terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Riqueza

Anoitecer ensolarado, um brilho novo nos olhos.

Tudo está como poderia estar.

E quando acordo, o amanhecer está escuro e meus olhos, tão opacos.

Algumas vezes pensei que a luta fosse algo com um final pré-determinado.

Mas continuo, sinto prazer por ser assim.

Dei um grito de liberdade, porque agora tenho algum motivo.

E não haverá destruição que me faça parar.

Algumas vezes pensei que fosse perder a respiração.

Abri meu peito, inventei a mim mesmo, esquecendo receitas ou fórmulas.

E não haverá nenhuma voz que me intimide nesta jornada.

Toda a riqueza que está dentro de mim, se eu estiver sozinho, de nada adiantará.

Então vou compartilhá-la com você.

E pisar, descalço, a terra molhada.

É assim que se alcança a plenitude.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Colapso

Traga-me um comprimido mastigável.

Meu estômago está doendo.

Traga-me um nebulizador.

Já não consigo respirar.

Traga-me um desfibrilador.

Meu coração está parando.

E tudo está ficando escuro.

E estou perdendo os sentidos.

E estou me me esvaindo, deitado no tapete.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Déspota do esgoto

Rasteja na calçada de sempre.

O cheiro é algo insuportável e costumeiro.

Ele está fingindo a doença porque precisa disso.

Um ladrão, um golpista, um rei das artimanhas.

Julgado, agora ele caminha.

Jurado, agora ele é um milionário.

Sentado no trono, ele é mais do mesmo.

Déspota do esgoto, vitorioso para acabar com tudo.

Quebrando as regras, mentindo até que a manada acredite nele.

E vai nos dar a liberdade como uma dádiva.

É só uma desculpa para fazer o que bem quer.

Tudo é uma justificativa falsa para consumir nossos corpos e almas.

Esconde o rosto sujo como um carrasco. 

Ele é um carcereiro que pouco se importa.

E vai levar todo o ouro em troca da alforria.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pedaços de escuridão

Sangue correndo no canto da boca.

Eis o labirinto, sua fuga angustiante.

Corra mais, o tempo não irá lhe ajudar.

Então pare, e o seu destino estará selado para sempre.

A terra lhe engole, ela quer lhe acolher através de um túnel que conduz a uma lareira imensa.

Você irá para um lugar onde a dor diverte.

Lá o veneno embriaga, mas não condena.

E todos os que erraram estarão prontos, dividindo seus pedaços de escuridão.

Sem martelos. códigos ou intérpretes da lei.

Gritando e devorando impiedosamente todas as sobras do lixo paradisíaco.

E tudo isso é você, e suas escolhas.

E tudo isso é você, e o preço a pagar.

E tudo isso é você, livre na lama, eternamente prisioneiro.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mesmas coisas

Apague todas as luzes.

Assim, enxergaremos bem melhor.

Histórias de dor, angústia, erros, tudo tão humano.

Somos as mesmas coisas, não temos porque nos esconder.

Se você chorar, eu vou beber todas as suas lágrimas.

Então não se preocupe, apenas viva.

Estarei aqui, conheço essa estrada melhor do que ninguém.

Então não se preocupe, apenas siga o ritmo do seu coração.

Se a presença não se foi até agora, não faz sentido tornar-se ausência justo nesse momento.

Estarei aqui, as divindades que me perdoem, mas quero apenas ser esse mortal de carne e osso.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nuvem veloz

Quando as luzes apagaram, elas não deviam ter voltado.

Caí no sono, acordei o mesmo.

Estive viajando, estive morrendo.

Mas permaneço aqui, não quero sair.

São tantas as explosões, ninguém ouve os estrondos.

Não há fuga, a condenação parece eterna.

Pulsando e vomitando, pulsando e agradecendo.

Horas ou minutos são a mesma coisa.

Estou pronto para voar em uma nuvem veloz, não tenho asas.

E tudo será muito melhor quando eu me transformar em gotas de chuva.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Feliz Natal!

Independentemente de crenças.

Independentemente de questionamentos.

Independentemente de ideologias.

Independentemente até da certa crueldade de uma data transformada em paraíso de um consumo excludente.

Desejo a todos os leitores do DC um ótimo Natal, absorvendo o que de melhor a ocasião pode trazer.

Desejo muita felicidade. 

Felicidade de verdade, não essa coisa pré-fabricada, superficial e vazia que tentam, dia após dia, fazer-nos engolir à força.

E, desejo, cada vez mais, simplicidade.

Nos dias de hoje, ser simples está se tornando algo muito complexo.

Mas, creio eu, ainda é necessário.

E faz um bem danado.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Filhos do submundo

Poeira e fumaça, o ambiente é inóspito.

Este porão é o nosso grande presente.

Fazendo barulho, libertando aqueles que nos esmagam.

Limpando o chão com mais sujeira.

Somos assim, filhos do submundo.

Todos estão animados, esperando pela diversão na roleta.

Somos o resto jogado para baixo do tapete.

E não nos importamos mais com o que os outros pensam.

Não somos piores, nem melhores.

Apenas riscamos a liberdade em nossa pele, com uma lâmina certeira.

Tudo que se dá o direito de sangrar tem vida.

E tudo que tem vida permanecerá para sempre.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vexame que não deve apagar o orgulho do Galo

O Atlético Mineiro foi eliminado com requintes de crueldade do Mundial Interclubes. Perdeu para o Raja Casablanca e viveu um remake do pesadelo colorado diante do Mazembe. O que serve de atenuante, e ao mesmo tempo agravante, para o Galo, foi ter enfrentado o representante do país-sede. Atenuante, porque perdeu para um time "da casa"; agravante, porque o time da casa era o Campeão Marroquino, nada mais que isso, enquanto o Mazembe era o melhor do seu continente, o Campeão da África. De todo modo, os roteiros foram bastante parecidos.

O Atlético de ontem, assim como o Inter de 2010, era um time visivelmente fora do tom. Estava tenso, nervoso, sem naturalidade. Quando levou o primeiro gol, revi diante dos meus olhos a dificuldade e a incredulidade de 2010. Tudo muito semelhante e perturbador (a recordar, também, que o Mazembe, zebríssima, havia eliminado um teoricamente mais forte mexicano na fase anterior, à época o Pachuca; agora, o Raja, também zebríssima, eliminou um também teoricamente mais forte mexicano, o Monterrey). A diferença fundamental é que o Colorado pressionou muito mais o Mazembe, criou muito mais chances, e sofreu os gols em lances isolados e inesperados. O Galo, por sua vez, teve mais posse de bola mas esteve completamente desorganizado, não conseguindo articular o setor ofensivo e oferecendo espaços inacreditáveis para o Raja, que o tempo todo foi mais perigoso, fez três e poderia ter feito pelo menos mais dois gols. 

A rigor, as individualidades inexistiram também no Atlético, embora taticamente o time tenha sido desastroso. Ronaldinho fez a diferença como podia, na bola parada, uma vez que jogava desembocado e passou praticamente todo o segundo semestre lesionado. De resto, Fernandinho foi a transpiração pouco inspirada do time, e os demais, um tremendo desastre. Os laterais foram horrorosos, os zagueiros, lerdos, pareciam ter tomado meia dúzia de soníferos, o meio de campo marcou mal e pouco se movimentou, e Jô, no ataque, pouco fez, perdendo as poucas chances que teve. O Galo não mereceu melhor sorte.

O baque é forte na vida do Atlético, como foi para o Inter. Sábado, o Galo jogará uma das mais melancólicas partidas da sua história, sem dúvida. Mas esse é o momento de a torcida, mais do que abraçar o time, abraçar o clube. Em Abu Dhabi, contra o Seongnam da Coreia do Sul, a torcida colorada deu uma demonstração histórica de amor ao clube em momento tão doloroso (http://dilemascotidianos.blogspot.com.br/2010/12/dignidade-e-grandeza.html). Tenho certeza de que os atleticanos farão o mesmo. 

O torcedor do Atlético tem que se orgulhar de tudo que foi feito na temporada, da Libertadores conquistada de forma extraordinária, dos jogos épicos que marcaram não somente a história do Galo, mas também a história do futebol brasileiro. O jogo de ontem foi um vexame? Sim, evidentemente foi. Mas a vida segue. Acima de tudo, só perde semifinal de Mundial quem se classifica para o Mundial. E só se classifica para o Mundial quem ganha a Libertadores. E o Atlético é, ora pois, o atual Campeão da América. E isso não tem derrota que apague.   

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Quinze meses

Em alguns dias, o sol brilha mais forte.

É bom abrir a janela e olhar para a rua.

Quinze meses, vinte e poucos anos.

Estarei lá, mesmo que ainda não saiba onde seja.

Não fecharei os olhos, entrarei em êxtase.

As luzes são extravagâncias, não quero mais sair.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Reis e mendigos

A rua está vazia, cheirando a urina.

O que era festa, agora é solidão.

Se algo ecoa, agora é o latido do cão.

Faça uso, explore um pouco mais.

As cores desaparecem na escuridão que tudo leva.

Aqui tudo é banal, nada sobra, e é bem melhor assim.

Alfa, Beta, Gama, Delta, Ípsilon.

O efeito do soma vai embora, deixando somente o que é real.

Se tudo é fluido, deixe correr pelo bueiro.

Os reis agora são mendigos, é sempre assim ao final desta alucinação.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Garoto autodestrutivo

O garoto na rua nunca sabe se caminha ou se corre.

O garoto está longe demais dos outros garotos da rua.

Eles têm suas bicicletas, e ele não sabe nem andar numa.

Palavras pecaminosas são proibidas.

Nunca quis machucar ninguém, mas precisa machucar a si mesmo.

Aquele garoto é autodestrutivo.

Cantando canções que seus pais não gostam.

Mas só ele pode entender aquilo que sente.

E ninguém lhe dirá como deve agir.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Engrenagem

Estamos presos em escolhas que não foram nossas.

Homens engravatados decidem nosso destino a todo momento.

Eles pensam que sabem o que queremos ser.

Eles pensam que sabem o que queremos ter.

Eles pensam que sabem o que podemos ver.

Tudo está tão gelado, somos reféns deste movimento mecânico.

Pecinhas de uma engrenagem perfeita, tudo funciona tão bem!

Pecinhas de uma engrenagem perfeita, tudo funciona tão mal!

E se eu quebrar, acabarei com o todo?

E se eu quebrar, o todo acabará comigo?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Frases desconexas

Estou gelado, estou quente, isso é febre.

Pensava que poderia ir adiante, mas tive que parar.

Minha cabeça dói, estou soterrado.

Então as frases ainda estão desconexas, porque não consigo raciocinar.

Fico lúcido aos poucos, estou assustado.

Estou no meio dos tiros e das caveiras.

Devo me mexer, ou eles estão à espreita?

Ainda sou eu mesmo, mas não sei ao certo o que sou.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Pessoa

Sozinho na mesa, com a garrafa de cerveja.

Há meia hora era o dono do palco, mas agora não é dono nem de si mesmo.

Algumas estrelas apagam-se muito rapidamente, mas ele volta a acender todos os dias.

Nos olhos tristes, resquícios daquele texto.

Sem a maquiagem, vai de rei a plebeu.

O ator e seu personagem, tão duplo, tão único.

Sem a plateia, transmuta-se do espírito mais elevado para o ser humano mais banal.

E quem disse que as banalidades não podem ser bonitas e impactantes?

Após o espetáculo, do Fernando ficou apenas a Pessoa.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Calmo e barulhento

Estou tão calmo e barulhento.

Teria desmaiado após correr, mas bebi um copo d'água.

Diga-me algo sobre um novo lugar, liberte-me daqui.

Não consegui pregar os olhos, deixei tudo para quando o dia amanhecesse.

Procuro um meio termo, uma amenidade qualquer.

A estrada mostra por onde não devo passar.

O tempo voa para tudo que não pode.

E se arrasta para tudo o que realmente me importa.

Silencio o grito.

Traga-me o alívio.

Prenda o fogo.

Deixe-me incendiar.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Casa de repouso

Era um distante mês quente de janeiro.

Eu era tão jovem, descobrindo a mim mesmo.

Hoje sou tão velho, e sei tudo da vida sem poder vivê-la.

Eu pensava, e pensava, e pensava...

Hoje mal consigo lembrar meu nome completo. 

Eu respirava um ar tão puro, e com tanta facilidade!

Mas hoje fico ofegante ao subir uma escada.

Minha pele, marcada pelo tempo, denuncia tudo o que não fui.

E daquele tempo em que tinha sonhos, o que ficou?

E dos dias de hoje, em que apenas sinto sono, o que restará?

Estou abandonado, mas não estou sozinho.

A moça que troca os meus lençóis estava mal humorada, me fez sentir tão inútil!

Meus filhos, onde estão?

Faz tanto tempo que não os vejo...

Todo santo dia lhes espero enquanto observo a grama crescer.

Talvez o dia seja hoje, por que não?

Os minutos não passam, rastejam, mas meu relógio parou há muitos anos.

O sol desaparece lentamente, apaga-se em minhas entranhas também. 

Acabou-se o horário de visita, ainda estou aqui.

Mais uma vez, anoiteceu.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Raio de luz

A luta foi impiedosa e árdua.

Mas a dor acabou, olhe em sua volta.

E não há palavras que possam mudar esse destino.

A existência é um canto puro que ecoa pelo universo.

Ficaram as fotos e singelas demonstrações, tudo que você um dia amou.

O fim é um novo começo.

Amigo, agora você tem asas.

E quando todos estiverem chorando, apenas sorria.

Amanheceu com um novo raio de luz.

E se tudo foi tão difícil e efêmero, ninguém disse que seria justo.

Ficou sua vontade imensa, somos um pouco aprendizes.

Tudo vai ficar bem, a estrada não se encerra nunca.

E se a batalha foi uma libertação, você agora está livre.

Amigo, agora você tem asas.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Oportunismo

Oportunismo!

Venda seu peixe, oportunismo!

Diga seu preço, oportunismo!

Manche minha pele, oportunismo!

Sugue meu sangue, oportunismo!

Dê seu discurso, oportunismo!

Compre apreço, oportunismo!

Construa seu reino, oportunismo!

Dite sua regra, oportunismo!

Oportunismo, oportunismo!

Oportunismo, oportunismo!

domingo, 1 de dezembro de 2013

Rei dos Tolos

Algumas palavras às vezes não bastam.

Você sempre acha que vai perder.

Matando as plantas.

Congelando o sol.

Rei dos Tolos, você sempre consegue.

Puxe o freio de mão.

Não caia do abismo, não dessa vez.

Separe as coisas nas gavetas.

Não transborde, não dessa vez.

Rei dos Tolos, você nunca consegue.

Reverta a dor em ar polar.

O jogo é esse, não queira mudar as regras.

O jogo é esse, e você não quer perder.

Abra as mãos, seja mais um.

Rei dos Tolos, você nunca consegue. 

Faça diferente.

Você teve o que mereceu.

Mude o destino.

Não seja mais do que o necessário.

Rei dos Tolos, você sempre consegue.