sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Defeituoso

Preciso de água para lavar meu rosto.

Preciso de álcool para lavar minha alma.

Sinta-se como uma sobra, sopre uma mentira em meu ouvido.

Uma flor foi arrancada do meu jardim, mas era cedo demais.

Engulo as demais sementes, quero essa beleza florescendo dentro de mim.

A prateleira de sonhos está quase vazia, já não consigo alcançar o que restou.

Busco o erro, quero apenas um acerto.

Deixo-me levar pela voz que surge ao longe.

E mergulho, e me afogo, sozinho no meio de um oceano interminável.

Estou naufragando dentro de mim mesmo, sempre fui assim.

Sem remorsos ou arrependimentos, nunca quis destruir nada.

Sou um produto difícil de vender ou comprar, eu sempre soube.

Estou empoeirado dentro de uma caixa, como um brinquedo defeituoso.

O universo se comprime no meu peito, e em minhas entranhas ocorre um big bang.

E então eu me expando.

E então eu lhe ilumino.

E então eu lhe ofusco as vistas.

E então eu lhe assusto.

E então eu lhe afasto.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A cara do DC para 2014

Caríssimos leitores, 

Como vocês podem notar, o DC já está no ar com sua nova cara.

Esse será o layout do blog neste ano, vivo e intenso como as cores do cenário da foto de capa, o famoso bairro do Caminito, em Buenos Aires.

A foto, cabe ressaltar, recebeu o competente e talentoso tratamento da minha amiga Letícia König Lindenmayer, que já havia trabalhado na foto de capa da versão 2013 do DC. 

Por sinal, visitem e curtam a página dela, que trabalha com joias em ouro e prata, no Facebook, oferecendo acessórios de grande qualidade e beleza:  https://www.facebook.com/letipoajoias?fref=ts

Enfim, o DC coloca hoje os dois pés definitivamente em 2014, com este visual que vai nos acompanhar pelo restante do ano.

Espero que apreciem.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Estrondo e silêncio

Estou com os dentes cerrados, é meu clichê favorito.

Fiquei muito à margem, preciso banhar-me com sua sapiência.

Sei mais do que você sobre aquilo que você é e sente.

Diga-me alguma coisa vazia, violente-me com perícia.

O que falo é sagrado, posso definir os farsantes e os profetas.

Não estou disposto, lasco pedras, é isso que faço.

Comprei uma máscara nova, combinando com minha fantasia conveniente.

Meu rosto está suando em bicas, cale-se e traga um copo d'água.
   
Vou libertá-lo agora, deixe-me trocar suas correntes.

Estou cansado, deixe-me apenas cair e beijar o chão.

Agradeça-me, sou o bem que sempre domina.

Abaixo minha cabeça, estou ajoelhado.

Sou tudo o que você deve amar, ensino-lhe aquilo que você deve odiar.

Permita-me que me iluda, estou confortável nesta posição.

Vou moldá-lo, exatamente como quero.

Serei diferente, essa é a origem do meu prazer.

Sou a fonte de tudo.

Sou o resíduo ignorado.

Sou o sagrado.

Sou o profano.

Sou o vinho.

Sou o sangue.

Sou o rei.

Sou o mendigo.

Sou o leitor.

Sou o analfabeto.

Sou o estrondo.

Sou o silêncio.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um novo mundo...

Estamos perto do portal, chegou a hora da decisão.

Eu não queria ir, mas não consigo mais suportar o que vejo.

Procuro um lugar novo, onde tudo seja diferente.

E agora estou prestes a encontrá-lo.

Fique aqui, se quiser, e não precisa chorar.

Este mundo é a morada onde tenho paz.

Um mundo em que as pessoas podem viver e morrer por amor.

E no qual pedaços de papel são apenas pedaços de papel.

Um mundo em que as máscaras podem ser jogadas ao chão.

E no qual as flores são mais importantes do que as espadas.

Um mundo em que a liberdade é um bem compartilhado.

E no qual a luz do dia aquece, mas não queima.

Um mundo em que temos alma, e não apenas carcaça.

E no qual o anoitecer refresca, mas não congela.

Um mundo em que nada tem preço, mas todos têm valor.

E no qual as lágrimas são companheiras inseparáveis do riso, e não da dor.

Sim, estamos perto do portal, e eu já tomei minha decisão.

Quero ir, quero voar para onde minhas asas não queimam.

Encontrei meu lugar, e lá tudo será diferente.     

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ponto de partida

Ela levantou-se e sacudiu a poeira.

Mas logo caiu na lama.

Tudo é vexame, tudo é vergonha.

O julgamento chegou, você está bem no meio.

Estrelas caem do céu, mas você está cego.

Chegou a grande explosão, atordoante e libertadora.

Se houvesse chão, haveria restos nele.

Mas tudo se desintegra e se vai, sugado por um nada infinito.

Renasça, reviva, remorra.

Voltamos ao ponto de partida.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pedaço de luz

Nossos corpos são apenas uma parte da paisagem, tão insignificantes.

Nossas almas são uma fração de tudo que existe, tão poderosas.

Estou no silêncio, estou no escuro.

Mas sou um pedaço de luz, sou o doce som do riso de uma criança, como você também é.

Então não chore quando eu me despedir.

Transporto minha essência, preparo um novo começo.

Então não se entristeça quando eu voar.

Foi tanto o tempo que esperei, foram tantas as lágrimas que desperdicei.

Torno-me, lentamente, uma melodia, que se eleva, se espalha, e se esvai até o desconhecido. 

Serei a continuidade na interrupção, o bálsamo na dor, o azul do céu, discretamente lhe espiando por entre as nuvens cinzas.

Serei a terra, serei a grama, serei as flores. 

Serei, mais do que nunca, vida.

Então poderei sorrir, e experimentar a liberdade que jamais conheci.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Malditos trogloditas

Suor, saindo por todos os poros.

Barulho, cheiro de urina.

Rostos, estampas doentias.

Corpos, movidos por cordas invisíveis.

Malditos trogloditas, perderam o controle.

Malditos trogloditas, abaixem as suas armas.

Malditos trogloditas, saiam daqui.

Malditos trogloditas, fiquem longe.

Fedor, a tantos isso parece agradar.

Inocência, falsidade e cinismo.

Mentiras, alegria e fumaça.

Sociabilidade, justificativa e cavalgada.

Malditos trogloditas, devorando tantas almas.

Malditos trogloditas, vou arrancar-lhes o brinquedo.

Malditos trogloditas, não olhem nada.

Malditos trogloditas, não toquem nada.

E fiquem longe.

Fiquem longe.

Apenas fiquem longe...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pés e asas

Todos que partiram não conheceram o amor.

Seus ossos estão quebrados, estou pronto para colá-los.

Uma existência pintada em quadros, colorida e exótica beleza.

Coloque sua dor e seu sangue dentro da moldura.

Procure seu melhor ângulo, levante-se e caminhe.

Quando você se entregou, não deixou que lhe sugassem a alma.

Sim, você amou até as profundezas do oceano, e abriu mão de todo o orgulho vazio.

Tudo o que conheceu, tudo o que experimentou, a grandeza que presenciou, e todos os sabores e texturas em sua boca, aumentaram sua força. 

Ainda assim, consumiram-lhe, pois nunca há limite para este dilacerante e incontrolável desejo profano. 

Sempre vão querer mais espaço, até que você se sufoque, até que seu coração exploda, manchando as paredes.

Tragédia interior, fraternidade desleal, miséria humana imperdoável.

Esqueça seus pés, abra-se para o mundo, ponha suas asas em movimento.

Os lençóis estão tingidos em vermelho, apenas mais uma brincadeira de mau gosto.

Da morte, surgiu a vida que poucos sabem verdadeiramente apreciar.

Acolha a liberdade entre seus braços, seja uma parte desta revolução daqueles que apenas querem sentir e se expressar.

Quando seu corpo se desmanchar lentamente, seja mais leve que o ar.

E quando seus pulmões estiverem à beira da desistência, respire fundo pela última vez.

Parta feliz para nunca mais regressar.

Hoje, estou apenas apreciando tudo o que você criou, expondo suas entranhas na praça pública da vida.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Meu vício, minha compulsão

Areia nos seus pés, secura na minha boca.

Mergulhe-me no seu corpo, é meu instinto mais primário.

Afogue-me na sua alma, é meu desejo mais profundo.

Tenho seu cheiro sem um frasco, gostaria de poder guardá-lo.

Tenho você passando em meus vasos sanguíneos, meu vício, minha compulsão.

A abstinência está me matando.

E não quero me reabilitar, porque você me faz bem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ao ponto

No escuro tudo parecia diferente.

Agora sinto meus olhos serem agredidos, mas essa não era a minha vontade.

Há um pouco mais para extrair, esprema até que eu morra.

Nunca é o suficiente, não há mais nada, abandone a ordenha.

O melhor não é satisfatório, tudo passa muito rápido.

Faço fogo com minhas pedras, é assim que sobrevivo.

Mas você nunca saberá o que isso significa.

Jogue-me na fogueira, deixe-me ao ponto. 

Encontre a utilidade, tudo foi feito para um uso efêmero.

Coma minha carne, permaneça roendo meus ossos.

Sou apenas isso, sou apenas eu.

Sou apenas isso, sou apenas você.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fim da gincana

Um, dois, três ou mil, conte os tiros que ouve ao redor.

Você sangra, renda seu corpo.

Um, dois, três ou mil, conte os insultos que ouve lá fora.

Seu espírito arde, venda sua alma.

Ninguém pode entender quando você está preso em si mesmo.

Ninguém pode salvá-lo quando você padece sorrindo.

Hoje é cedo demais, feche os olhos até que a tempestade passe.

Amanhã será tarde demais, não há como explicar.

Eles escutam, mas não conseguem ouvir.

Eles olham, mas não conseguem enxergar.

Eles vivem, mas não conseguem entender.

Bem no meio do palco, a estrela brilha, dona de si.

Bem no meio do palco, a estrela se apaga, algemada a algo que nunca foi.

Estamos num jogo de disfarces, com rostos que não transparecem suas dores.

Estes sorrisos forçados são a imagem dos piores pavores.

Tantos são os corpos que estão se expressando, sem qualquer direção, mas com passos milimétricos.

E toda essa verdade foi apenas uma invenção cômoda.

Um, dois, três ou mil, conte os mortos no chão.

Chegamos ao fim da gincana.

Um, dois, três ou mil, olhe para o espelho.

E conte quantas vezes você já morreu...

sábado, 18 de janeiro de 2014

Contemplação

Fecho os olhos, procuro a mim mesmo.

Me encontro, sorrio, me emociono, e volto.

Vivo a calmaria, abandono as convulsões da minha alma.

Não tenho tudo, mas ainda tenho este coração bobo e pulsante.

Diminuo a rotação, e se não alcanço as estrelas, busco a luz e o brilho de que preciso dentro do meu peito.

Ainda tenho água, mas já não a deixo transbordar.

Ainda tenho um nó na garganta, mas já não me deixo sufocar.

Dedico-me a contemplar, observando a passagem do tempo, sem tentar prendê-lo, sem querer pará-lo.

Definitivamente, a paz não é inimiga da tristeza.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Até vomitar!

Mais uma vez temos algo do que falar.

Sou tão sábio, tenho todas as fórmulas.

Amanhã tudo estará esquecido, mas eu já terei dito essa verdade.

Ascensão e queda, tudo ocorre ao mesmo tempo.

Tenho mais profundidade para discursar sobre essa nova onda.

Eles não querem nada, eles não pensam.

Então vou inventar aquilo que queria que eles pensassem.

Vou fazê-lo pensar igual, vou coagi-lo até o fundo da alma.

Faço isso porque não suporto sua escravidão, sou o rei do altruísmo. 

Estou mergulhando com toda a técnica e equipamento, mas meu corpo está afundando na areia. 

Sou tão bom, farei este favor.

E explicarei o simples como se fosse algo complexo.

O que move o mundo não é o que quero que mova.

Ainda assim, finjo que é assim para convencer meus servos.

E vou lhe espancar com meu velho manual, ensopado em sangue.

E vou condená-lo por desafiar o que sei, o que sou.

Vou fazê-lo engolir cada página até vomitar.

Você vai transformar o mundo naquilo que eu desejo.

Agradeça-me, sou seu dono, seu libertador.

Vou fazê-lo engolir cada palavra até vomitar.

Até vomitar!

Até vomitar!

Até vomitar!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Bálsamo e salvação

Quando a escuridão é profunda, um novo raio de luz atordoa os olhos.

Acomode sua visão, espere e acostume-se ao novo tempo.

Pare de mastigar a dor, cuspa no lixo.

A caminhada desgastou, o cansaço consumiu, e você deita no chão.

Mas ainda deve levantar e andar mais um pouco.

Este será o bálsamo e a sua salvação.

Todas as mentiras vindas dos primórdios desmancham-se, levadas pelo ar como as mais leves cinzas.

E com elas se vão as migalhas que nunca lhe alimentaram.

Deram-lhe a liberdade de ser um prisioneiro.

Restou revoltar-se, dançar, gritar e voar.

E se a vida for mais do que o medo da morte, você estará pronto para isso?

E se tivermos de atear fogo em nossos castelos de areia, você terá condições de suportar? 

E no dia em que nada mais for necessário, do que você vai necessitar?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fluxo das águas

Silêncio profundo na alma.

Sinto o agora, minha calma.

E deixarei as águas me levarem.

Irei com o fluxo, ele sabe o que faz.

A seu tempo, ele jamais erra a direção.

É assim que chegarei.

Sim, eu chegarei.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Pseudomarginais

Eles estão deitados no sofá, cheio de pulgas.

Tudo é tão vulgar, fétido como suas reais intenções.

Infeste-me com essa doença.

Cubra-me com os trapos sujos, deixe-me asfixiado.

São pseudomarginais, imundos que tomam banho de piscina bebendo champanhe.

Fingem que sabem voar, criaram uma nova gaiola.

E mesmo quando terminarem de lhe consumir, não estarão satisfeitos.

Este desgosto não é nenhuma novidade.

Mas cada um escolhe para onde prefere ir.

E você mais uma vez pensará que está feliz.

E você mais uma vez pensará que é livre.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Pisando fundo

Pise mais fundo.

Esqueça o retrovisor.

Hoje, a estrada é somente sua.

Sinta o vento lamber seu rosto.

Nada poderá detê-lo.

Você é o único parâmetro da sua vitória.

As leis impostas pelos reis foram feitas para que você sempre perca e seja escravo.

Então crie sua própria regra, e nunca sairá derrotado.

Desafie e desobedeça o que lhe aprisiona.

Abra seu caminho, abandone os grilhões.

Invente seu destino e faça um brinde a todos os que sentiram o gosto amargo e frustrante de uma glória vazia.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Lua

Lua linda no céu, crescente dentro do meu peito.

Te admiro, não posso te tocar.

Seu brilho em meus olhos, tanta vontade.

Te amo, não posso te amar.

Chega o Sol, te leva de mim.

Te desejo, e como não te desejar?

Agora espero a próxima noite, doce e melancólica contemplação.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Prisioneiro a céu aberto

Caminhando, correndo, engolindo.

Nunca conheceu sabor algum na existência.

Apenas mais um na paisagem.

Se morresse, ninguém notaria.

Mistura-se ao concreto.

Talvez seja só um robô de movimentos rígidos, sem um coração.

Mas lhe disseram que isso é importante.

O relógio, algema em seu pulso.

A gravata, forca em sua garganta.

Ele é um prisioneiro a céu aberto.

Sua vida é uma grande cela, tão desconfortável.

Mas está tudo bem, a noite chegará.

Está tudo certo, ele descansará, pois será desligado mais uma vez.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Cenário bucólico

Lá estava ele, sentado na velha cadeira.

Seu rosto estava calmo, não havia mais nada que lhe afligisse.

Convidou-me para que me juntasse.

Tinha muitas velhas histórias.

Contos de quando foi um rei.

Grandioso, lembrou-se das coisas que ganhou.

Generoso, falou-me de tudo o que perdeu.

E do quanto sem poder nos tornamos mais livres.

Observamos o cenário bucólico.

Ouvimos os sons que denotam a vida permanente, não a morte lenta e angustiante.

Ele tem o pouco de que precisa, suficiente para ter paz nos dias que ainda lhe restam.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Feliz 2014

Caríssimos amigos leitores do DC, gostaria de desejar a todos vocês um ano de 2014 extraordinário.

Espero que todos os sonhos de cada um de vocês se realizem, num cenário de muita alegria, saúde, paz e harmonia.

Um novo ciclo se inicia.

E conto com a presença de vocês neste espaço também no ano que hoje começa.

Muito obrigado por tudo. 

Brindemos 2014.

E sejamos felizes.