? Quem sabe culpá-las por terem vaginas? Ou, que tal, culpá-las por existirem?

Ainda há muitos passos a dar contra essa absurda cultura do estupro, que escolhe suas Genis para extravasar um descontrole estúpido, perverso e absolutamente inaceitável.

Os percentuais apresentados pelo Ipea nos levam a um diagnóstico relativamente claro: estamos numa sociedade doente, que justifica o injustificável por meio de valores que buscam conservar um estado de coisas que oprime liberdades básicas como vestir-se como bem se deseja.

E se você pensa que qualquer tipo de estupro é justificável, você também é doente.

E se você pensa que o modo de se vestir dá determinadas licenças, posso tentar explicar didaticamente: uma roupa curta não é necessariamente um convite para o sexo. Uma roupa curta pode ser tão somente- veja só!- uma roupa curta. Uma mulher de minissaia não significa o chamamento para que um estranho saia montando nela como se fosse um cachorro no cio. Uma mulher de minissaia pode simplesmente- que incrível!- estar a fim de usar minissaia. 

Isso era para ser tão óbvio, tão ridiculamente evidente! Era...  

Enquanto não houver uma mudança drástica nesse tipo de mentalidade, continuaremos tendo a reprodução destes parâmetros que permitem, por exemplo, que um diretor de teatro babaca e estúpido se dê o direito de colocar a mão por dentro da saia de uma panicat pelo simples fato dela ser uma panicat, para que depois essa mesma panicat tenha que praticamente se desculpar (!) na televisão, dizendo que aquilo era "só uma brincadeirinha dele" (http://dilemascotidianos.blogspot.com.br/2013/04/o-corpo-de-nicole-bahls-e-propriedade.html).

Chega de "brincadeirinhas". Chega de abuso. Chega de estragar vidas em uma humilhação diária, ininterrupta e asquerosa. Chega de achar que toda mulher que não use um cadeado na genitália é uma pervertida que merece ser molestada. TODAS merecem ter seus corpos respeitados, dentro dos limites que ELAS estabelecerem, e tais limites devem ser conferidos por ELAS para quem ELAS quiserem. 

Que cada um possa usufruir do seu direito sobre seu modo de vestir e viver, tão individual, sem ter que sentir medo de nada, nem de ninguém. 

E que isso possa servir tanto para você, machinho-alfa que anda por aí sem camiseta exibindo músculos anabolizados e abdômen de tanquinho, quanto para aquela moça que você mesmo, do alto da sua pseudomoral e dos seus bons costumes hipócritas, chama de piranha ou vagabunda por vestir uma minissaia.

Nenhum comentário: