segunda-feira, 31 de março de 2014

50 anos do Golpe: dia de reflexão

50 anos do Golpe.

Ninguém apaga.

Mas alguém tem de pagar, e essa luta permanece até os dias de hoje.

E, a cada dia, as barbáries, torturas e assassinatos cometidos pelo regime ditatorial brasileiro devem ser trazidos à tona, lembrados e relembrados.

Para que nunca mais ocorra nada sequer parecido com o terrorismo de Estado que aqui se instaurou.

Para que nunca mais alguém pague com a prisão, com a dor da tortura, ou com a vida, o fato de pensar diferente dos donos do poder.

50 anos do Golpe.

É dia de reflexão.

Reflexão sobre aquilo que queremos, e, principalmente talvez, sobre aquilo que não queremos.

Nossa democracia ainda engatinha, há muito por conquistar.

Mas é um avanço em relação aos tempos da truculência, da vivência carrancuda, sem gosto, sem expressão... Amargamente silenciosa entre os tiros e bombas.

1964 ainda ecoa em seu silêncio.

Ecoa em cada palavra arrotada pelo deputado, aquele mesmo, da extrema-direita, filhote da ditadura que mama nas tetas da democracia.

Ecoa na porrada gratuita sobre o manifestante.

Ecoa na marcha ignorante de zumbis sedentos por sangue, em nome de Deus e da família.

Ecoa no silêncio forçado daqueles que se foram em nome de suas causas.

Porque, como diria Falcão na letra do Rappa, "Paz sem voz, não é paz: é medo".

Que 1964 não volte nunca mais, sob qualquer faceta que seja.

E que a única ditadura que perdure, para todo o sempre em nosso país, seja a ditadura dos valores democráticos, da liberdade de expressão, da tolerância e da pluralidade.

* Para quem quiser saber mais sobre o tema, principalmente no que concerne à luta dos familiares de mortos e desaparecidos pela ditadura brasileira, sugiro a leitura da ótima dissertação "Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça: um estudo sobre o trabalho da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil", do amigo e colega Carlos Artur Gallo (http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/49108/000828766.pdf?sequence=1).

domingo, 30 de março de 2014

Da dor à dádiva

Isso não é chuva, é apenas o céu derretendo.

Conversando com os anjos, ouvindo os demônios.

Passo a passo, sem chegar a lugar algum.

Foram tantos e tantos dias.

Fomos vendidos sem saber, não queremos ter donos.

Agora o tempo está se esgotando.

Até quando suportaremos este ácido em nossas entranhas?

Da dor à dádiva a distância é mínima, mas tão árdua.

Traga-me um remédio, faça-me dormir.

Lutando, ganhando, lutando, perdendo.

Braços erguidos, cabeça baixa.

sábado, 29 de março de 2014

Inexistência inesgotável

Tanta sujeira nos cantos.

Porão escuro, inexistência inesgotável.

Já não existe mais dor.

Sem luz, a cegueira não faz diferença.

Engulo a seco todas as mentiras de assassinos apregoando a vida.

Não espere meu riso, nem minhas lágrimas.

Pois tudo é igual a sempre, e sempre será a mesma coisa.

Vejo as coisas que passam, e tudo que escorre pelos meus dedos a cada segundo.

Mas guardo todas vontades numa gaveta, e permaneço entregue ao silêncio.

Quases são apenas nadas, e o que não é completo, nada é.

Pois tudo é limitado e finito, e nada tem importância agora.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Culpando a vítima, justificando o injustificável: sintomas de uma sociedade doente

São aterradores os dados da pesquisa do Ipea, em estudo sobre machismo, estupros e outras relações de gênero.

É de assustar principalmente o percentual de cerca de 60% de concordância com afirmações absurdas como "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", ou "Se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros". 

Como assim, cara-pálida?

Que tipo de mentalidade bárbara e doentia é essa?

Não há justificativa para qualquer tipo de abuso sexual.

Culpar a vítima é uma covardia sem tamanho, que demonstra quão opressora é a nossa sociedade contra as mulheres.

Vestindo hábitos, minissaias ou blusas decotadas, dá no mesmo. O corpo de uma mulher pertence a ela mesma, e só ela pode dar permissão de acesso ao mesmo.

Qual o próximo passo da opressão? Culpar as vítimas por saírem de casa? Quem sabe culpá-las por terem vaginas? Ou, que tal, culpá-las por existirem?

Ainda há muitos passos a dar contra essa absurda cultura do estupro, que escolhe suas Genis para extravasar um descontrole estúpido, perverso e absolutamente inaceitável.

Os percentuais apresentados pelo Ipea nos levam a um diagnóstico relativamente claro: estamos numa sociedade doente, que justifica o injustificável por meio de valores que buscam conservar um estado de coisas que oprime liberdades básicas como vestir-se como bem se deseja.

E se você pensa que qualquer tipo de estupro é justificável, você também é doente.

E se você pensa que o modo de se vestir dá determinadas licenças, posso tentar explicar didaticamente: uma roupa curta não é necessariamente um convite para o sexo. Uma roupa curta pode ser tão somente- veja só!- uma roupa curta. Uma mulher de minissaia não significa o chamamento para que um estranho saia montando nela como se fosse um cachorro no cio. Uma mulher de minissaia pode simplesmente- que incrível!- estar a fim de usar minissaia. 

Isso era para ser tão óbvio, tão ridiculamente evidente! Era...  

Enquanto não houver uma mudança drástica nesse tipo de mentalidade, continuaremos tendo a reprodução destes parâmetros que permitem, por exemplo, que um diretor de teatro babaca e estúpido se dê o direito de colocar a mão por dentro da saia de uma panicat pelo simples fato dela ser uma panicat, para que depois essa mesma panicat tenha que praticamente se desculpar (!) na televisão, dizendo que aquilo era "só uma brincadeirinha dele" (http://dilemascotidianos.blogspot.com.br/2013/04/o-corpo-de-nicole-bahls-e-propriedade.html).

Chega de "brincadeirinhas". Chega de abuso. Chega de estragar vidas em uma humilhação diária, ininterrupta e asquerosa. Chega de achar que toda mulher que não use um cadeado na genitália é uma pervertida que merece ser molestada. TODAS merecem ter seus corpos respeitados, dentro dos limites que ELAS estabelecerem, e tais limites devem ser conferidos por ELAS para quem ELAS quiserem. 

Que cada um possa usufruir do seu direito sobre seu modo de vestir e viver, tão individual, sem ter que sentir medo de nada, nem de ninguém. 

E que isso possa servir tanto para você, machinho-alfa que anda por aí sem camiseta exibindo músculos anabolizados e abdômen de tanquinho, quanto para aquela moça que você mesmo, do alto da sua pseudomoral e dos seus bons costumes hipócritas, chama de piranha ou vagabunda por vestir uma minissaia.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sentença dolorosa

Ao longe, cavaleiros e suas lanças chegam para invadir nossa cidade de caos.

Mudança definitiva e inapelável, para que soframos eternamente.

Demônios bebendo sangue, cabeças rolando pelo chão urinado.

Éramos tolos, imaginando que éramos livres.

Mas agora a verdade chega para nos destruir de uma vez.

Eu já sabia que terminaria assim, mas neguei para mim mesmo.

Chamas tomam conta e nos consomem, lenta e dolorosamente.

Machuque os joelhos, não há mais respostas.

Implore até o fim, tudo está decidido, e julgado.

Procure pelo amor por entre os becos escuros, não há saída.

As latas estão vazias, seu coração está extraviado.

Grite por socorro, e ouvirá apenas o eco da sua voz, em uma angústia inesgotável.

Tudo que era meu, agora não é mais.

Tudo o que eu era, agora não sou mais.

É só questão de tempo para que eu vire cinzas.

E seja levado pelo vento.

Como se nunca tivesse estado.

Como se nunca tivesse sido.

Como se nunca tivesse existido.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Em conformidade com o destino

Piso no chão molhado, conversando com a solidão, companheira de todas as horas.

Tantas foram as coisas que ganhei, para perder logo em seguida.

A felicidade é líquida, sempre escorre pelos dedos.

Quando me afasto do que amo, é porque não quero sentir mais dor.

Quando abro a guarda para apanhar, é porque já sei o final da luta.

Não confunda silêncio com ausência, nem ausência com esquecimento.

Apenas conheço meu destino, sempre o mesmo.

Porque invariavelmente surgem coisas melhores e mais palatáveis.

Porque invariavelmente aqueles que jogam o jogo são mais fáceis de preferir.

Serei até o fim este primata que não aprendeu a lamber pés fétidos, e nunca soube fingir. 

Serei sempre este objeto pouco atrativo que não se vende, e que ninguém quer comprar.

E no dia em que eu for apenas um enjoo, quero estar bem longe.

E no dia em que eu estiver mais uma vez enterrado na minha cama, quero ter sono o bastante.

E no dia em que eu for novamente jogado no fundo de uma gaveta, quero estar frio o suficiente.

terça-feira, 25 de março de 2014

Final do filme sem final

Lua cheia no céu, olhando-me fixamente.

Eis uma bela noite para a diversão.

Olhos vivos me transformam em pedra.

O garoto está atento, louco para cuspir.

O garoto já não tem mais medo de mastigar a gordura do bife.

O final é a melhor parte do filme.

E todos me perguntam por quê.

Não tenho respostas, ninguém vai me entender.

Eu estava muito quente, fervendo.

Mas agora estou gelado.

Eu estava com muita vontade de fingir um sorriso.

Mas agora estou gargalhando de dor.

Ele não quis me levar.

Não estou acima das nuvens.

Ele não quis me levar.

Ainda estou neste filme cheio de finais, que nunca acaba.

E então continuo perambulando sozinho por aí... 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Estúpida nostalgia

Imerso no pesadelo, voltando para antes de mim mesmo.

Tantos horrores vãos presenciei, enquanto caminhava por entre os corpos.

Deserto de contrastes, silêncios e gritos, sentenças e injustiças. 

Tempos obscuros, de sol artificial e sorrisos forçados.

Homens com armas, pisando em flores, derramando sangue por uma causa inventada.

Nestes templos da morte não hã Deus, nem família, apenas uma pátria apodrecida, cheirando a cadáver.

Bocas fechadas, olhos sem luz.

Todos são suspeitos, todos são culpados.

Sobrevivendo por instinto, em nome de uma ordem esquizofrênica.

Medo não é respeito, temor não é opção.

Estúpida nostalgia em marcha, para lugar algum.

E então acordei, sem amarras ou mordaças.

Sem mais senhores, nem verdades mentirosas.

Liberdade de joelhos, não mais.

Prisão a céu aberto, nunca mais.

domingo, 23 de março de 2014

Perdões

Amigos, quantos perdões mais serão necessários?

Eu ando e erro, paro e erro.

Não aprendi a acertar, sou esta incapacidade interminável.

Tantas vezes acreditei ter algo de bom para oferecer.

Tantas vezes fui o mesmo desagrado, acabando com tudo o que poderia ser bom.

Não sei caminhar, sou o passo trocado na penumbra.

Não sei escrever, sou a letra torta no caderno.

Não sei voar, sou apenas uma queda patética e vexatória.

E então peço mais um perdão, e outro, e outro...

E então lhes pergunto, sem saber a resposta exata: amigos, quantos perdões mais serão necessários?

sexta-feira, 21 de março de 2014

Raso e superficial

Espírito pobre, humanidade evaporada.

Aquela pergunta foi estupidez ou puro deboche?

Você só sabe rir da mediocridade, mas é a própria, debaixo dessa casca.

Você finge que se importa, mas não consegue me enganar.

Eu poderia responder com palavras fulminantes, mas sua tolice não lhe permitiria perceber nada.

Não, você não entende nada do que se passa no submundo.

Tão raso e superficial, tão forte e rastejante!

Um homem livre não entende como é ser prisioneiro.

Mas um homem que apenas se pensa livre sempre será o pior dos prisioneiros.

Você está satisfeito, e eu estou sentado no trono como um rei.

Ei, como isso é prazeroso, você está ganhando a medalha de ouro!

Ei, como isso é divertido, você está nadando no meu vaso sanitário!

quinta-feira, 20 de março de 2014

Iconoclastia

Poltronas de fogo, reis entediados.

Os limites são rasteiros, mendigos lhe dizem o que fazer.

Doe corpo e alma para os imperdoáveis senhores da miséria humana. 

Ajoelhe-se para a cruz, beije a suástica.

Vivendo uma falsa epifania, grandes castelos são a nossa ruína.

Certezas são para os tolos, vamos plantar a dúvida.

Todos os ícones vão derreter.

Todos os ídolos irão sucumbir. 

Eis o nosso prazer, rastejando e incomodando.

Eis o nosso lazer, rejeitando e perturbando.

Livros queimados, verdades que viram fumaça.

Somos as cinzas, iconoclastia praguejada.

Somos a luz para os cegos, inconveniência cheia de orgulho.

E continuaremos presentes e intensos, brilhando.

E continuaremos presentes e intensos, queimando.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Agora e amanhã

Ela me abraça forte e me dá um pouco de vida.

Mas amanhã ela irá me desprezar.

Ela aprecia as coisas que escrevo em meu velho caderno.

Mas amanhã serei apenas um analfabeto miserável.

Ela demonstra sentir um prazer pecaminoso.

Mas amanhã ela sentirá apenas repulsa.

Ela é minha confidente mais íntima.

Mas amanhã serei somente um estranho.

Ela beija minha boca, decidida.

Mas amanhã isso não será mais nada.

Ela morde meus lábios, cheia de tesão.

Mas amanhã estarei louco.

Com suas mãos geladas, ela segura as minhas.

Mas amanhã estarei morto.

terça-feira, 18 de março de 2014

Natureza morta

Está sozinho, cumprindo seu velho ritual, olhando para o nada, contemplando cada segundo que nasce e morre.

Está pensando, olhando sua vida de fora.

É um eterno coadjuvante de sua própria existência.

Passa como uma brisa, mistura-se ao todo sem cor e sem atrativos.

É mais do mesmo cinza do céu, dos prédios, e dos olhares frios e vazios de gente que é natureza morta, em lugares que jamais lhe acolhem.

Já não espera por mudança, já não espera por cores.

Está entregue ao alívio da melancolia daqueles que já não querem querer nada.

Princípio ou fim, vida ou morte, riso ou choro, já não há diferença.

Tudo é, acima de tudo, permanência de uma solidão incurável e de um modo de existir pastoso e sem sabor algum.

Sem arco-íris, já não há um pote de ouro a procurar.

Sem pote de ouro, já não há esperança.

E sem esperança, não há contraste, não há mais luz, não há mais cruz, não há mais dor.

Morrer em vida não deixa de ser uma espécie de bênção.

E desistir de si mesmo não deixa de ser uma dádiva, uma oportunidade de descanso, um peso que se tira das costas e se põe no chão, largado no meio do nada, sem mais precisar caminhar em um deserto interminável.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Próximo passo

Olhos, meus olhos, tornei-me pedra novamente.

E vejo você igual, tão resistente e tão frágil.

Este é o destino daqueles que nunca aprendem.

Como se o próximo passo fosse para frente, você está forte.

Como se o próximo passo fosse decisivo, você volta.

Por toda parte, eles tentam interromper seus planos.

E você segue caminhando sem chegar.

Uma esperança adiante, ilusão de ótica.

Uma luz no fim do túnel, apenas para cegar.

Há tantas prioridades, você nunca é chamado.

Sobrevive sem respostas, para um dia tentar viver.

domingo, 16 de março de 2014

Pequeno equívoco

Idas e vindas anunciadas como um espetáculo.

Esqueça tudo que foi dito.

Era apenas a repetição de um pequeno equívoco.

Na verdade, ainda sinto náuseas.

E é bem melhor assim.

Tudo isso é tão previsível.

O tédio havia invadido minha mente.

A memória sumiu, mas voltou rapidamente quando as obviedades gritaram pela janela.

Agora estou aliviado, poderei me divertir melhor.

E você ficará produzindo o seu próprio adubo.

Sei que não foi pura sorte.

Isso cheira bem, cheira a rosas.

Isso cheira bem, cheira a fezes.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Nada, nunca

Não digo nada.

Não ouço nada.

Não vejo nada.

Nada, simplesmente nada.

Nunca ando.

Nunca corro.

Nunca paro.

Nunca, simplesmente nunca.

Não peço nada.

Não busco nada.

Não quero nada.

Nada, simplesmente nada.

Nunca padeço.

Nunca amo.

Nunca me aqueço.

Nunca, simplesmente nunca.

E nada sou nunca.

E nunca tenho nada.

E nada sobrevive nunca.

Porque meu nada é tudo.

Porque meu nunca é sempre.

Martín Santomé: patrões e empregados

"Nesta manhã estive falando com os membros da Diretoria. Coisas sem maior importância, mas que me fizeram notar, apesar de tudo, que sentem por mim um amável e compreensível desprezo. Imagino que eles, quando se refestelam em suas poltronas estofadas da sala da Diretoria, devem se sentir quase onipotentes, pelo menos tão perto do Olimpo quanto pode se sentir uma alma sórdida e negra. Chegaram ao máximo. Para um futebolista, o máximo significa chegar um dia a jogar na seleção; para um místico, comunicar-se alguma vez com seu Deus; para um sentimental, achar em alguma ocasião em outro ser o verdadeiro eco de seus sentimentos. Para esta pobre gente, em compensação, o máximo é chegar a sentar em cadeiras presidenciais, experimentar a sensação (que para outros seria por demais incômoda) de que alguns destinos estão em suas mãos, ter a ilusão de que resolvem, de que dispõem, de que são alguém. Hoje, contudo, enquanto os olhava, não conseguia considerar suas caras como pertencentes a Alguém, mas sim a Algo. Parecem-me Coisas, não Pessoas. Mas o que eu lhes parecerei? Um imbecil, um incapaz, um trapo velho que se atreveu a rechaçar a oferta do Olimpo. Certa vez, há muitos anos, ouvi o mais velho entre eles dizer: 'O maior erro de alguns homens de comércio é tratar seus empregados como se fossem seres humanos'. Nunca me esqueci e jamais me esquecerei dessa pequena frase, simplesmente porque não o posso perdoar. Não apenas em meu nome, mas em nome de todo o gênero humano. Agora sinto uma forte tentação de inverter a frase e pensar: 'O maior erro de alguns empregados do comércio é tratar seus patrões como se eles fossem pessoas'. Mas resisto a essa tentação. São pessoas. Não parecem, mas são. E pessoas dignas de uma odiosa piedade, da mais infamante das piedades, porque a verdade é que eles formam para si uma casca de orgulho, um invólucro repugnante, uma sólida hipocrisia, mas no fundo são ocos. Asquerosos e ocos. E padecem da mais horrível variante da solidão: a solidão de quem não tem sequer a si mesmo."

BENEDETTI, Mario. A trégua. Porto Alegre: L&PM Editores, 2011.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Gesso e limão

Ar atordoante e pesado consumindo os pulmões.

Coração em descontrole, bomba-relógio ativada.

Doce bebida, servida num copo com gesso e limão.

Ela parece uma boneca, toda pintada.

Ela está tão linda, ela parece um palhaço!

Ele estava dormindo, mas ela lhe acordou.

Ele estava sonhando, mas ela lhe sacudiu.

Ele estava gemendo, mas ela lhe deu um soco.

Garota, beije os lábios dele!

Garota, morda os lábios dele!

Garota, arranque os lábios dele!

Beba o sangue dele!

Ele é doce, doce, tão doce!

Fez ela se enjoar rapidamente.

Ele é doce, doce, tão doce!

Fez ela vomitar antes de chegar em casa.

Ele é doce, doce, tão doce!

Doce como veneno açucarado.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Boneco inanimado

Malditos sejam os ruídos deste lamento interminável.

Aqueça-me com seu fogo, incendeie meu rosto.

Colisões são destrutivas, combinações impossíveis.

Tudo vai pelos ares, minha pobreza de espírito anuncia o fim.

Diversão, prazer, corte irremediável em meus nervos.

Tudo o que somos é um equívoco.

Tantas almas rastejam no esgoto implorando piedade.

Eu apenas aguardo, sem saber exatamente o quê.

Deixo meu tempo passar escutando vozes do absurdo.

Acabe com isso, mate-me com essa corrente invisível.

Deixe que o vento me leve e me traga um pouco de vida.

O silêncio destrói, palavras reprimidas sufocam e dão náuseas.

Acaricie, beije, esvazie, acaricie, beije, encha novamente com seu sopro.

Esqueça a reação, estou desanimado.

Largue-me numa gaveta, sempre fui um boneco inanimado.

domingo, 9 de março de 2014

Pétalas de rosas

Muitos anos passaram para que o sol voltasse a surgir no horizonte.

As trevas se foram, e com elas, todo o frio que nos torturava.

E num passe de mágica, o jardim está repleto de flores.

Toda a energia dos que lutaram está aqui.

Eles nunca desistiram, acumulando gotas de esperança no oceano de paz deste dia que chegou.

Estrelas brilhantes no céu, lembranças de quando o fim era o início do início.

O mundo nos abraça com amor.

Azul da vida, vermelho do coração pulsante.

Cá estamos nós, tão humanos, tão frágeis, tão mortais.

Cá estamos nós, tão humanos, tão fortes, tão eternos.

Cá estamos nós, finalmente livres para espalhar todo amor e alegria do planeta por aí, como se fossem pétalas de rosas forrando o nosso chão.

sábado, 8 de março de 2014

Helena encaixotada

Querida, por que você voltou?

Eis todo meu ouro, não consigo comprar seu afeto. 

Descuidada e esquecida, machucada em minha casa. 

Talvez doa, vou fazer o procedimento.

Tão bela, tão minha, deixe-me cuidá-la.

Membros inferiores ou superiores, não mais.

Helena está em minha caixa.

Ela não pode mais fugir da felicidade.

Rodeada de flores, tão adorada.

Helena está em minha caixa.

Ela grita, mas não pode me enforcar.

Ela chora, mas não pode correr.

Helena está em minha caixa.

Ela implora, mas não pode se matar.

Ela suplica, mas está impossibilitada.

Helena, beleza sem asas.

Helena, escultura viva.

Helena, morte em vida.

Helena, prisioneira sem algemas.

Helena, tronco e cabeça.

Helena, somente um sonho.

Helena, somente um pesadelo.

Helena, somente um filme.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Equívocos

Pensei que estava longe.

Mas ainda estou tão perto.

Pensei que era outro homem.

Mas ainda sou o mesmo.

Pensei que tinha morrido.

Mas ainda estou vivo.

Pensei que ela viria.

Mas ela está se divertindo.

Pensei que ganharia.

Mas sou esse pedaço de papel.

Pensei que fosse chocolate.

Mas era um monte de lama.

Pensei que iria gostar.

Mas detestei cada segundo.

Pensei que pensava.

Mas estou apenas sentindo.

E não estou mais suportando.

terça-feira, 4 de março de 2014

Pontos finais

A vida é uma roleta russa diária.

Por milagre ainda estou aqui.

Sua realidade não é a minha.

Seus objetivos não são os meus.

Tudo estava perfeito e adequado, até que eu chegasse.

Quanto prazer sinto com a inadequação e a inconveniência.

Já sei como se joga este jogo, mas ainda sou uma recusa.

Teste-me um pouco mais, atire-me no fogo.

Veja logo acima, um dia fui exclamação, hoje sou somente feito de pontos finais.

E joguei as interrogações e reticências no meu vaso sanitário.

Talvez seja mais simples andar assim.

Não há futuro, caí numa farsa.

Troque todo o ouro por um saco de adubo.

Agiotas afetivos estão espalhados em busca do melhor negócio.

E vou continuar assim, esperando sem esperanças algo deste solo infértil.

Sem colheitas ou recompensas.

Plantando pontos finais ao cabo de cada dia da minha dadivosa existência.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Alimentar elementar

Trancado no quarto, ele monta seu parque de diversões.

Velho nojento, enfiando sua colher derretida na boca da criança.

Náuseas e desconforto, ela não está com fome.

Velho deprimente, sujando o tapete.

Que vexame, você foi encontrado.

Que grande vergonha, agora você é que engolirá toda comida.

Que pena, ele não tem dentes.

Que lástima, suco de morango e leite misturados no chão.

Rei da alimentação, coma um pouco da sua ração.

Faça sua refeição quieto, não vomite.

Vamos brincar de aviãozinho, não deixe nada nessa colher de sopa.

Creme de arroz, quente e sem tempero algum.

Fique de joelhos para escovar suas gengivas após o almoço.

E todo bom comportamento será recompensado.

Oh, não, é mentira, há mais panelas fervendo na cozinha. 

Oh, não, é mentira, o seu banquete não acabará tão cedo.

domingo, 2 de março de 2014

Estilhaços

Mais um dia vai embora.

Mais uma noite vazia, gelada.

Foi-se a tempestade, ficou o caos.

Nada no lugar, nenhuma satisfação.

Meu coração, estilhaços.

Respiração difícil, peito pesado.

Sinto dor, não posso gemer.

Estou angustiado, tento sorrir.

Acorde-me quando isso acabar.

Acorde-me quando eu finalmente puder descansar.

sábado, 1 de março de 2014

Sol da meia-noite

Doces lembranças, sorrisos de tempos que já se passaram.

De que adianta tudo isso?

Somos feitos de partidas e quinquilharias.

Estamos nos perguntando quantos dentes de leite ainda nascerão e cairão.

Mas é inútil esperar por uma resposta enquanto o tempo passa e nos mata lentamente.

Se a única permanência absoluta é o agora, não nos prendamos ao que nunca existiu.

O passado e o futuro são apenas negações, conselheiros covardes que tentam nos desencorajar.  

No meio da rua não há mais nada além do grito.

No antigo quarto não há mais nada além do vazio.

Naquela porção de existência estéril, não há mais nada além do silêncio.

A dor extrema pode ser o próprio bálsamo, mas temos medo daquilo que está dentro de nós.

Flor única em solo árido, vida rara e tão bela.

Acenda o sol da meia-noite, desperte minha alma.

Invada a janela do meu ser, deixe-me flutuar.

Sussurre alguma bobagem que dê sentido a tudo, faça deste minuto minha eternidade.

Permaneça aqui enquanto o dia de amanhã não chega para trazer uma nova escuridão.