segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Eutanásia

Jogado na cama com os lençóis urinados.

Olhando para o teto, até que alguém me dê uma colherada de sopa batida.

Desligue os aparelhos, eis minha súplica.

Não aguento mais ser um vegetal.

Desligue os aparelhos, liberte-me da imundice.

Não aguento mais o sol em meus olhos.

Desligue os aparelhos, e limpe minha boca.

As crianças estão abusando da minha inércia.

Desligue os aparelhos, amanhã será um dia lindo.

Não haverá remorso nem dor.

Desligue os aparelhos, acenda uma vela.

Estou tão angustiado sem poder me expressar!

Desligue os aparelhos, deixe-me viver.

Não há o que perdoar, e você terá toda minha gratidão e carinho.

4 comentários:

Diego D' Avila disse...

Texto forte Bruno!
Sou a favor. E acredito que a súplica de qualquer pessoa em estado "vegetal" seja exatamente esta. Acho nossa sociedade muito moralista, mas isso não é novidade pra você :D
Abraços

Bruno Mello Souza disse...

Ô, se não é novidade, Diego.

Abraços.

B. disse...

Seu texto me fez refletir sobre o que se passa na "mente" de alguém que está sob estas condições. É complicado demais,tanto pra família quanto para o doente.
Suas palavras conseguiram me "atingir", como disse o Diego foram fortes.

Bruno Mello Souza disse...

Pois é, B., é uma situação terrível. E acho que pessoas em determinadas condições, irreversíveis, são mantidas nessa situação por um único motivo: egoísmo dos que estão em volta, que se negam a aceitar uma perda inevitável. Não condeno esse egoísmo, acho até certo ponto aceitável, embora particularmente eu discorde. Mas o sofrimento da pessoa doente, esse deve ser terrível, e não desejo nem para o pior dos meus inimigos.

Beijo.