domingo, 21 de dezembro de 2014

Cenário

As paredes.

O teto.

A caixa. 

O relógio.

A luz.

O remédio.

A tela.

Os livros.

A cadeira.

O roupeiro.

A mesa.

O amor.

A solidão.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Fogo brando

No fim da tarde, a despedida de mim mesmo.

Nos recôncavos da alma, tudo que não pode ser mudado.

Em fogo brando, nenhuma alteração.

Ondas calmas não sabem o que levam consigo.

Sou contemplação eterna, com o vento no rosto.

Agora está tudo perfeito em sua imperfeição.

Está tudo ajeitado em sua desorganização.

Agora está tudo completo em sua incompletude.

Está tudo simples em sua complexidade.  

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sem medo de se cortar

Não é à toa, nada do que se vive.

Ela chora num canto, mas esse não é o fim.

A vida às vezes pode dar certo.

Eu sempre fui do tipo que acredita nas grandes cenas de libertação.

É seguindo a própria estrada que se chega a algum lugar.

De vez em quando a poeira vai subir e ela vai tossir.

Mas ainda há chão pela frente.

Ela é tão doce, precisa ter sua alma acolhida.

Ela tem tanto amor, precisa apenas de alguém que abra o peito sem medo.

Ela tem tanta vida, precisa apenas de alguém que se permita enlouquecer junto.

Rasgando o livro de regras.

De pés descalços, sem medo de se cortar.

Entregando-se ao céu, perdendo o seu chão. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O lugar de cada um

Não há com o que se preocupar.

Eu já estou indo embora.

Eu estou cada vez mais longe.

Não há mais tempo a perder.

Não sei onde vim parar.

Mas isso não importa mais.

Isso não é um favor.

E nenhum esforço é necessário.

É só o lugar de cada um.

Eu sei bem o meu. 

E o vazio destinado.

Eu certamente estarei errado.

No fim, serei estúpido.

No fim, serei tolo.

No fim, serei ridículo.

No fim, serei louco. 

Sol da meia-noite

É uma luz que não se explica.

É meu alfa e meu ômega.

É minha essência em si mesma.

É o sol da meia-noite.

É a cor viva que penetra meu cinza.

Dou minha vida para ganhar um sorriso.

É a dor agridoce que me faz ter certeza de que existo.

Dou meu jardim para ganhar uma pétala.

É o valor que não se calcula, maior do que todo o tesouro do universo.

Dou minha alma para ganhar um abraço.

É o amor imenso que me atravessa e transcende.

Dou a eternidade para ganhar um segundo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Levantando

Castelos de areia se vão com as ondas.

A energia se foi.

Mas não, eu não estou morto.

Ainda estou aqui, há luta.

Até a última gota de suor, não me deixarei dobrar.

De nada adianta permanecer no solo.

Mesmo com as pernas ainda bambas, levantarei.

Da derrota de um dia reunirei forças para uma vitória permanente.

E resistirei enquanto a vida persistir.

E só desistirei quando não mais existir. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Quadro na parede

As linhas rasgam a folha, identifico sentidos no vazio que ali está.

Às vezes, apenas deslizo no espaço em branco.

Coisas bonitas são monótonas, não tenho mais imaginação.

As proibições são muralhas intransponíveis.

Já não sou um prisioneiro que se deleita com o sonho da liberdade.

E os efeitos do vício são cada vez mais curtos.

Quando escurece, a solidão me abraça.

Não tenho pra onde ir, não tenho pra quem ir.

Observo a alegria num quadro na parede.

Não, eu nunca estou lá.

Talvez eu tenha sido escolhido a dedo para apenas olhar e descrever.

Talvez meu destino seja apenas olhar e sentir.

Não, eu não me preocupo.

Não, eu não tenho anseios, não tenho vontades.

Na ampulheta, a eternidade.

No som, a mesma melodia.

Na mente, a limitação daquilo que não se vive e não se conhece de verdade.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Afetos provisórios

Vivo em meu próprio mundo, que sempre gira, mas nunca sacode.

E as coisas não saem do lugar.

As imagens bombardeiam, afetam o raciocínio.

Me dê um martelo, vou quebrar a tela.

Todas as mentiras entram em curto-circuito.

E nenhuma dessas verdades importa.

Eles competem para ver quem é o melhor farsante.

As intenções sempre estarão abaixo da superfície.

Às vezes, isso não importa.

Tenho sorrisos descartáveis guardados no bolso.

Às vezes, isso não importa.

Tenho afetos provisórios guardados em minha mala.

Às vezes, isso não importa.

Tenho alegria passageira em minha caixa de pílulas.

E já não me pergunto o sentido de tudo isso.

Decidi fechar o nariz, e não sentir mais o odor fétido das vaidades putrefatas.

Decidi fechar o nariz e não respirar mais este ar.

Decidi fechar o nariz e não respirar mais...

sábado, 13 de dezembro de 2014

Presente ausente

Há tantos anos aquelas estrelas já se apagaram.

Mas ainda brilham neste céu.

São nossos diferentes tempos que não nos mantêm aqui e agora.

É o passado imutável.

É o futuro que nunca chega.

É o presente, sempre ausente.

Segure minha mão, e não a solte mais.

Mantenha-me aqui, cole os pedaços do meu coração.

Deixe-me firme, cubra-me quando eu estiver congelando.

Preciso de algo que prove para mim mesmo que eu existo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Máscara de gesso

A luz é baixa, as cores se misturam.

Os olhos se encontram e desviam.

Delírios vêm em espasmos.

O tempo passa aqui dentro, enquanto amores congelam na rua.

Somos sobra, temos que sobreviver.

E precisamos de algo que nos faça esquecer nossos destinos.

A dor está à espreita.

E precisamos de algo que nos faça esquecer nossos instintos.

Então usamos mais anestesia para que o tempo não passe.

A euforia é irmã do desespero.

Mas nosso grito nunca é ouvido.

Amores calmos nos fazem sangrar e morrer lentamente.

Estamos grogues no meio de gente desconhecida.

Estamos no meio da calçada, até que um raio nos parta ao meio, de uma vez.

Somos reféns daquilo que não podemos viver.

Estamos acorrentados por todos os lados.

E nossas limitações aparecem assim, para rir de nossas caras.

E os sentimentos sobem pela garganta, parando no vaso sanitário.

Agora eles são tão azedos.

Precisamos apenas criar uma ilusão para dormir em paz.

Precisamos apenas inventar uma mentira que nos permita olhar para frente.

É assim que nos conformamos enquanto não temos nossa verdade.

É assim que nos completamos com uma máscara de gesso enquanto não temos um sorriso para sorrir.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Não sabe o que quer

Ele não sabe o que quer.

Pode ser um copo de suco de laranja, ou uma noite inesquecível.

Pode ser uma piada boba, ou um beijo libertador.

Pode ser uma lembrança, ou uma frase que mude o sentido de todos os seus dias. 

Pode ser um vento no rosto, ou a realização de seu maior sonho.

Pode ser uma barra de chocolate, ou todo o amor existente no mundo.

Pode ser um riso despretensioso, ou a lágrima da maior realização de sua existência.

Ele não sabe o que quer.

Ele não quer mais sua vida, ele quer viver.

Ele não sabe o que quer.

Ele não quer mais perder nenhum segundo, mas este segundo já se foi, e outro, e outro...

Ele não sabe o que quer.

Ele não quer mais o que lhe leva a um vazio sem cor.

Ele sabe bem o que quer. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Truques indecentes

Venha cá, sujeito.

Dono de almas, dono de nada.

Mau ladrão, agora você está preso.

Esfregue seu rosto no asfalto.

Nada queima, nada arde.

É tão doce, deleite irresistível!

Agora vá para longe.

Mais e mais longe.

Longe onde eu não possa enxergá-lo.

Longe onde você não possa existir.

Nos corredores, os truques indecentes.

Oh, como você é estúpido.

E tudo deu errado, veja onde está.

Estamos frente a frente.

É uma pena, mas eu nunca levei jeito para esse tipo de compaixão. 

Guarde um pouco da diversão, o espetáculo há de continuar.

Não há porque acabar tão rápido.

Um velho e desejado vinho deve ser apreciado em todas as suas notas, sem pressa.

É vinho tinto e seco, maldito desperdício!

Não despeje, estanque a boca dessa garrafa!

É vinho tinto e doce, dando-me náuseas!

Essa porcaria vai ficar grudenta e fedida no chão!

Loucos

O chão está sujo daquilo que somos.

Sim, às vezes vomitamos nossas almas.

Estamos entregues ao que somos, completamente loucos.

Eles dizem que podíamos ser tanto, e que somos tão pouco.

Mas não, somos tudo o que há.

E em nossa insanidade encontramos nosso alimento.

Em nossa perdição, encontramos nosso caminho.

Não somos iguais, não queremos ser.

Nosso sentido é a falta de sentido.

Cada um sozinho, com sua própria insensatez.

Todos juntos, queimando papeis e pintando a rua.

Sim, ainda seremos derrotados mais algumas vezes, sob os lençóis numa noite fria, ou olhando para este chão imundo.

Mas quando o mundo gira, apenas giramos com ele.

E deixamos apenas que tudo o que é continue sendo.

É na capacidade de permanecermos loucos que reside nossa maior glória.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sonhos sem fronteiras

Dê seus passos com mais confiança.

Se de um lado da rua há destruição, olhe para o outro.

Observe, lá há flores para apreciar.

Não se trata de ser otimista, apenas de ver a realidade completa.

Às vezes, a fumaça encobre tudo, e nos faz tossir.

Mas em algum momento ela se esvai, abrindo o terreno.

Sim, olhe bem à frente.

Então vá além.

Quem disse que seus sonhos têm fronteiras?

Se respiramos, é porque existe ar e vida, uma combinação milagrosa.

E quem foi que disse que somos mortais?

Num rompante, somos o universo.

E quem pode nos garantir que não somos tudo o que existe?

Neste instante, nada mais importa.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Sonhadora

Ela se olha no espelho.

Não foi por falta de amor.

Mas está perdendo novamente.

Fez da existência, poesia.

Ela foi o que poderia ser.

Colocando o coração em cada gesto.

Entregando a alma por um sorriso.

É a vida, feita de pinturas.

Mas essa não é a expressão que ela escolheu.

Sonhadora, esqueceu-se de si mesma.

Tudo mudou, mas agora ela está com os olhos molhados.

Ela é tão doce, mas seu coração só, dói.

Agora que tudo se esvai, seu coração só dói.

E pela janela, o sonho se vai.

E pela janela, o sonho se foi.

E em sua porta, o sonho chegou. 

Lembranças

Quando me corto, eu me lembro de você.

É meu curativo.

Quando o dia anoitece, eu me lembro de você.

É minha luz.

Quando o frio chega para congelar, eu me lembro de você.

É minha lareira.

Quando a solidão chega para assombrar, eu me lembro de você.

É minha companhia.

E quando penso que vou morrer, eu me lembro de você.

É minha vida.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Descompasso

Na melancolia, a outra face da felicidade incontida.

Respiro bem, respiro mal.

O que esses dias estão fazendo comigo?

Sonhei com belas árvores, num belo cenário.

Mas senti medo e acordei.

Há sempre fantasmas escondidos por entre os galhos.

Foram muitas vezes em que tudo me ameaçava.

Eu apenas busco um lugar que seja só meu.

As horas me roubam de mim mesmo.

Sou levado, estou me ausentando de minha própria vida.

O poeta me diz que não temos tempo a perder.

Mas como fazer, se os segundos escorrem pelos dedos?

Tenho tanto a querer, tanto a perder.

E o que fazer se o frio congelar meu peito aberto?

Aconchego-me na solidão, busco um alento na ilusão.

Eis o descompasso de tempos e sentimentos.

Eis o descompasso de lugares e possibilidades.

E somente no meu último suspiro, tudo se encaixará.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Amar e "amar"

O mundo atual é feito de pequenas friezas e pragmatismos.

É feito de muita correnteza e nenhuma contemplação.

Tudo muda, e o que vem, já foi, como um trem que passa pela estação sem parar.

Sentir tornou-se blasé.

A vontade do instinto mais cru parece ter vencido.

"Amores", assim, entre aspas, tornaram-se copos de iogurte.

Abrem-se, bebem-se em quinze segundos, jogam-se no lixo, para que se tome o próximo da cartela.

Não sei se isso é bom ou ruim.

Não me cabe fazer juízos de valor.

Mas confesso, jamais me adaptei a esse jeito de viver a vida.

Não pertence à minha índole.

Sou dessas aberrações dos dias atuais, que ainda atrevem-se a amar sem aspas.

Aberrações para as quais amar tem um caráter sublime, e não é apenas mais um verbo do dicionário a ser usado sem o invólucro mais sagrado da verdade mais verdadeira.

Talvez por isso, numa espécie de seleção natural, ou seja lá o que for, pessoas assim vão sendo jogadas para baixo do tapete.

Amar sem aspas é quase motivo para sentir vergonha, para pedir desculpas por ter nascido.

Escondidas, ou fingindo jogar o jogo, essas pessoas, reforçam o caráter asséptico com o qual os sentimentos são tratados.

Afinal, se elas não existem, talvez a maioria, aquela maioria que "ama", esteja certa.

Mas sempre há o momento em que todo o esforço hercúleo dessas pessoas vai para o espaço.

É quando elas pensam que, de alguma maneira, "agora vai dar certo".

É o início do fim.

Porque é exatamente aí que todas as dores, as frustrações, os mal-entendidos, afloram e despontam em uma só coisa.

É exatamente aí que toda a vontade de amar e ser amado, acumulada ao longo de toda uma existência, surgem devastadores.

E destroem tudo.

O coração estoura.

É como abrir um tanque enorme e superabastecido.

O que vem é uma enxurrada incontrolável, que leva e afoga.

E, como consequência quase inevitável, mais dor, mais acúmulo.

Em cada perda, em cada esperança que se vai, passageira no imparável trem, uma nova morte.

Pessoas assim são incompreendidas.

São anacrônicas.

E estão fadadas, talvez para o resto da vida, a esse interminável ciclo.

Acumulam dor e amor numa mesma batida.

Abrem-se, jorram, destroem, afogam.

E voltam ao estado anterior.

E então, não faltarão olhares de cínica desaprovação rotulando-as, em sua amargura, de mal-amadas.

Talvez o rótulo tenha razão, e não seja motivo para estranheza.  

Amar é raro, sublime, profundo. 

"Amar" é banal, ordinário, raso.

E num mundo em que muito se "ama", pouquíssimos amam, pouquíssimos sabem ser amados.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Descobrindo belezas

Toda chuva passa, você sabe disso.

E há sempre o velho guarda-chuva, você sabe melhor que ninguém.

Nessa paisagem às vezes morta, há sempre uma nova beleza a descobrir.

Pode ser um paralelepípedo fora do lugar, debochado, zombando da ordem dos seus pares.

Pode ser uma folha no chão, ou uma pegada.

Pode ser um cesto de maçãs na feira.

Ou pode ser um copo de cerveja gelada na sexta-feira.

Sem necessidade de dor ou lamento.

Você sabe disso, você sabe melhor que ninguém.

Viva o que você tem de melhor, e que está aí dentro.

E não deixe que nada desfaça seu sorriso.

E não deixe que nada ofusque seu brilho, pois ele é único. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Rei do lixo

Acorda para mais um dia de reinado.

Ele é o velho rei do lixo.

Sua coroa é de lata.

Seu cetro é um cano de plástico.

Sua poltrona, um vaso sanitário fétido, sobre uma montanha de coisas sem uso.

Seus súditos estão sujos.

Seus súditos são ratos.

Seu território é o desprezo das sobras.

Lá ele tem toda a importância, é a marca do seu tempo.

Mas o velho rei do lixo nunca é visto.

Sua capa de invisibilidade funciona, mas não há inteligentes ou estúpidos neste monte de passado que virou o nada do presente.

O velho rei do lixo nunca é ouvido.

O velho rei do lixo nunca foi.

A noite e o frio chegarão, sempre chegam.

E ele adormecerá com toda a pompa real.

Soberano em seus domínios, sozinho e imponente. 

Mas nada é real.

O velho rei do lixo é também o bobo da corte.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Silêncio(s)

Um silêncio, a dor.

Um silêncio, o querer.

Um silêncio, a preservação.

Um silêncio, a culpa.

Um silêncio, o sentimento.

Um silêncio, o impossível.

Um silêncio, a vergonha.

Um silêncio, o nunca.

Um silêncio, o medo de perder.

Um silêncio, o que não se pode explicar.

Um silêncio, a garganta num nó.

Um silêncio, nada e tudo ao mesmo tempo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Terceirizados

Eles são os entendidos.

Eles dizem o que é bom.

Eles dizem o que é ruim.

Eles dizem do que devo gostar.

Eles dizem o que devo querer.

Eles dizem com o que devo sonhar.

Mas não quero ser o que eles querem que eu seja.

Não vou terceirizar meus sentimentos.

Não vou terceirizar meus gostos.

Não vou terceirizar minhas vontades.

Não vou terceirizar meus sonhos.

Eles dão tudo pronto, apenas folheie estas páginas.

Mas eu não vou terceirizar meu coração.

Eles têm a receita do sucesso e da vitória para a qual estou me lixando.

Não, eu não vou terceirizar minha alma.

sábado, 29 de novembro de 2014

Longe da realidade

Em cada canto, encontro fragmentos de mim.

Mas não consigo me completar.

Então vasculho mais e mais.

Nesta mesa, eu e o copo, olhando-nos fixamente.

É minha única companhia, tudo que ameniza.

É minha fuga, tudo de que não preciso.

Sob a luz baixa, vejo os dentes.

Muitos e muitos dentes, por todos os lados.

Todos estão rindo e falando animadamente.

Sou sempre um observador fora do cenário.

E pra eles tudo parece fazer tanto sentido.

Para mim, tudo é distração.

Busco apenas alguma ilusão para fazer o tempo passar.

Estou longe da realidade.

E vivo aquilo que não existe para ter um motivo.

Porque à noite, tudo será igual.

E eu acho que todas serão exatamente assim.

Carregando sonhos para o travesseiro.

Entregando-me a um mundo em que eu possa ser o que quero.

Aconchegando-me no abraço cujo significado não posso conquistar enquanto estou acordado.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

10 momentos inesquecíveis de Chaves

Morreu Roberto Gómes Bolaños. Sua criação, plasmada principalmente por Chaves e Chapolin, marcou algumas gerações. Eu cresci vendo os dois. Sempre preferi o primeiro. Então, como singela homenagem, este blog apresenta 10 momentos inesquecíveis de Chaves. 

10ª posição: Chaves em Acapulco (assista aqui).

9ª posição: Seu Madruga mostra seu álbum de fotos (assista aqui).

8ª posição: Chaves no cinema: "Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé" (assista aqui).

7ª posição: Chaves é injustamente acusado de roubo neste episódio. Um dos momentos mais comoventes da história do seriado (assista aqui).

6ª posição: O livro de animais (assista aqui).

5ª posição: O julgamento do caso da morte do gato do Kiko é um épico comparável ao filme daquele advogado, o Pede Mais Um (assista aqui).

4ª posição: Kiko doente (assista aqui).

3ª posição: Chaves e Kiko explicam toda a sua arte conceitual para o Professor Girafalles (assista aqui).

2ª posição: Diante de um grande engano, Seu Madruga pensa que está prestes a morrer (assista aqui).

1ª posição: "Já chegou o disco voador!" (assista aqui).

Destino errado

Mãos vazias, meu tempo está indo embora.

Na verdade não sei se tenho esperanças para esperar.

Dentro de mim, chove e faz sol.

Não tente me entender, por favor.

Eu precisava de algo mais para me alimentar.

Mas agora talvez eu saiba qual é o meu lugar.

E talvez eu saiba que nada me tirará de lá.

Mas eu precisava de algo mais para me alimentar.

E talvez agora eu saiba quem eu sou.

Haverá como reescrever essa história?

Não há nada para entender, se a culpa é toda minha.

Eu me envolvi nessa areia movediça, eu sabia o que aconteceria.

E agora estou levado até o pescoço.

Tudo se foi sem sequer ter chegado.

E jamais chegaria...

Porque nem sempre os sonhos fazem sentido.

Se eu tivesse alguma certeza, eu lutaria, juro.

Mas sei que a culpa é toda minha.

Pois sempre escolho o lado errado da estrada.

É o ciclo eterno da minha existência.

E continuarei andando por esse caminho.

E continuarei sendo um bobo incorrigível.

Porque meu destino é o destino errado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Jogos de contorcionismo

Uma nova palavra para o dicionário.

Tantos são os que acham que enganam.

Mas ele conhece toda essa arquitetura.

São os mesmos jogos de contorcionismo.

É assim que se faz a manutenção.

São os mesmos jogos de movimentos certeiros.

É assim que se faz todos se perderem.

A escravidão é mantida sob a promessa de um amanhã que nunca chegará.

A carga é sempre a mesma, pesando sobre as costas.

Mas ele sabe tudo sobre este cansaço.

Mas ele sabe tudo sobre ser sempre a mesma coisa.

Mas ele sabe que nada mudará jamais.  

A cueca de 20 euros

Jerry Seinfeld sabiamente já disse: nós, homens, usamos cuecas até o limite aceitável; não jogamos no lixo uma cueca até que ela tenha se desintegrado completamente; não nos livramos dela até que tenha se tornado vapor de cueca.

Pois, assim mesmo, por mais dolorosa que seja a despedida, um dia ela acontece. 

O luto é terrível, a sensação de vazio, de perda, é quase indescritível.

Mas há de se levantar a cabeça e olhar para frente.

Para mim, hoje foi um desses dias.

Diante do adeus a uma já agonizante cueca, tive de seguir em frente sem olhar para trás.

Tratei de buscar a reposição.

A fila anda, afinal.

Saí à procura da minha primeira cueca espanhola.

E foi árduo, foi difícil.

A cada nova loja, um golpe no coração.

Até onde minha paciência e meus pés permitiram pesquisar, constatei que os preços variam de 20 a 30 euros, o que daria, bem grosseiramente, de 60 a 90 reais, mais ou menos.

Sim, isso mesmo: uma cueca, uma unidade de cueca, de 20 a 30 euros.

Comprei uma de vinte.

No Brasil, com esse valor, compraria umas nove, no mínimo.

E agora, farei dessa cueca minha grande riqueza.

Pelos meus cálculos, pelo que paguei, deverá durar umas três gerações.

Ela estará no meu testamento.

"Meu filho, pra você, deixo minha cueca de 20 euros".

E ele sairá com os olhos marejados, emocionado com o reconhecimento.

"Eu te amo, papai! Eu sabia! Eu sabia que ele me amava!"

Fato é que isso muda substancialmente a vida de um sujeito como eu.

Como não mudar a postura?

Como fingir que nada mudou?

Até hoje, eu era apenas um homem.

Agora, sou um homem com uma cueca de 20 euros.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Paleta de cores

Levante-se logo, eu lhe ofereço a mão para isso.

Conheço você, e tudo o que você pode.

Então apenas confie no que digo, acredite em si.

Você sabe como abrir o céu, você sabe flutuar sobre o oceano.

Não hesite, apenas siga.

Não haverá solidão neste caminho, porque estarei aí.

São tantas as cores que você tem nesta paleta.

Então não se deixe levar por essa gente em preto e branco.

Você é muito mais, muito mais.

Seus fins são maiores e mais lindos.

E quando o caminho estiver escuro, faça do seu sorriso sua lanterna, iluminando seus passos. 

Então experimente voar, experimente encher os pulmões.

Não há limites para os sonhos.

Tudo vai dar certo, tenha certeza.

domingo, 23 de novembro de 2014

Sobre a solidão

A solidão é um dia nublado.

É ver as horas passarem do seu quarto.

É ouvir uma banda da qual você gosta debaixo das cobertas.

A solidão é um dia de sol, isolando-lhe em seu mau tempo.

É deixar cada minuto morrer lentamente.

É estar ausente de si mesmo.

É pensar sem pensar.

É dormir e dormir.

E não querer levantar.

sábado, 22 de novembro de 2014

Deixe o tempo voar

Quando eu era criança, você me ensinou sobre o amor.

Envelheci, embruteci.

Tudo parecia mentira, e eu queria verdades cortantes.

Eu precisava me revoltar com algo, eu precisava me encontrar.

Hoje vejo que você falava a verdade, e que havia ago bom dentro de mim.

E se nesse momento está difícil respirar, tenha certeza de que vai passar.

Toda dor passa.

Estamos juntos, desde sempre.

Agora eu posso entender as coisas que você me falava.

E descanso comigo mesmo.

Então, descanse também, deixe o tempo voar.

Em breve, tudo ficará bem, eu posso garantir.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Medalhas e honrarias

Responda aquilo que ninguém pode captar.

Seja capaz de colocar fogo nestes dogmas.

Eles fazem caras e bocas.

Eles querem mais e mais, alimentado uma vaidade tacanha.

Eles pensam que intimidam, são apenas idiotas.

Rangem os dentes, enquanto eu apenas rio.

Papeis estão nas estantes e também no lixo do banheiro.

No fundo, todos estão sujos com a mesma coisa.

Mas sempre haverá uma plateia para este espetáculo de aparências.

E todos fingirão que isso tinha alguma importância.

Colocando medalhas e honrarias sobre uma caveira.

Satisfazendo a vontade de ter algo para contar e se gabar.

Agora eu estou gritando sozinho sobre a montanha.

Eu estou livre, livre para viver.

Agora eu sei o que sou, pronto para descer em alta velocidade.

Eu estou livre, livre para morrer. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Frio e febre

Gostaria de contar-lhe o quanto esse dia esteve frio.

Gostaria de poder dizer-lhe que estive febril.

Estou sozinho com meu peito e meus pensamentos.

Às vezes, saio voando, perco o chão. 

E sei o quanto isso é perigoso.

Peço para o coração parar de pulsar assim, parar de mentir.

Eu não tenho um recipiente para guardar meus melhores sentimentos.

Eu não tenho como guardar o presente, não tenho como aguardar o futuro que muda a cada movimento.

E neste anacronismo que destrói desejos sinceros e esperanças do fundo da alma, foram tantos os que perderam o trem da vida.

E neste anacronismo que rasga os livros com as histórias mais lindas, foram tantos os que desistiram de ter um dia feliz.  

Foram tantos os que se afogaram em suas próprias limitações, nos fluidos que fazem este relógio se mover.

Um abraço faz falta, e o riso fácil de uma bobagem qualquer.

Um carinho faz falta, e a certeza de que tenho uma acolhida mesmo sob a pior tempestade.

Mas não vou desistir.

Não até que minha última gota de sangue tenha beijado o solo.

Mas não vou desistir.

Não até que eu não seja mais eu.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Nova guerra

Rostos sujos, vidas esquecidas nas esquinas.

Eles andam por aí, rasgando-se para não serem enxergados.

Aprendemos sobre morte e suicídio, e caminhamos rumo ao nosso abismo.

Pela janela, a paisagem mais bonita.

Mas nunca estamos aqui para ver.

Crianças apontam umas para as outras.

De seus dedos, o estouro.

De seus risos, o fim de cada dia.

E tudo se reproduz, façamos uma nova guerra.

Sempre há algo mais para patrolar.

Quando pouco é tudo que se tem, sorrir é o que sobrou.

Quando você sofre, não é tão bom ter tudo no lugar.

Então, veja que se trata de uma impossibilidade.

Sua mente é mentirosa, ouvindo coisas que nunca foram ditas.

Sua mente é equivocada, projetando imagens que dela jamais sairão.

E tudo que você quer é miseravelmente diferente daquilo que você pode.

Não, não haverá compreensão, e ninguém tem culpa disso.

E sempre haverá alguém à sua frente.

E sempre haverá alguém acima.   

Algumas coisas estão consolidadas.

Alguns finais são bem conhecidos.

Nem sempre as estrelas têm algo a contar.

Nem sempre há algo para esperar.

Nem sempre há sonhos para se sonhar. 

Não para quem está passando tanto frio.

Não para quem só pode se aquecer com o fogo das explosões. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Nascido aos 29

Um oceano, uma dor adocicada.

Eu não sabia que esta corda era tão comprida.

O vínculo não se rompe, torna-se mais forte e resistente. 

Sento-me entre as folhas, respiro.

E recordo histórias dos tempos em que a tristeza era minha rotina.

Eu era jovem demais para apreciar a beleza das coisas mais simples.

Eu não sabia admirar a arte divina dos eclipses solares da minha vida.

E agora tudo está mais claro e iluminado, mesmo quando anoitece.

Ainda tenho muito para aprender.

Mas me conheço melhor do que nunca, e fico mais e mais forte.

Agora tenho tanto por agradecer.

Aquele sorriso é uma bênção, e me faz viver, me faz querer, me faz vencer cada dia.

Tenho tantas boas notícias para dar.

E tanto amor para lhe entregar em mãos.

E se agora choro, é de alegria.

O coração ainda pesa, mas é de carinho.

Desculpe-me por meus excessos.

Mas preciso valorizar cada segundo.

Nascido aos 29, preciso de mais intensidade para compensar.

Aqui está meu mundo, em suas mãos.

Cuide dele, não deixe que a dor do vazio se reaproxime nunca mais.

Pelo caminho, ficam os que não sabem amar de verdade.

São os pobres de espírito que não veem a beleza latente de quando os olhos se encontram, preenchidos de sentimento.

Eu morri na tempestade, sou a semente das cores que estarão todas as manhãs na sua janela.

Serei eu mesmo, não serei o mesmo.

Para o céu, levarei todas as minhas esperanças.

E por entre as nuvens, desenharei meu futuro, utopia ou sonho.

É assim que sou hoje.

É assim que sempre quis ser.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Fragmentos

Sob a luz da lua, você é o contraste.

E no frio, as chamas se acendem em seus olhos.

Não há solidão quando fantasmas surgem logo acima de sua cama.

E então o que você preferia enquanto encarava seus medos?

Com as pernas tremendo, e o sangue congelado, onde estão todas as certezas?

O que surge entre as nuvens não era bem o que você esperava.

Você acredita no que não conhece, prometendo sobre bases erradas.

As mesmas palavras têm tantos significados diferentes.

É nessa hora que nosso mundo convulsiona e entra em erupção.

Procuro proteção, escondo meu coração em algum canto a salvo enquanto corro da lava que desce inapelável.

Abandono a mim mesmo e sou engolido.

Mas eu não podia fugir da fuga.

Por favor, acredite no que não digo.

E recolha meus fragmentos espalhados pelo chão.

Juntos sobre a mesa eles farão algum sentido.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Canção cafona

Saio por aí, flutuando.

Que sonho é esse?

Que imensa tolice é essa?

Tanto faz, pois tolices são para os tolos, e sonhos são para quem acredita.

Não me importo, pois o sol fica gelado quando nossas mentes se distanciam.

Mas você sempre chega na hora certa para descongelar meu coração.

Não tenho início nem fim, e agora estou mergulhado até a alma.

Quando sou lembrado, crio meu encanto, e sigo em frente.

Você não pode ver, mas eu sorrio.

Sim, sim, eu sei sorrir.

Às vezes digo o que sinto usando alguma palavra que possa anular minhas verdades, logo depois.

Me faz bem, mas é corrosivo.

Nem sempre se pode parecer integral.

E se precisar, levarei a caixa fechada a sete chaves.

E caminharei, caminharei, caminharei, até que eu possa entregar, até que algo faça sentido.

Por enquanto, levito em meu próprio mundo, amando sem ser ridículo, como se isso fosse possível.

E canto alguma canção cafona, que possa conversar comigo nas noites de solidão.

É quando eu posso ser eu mesmo, abraçado ao travesseiro.

É quando eu posso ser franco, falar verdades completas, e sentir sem precisar de permissão. 

É quando eu posso ser realmente livre, ser eu mesmo sem necessidade de asteriscos ou notas de rodapé.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Reunindo forças

O cansaço toma cada célula do meu corpo.

Mas sabemos que isso não seria fácil.

Então olho para o céu, meu guia com suas estrelas.

Vem o aconchego da noite, e a doce melodia que me faz esquecer os problemas.

Renovo-me com esse amor à vida, e aos olhos que fazem os meus brilharem.

A existência é um travesseiro que acolhe minha cabeça dolorida.

Então, descanso, e reúno minhas forças, está tudo em meu peito.

E não há fumaça que obstrua essa respiração.

E não há carranca que arranque meu sorriso. 

E não há fim de mundo que acabe com o meu.

E amanhã haverá sol, mesmo que chova.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sola do sapato

O afogamento é inevitável quando se luta para não ser você mesmo.

É tão triste reduzir-se a ser uma imagem.

Alguns podem não entender do que é feita a vida.

Engasgam-se com suas arrogâncias e prepotências.

E, brincando de Deus, deparam-se com sua pequenez.

Pisar é fácil, não dói nada.

Mas do chão se pode ver melhor a sujeira na sola do seu sapato.

Então toda esta autoridade se derrete no meu sangue quente e cheio de fúria e amor.

E fico mais forte para fazer da dor a ponte para o meu riso.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Desimportâncias

O que importa se o céu está cinza?

O sorriso dela traz o sol, a lua e as estrelas ao mesmo tempo.

O que importa se está frio?

O amor dela me aquece e aconchega.

O que importa se me sinto triste?

Num estalar de dedos, ela consegue me fazer feliz.

O que importa se o mundo está acabando?

No mundo dela estou sempre protegido.

O que importa se isso é apenas um sonho?

É com os olhos fechados que posso verdadeiramente existir. 

domingo, 2 de novembro de 2014

Olhos coléricos

A doença se espalha rapidamente.

É a fúria de quem ainda precisa pisar em algo.

É a falta de um tempo em que não se podia viver.

Ruas silenciosas ecoam as vozes daqueles que não puderam falar.

Um dia de céu cinza, escombros de quando éramos humanos.

Na fumaça dos canos, vidas se esvaindo.

Em cada par de olhos coléricos, a cegueira de quem grita para que os gritos sejam calados.

Tossindo a poeira do que um dia poderíamos ter sido.

Mentem para si mesmos sobre o que desejam.

Mas vão se despindo dos seus pudores, até que a farsa do amor se transforme na carranca de um ódio injustificado.

Eles não sabem de nada, transformando a revolta em destruição.

E no amanhã, não haverá germinação de flores neste terreno.

E das nossas cores, ficarão o preto e o branco dos dias em que era proibido sorrir.

sábado, 1 de novembro de 2014

Numa cafeteria salmantina

Estou bebendo minha Alhambra numa cafeteria salmantina, perto da calle Toro.

O sentimento de alegria é grande, após uma semana difícil.

Mas aqui estou, vivo, forte, com o espírito mais encorpado do que nunca.

Já está tudo bem.

Mas melhora.

No som ambiente, começa a tocar "Black Hole Sun".

Ótimo sinal.

Já simpatizo com esta cafeteria.

Já tenho em mente a ideia de voltar muitas vezes, simplesmente por isso.

"Este lugar foi feito pra mim", penso comigo mesmo.

Eis que, então, logo após a música do Soungarden, começa "Smells Like Teen Spirit".

Assim, na sequência.

Minha alma entra em orgasmo, e, juro, meus olhos marejaram nesse momento.

Que trilha sonora é essa?

Tudo fica maravilhoso, eu, a Alhambra, o pão tostado com queijo de cabra e geleia, e o som que faz meu coração vibrar.

Na mesma proporção, crescem minhas expectativas para a sequência da playlist.

Chega "Under The Bridge", do Red Hot Chili Peppers.

Nada mau! Nada mau!

Então, começa a tocar "Barbie Girl".

É hora do último gole de Alhambra.

É hora de ir embora...

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Bombardeio

Estamos vivos, sem diferença.

Sempre há um novo golpe.

Bombardeio, nada sobra.

Destruição, mas tudo permanece exatamente igual.

Desgosto profundo, mas somos a mesma merda.

Nada vai acobertar, nada vai amenizar.

Preciso de um balde para expulsar o que me corrói.

Tanto nojo, do que aconteceu e poderia ser.

Não me peça para dormir agora.

Tenho que digerir isso sozinho.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A luxúria e o silêncio

A fogueira estava pronta, à luz da lua.

Corpos ensandecidos buscam o melhor espaço para saciarem os seus desejos numa noite sem fim.

Tudo, todos, ninguém, uma mesma massa.

Mas sempre se buscou uma distinção.

Então, o abraço esmaga em fúria.

É a luta por um espaço inexistente.

Despidos, estão cobertos do vinho tinto produzido por esta paixão narcisista.

Expostos à sua condição humana.

Todos os ritos do amor são uma farsa em busca de carne fresca.

Como animais, eles sentem o cheiro do suor e do sangue à distância.

E devoram tudo, até os ossos, sem deixar vestígios.

A luxúria torna-se silêncio.

E com o raiar do sol, todos vão embora.

Cada um para seu lado, digerindo o que por lá é chamado de amor.

Cada um para sua jaula, desfrutando o que por lá é chamado de liberdade. 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Refém do silêncio

O vento sopra, congelando-me para sempre.

Não me pergunte o tamanho da dor.

Neste exato momento, as coisas fazem sentido para alguém.

Neste preciso segundo, alguém está sorrindo por aí.

Mas eu não consigo daqui.

Pensava que estaríamos juntos sob qualquer circunstância.

Mas sinto este vazio que não se preenche.

Sou refém do silêncio, e queria tanto o seu conforto.

Sinto-me quebrável e exposto.

É a tristeza de quando não se pode fugir de si mesmo.

Cambaleando, ainda caminho.

Mas não posso chegar até você.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Água e vinho

Nos pequenos canais, lâminas que passam afiadas.

Queimam, rasgam.

A água vira vinho, o vinho vira medo.

As horas passam rápido, talvez o relógio pare.

E então surgirá mais uma chance.

E alcançarei o ponto que ninguém alcançou.

No fim, o recomeço.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O pós resultado confirmou: a reeleição de Dilma era necessária

Antes da eleição, eu já tinha inclinação forte para querer a reeleição de Dilma Rousseff. Após a mesma, tive certeza de que esta preferência ia um pouco além: era uma necessidade.

Sim, a reeleição de Dilma mostrou com clareza o quanto era necessária principalmente após o resultado do pleito.

Enquanto análises rasteiras baseadas em "nós, os esclarecidos" e "eles, os analfabetos", ou em "nós, os sulistas" e "eles, os nordestinos" ainda persistirem, candidaturas que desafiem esse tipo de raciocínio terão de vencer, para que se aprenda, nem que seja na marra, que o Brasil é um país só, e que todos os seus segmentos são segmentos deste mesmo país.

Essa gente que adora falar em democracia, na primeira oportunidade que tem, demonstra com clareza impressionante que a abomina. "Ain, sou democrático mas abomino o voto de pretos, de pobres e de nordestinos".  Não, não há nada mais antidemocrático do que isso, amigo. Democracia que só serve quando o seu lado ganha não é democracia, camarada. Arranje outro nome, se não gostar dos já existentes para esse tipo de postura. 

Pois ser democrático é, no mínimo dos mínimos, reconhecer no voto do pobre o mesmo valor que tem o seu, remediado que pode pagar sua assinatura mensal da Veja. É reconhecer que o voto do nordestino tem o mesmo peso que o seu, sulista afortunado.   

Se você pensa diferente disso, lamento, mas desista da hipocrisia de sair cantando o Hino Nacional com bandeirinha nas costas, porque não é o Brasil que você ama. Você ama uma condição de classe. Você ama um certo estado de coisas. Você ama a "superioridade" da sua região. Não o Brasil.

Democracia é, para além de respeitar o voto alheio, respeitar ainda a soberania do resultado das urnas- a menos que este seja fruto de algum tipo de fraude, algo de que, no caso, não se tem o menor indício sério. 

O ódio e o rancor destilados por grande parte daqueles que votaram no lado derrotado provam que falta, ainda, amadurecimento democrático para o país. Democracia implica um mínimo de respeito, de ambas as partes. Democracia implica não subestimar, assim, com base em mapas e preconceitos, o voto e a opinião de outrem. 

Se há uma metade de inconformados, que merecem respeito em suas posições, não é menos verdade que há uma outra metade de pessoas que, se elegeram pela quarta vez consecutiva uma mesma aglomeração de forças, devem assim tê-lo feito porque algum bem este governo fez por elas, e merecem tanto respeito quanto. 

Talvez este bem não seja algo sensível para quem os desrespeita. Talvez um prato de comida na mesa, uma vaga na universidade, a chance de andar pela primeira vez num avião ou até mesmo a oportunidade de levar a família para comer num lugarzinho melhor uma vez por semana não sejam causas suficientemente nobres para muitos brasileiros, para os quais isto jamais faltou ou fez falta. Mas para mais da metade deles, são conquistas a se valorizar, são passos importantes a se respeitar.

E aí, chegamos no que de mais importante, talvez, haja nisso tudo: o componente humano, da vida real de pessoas reais. Ali, naquelas urnas eletrônicas, há mais do que os números frios: há histórias de vida. Milhões delas. 

Aí veremos que mais importante que separar os votos entre pobres, ricos, analfabetos, leitores de Eça de Queiroz, nordestinos, sulistas, negros, brancos, e luso-eslovacos naturalizados brasileiros, é constatar que os votos são de SERES HUMANOS, de PESSOAS, em situação de paridade jurídica mínima, que lhes permite ter um peso equivalente nas urnas. E que bom que é assim. Talvez este seja, entre ganhos e perdas, e entre conquistas e insatisfações, o mérito maior disso que convencionamos chamar de democracia.

domingo, 26 de outubro de 2014

Escudo intransponível

Deixe eu lhe dizer uma coisa.

Estou mais forte do que nunca.

Nem tudo é o que parece.

Realidades travestidas não me enganam mais.

Interrompi o fluxo dos canos.

Não há mais por onde sugar, não insista.

Meus escudos são intransponíveis.

Sim, eu estou rindo neste momento.

Não olhe mais para os lados, isso é patético.

Recolha-se com seu próprio contentamento.

Porque estou mais forte do que nunca.

Sua visão está turva com o excesso de chorume.

Mas meus escudos são cada vez mais intransponíveis.