quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dente de alho e água benta

Sal grosso e pimenta.

Dente de alho e água benta.

Galho de arruda e um trevo de quatro folhas.

Espada de São Jorge, benzedura e reza.

Mais e mais proteção, para destravar os caminhos.

Dieta para os olhos sem vida própria.

Breves blecautes na vizinhança não iluminarão trevas infindáveis.

Estamos mais fortes do que nunca.

E nada vai nos derrubar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mesmo lugar

No dia em que parti, estava buscando uma nova vida.

No dia em que voltei, sabia melhor do que nunca o que queria.

Sim, eu tentei fazer tudo diferente.

Mas a realidade sempre surge para mostrar que permanecerei no mesmo lugar.

Olho para trás, não me arrependo.

Nas minhas noites, seu olhar e seu sorriso seguirão em meus sonhos, tenha certeza.

Se eu sinto isso, é porque não estou morto.

E se isso não morrer, ficarei bem aqui.

Já não depende de mim, apenas não quero incomodar.

Não se preocupe comigo, isso não é necessário.

Siga sendo o que você pode ser para mim.

Guardo meu coração numa caixa escondida em meio às roupas.

E talvez algum dia eu possa pegá-lo, oferecê-lo novamente para você.

domingo, 27 de outubro de 2013

Adubo

Já está na hora da próxima regra?

Fazendo tudo certo, irritantemente certo.

Movido a álcool e gasolina.

Não está cansado disso tudo?

Estamos velhos, somos jovens morrendo.

Nada tem sentido abaixo do solo.

Adubando rosas que vão sangrar nossos corações.

Adoro a inspiração para não dizer nada.

Sobre o que eu deveria falar?

E qual causa eu deveria defender?

Prefiro atear fogo nessa papelada toda.

E seguir a minha própria consciência.

sábado, 26 de outubro de 2013

Zumbi

Sede, estou com sede.

Fome, estou com muita fome.

Sei o que quero.

Sei melhor o que não quero.

Esconda-se se não sabe o que se passa.

Lá fora estão batendo na janela e arrombando as portas.

Espero que não me encontrem, não é um bom dia para ser devorado.

Há um pedestal colocado.

Ninguém pode cair.

E me diga como evitar a colisão.

Os espaços não podem ser invadidos, não agora.

Não sugue meu sangue, alimente-se melhor.

Deixe as coisas no seu lugar exato.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Vítimas e monstros

Abram-se as cortinas, vai começar o espetáculo.

Um palco cheio de almas angustiadas.

Fazendo o que mandam, sob chicotadas, sem consciência disso tudo.

Na plateia, famílias com seus pais, seus velhos e suas crianças com água na boca.

Eis o grande sacrifício, enquanto o chão é pintado de vermelho.

Chegamos ao fim, estamos apenas começando.

Há muito mais para o deleite dessa gente.

Porque tanta dor não é suficiente.

Línguas acariciam lábios, clamando por mais e mais.

Velas, vinho e carne crua, reunidos para o grande expurgo.

Vítimas e monstros, anjos e bestas, todos se confundem.

E o fogo invade tudo, desespero sem piedade.

É tarde demais, a escolha já foi feita.

O sofrimento se arrasta, o teto não se abre.

É tarde demais, não havia escolha a fazer.

Neste jogo de sadismo todos entraram para perder.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Guerra permanente

Luta, resistência, desistência.

Seja aquilo que lhe mandam.

Gravatas, regatas, sapatos ou tênis, tanto faz.

Venda o que tem dentro de você.

O ringue imaginário está montado.

É você contra todos, essa é a regra que estão tentando lhe impor.

Nada do que você diga ou pense fará diferença.

Estão nos colocando em guerra permanente, somos apenas fantoches divertindo nossos senhores.

Somos competidores sem linha de chegada.

Estamos entregando nossas vidas para satisfazer homens que desconhecem nossa existência.

Jaulas, gaiolas, celas ou escritórios, tanto faz.

Nosso sangue está nos cálices de uma festa para a qual não fomos convidados, embriagando nossos reis.

E nossas horas são segundos.

Valor a mais, ponto substituível mas indispensável.

Valor a menos, continuando no jogo sem poder jogar.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Talvez

Algumas vezes penso no final sem ter começado.

Olho para a mesma e velha rua, ainda estou comigo mesmo.

Me vejo enquanto durmo em mais uma tarde.

E morro mais uma vez, ressuscitando depois.

O tempo é rápido, mas lento demais para mim.

Fecho os olhos mais um pouco, buscando alguma resposta impossível.

Quais sonhos eu ainda posso ter?

Meu corpo permanece jovem, mas sinto meu espírito cansado e sem forças.

Talvez um raio de luz toque meu rosto enquanto estou neste quarto escuro.

E talvez o sol seja apenas mais uma ilusão de ótica a preceder a chuva inevitável que molha minhas vistas.

E talvez haja outro talvez...

E talvez haja outro e outro e outro talvez...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Brinquedo macabro

Quando tudo estava calmo, e as folhas caíam no chão, ainda havia algo por acontecer.

Numa caixa, a companhia para uma vida melancólica.

O vento sopra e uiva, o céu acinzentado serve como aviso para a tempestade.

Da inocência, o pavor de um espírito que não descansa.

Ele quer roubar o seu corpo, ele quer sugar a sua alma.

Depois dessa noite, nada será igual.

E as sirenes na rua pela manhã sinalizarão uma mudança irreversível.

Aquele brinquedo é perigoso e macabro.

Ele será o início da sua insanidade.

No movimento sorrateiro, no corte da faca, no gosto do sangue.

Titio Charles nunca foi um Bonzinho como os outros.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Eutanásia

Jogado na cama com os lençóis urinados.

Olhando para o teto, até que alguém me dê uma colherada de sopa batida.

Desligue os aparelhos, eis minha súplica.

Não aguento mais ser um vegetal.

Desligue os aparelhos, liberte-me da imundice.

Não aguento mais o sol em meus olhos.

Desligue os aparelhos, e limpe minha boca.

As crianças estão abusando da minha inércia.

Desligue os aparelhos, amanhã será um dia lindo.

Não haverá remorso nem dor.

Desligue os aparelhos, acenda uma vela.

Estou tão angustiado sem poder me expressar!

Desligue os aparelhos, deixe-me viver.

Não há o que perdoar, e você terá toda minha gratidão e carinho.

domingo, 20 de outubro de 2013

Pequenos interesses

O dia acabou, o mundo acabou.

A prova mesquinha de um espírito paupérrimo.

Tudo em nome de pequenos interesses.

Tudo em nome de uma satisfação no banheiro.

E das coisas que realmente importam, o que você me diz?

E daquela gente morrendo lá fora, o que você me diz?

Há apenas um projétil, atinja o mais fraco.

É mais fácil e menos comprometedor.

Implorou por essa liberdade, e agora reclama dela.

E tudo ficará limitado, limitado como você.

Deixe tudo queimar, salve apenas a sua casinha.

E siga sozinho, reproduzindo bobagens.

E siga sozinho, adorando aquilo que lhe obrigaram a adorar.

sábado, 19 de outubro de 2013

Restaurante para hipocondríacos

- Boa tarde, senhor. Seja bem-vindo.
- Boa tarde... Quais são as opções que você me recomenda para o almoço?
- Ah, temos um cardápio muito rico. Mas eu sugeriria o nosso prato do dia: Paracetamol ao pesto.
- Hum... Parece bom...
- Temos também outras coisas boas. Temos Fluoxetina gratinada, Atroveran ao sugo... Temos também uma paella que leva Paracetamol, Dipirona, Fluoxetina, com bastante pimenta-do-reino, alho, açafrão e sal de fruta... Tudo com o acompanhamento de um molho especial à base de nozes, avelã e Hipoglos. Cá entre nós... o Hipoglos é o segredo do nosso sabor diferenciado.
- Humm... Parece bom, hein? Vou querer uma paella dessas aí. E pra beber, o que temos?
- Se você quiser algo mais forte, temos Biotônico. Temos também xarope Vick, que harmoniza bem com o nosso molho especial... E temos um coquetel que faz muito sucesso entre os clientes, o Daikiri de Pepto Zil, leva limão, gelo... E se quiser algo mais docinho, podemos ainda acrescentar um toque de leite condensado.
- Hum... Que ótimo... Vou querer um desses.
- Anotado. E para a sobremesa, já quer deixar o pedido feito?
- Ah... Pode ser... Quero algo mais tropical... Me veja uma torta de pastilhas de laranja, ok?
- Ok, senhor. Já, já o seu pedido está chegando.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Pista errada

A pista no chão leva para o lugar errado.

Sabemos que não é verdade.

Mas um ímã de irracionalidade leva ao equívoco.

O coração palpita, isso é quase insuportável.

Retornamos para um lugar indesejado.

A lição foi aprendida, volte logo, luz do sol.

Nem sempre a criatividade é uma dádiva.

Não quando se está incerto.

Não quando se está no escuro.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Príncipe do erro

Nascido da escuridão de uma noite mal explicada.

Ele é o fogo nos olhos daqueles que se mantêm vivos no meio dos ratos, das trevas que não terminam.

Há uma antiga lembrança nas chamas que consomem as esperanças.

Abrindo as asas, ele voa rasante, levando tudo o que pode consigo.

Príncipe do erro, caído, punido.

O céu está sangrando, vinho tinto pintando os corpos e inebriando os espíritos.

Crescendo como uma árvore danosa.

Erguendo o palácio da dor, da dádiva e do deleite.

Olhar sem vida, unindo incompreensões divinas.

Mente sem remorsos, ele arde  nas feridas de todos os rejeitados pelo paraíso.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Batida

Maçãs, bananas, laranjas.

E chocolate, e leite, e água.

E melão, e melancia, e mamão.

E açúcar, mais açúcar.

E cebolas, e tomates, e cenouras.

E carne, e beterraba, e milho.

E batatas, e aipim, e pães.

E sal, mais sal.

E morangos, e tangerinas, e frango.

E peixe, e camarão, e uvas.

Tudo no liquidificador. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Chão aberto

Vagando pelo deserto no meio da noite.

O chão se abre em gesto solene.

Engole tudo o que fomos, tudo o que somos e tudo o que seremos.

Mas de alguma forma ainda permanecemos iguais.

E veremos que não há fim, pois somos a única existência certa.

O frio se foi, abaixo ou acima, um não-lugar é um lugar.

E mesmo que pareça uma loucura melancólica e angustiante, o nada também é alguma coisa.

Céu, inferno e realidade, tudo está em nós mesmos.

Luz ou escuridão em estado puro cegam da mesma maneira.

domingo, 13 de outubro de 2013

Tragédia redentora

A chuva molha a terra.

Mas ali nada nasce.

Tudo está calmo e silencioso.

Fantasmas observam o cenário.

Uma única flor nasce para oferecer a pista definitiva.

É o sinal do impossível encontro de todas as linhas paralelas do tempo.

Eis o clarão, tragédia redentora.

E a ficção torna-se realidade.

Agora somos todos e todas as possibilidades.

Re-vida, re-morte, re-vida e re-morte.

E o amanhã torna-se ontem sem jamais ter sido hoje.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cédula

O homem pegou a nota de 100.

Observou.

Cheirou.

Acariciou.

E rasgou em pedacinhos.

Havia, finalmente, recuperado a lucidez.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Brisa fria

O inverno se despede, mas uma brisa fria ainda beija nossos rostos.

O tempo é um amigo que não consigo compreender.

Não corra, não pare, mantenha-se na trilha.

A necessidade de exatidão nos traz apenas medo do destino.

Mas as possíveis armadilhas no caminho não podem nos desviar dos nossos anseios mais profundos.

E depois de tanta dor, queremos apenas descansar os nossos corações.

Tudo de mais lindo que o horizonte nos reserva depende de mais alguns passos.

Mesmo tendo todo o possível, hoje ainda temos muito pouco.

Então dê-me logo o amanhã.

A angústia não resistirá à luz que cortará a cortina trazendo um novo dia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Oh, céu

Esteve chorando.

Mas o sol voltou a nascer.

E tudo que volta traz junto o seu próprio alento.

Juntou suas migalhas, ergueu-se dos escombros.

Céu, oh, céu, traga aquilo que tanto quero.

Céu, oh, céu, abrace-me com o seu azul.

Nas nuvens, o sorriso tão único.

Céu, oh, céu, abençoe o pedaço que falta.

Céu, oh, céu, cuide bem daquilo que tanto significa.

Porque não há mais tempo para o medo.

Não há mais espaço para dúvidas ou dor.

Voe lindamente, espírito livre.

Voe lindamente, e compartilhe sua liberdade comigo.

sábado, 5 de outubro de 2013

Gostos e desgostos

Há amargura e ceticismo.

Mas também há doçura e esperança.

Há cheiro de esgoto.

Mas também há o perfume das flores.

Há olhos ressecados pela poluição.

Mas também há olhos que ainda brilham.

Há a preocupação da sobrevivência e das responsabilidades.

Mas ainda há o sorriso descompromissado das crianças.

Há ódio e desprezo.

Mas também há amor e palpitação no peito.

Há, ainda, um mundo a descobrir, e redescobrir, e redescobrir.

Com seus gostos e desgostos.

E o mais importante...

Há vida.