quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Último minuto

É uma tarde cinzenta de inverno.

Estou deitado em minha cama, debaixo das cobertas.

Encontro-me num estado híbrido de sono e vigília.

No peito, o coração parece querer atravessar o peito para logo em seguida acalmar-se como nunca antes.

A respiração, outrora ofegante, agora vai minguando.

Cada parte do meu corpo parece pesar como rocha para esvanecer-se na falta de forças, entregue a uma sorte inevitável.

E na cabeça, todas as lembranças de vozes, cheiros, sons e retratos.

Passeio por tudo de que gostei, tudo que senti, todos que amei.

À medida que me despeço de todas as coisas e deste corpo, velho companheiro, sinto-me mudando de forma para algo mais espalhado, mais volátil, com possibilidades assustadoramente maiores de movimento e expansão.

Como se fosse a areia que desce de uma face à outra da ampulheta, sinto-me mudando automaticamente de estado.

Não sou mais nada que os olhos físicos possam ver, mas nesse momento sou tudo que dá sentido a uma existência inesgotável.

Já não sou mais alguém que ama, mas sim um pouco de todo amor que já existiu no mundo, em todos os tempos.

Agora, estou integrado definitivamente ao universo.

E então, começo finalmente a voar.

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